Projetos colaborativos e inovação urbana

Em que medida as tecnologias digitais e as redes de colaboração criativa  podem contribuir para o empreendedorismo e novos modelos de produção, que articulam arte e economia, no contexto da cidade? Esta será a provocação inicial do próximo Rio de Encontros, que ocorrerá na quinta-feira, 8 de setembro. Venha conversar com os nossos convidados: Julia Zardo, Marco Konopacki e Luisa Rodrigues.

Rio de Encontros

Rio de Encontros

Quando: 8 de setembro, às 14h
Onde: Auditório da ESPM/Rio
Endereço: Rua do Rosário, 111/8 andar – Centro
Ao final do debate, venha trocar ideias conosco durante o lanche para o qual todos estão convidados.

Rio, cidade virtual

O Rio de Encontros, em sua quarta edição, realizada no dia 21 de julho, abordou dois aspectos aparentemente antagônicos e igualmente presentes na internet: Afetos e conflitos nas redes sociais. Como provocadoras, a pós-doutora em antropologia digital e professora da Eco/UFRJ Mônica Machado e a jornalista de tecnologia Cora Rónai. Na mediação, a socióloga e também curadora dos debates Silvia Ramos.

O objetivo da série é estimular o livre pensar sobre a cidade e seus problemas e estimular a formulação de novas perguntas que apontem para novos caminhos e possibilidades para experiências mais criativas e solidárias de se exercer a plena cidadania. Evitar a repetição de chavões é essencial, ressaltou a diretora acadêmica d’O Instituto, Ilana Strozenberg, na abertura.

Cora Rónai, convidada como mediadora e a plateia / Foto por Audiovisual ESPM

Cora Rónai, convidada como mediadora e a plateia / Foto por Audiovisual ESPM

Para ver as fotos do encontro, CLIQUE AQUI

Nem mesmo o trânsito nada tranquilo do Rio pré-Olimpíada inibiu a presença da plateia. Heterogênea por sua natureza, reuniu no auditório da ESPM Rio, no Centro, universitários, acadêmicos, jovens oriundos de projetos desenvolvidos na periferia do Grande Rio e que formam uma turma fixa a cada ano, profissionais liberais e representantes de ONG’s e outras entidades e projetos como Casa Fluminense, Vozerio, Universidade das Quebradas. Todas com o mesmo propósito.

– O debate hoje gira em torno dessa cidade virtual em que habitamos, que é a internet. Saudado por muitos como espaço de afeto e solidariedade, o ambiente virtual fomenta também disputas e segregações -, pontuou Silvia Ramos ao apresentar o tema e os convidados, saudar plateia e declarar a conversa aberta.

Nas comunidades, dentro da rede

Monica Machado, provocadora / Foto Audiovisual ESPM

Com quase 20 anos de atuação como professora da Escola de Comunicação da UFRJ, Monica Machado, mais recentemente, se dedica a pesquisar como os jovens lidam com a internet. Em 2012, quando muita gente de comunidades carentes ainda engatinhava no uso de plataformas digitais, participou do projeto Rio Geração Consciente, com jovens de Manguinhos, Maré e Cantagalo.  No ano passado, conquistou o título de pós-doutora em Antropologia Digital pela University College London (UCL), onde desenvolveu uma extensa pesquisa sobre os usos das tecnologias digitais e se engajou no grupo de pesquisa Why We Post?, coordenado pelo antropólogo Daniel Miller.

O Rio Geração Consciente envolveu, durante um ano, um debate sobre os impactos das tecnologias da comunicação no cotidiano das comunidades, desenvolvendo estratégias de produção de mensagens de reivindicação de direitos de cidadania. O resultado final foi a criação de uma campanha em parceria com a ESPM.

No Cantagalo, particularmente, Mônica estreitou os laços. É de lá o Museu de Favelas, ela estabeleceu vínculos com os jovens do território e envolveu alunos da UFRJ. O resultado foi a reformulação do site da instituição, uma revista digital de quatro edições, um hotsite para divulgar o circuito cultural turístico da comunidade, além da criação das páginas nas redes sociais.

