Subúrbios cariocas, ontem e hoje

Se o subúrbio carioca não existe mais na definição oficial para a administração municipal, uma vez que a cidade está dividida em Áreas de Planejamento (APs), essa região do Rio de Janeiro, que não se sabe muito bem onde começa ou termina, e comporta um grande número de bairros pouco conhecidos no restante da cidade, é capaz de mobilizar um debate acalorado, repleto de dados, números, paixões, testemunhos e descobertas, como se pôde perceber no segundo Rio de Encontros deste ano, realizado na quinta-feira, 25 de junho, no auditório da ESPM.

Convidados para debater o tema “Subúrbios Cariocas Ontem e Hoje”, o professor Antonio Edmilson, o jornalista Vagner Fernandes e o escritor Binho Cultura mantiveram uma conversa de quase três horas com a plateia, formada pela turma Rio de Encontros 2015, alunos da ESPM, da Universidade das Quebradas, convidados e interessados em geral. Mais vivo do que nunca, o subúrbio deu muito o que falar.

Novas perguntas sobre a cidade

Mais do que debatedores, os convidados do Rio de Encontros são provocadores de novos pensamentos e perguntas sobre a cidade, mantendo a perspectiva histórica e misturando a conversa com exemplos de atuações que chamam atenção na cidade – por sua natureza, formato ou ambos. Dessa forma, ao conhecimento do historiador Antonio Edmilson, professor de História da PUC-RJ e da UERJ, somou-se a vivência e o ativismo de Binho Cultura, escritor e criador da Flizo – Festa Literária da Zona Oeste, e a experiência de gestão do jornalista Vagner Fernandes, responsável pela Arena Carioca Fernando Torres, em Madureira. A mistura dos convidados – cada um vindo de uma região diferente da cidade – instigou a plateia a ser ainda mais participativa do que de costume – quem já foi sabe que a audiência do Rio de Encontros é super ativa nos debates que se seguem às apresentações iniciais.

Abrindo a conversa, mediada por Teresa Guilhon (Silvia Ramos comandou os debates), Antonio Edmilson contextualizou a história do Rio de Janeiro e seus subúrbios, refletindo sobre a variação do conceito de subúrbio ao longo da história, e lembrando que o Rio é uma cidade “heterogênea e diversificada”.

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Binho Cultura trouxe várias reflexões a partir de sua experiência como morador da Vila Aliança, em Bangu, zona oeste do Rio, criador do Centro Cultural A História Que eu Conto, produtor cultural, além de ativo participante de várias rodas da cidade.

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Vagner Fernandes, que escreveu a biografia de Clara Nunes, criou o bloco Timoneiros da Viola e é curador de espetáculos musicais, compartilhou as questões que enfrenta para manter uma programação ao mesmo tempo inovadora e tradicional na Arena do Parque Madureira.

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A conversa foi tão sincera e aberta que, entre os provocadores, teve espaço até para a reclamação de Antonio Edmilson, aficionado pelos bares e a cultura de rua do Rio: para ele, o Timoneiros da Viola no carnaval deste ano perdeu com a decisão de não se apresentar na rua, mas dentro do Parque Madureira. “Virou show”. Vagner Fernandes, diretor do bloco, não retrucou.

Confira frases marcantes do debate

Diante de uma plateia acostumada a circular pelo Rio de Janeiro e se articular para colocar ideias de pé, os convidados incentivaram, cada um a seu modo, as iniciativas individuais e coletivas, responsáveis por manter de pé a efervescência cultural da cidade.

Tudo o que produzimos nas periferias nos mantêm vivos”, afirmou Binho Cultura, categórico. “A gente tem que inventar modos de sustentabilidade para garantir a sobrevivência dos projetos. Descubram!”, instigou Antonio Edmilson. “Precisamos deixar de olhar para nossos umbigos e começar a perceber a cidade de forma muito mais generosa”, disse Vagner Fernandes.

A Cultura no centro

Colocada no papel central para o desenvolvimento da cidade, a cultura que se inventa e produz no Rio de Janeiro – especialmente nos subúrbios – foi tema recorrente ao longo de toda a conversa. Por essa razão, foram várias as referências ao Prêmio Ações Locais, recém concedido pela Secretaria Municipal de Cultura a 85 iniciativas culturais da cidade, sendo 65 delas localizadas nas tais Áreas de Planejamento 3, 4 e 5, as Zonas Norte e Oeste, ou os populares subúrbios.