– O Museu é um ponto de memória na comunidade. Quando entrei, eles engatinhavam no uso das plataformas digitais. Realizamos um trabalho de muitos atores para viabilizar a tradução de memória oral, mas que levou também a outras expressões culturais, como musicalidade, religiosidade e experiências de resistência. São vários temas representados nas casas como instalações artísticas. Um museu sem sede, sem território fixo.

Paralelamente a esses quatro anos de relação com os jovens, Mônica desenvolveu realizou observações etnográficas para entender como os jovens vinham lidando com as tecnologias nessas regiões. Mesmo com a dificuldade imposta pelas imprecisões estatísticas sobre o universo, mapeou a experiência dos usos das redes sociais nesse universo, constatou que certas expressões de relacionamentos culturais estavam se dando de forma expressiva nas redes sociais.

– O Facebook aparece como dominante, e o Twitter, assim como Snapchat, não têm presença expressiva. Há uma rede de relacionamento e solidariedade forte que é interligada pelo WhatsApp, que entrou muito fortemente. Esses dados são do final e 2014, mas acredito que são válidos até agora.

Why we post?

Monica Machado, no seu pós-doutorado, passou a integrar o projeto de pesquisa Why We Post, que reúne antropólogos de diferentes regiões do mundo para trocar experiências etnográficas e investigar os usos e consequências das mídias sociais nas vidas das pessoas.

– A antropologia digital pensa como as tecnologias de comunicação vêm sendo apropriadas pelos universos sociais de diferentes culturas.

Para analisar a experiência cultural em periferias, o grupo parte do pressuposto de que é o mundo que está mudando as mídias sociais (título do livro How the world changes the social mídia, primeira publicação do grupo, lançado em fevereiro de 2016) e não o contrário, como muitos pensam. Ao promover a troca dos resultados de pesquisas realizadas em contextos tão distintos como Brasil, Inglaterra, Chile, Índia e Turquia, entre outros, o trabalho mostra que as redes sociais são uma forma de ampliação das relações e que garantem tanto a copresença afetiva como a manutenção das relações familiares, mesmo quando há deslocamento geográfico de membros da família.

– Embora sem a eventual presença física, há muitas vantagens embutidas nessas novas formas mediadas de comunicação. A internet muda a vida e a experiência dos seus usuários, sendo que cada contexto cultural apresenta suas especificidades.

Links importantes:
Why We Post?
Rio Geração Consciente
Museu de Favela
Sobre Daniel Miller

Conexão à toda prova

A jornalista, blogueira e fotógrafa Cora Rónai / Foto Audiovisual ESPM

A jornalista, blogueira e fotógrafa Cora Rónai / Foto Audiovisual ESPM

Cora Rónai discute sobre internet e participa de redes sociais desde muito antes da popularização do termo. Primeira jornalista brasileira a ter um blog e, mais recentemente, fotógrafa de celular, amealha 200 mil seguidores no Twitter e outros 80 mil em sua página no Facebook. Sem método, ela faz questão de pontuar que sua vivência não tem limitação geográfica. Em uma conversa pessoal, ela contou histórias, relembrou fatos e contou experiências sobre a internet, defendeu afetos, reconheceu o quão soltas também circulam a desconsideração e a falta de apreço.

– Só me limito pelas fronteiras da língua. Às vezes, nem isso. Nos grupos dos quais participo, não há fronteiras, eu não sei onde estão as pessoas. A internet não tem lugar num lugar físico. Toda ideia da nuvem é de romper com os limites do espaço. Quando comecei, meus melhores amigos ficavam em outros países e, por causa dos codinomes, não sabíamos exatamente os nomes uns dos outros.

No jornal O Globo desde 1991, no qual criou o caderno de tecnologia “Info etc.”, Cora é dos tempos do Blue Box, da companhia telefônica americana ATT como recurso para discar e usar a internet, dos tempos em que grandes corporações como Xerox e IBM investiam em laboratórios de tecnologia que faziam pesquisa sem necessário uso comercial, o que hoje, ela lamenta, não existe mais.

– Hoje você quer, nas corporações, um resultado em tempo mais curto. O parque da Xerox foi criado para botar a empresa no mundo da computação. Não conseguiu, mas várias de suas invenções, como o mouse, foram aproveitadas.

A curiosidade era aguçada, mas começar a escrever não foi bem um caminho natural. Havia resistência, ela relembra a dificuldade que enfrentou, no início, pelo desconhecimento geral sobre o tema no início dos anos 1990.

– Eu dizia ‘tem uma coisa chamada computador, que está acontecendo’, e as pessoas não queriam, não sabiam.

A experiência de Cora, por sua vez, é individual.

– Nunca tive preocupação em observar como as pessoas estão usando, para que estão usando, menos do que de onde elas estão quando estão usando. Ninguém queria saber. Ei, tem uma coisa aí chamada de computador, ninguém estava interessado. Era aquela época em que a gente achava que podia ter todos os programas do mundo. Isso é começo de anos 1990.

Sobre a amizade

O paradigma mudou, mas os laços são permanentes. Segundo Cora, vivemos hoje a redefinição de conceitos e de como as amizades se estabelecem e funcionam. A solidariedade está na rede, ninguém duvide. Ainda que os desafetos sejam evidentes e, muitas vezes intransponíveis.

– O erro é achar que as amizades virtuais são menos amizades porque são virtuais. E, claro, a internet é também lugar de ódio. Tem gente que detesta as coisas, ponto.

A observação diária de Cora leva a muitas considerações. Uma delas é a de que o buyling nas redes, do qual já foi vítima, pode afastar o usuário de determinada ferramenta. Numa comparação entre o Twitter e o Facebook, ela é taxativa: enquanto um pode ser decretado como ‘morto’, pelas desvantagens que apresenta, o segundo oferece mais proteção:

– O Twitter não dá nenhuma defesa contra o discurso de ódio, porque é muito fácil ter conta falsa e há poucas ferramentas de controle. Tanto que há personalidades deixando a plataforma por conta do policiamento e das agressões. Já o Facebook tem ferramentas de proteção mais fortes, permite que você controle sua conta.

Outra constatação é de que, ao contrário da teoria que prega os seis degraus de aproximação entre você e qualquer outra pessoa no mundo também mudou. Para Cora, estamos a no máximo três ou quatro pessoas de qualquer outra no mundo. Quem quiser comprovar a tese, que experimente.

Links importantes:

internETC.
Coluna Cora Rónai no Globo
Cora no Twitter

Conversa com a plateia

A plateia se manifesta sobre afetos e conflitos na internet / Foto Audiovisual ESPM

A plateia se manifesta sobre afetos e conflitos na internet / Foto Audiovisual ESPM

Hora de a plateia dizer o que pensa, perguntar sobre o que tem dúvidas.

“Uma experiência do ITS, com a plataforma Mudamos, mostrou que o que se imaginava que podia ser ferramenta de democracia acabou virando espaço dos clichês. O cara nem lê o post e segue o efeito manada. Pessoas da minha geração achavam que internet ia facilitar a participação política: agora, eu posso comunicar, o que nos levou a achar que era um momento de explosão da democracia. Mas, na verdade, os debates são rasos e não estimulam debates mais aprofundados, e eu gostaria de ouvir sobre esse aspecto.” (Silvia Ramos)

Mônica Machado – A internet é propícia para discussão política, mas depende de como se encara a política. A hashtag #primeiroassedio, por exemplo, é um fenômeno: um tema tabu, sobre o qual não se fala em espaços públicos, mas proliferam no ambiente digital narrativas que não seriam contadas nunca. Internet tem muito de renovação também. No Brasil, o uso das hashtag é interessante porque é mobilizador. Há um espaço de representação, lugar de fala importante. Começamos a ver pequenas mobilizações. Internet é espaço de alteridade, dos discursos autorais, é espaço de intersecção de vozes. Já há vários coletivos e pequenos grupos locais já fazendo uso expressivo dessas possibilidades.