Esse edital é uma conquista nossa. A cultura está sempre num plano politico complicado, e quando muda o secretário, muda tudo. O maior avanço que tivemos na área da cultura foi na gestão do Gilberto Gil, como ministro, que institui os Pontos de Cultura. Depois, parou todo. O Ações Locais é uma conquista a partir das Conferências Municipais de Cultura. A gente convergiu movimentos da cidade toda nesse processo”, pontuou Binho Cultura, lembrando que numa das conversas com o prefeito levantou um número chocante: “tem mais teatros no Shopping da Gávea do que em toda a Zona Oeste”.

Um dos avaliadores do Prêmio, Antonio Edmilson ressaltou que edital deu visibilidade a muitas iniciativas interessantes. “Passei a conhecer muito mais coisas que antes”, disse. Para Vagner Fernandes, a ação é uma demonstração dos esforços de diálogos que estão acontecendo na cidade, com a adminstração municipal. “No processo do Prêmio, foram mapeadas 800 iniciativas e contempladas 85, sendo 65 nas áreas periférias da cidade. Há que se reconhecer que há um avanço grande da prefeitura no diálogo com os eixos periféricos da cidade”.

Veja fotos do Rio de Encontros

Com o tema Rio, lagoas e o mar: presença da água na vida da cidade, o próximo Rio de Encontros está marcado para o dia 16 de julhos e, excepcionalmente, o debate será no Studio-X, que fica na Praça Tiradentes, 48 – Centro. Anote na agenda.

Antonio Edmilson: um passeio pela história dos subúrbios do Rio

Professor de História da PUC-Rio e da UERJ, o historiador Antonio Edmilson Martins – um dos provocadores do Rio de Encontros sobre os “Subúrbios cariocas ontem e hoje” – fez um passeio pelo Rio de Janeiro dos tempos imperiais aos dias atuais, tendo como eixo o subúrbio da cidade, que se deslocou ao longo da história. “No século 19, Copacabana já foi subúrbio”, disse, relembrando a época em que o Rio era dividido pelas freguesias urbanas e rurais, e, no meio, havia o subúrbio. “No Rio, tudo é por dentro”, disse, falando sobre a dificuldade de definição que cerca a categoria subúrbio, especialmente no Rio de Janeiro, ao comparar o uso do termo com a definição americana de subúrbio. “Parto do pressuposto da singularidade do Rio de Janeiro”, esclareceu.

Dentro dessas singularidades, Antonio Edmilson prefere trabalhar com a ideia de “sentido simbólico de pertencimento”, utilizando conceitos do teórico marroquino Hassan Zaoual. “Vamos incorporar a cidade pela diversidade e não pela unidade”, sugere. De acordo com o professor, “sítio simbólico de pertencimento é algo construído, e não uma coisa dada”. Daí a importância de os moradores contarem suas histórias da e na cidade. “A história pode ser contada de vários modos, a partir dos bairros”, instigou.

Autor de livros sobre o Rio de Janeiro, como “João do Rio – a Cidade e o Poeta”, Antonio Edmilson chamou atenção para as características da cidade e seu morador, que não podem ser esquecidas no debate atual. “O Rio de Janeiro é uma cidade das ruas. A recuperação do espaço da rua é fundamental. O carnaval de rua recupera a cidade, por exemplo”, pontuou. Para compreender o subúrbio carioca, é importante revisitar a história da cidade. “A partir dos anos 30, a ideia de subúrbio aparece como oposição às áreas urbanas. A partir dos anos 80, a noção de periferia resignifica e requalifica a ideia de subúrbio”.

O Centro e a Cidade

São muitas as singularidades do Rio de Janeiro: “aqui é um dos poucos lugares em que as pessoas, quando vão ao Centro, dizem ‘vou à Cidade’”, ressaltou. Outra: “O Rio é uma das poucas cidades do mundo que tem duas fundações: a francesa e a portuguesa. Essa mistura acontece no Rio de todas as maneiras possíveis. E não podemos abdicar disso”. E arrematou: “ser carioca é vagabundear com inteligência”.