Cora Rónai – A internet não aprofunda? As pessoas não se aprofundam, ponto. A internet apenas põe isso em evidência. As pessoas nunca quiseram discutir. A gente está descobrindo o problema do ser humano, que é superficial. Quem discute é minoria no mundo. A gente acha que todo mundo deveria estar envolvido no debate político ou afetivo, mas isso não é verdade. As pessoas querem ir para o bar com as pessoas que já conhecem e conversar sobre assuntos que já dominam. Elas deveriam sair dessa zona de conforto, mas para quê? Aprofundar não é necessidade. O fulano quer ficar quieto no trabalho dele, não o chateie.

 

“Sobre as amizades virtuais, questiono: se não tenho memória do sentimento, se nunca vivi aquilo, como vou experimentar essa amizade?” (Renata Kodagan)

Cora Rónai – Afetos na vida virtual e na virtual não são uma coisa ou outra, mas uma coisa e outra. Há trezentos níveis de afetos na vida da gente. Acho que os reais e os virtuais se complementam. Mas o amigo virtual não é necessariamente inferior. O núcleo virtual de todos se ampliou imensamente. E amizade de um amigo virtual pode ser tão densa e necessária quanto a de uma pessoa que está ao nosso lado. A internet passou a te dar amigos de acordo com os seus interesses. Pessoas que têm interesses em assuntos muito específicos encontram vozes para dialogar na internet.

Betty Wainstock – Em minha tese de doutorado em psicologia, estudei especificamente sobre a manifestação do luto na internet, e trabalhei mais especificamente com pais enlutados. Foi um estudo de cinco anos, com 20 pais. Ao entrevistar esses pais enlutados, constatei que eles querem falar sobre o filho que se foi, e somente é possível a troca com quem passou por essa experiência. A internet possibilita essa interação.  Há exemplos de pessoas que nunca se viram na vida real, mas que se aproximam e são família.

“Quando se fala em tecnologia e comunicação, predominam as figuras masculinas. Onde está a representatividade feminina?” (Nyl MC)

Cora Rónai – Sempre houve poucas mulheres, não sei o porquê. A Xerox teve um dos grandes laboratórios e se ressentiu de não encontrar mulheres. A tendência de mulheres nas exatas não é tradição. Mesmo eu, que gosto de tecnologia, não acho tão mortalmente interessante. Uma coisa é usar a tecnologia e fazer coisas. Onde faltam mulheres é na criação de novas tecnologias. O que falta no Vale do Silício é gente comparticipação direta nas coisas que explodem. Os caras se sucedem, louros e de olhos azuis. É tudo muito igual, é uma chatice. A cultura nerdé mais masculina que feminina. E não é que mulher não entra. Pelo contrário, eles estão loucos para que mulheres entrem. Pode ser que um dia as mulheres cheguem.

Mônica Machado – A Wikipedia, segundo estudo de um pesquisador americano, é majoritariamente masculina. Apenas 3% de quem contribui com aquele conteúdo colaborativo são mulheres. É um exemplo de que é preciso falar mais sobre essa representatividade.

“O bloqueio do WhatsApp é legítimo?” (Nelson Teles)

Cora Rónai – É ridícula qualquer proibição. Se a companhia de luz se recusa a dar informação sobre um usuário, vão cortar a luz de todo mundo? Os juízes fazem isso por não conhecerem com o que estão lidando. As teles, apesar de não gostarem do WhatsApp, não estão por trás dessas interrupções, têm de cumprir a determinação.

Conversa com a plateia – Parte 2

Plateia no Rio de Encontros / Foto Audiovisual ESPM

Plateia no Rio de Encontros / Foto Audiovisual ESPM

“Os pais não se dão conta do que as crianças estão fazendo na internet, com tantos fakes no ambiente virtual? Internet influencia adolescentes ou são fatores externos?” (Aline Copelli)

Monica Machado – Os adolescentes e crianças no ambiente digital precisam de monitoramento e supervisão. Há uma geração familiarizada com as ferramentas, e as gerações mais novas estão entrando cada vez mais precocemente. Mas os pais não têm muito conhecimento, e isso provoca um gap cultural expressivo. Os jovens foram criando seus próprios filtros. Essa questão das relações que se abrem num mundo desterritorializado, a criança convive e amplia mundo além do seu quintal e escola, há ampliação de cenário que precisa ter controle. Todos envolvidos numa tentativa de criar alguns sistemas de supervisão. Esse debate é incipiente e precisa ser aprofundado no Brasil.