Editor do número atual da revista Acervo, do Arquivo Nacional, toda em torno do Rio de Janeiro (e disponível online), e profundo conhecedor da cidade, Antonio Edmilson também abordou as transformações urbanas pelas quais o Rio de Janeiro está passando, em várias regiões. “A nova centralidade no Rio é a da Barra, da Zona Sul e da Zona Portuária, onde o projeto se estende da Glória até a Maré”, afirmou.

O importante, para ele, é manter o fluxo da cidade para todos os lados, através da circulação dos moradores – coisa cada vez mais complexa. “O MAM parece que fica em Marrakesh. O Riocentro, na Austrália! É uma loucura a gente pensar numa cidade com essa mobilidade”, comparou.

Sobre os subúrbios, acredita que, à luz da interpretação dos sítios simbólicos de pertencimento, é possível repensar o papel da região na cidade. “Há duas percepções sobre o subúrbio: a do lugar humilde, pequeno, sem espaço, ou aquela mais expandida, que leva em conta o conceito de cidade diversificada, com fluxos constantes de um lado para o outro. Acho essa mais interessante”.

Links que podem interessar:

Acesse a edição atual, coordenada pelo professor Antonio Edmilson, da revista ACERVO, do Arquivo Nacional, cujo tema é o Rio de Janeiro: http://www.revistaacervo.an.gov.br/seer/index.php/info/issue/view/49

Binho Cultura: das raízes às novas histórias da Zona Oeste

“Dom Pedro foi a Santa Cruz a cavalo muito mais do que qualquer outro governante de helicóptero”. Esta foi uma das muitas frases inspiradas que marcaram a participação de Binho Cultura, poeta, cientista social e criador da Flizo – Festa Literária da Zona Oeste, um dos debatedores convidados para o Rio de Encontros sobre “Subúrbios cariocas, ontem e hoje”, no auditório da ESPM. Dizendo que foi um choque quando descobriu que não era considerado suburbano, porque morava numa área tida como rural, Binho, criado na Vila Aliança, em Bangu, afirmou categórico: “quem desconhece a Zona Oeste está desconhecendo uma parte linda da história do país”.

Conhecer seu lugar de origem e escrever sua história são como mantras na fala de Binho Cultura, criador do Centro Cultural A História que eu Conto, título de seu livro lançado pela Aeroplano Editora, em 2013. Durante o Rio de Encontros, Binho apresentou também seus livros infantis – “Aninha, a Peixinha Bailarina”, “Não Existe Bicho Papão” e “O Menino que Lia”, lançados em conjunto, na Coleção Amigoteca. “É importante a gente ir às escolas e projetos sociais da nossa comunidade para as crianças verem que um cara preto e com cabelo duro como elas pode escrever. Para as crianças, o escritor é branco, velho e é morto”.

Lidar com estigmas: uma tarefa constante

Cabelo grande enrolado em dreadlocks estilosas, colar de contas grandes no pescoço, o evangélico Binho Cultura chama atenção pelo que diz e a forma como se apresenta – e sabe que seu estilo pode ter o poder de influenciar e inspirar outras pessoas, especialmente os mais jovens. “Meu cabelo é aceito hoje, mas muitas vezes já me mandaram cortar”, lembrou ele, citando alguns dos enfrentamentos pelos quais passou (e continua passando). “Quando você fala de onde é, as oportunidades acabam se afunilando. Quando falo que moro em Bangu, associam ao presidio. Há pessoas que pensam que Campo Grande é na Baixada. Tem gente q me pergunta: você vem pro Rio hoje? Como assim? Investigar e contrapor tudo isso foi um grande desafio para mim e continua sendo”, diz.

Super articulado, Binho reforçou para a plateia a importância de se fazer redes de colaboração entre produtores, articuladores e agentes culturais da cidade. “Não acredito em cultura para todos se a gente não compartilha conhecimento. Vocês não são meus concorrentes. Precisamos fazer redes, compartilhar conhecimento, convidar e comparecer ao evento do outro”, disse ele, revelando ainda que a estratégia que adota é a do “efeito bumerangue”: “fui lançado de lá da Zona Oeste, venho aqui, acerto o alvo e volto. E chamo as pessoas para irem lá também. Desse jeito a gente começou a realizar o contrafluxo”.

Êxodo cultural: uma questão nas periferias

Binho se empolgou tanto durante o encontro que depois da primeira rodada das falas iniciais, responder de pé às perguntas da plateia do Rio de Encontros, que, entre outras, apresentou várias questões a respeito da produção cultural nas zonas Norte e Oeste da cidade.

Classificando como “êxodo cultural” o fenômeno que observa na região em que mora, Binho não teve dúvidas ao afirmar que “a favela e a periferia é lugar de quem está tentando. Quem consegue, se muda”. Criar condições para que esse êxodo diminua (ou deixe de existir) e seja possível ao produtor cultural se manter em seus lugares de origem é um dos desafios a enfrentar. Não só este: circular pela cidade também é uma tarefa que exige grandes esforços.

“Hoje o meu trabalho é reconhecido, mas o sacrifício é muito grande. Vou aos lugares, mas voltar para a Zona Oeste, dependendo do horário, é complicado. A extensão do horário de funcionamento do trem, que para às 21h/22h, já seria muito bom. Se parasse de circular meia-noite, ajudaria até para o cara que sai da faculdade parar até no barzinho antes de voltar para casa”, disse ele.

O papel central da cultura na política pública

Ativista político, Binho Cultura tratou de temas delicados com a plateia, como as dificuldades que ele sabe que surgem quando muitos moradores dizem o lugar em que vivem, o preconceito que sentiu por conta do penteado e dos adereços que usa, da religião que professa, do lugar em que mora. Para tudo isso, ele tem uma estratégia de combate: conhecer a própria história e reescrevê-la. “A gente precisa conhecer a história, nossas raízes. Pertencimento é reconhecer sua origem, e valorizar sua história. Se índios, negros e negras tivessem oportunidade de escrever a nossa historia, ela seria diferente da que a gente está aprendendo na escola”.

Para Binho, é fundamental e determinante o papel que os produtores e agentes culturais desempenham hoje no Rio de Janeiro: “Se não fôssemos nós, a violência estaria muito pior nessa cidade”, afirmou, aplaudido pela plateia. E foi além, colocando a área da cultura como indispensável no debate político atual: “Não tem como fazer política pública sem a gente. Não existe pacificação sem nós”, disse.

Links que podem interessar:

Flizo – Festa Literária da Zona Oeste: http://flizo.org/

Perfil de Binho Cultura: http://oglobo.globo.com/cultura/binho-cultura-pai-da-festa-literaria-da-zona-oeste-10995693

Vagner Fernandes: uma Arena aberta para a tradição e a novidade

#suburbioscariocasontemehoje

Madureira foi o primeiro subúrbio do Rio de Janeiro a ter um teatro, fundado pela atriz Zaquia Jorge, conhecida como a Vedete do Subúrbio e imortalizada no samba “Madureira chorou”. Sede de duas importantes escolas de samba – Portela e Império Serrano –, o bairro é berço de grandes compositores brasileiros, lugar de enorme riqueza musical e onde se lançam várias modas e se preservam muitas tradições – como o charme e o jongo, respectivamente, para citar apenas dois exemplos. Está lá uma das maiores intervenções urbanas da cidade – o Parque Madureira – e, dentro dele, a Arena Cultural Fernando Torres, administrada pelo jornalista Vagner Fernandes, um dos debates do Rio de Encontros, sobre os subúrbios cariocas.

Apesar de tanta personalidade e riqueza cultural, não é simples a tarefa de manter ativa e com a plateia sempre cheia a Arena Cultural Fernando Torres, que integra a rede de equipamentos culturais da Prefeitura do Rio de Janeiro. “Fazemos um trabalho de conscientização, sensibilização para que as pessoas possam se apropriar do equipamento cultural. Nossa ideia também é formar plateia através dos alunos da Rede Municipal de Ensino”, contou, explicando o pensamento que norteia ações desenvolvidas na Arena.

Da mesma forma, os marcos históricos da região de Madureira e bairros vizinhos muitas vezes não são conhecidos no restante da cidade. “Há um certo desconhecimento acerca das regiões do subúrbio. As pessoas não entendem muito o que é o subúrbio carioca”, acredita Vagner, para quem a ideia da “cidade partida se dá também no território do asfalto”.