“Agora está rolando o a favor ou contra a Escola sem Partido, o que vocês pensam sobre isso?” (Larissa Ventura)

Cora Rónai – Escola sem partido? É uma miragem, um unicórnio, não existe. Teoricamente, uma escola apenas científica, sem discussão política, sem ideologia. Do ponto de vista lógico parece razoável, mas do ponto de vista real, não existe. O grande movimento teria de ser por uma escola plural. Mas esse nem é o principal problema da escola brasileira. O principal problema é o ensino, apesar dos professores. O desempenho dos alunos brasileiros é tenebroso. Esse é um problema muito maior do que qualquer ideologia. Não precisamos construir escolas, precisamos formar professores. Criamos o mito da educação superior. Todo mundo precisa ter diploma superior? É muito caro para um país formar um engenheiro para ele dirigir Uber. Estamos em crise, mas não há profissional formado para consertar tomadas adequadamente. Todo o sistema de ensino brasileiro deveria ser revisto.

Monica Machado – A causa deveria ser em defesa da escola plural, não escola sem partido.

“O Twitter pode ser usado como ferramenta de debates?” (Lorran Portilho)

Cora Rónai – Debates sérios são difíceis em qualquer lugar. Em 140 caracteres, é impossível, não dá. Limita demais a conversa. O Twitter é telegráfico e te informa, esse é o mérito. Qualquer coisa além disso, é difícil de fazer. A conversa é muito fragmentada. Basicamente, te leva para outros lugares. Não é lá que o debate vai acontecer.

“Falta de censura é o que eu louvo na internet atualmente. Mas quero saber sobre o lado negativo da falta de censura.” (Leonardo)

Cora Rónai – Falta de censura é sempre positiva. Com os desagrados, a gente lida com palavras. Discurso de ódio tem de ser banido, pois as pessoas não podem fazer qualquer espécie de discurso.

Cora Rónai e Monica Machado conversam com a plateia / Foto Audiovisual ESPM

Cora Rónai e Monica Machado conversam com a plateia / Foto Audiovisual ESPM

Na relação entre política e redes sociais, cada um dos lados tende a ondas de extremismo. Como vocês veem as mentiras nas redes sociais? Qual o limite?” (Leonardo Oliveira)

Monica Machado – A agressividade ganha a desculpa da proteção da tela: a partir dali você pode dizer tudo. Mentira? Não tem jeito, tem de desconfiar do que está vendo. Aos poucos, as pessoas vão percebendo, estão ficando mais atentas. Sobretudo as novas gerações vão aprender a evitar melhor. Mas todos têm de saber que é preciso estar atento.

Cora Rónai – Internet leva a extremismo? Internet alimentou os discursos? Os imbecis perderam a modéstia, há gente que antes não tinha onde se exprimir. Idiotas como Bolsonaro sempre existiram. A imbecilidade é ancestral, não precisou da internet para progredir. O acirramento ocorre porque pessoas diferentes se encontram mais na internet que no ambiente real. Se tem alguém que pense diferente, ela vai procurar sua turma. Na internet, você descobre quem é e o que pensa aquele cara com quem você encontra todo dia. A internet permite ver, mas não é ela que está criando aberrações. O ser humano é um animal inviável desde que veio ao mundo. As pessoas ruins e péssimas se sentem mais validadas quando encontram os seus pares igualmente ruins e péssimos. Internet não cria essas pessoas, só nos mostra o que está por aí.

“Como fazer para que fiquemos mais independentes do Facebook e de suas mudanças de algorítimos?” (Luiz Gustavo)

Cora Rónai – O algoritmo vê o que você usa e quer te apresentar as coisas que você gosta, mas você pode sair disso. Isso não configura uma censura. Você não pode deixar tão aberta. São parâmetros, não censura. Não pode imagens de nudez, por exemplo. São parâmetros de entrada e regras de comportamento. Tenha um pouco mais de trabalho, em vez de seguir a timeline, veja o que os seus amigos estão postando, vá direto aos perfis.