O desejo pelo novo

Quebrar essas barreiras, apresentar novos olhares e fazer com que as pessoas que frequentam a Arena também se apropriem do espaço está entre as tarefas que Vagner se propôs. À plateia, explicou que a ideia na Arena é conhecer as demandas locais para fazer a programação do espaço, entendendo o que a comunidade deseja, sem, no entanto, deixar de arriscar. “Como diz uma música linda do Gilberto Gil, ‘Rep’, no disco ‘O sol de Oslo’, ‘o povo sabe o que quer, mas às vezes também quer o que não sabe’’’.

Foi assim que o espetáculo de abertura da Arena Fernando Torres até hoje é um momento marcante na história daquele espaço: convidada para fazer a programação inaugural, a atriz Fernanda Montenegro não se animou a apresentar por lá o espetáculo com o qual circulava na época, Viver sem Tempos Mortos, em que dava vida a Simone de Beauvoir. “Era o que eu queria, mas ela não. Ela me disse: ‘meu filho, não vim aqui para colonizar ninguém”, contou Vagner, lembrando de uma das conversas que teve com Fernandona.

A atriz se animou mesmo quando Vagner deu ideia de que ela lesse letras de músicas relacionadas a Madureira e seu entorno, compostas por nomes como Silas de Oliveira, Paulinho da Viola, Paulo da Portela – “para mim verdadeiros clássicos da literatura brasileira”, ressaltou. Para completar, o acompanhamento seria feito pelas velhas guardas da Portela e do Império Serrano. “Ela topou na hora!”.

As pontes do diálogo

Administrador de um espaço da rede municipal, Vagner, também fundador do bloco Timoneiros da Viola, ressaltou a abertura ao diálogo que vem ocorrendo com a Prefeitura do Rio, em várias direções. “É preciso reconhecer que houve um avanço grande da Prefeitura no diálogo das regiões Centro-Zona Sul e com os eixos periféricos da cidade”, disse. E completou: “o processo que tem ocorrido de diálogos entre a cidade pode apresentar soluções para que os hiatos sejam minimizados”.

Fazendo um histórico do surgimento das Lonas Culturais, que precederam as Arenas, Vagner lembrou que elas surgiram a partir da demanda de produtores locais, dando novo uso para as tendas utilizadas na época da ECO-92, que estavam se deteriorando no Riocentro. “O projeto das Lonas surgiu no seio das comunidades, e elas foram distribuídas por 10 bairros do Rio. Hoje, estão incorporadas à Rede Municipal de Teatro do Rio de Janeiro, e ganham R$ 25 mil por mês para manutenção”.

Para Vagner, o diálogo é fundamental para a construção de novas pontes na cidade. “Precisamos deixar de olhar para nossos umbigos e começar a perceber a cidade de uma forma muito mais generosa”.

Links que podem interessar:

Arena Carioca Fernando Torres: https://www.facebook.com/pages/Arena Carioca-Fernando-Torres/380556105368708

Timoneiros da Viola: http://www.timoneirosdaviola.com.br/

Dia 25/06: Subúrbios ontem e hoje

O tema do próximo debate do Rio de encontros é SUBÚRBIOS CARIOCAS ONTEM E HOJE. Neste encontro teremos como provocadores o jornalista, escritor e pesquisador Vagner Fernandes, atual gestor da Arena Fernando Torres – em Madureira; do historiador Antonio Edmilson Martins Rodrigues, professor da PUC – Rio e UERJ; e do cientista social e produtor cultural Binho Cultura, idealizador da Flizo – Festa Literária da Zona Oeste.

Essas feras vão nos mostrar muitas coisas sobre os subúrbios cariocas, juntos debaterão com a nossa plateia participativa: (1) se existe uma cultura suburbana no Rio de janeiro; (2) como ela dialoga e se articula com os diferentes espaços da cidade; (3) se podemos falar em decadência do subúrbio carioca; (4) em que medida a cultura pode ser um motor para o seu desenvolvimento.  Essas e muitas outras questões serão atendidas no próximo dia 25. Venha colaborar com o debate!

Não esqueça: dia 25 de Junho, quinta-feira, das 14:00h às 17h30, no Auditório da ESPM RIO (Rua do Rosário, 90 Centro).

CONVITE

De onde viemos e para onde vamos

A história da cidade e suas perspectivas como região metropolitana foram tema da abertura do Rio de Encontros 2015. Mais sete encontros acontecem este ano, no auditório da ESPM, no Centro

Rio de Encontros. Auditório da ESPM, Rio de Janeiro, Brasil.

Henrique Silveira e Marieta Moraes são os convidados do mês de maio. Foto: Monara Barreto

Uma retrospectiva da história da cidade e do estado, associada a um mergulho nos dados atuais sobre o Rio de Janeiro, sem deixar de lado as perspectivas para o futuro da região metropolitana. Esse foi o percurso feito na abertura da temporada 2015 do Rio de Encontros, que encheu o auditório da ESPM – Escola Superior de Propaganda e Marketing –, na quinta-feira, 28 de maio, com alunos da Turma Rio de Encontros 2015, da Universidade das Quebradas – projeto de extensão da UFRJ -, da ESPM e diversos interessados na proposta de pensar a cidade, construindo novas perguntas e percepções sobre o Rio de Janeiro, a partir do encontro de múltiplas visões. Debatedores convidados, Marieta de Moraes Ferreira, professora do Instituto de História da UFRJ, e Henrique Silveira, coordenador executivo da Associação Casa Fluminense, traçaram um panorama que se tornou complementar na discussão proposta como tema deste primeiro encontro: “Rio de Janeiro: de capital da República a cidade metropolitana”. Silvia Ramos, conselheira d’O Instituto e curadora de conteúdo do Rio de Encontros, mediou a conversa.

Falando sobre as “singularidades da cidade do Rio de Janeiro”, Marieta fez um passeio pela história da cidade, que já foi capital do Brasil Colonial, sede da Corte, do Império, Capital Federal de 1889 a 1960, cidade-estado, com a criação do Estado da Guanabara, até se tornar município capital do Estado do Rio, após a fusão, em 1975. “Estamos vivendo esse ano a comemoração dos 450 anos de fundação da cidade e os 40 anos da fusão. Essas datas são oportunidades para refletir sobre o passado, fazendo relação com o presente e as perspectivas futuras. O que é ser carioca? O que é ser fluminense? Afinal, quem somos nós?”, disse Marieta, jogando luz sobre o que chama de “mitos políticos”, que precisam ser revisitados e, talvez, desfeitos.

Rever mitos: uma necessidade

“Há certo saudosismo que diz como era bom o tempo do Rio capital da República, que seria uma idade do ouro, ao mesmo tempo em que há também um certo bode expiatório de todos os males, que seria a fusão com o Estado da Guanabara, em 1975, quando o Rio teria se juntado a um estado pobre, provinciano, atrasado. De tempos em tempos, voltam ideias que defendem até a ‘desfusão’ com essa parte que atrapalha a grandeza e o cosmopolitismo da cidade do Rio. São mitos políticos, que têm que ser relativizados e olhados de forma crítica. Na época do Rio capital, a cidade enfrentou muitas dificuldades e buscava conquistar sua autonomia política. No final dos anos 50, o Rio enfrentou problemas econômicos e urbanos, cantados até em marchinhas que satirizavam: ‘de dia falta água, de noite falta luz’”, pontuou Marieta – que é contra a ideia da ‘desfusão’, diga-se – lembrando ainda que a fusão foi um ato arbitrário, autoritário, realizado em plena ditadura militar.

Rio de Encontros. Auditório da ESPM, Rio de Janeiro. Foto: Monara Barreto

Rever os mitos significa também pensar sobre a identidade do carioca – ou fluminense. “São elementos do passado importantes, que podem fazer repensar a identidade do Rio. Há indicativos importantes de que uma nova identidade está se constituindo. Buscar a identidade é importante para criar laços de solidariedade”, disse Marieta, apontando a pluralidade da plateia e a própria natureza das discussões propostas pelo Rio de Encontros como evidências dessas redefinições em curso, de uma compreensão muito mais abrangente sobre o Rio de Janeiro e seu morador.