“Fale sobre o projeto em que você tira uma foto e registra um momento importante do seu dia, one second everyday” (Ilana Strozenberg)

Cora Rónai – O aplicativo é 1se, que permite que você cada dia um segundo da sua vida e, no fim, tem seis minutos. Há muitos projetos interessantes a partir dessa ferramenta. Eu fotografo todos os dias. Antes de dormir vejo qual segundo do dia vou usar. Para início de conversa, você começa a pensar mais no que você faz durante o dia. E quando você começa a registrar um segundo do seu dia, você começa a prestar atenção ao que acontece. É fascinante. Você começa a dirigir o projeto com um olhar mais artístico também. Um segundo é uma foto que se mexe e que tem som.

Monica Machado – O Instagram faz muito sucesso nas comunidades porque amplia sentido do compartilhamento visual. A fotografia sempre foi muito cara. Mulheres dizem que pela primeira vez conseguem fazer histórico de imagens de suas famílias e registrar o primeiro álbum de família. É a primeira vez que se tem essa experiência. A democratização do celular na favela contribui para isso. Os smartphones ampliaram o uso das ferramentas e possibilidades.

Afetos e conflitos na internet: Rio de Encontros em frases e fotos

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Cora Rónai, Silvia Ramos e Mônica Machado / Foto por Audiovisual ESPM

Espaço genuíno de expressão, a internet é, ao mesmo tempo, espaço propício à expressão e desabrochar dos afetos, e também de fomentadora de disputas e intrigas. Esse foi o mote da quarta edição do Rio de Encontros, realizada no último dia 21 de julho. O evento contou com a participação de Cora Rónai, jornalista e fotógrafa, e de Mônica Machado, professora da Eco/UFRJ. A mediação ficou sob a responsabilidade da socióloga Silvia Ramos.

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Confira, abaixo, algumas das falas mais marcantes do debate:

“A internet permite que se estabeleça co-presença afetiva sem estarmos geograficamente presentes”
Mônica Machado

“A minha vivência não tem limitação geográfica. Só me limito pelas fronteiras da lingua. Às vezes, nem isso. A internet passou a te dar amigos de acordo com os seus interesses”
Cora Rónai

“Um pai enlutado quer falar sobre o filho que se foi. Somente é possível a troca com quem passou por essa experiência. A internet possibilita isso”
Betty Wainstock

“Internet é espaço de alteridade, dos discursos autorais, espaço de intersecção de vozes”
Mônica Machado

“O erro é achar que as amizades virtuais são menos amizades porque são virtuais”
Cora Rónai

“Internet dá falsa ideia de formação ou militância política. Para coisa rápida, funciona, mas não aprofunda”
Renata Kodagan

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Leonardo Oliveira / Foto por Audiovisual ESPM

“Na relação entre política e redes sociais, cada um dos lados tende a ondas de extremismo”
Leonardo Oliveira

“O que se imaginava que podia ser ferramenta de democracia acabou virando espaço dos clichês” – Silvia Ramos

“As pessoas não se aprofundam, ponto. A internet apenas coloca isso em evidência” – Cora Rónai

“Quando se fala em tecnologia e comunicação, predominam as figuras masculinas. Onde está a representatividade feminina?”
Nyl MC

“Como fazer para que fiquemos mais independentes do Facebook e de suas mudanças de algorítimos?”
Luiz Gustavo

“Falta de censura é o que eu louvo na internet: hoje, entendo melhor a causa das mulheres, dos gays, da maconha. Mas as mentiras circulam livremente, qual o limite das redes sociais?”
Leonardo Oliveira

“Os pais nao se dão conta do que as crianças estão fazendo na internet?” –
Aline Copelli

“A dimensão da relevância de uma postagem ainda não está internalizada na cultura de um jovem em formação” – Mônica Machado

“Os imbecis perderam a modéstia. A imbecilidade é ancestral, não precisou da internet para progredir”
Cora Rónai