Novos olhares sobre os marcos da cidade

A perspectiva histórica feita por Marieta situou a plateia para a abordagem contemporânea das questões metropolitanas trazidas por Henrique Silveira, coordenador executivo da Associação Casa Fluminense, dedicada a produzir conhecimento sobre e propor ações para a região metropolitana do Rio de Janeiro, ampliando o mapa centralizado na capital. Para demonstrar esse esforço de alargar os horizontes sobre o Rio de Janeiro, Henrique iniciou a fala projetando imagens que se tornaram símbolo do Rio, como a vista da Baía de Guanabara, a partir do Cristo Redentor, contrapondo com outros marcos importantes, que também poderiam ser transformados em referências icônicas, pela importância histórica que têm. Um deles seria Guia de Pacobaíba, em Magé, lugar da primeira estação ferroviária do Brasil, onde o píer avança para a Baía de Guanabara e que, no entanto, encontra-se bastante deteriorado, além de ser desconhecido pela maior parte da população. “É um espaço simbólico porque junta a Baía e a rede ferroviária, importante para o desenvolvimento do Rio”, afirmou.

Rio de Encontros. Auditório da ESPM, Rio de Janeiro, Brasil.

Rio de Encontros. Auditório da ESPM, Rio de Janeiro.  Foto: Monara Barreto

A partir das referências simbólicas, Henrique apresentou dados sobre a Região Metropolitana, demonstrando as discrepâncias existentes na aplicação de recursos e formulação de políticas para os lugares onde vivem 75% da população do Estado do Rio de Janeiro. “Com qual lente vamos olhar para a região? A Casa Fluminense tem olhado o mapa da desigualdade”, explicou Henrique, ao apresentar números sobre a renda média per capita por município – Niterói lidera o ranking, seguido pelo Rio de Janeiro, enquanto Japeri ocupa a última posição, de acordo com os dados do Censo 2010 –, dados sobre escolaridade da população, perfil de homicídios ocorridos em todo o estado do Rio de Janeiro, além do mapa de instalação das UPPs – Unidades de Polícia Pacificadora. A estes gráficos, somou-se ainda o mapa da mobilidade, também produzido por um dos pesquisadores da Casa Fluminense, que relaciona o tempo de deslocamento gasto por trabalhadores entre suas casas e o Centro do Rio.

Mobilidade e circulação: os gargalos da metrópole

“Dois milhões de pessoas entram todo dia no Rio para trabalhar”, disse Henrique. O mapa da mobilidade agitou a plateia, também formada por várias pessoas que, como sempre acontece, enfrentaram algumas horas do dia para se deslocar até o Centro do Rio, onde o Rio de Encontros passa a ser realizado – as cinco edições anteriores, até 2014, foram feitas na Casa do Saber, na Lagoa. “Saí de casa meio dia e olha a hora que cheguei aqui”, disse alguém, que mora em Belford Roxo, e se atrasou para o início do Rio de Encontros, marcado para as 14h. Além do mapa da SuperVia, com toda a malha ferroviária do Rio, Henrique também apresentou o mapa das soluções que estão sendo criadas em relação à mobilidade urbana, como o BRT, claramente insuficiente para atender a demanda da população. “É difícil acreditar que essa vá ser a solução”, pontuou, apontando também para o mapa dos investimentos em transporte e para as soluções que chamou de “puxadinho do BRT”, como a TransBaixada.

Rio de Encontros. Auditório da ESPM, Rio de Janeiro, Brasil.

Igor Soares. Foto: Monara Barreto

“É possível e necessário pensar o Rio de Janeiro como uma cidade metropolitana mais integrada e igualitária”, disse Henrique, definindo a Casa Fluminense como um espaço de construção de políticas públicas na Região Metropolitana, que cria um espaço comum e de diálogo, para discutir e propor agenda de futuro. Neste sentido, a Casa realiza o Fórum Rio, que a cada edição é feito num lugar diferente da Região Metropolitana – já foi feito na Zona Oeste, Centro, Baixada e o próximo será no Leste Fluminense, dia 08 de junho, às 15h, na UFF – e a Agenda Rio, com propostas concretas, discutidas ao longo dos encontros no Fórum Rio, debates em que o poder público é sempre convidado a participar.