Caminhos para o Rio: economia criativa e cultura maker – encerramento do ciclo 2015

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Em clima de confraternização, o encerramento da temporada 2015 teve a participação inspiradora de BATMAN ZAVAREZE e GABRIELA AGUSTINI, apresentação do resultado do Laboratório de Criatividade e Inovação e de quatro projetos desenvolvidos por jovens empreendedores da Turma Rio de Encontros.

Dois craques em reunir pessoas com talentos diferentes para trabalhar em torno de ideias criativas, os realizadores Gabi Agustini e Batman Zavareze fecharam com fartas doses de otimismo a temporada 2015 do Rio de Encontros. A dupla foi convidada para a sessão de encerramento do ano, conversando sobre o tema Caminhos para o Rio: Economia Criativa e Cultura Maker. Foi uma tarde inspiradora, que terminou com a entrega dos certificados de participação para os alunos da Turma Rio de Encontros.

Dez anos antes de fazer o festival que acaba de completar o 10º aniversário, Batman Zavareze registrou o nome Multiplicidade. Ainda estava na faculdade e a palavra “multi” começava a ser usada para classificar coisas que ainda não tinham nome. O próprio Batman – nascido Marcelo – também não tinha encontrado uma palavra para definir o que fazia profissionalmente. “Eu era inclassificável e me incomodava quando as pessoas me chamavam de multimídia. Aos poucos, me apropriei desse benefício que é ser inquieto, curioso. É o grande barato num país que tem grandes problemas para se buscar conhecimento, como o nosso”, disse Batman, curador do Festival Multiplicidade, diretor de arte, designer, multiartista, agitador, entre outras possíveis classificações.

Leia mais sobre a participação de Batman Zavareze

Com Gabriela Agustini não é muito diferente. “Eu fui jornalista”, ela diz, avisando que hoje costuma explicar o que faz “mais pela não definição do que pela definição”. “Acabei me envolvendo com projetos que têm essa interseção entre cultura, empreendedorismo, tecnologia, inovação”, conta Gabi, uma das pessoas que está à frente do Olabi, um ‘maker space’ aberto há um ano, em Botafogo. “Ele vem de numa tentativa de estimular a apropriação de tecnologia, fazendo com que as pessoas olhem para os aparatos de forma um pouco diferente”, explica.

Leia mais sobre a participação de Gabi Agustini

IMG_0388No encontro, também foi apresentado o resultado do Laboratório Audiovisual, ministrado pelo professor Giovani Moragoni. Inspirado pelas contribuições dos alunos nas oficinas, ele compôs a música “A vida quer viver”, que virou trilha sonora do vídeo, feito coletivamente e editado por Manaíra Carneiro, cineasta e monitora do projeto. “O Rio de Encontros para mim foi uma oportunidade de poder olhar para conceitos como criatividade, foco, necessidade. No primeiro encontro, pedi para que as pessoas se apresentassem criativamente, e foi incrível. Me senti inspirado por eles”, disse o professor da ESPM.

Leia frases em destaque do Rio de Encontros

O clima de comemoração, no entanto, não fez com que fosse esquecido um evento importante para a cidade, que ocorria quase ao mesmo tempo da sessão do Rio de Encontros: a passeata em Madureira, organizada em memória dos cinco jovens assassinados em Costa Barros, por policiais militares, no dia 19 de novembro. “Aqueles meninos eram para estar aqui com a gente. Nossos pensamentos hoje vão para eles, as famílias e esse movimento que está acontecendo no Parque Madureira”, disse Silvia Ramos, na abertura do debate.

O Rio de Encontros volta em 2016!

Mão na massa!

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Gabi conta suas experiências com criações coletivas. Fotos: Davi Marcos (Imagens do povo)

GABRIELA AGUSTINI fala sobre o Olabi, um lugar para pessoas comuns, criações coletivas e tecnologias diversas

Lugares de experimentação e compartilhamento do fazer. Essa é uma das definições do que são os maker spaces, que podem ter ferramentas de marcenaria, componentes tecnológicos, agulhas e linhas de tricô ou ser um espaço totalmente em branco, como explica Gabriela Agustini, professora em lugares como a Fundação Getúlio Vargas e Universidade Cândido Mendes, e há um ano está envolvida com o Olabi, em Botafogo, um desses makers spaces. “No fundo, não importa muito como é a infraestrutura. Esses espaços partem do principio de que o cidadão comum tem oportunidade de criar muita coisa a partir de coisas muito simples, que as pessoas podem fazer juntas, somando conhecimentos. Não é sobre as máquinas ou as ferramentas, mas sobre as pessoas em conjunto construindo coisas”, define.

O nome em inglês desses lugares, espaços de experimentação, onde é possível colocar a mão na massa, tem razão de ser: facilitar a conexão com outros espaços semelhantes, espalhados pelo mundo. “Existe uma potência muito grande nesse tipo de produção”, explica Gabi, que embarcou para o Egito logo depois da sessão do Rio de Encontros, para conhecer iniciativas semelhantes no país.

A África, aliás, é um continente que concentra algumas das inovações originadas de espaços como esses. “No Quênia, o sistema de pagamento por celular chegou antes do sistema bancário”, conta Gabi. Criatividade e precariedade são ingredientes para inovações. “Em alguns países, as pessoas ficaram livres para fazer a engenharia reversa. Como todo o lixo tecnológico vai para lá, a galera acessa e cria novos usos. E o componente do lixo é bastante central na nossa atuação, de transformar algo que já existe e criar algo novo em cima. Embora essas iniciativas fiquem invisíveis nas mídias, porque a gente tem mais informações do que vem dos Estados Unidos e da Europa, tem muita coisa produzida na África que tem muito a ver com os desafios como os nossos”, disse.

SEM MEDO DE CAIXAS PRETAS

IMG_0056O que se faz no Quênia e outros países do Hemisfério Sul é o que, no Brasil, ficou conhecido como “sevirismo”, ou “a arte de se virar”. “As tecnologias não são neutras. As funções embutem comportamentos culturais e ter a possibilidade de criar coisas é importante no mundo de hoje, quando o nível de homogeneidade de pensamento é pouco diverso”, explica Gabi.

A desconstrução de máquinas e a utilização de sucatas inspirou as criações dos participantes do Gambiarra Favela Tech, feito pelo Olabi, na Maré. “Trabalhamos a partir do lixo, mostrando que as tecnologias podem ser apropriadas para os mais diversos fins. No processo de aprendizagem, os jovens criaram peças a partir de questão que eles colocaram”, conta Gabi. Além das criações, ficou na Maré um maker space, o Bela Labe, que vai ter uma segunda edição, agora para as crianças. A ideia é conhecer os aparelhos por dentro e vê-los como algo que pode ser produzido e não apenas consumido. “Vamos perder o medo das caixas pretas”, conclama Gabi, organizadora, com Eliane Costa, do livro Debaixo para cima, que também trata deste tema.

SUSTENTABILIDADE

A multiplicação desses espaços de criação esbarra numa questão bastante prática: sustentabilidade. Esta foi, aliás, a primeira pergunta feita por Batman Zavareze a Gabi Agustini. “Essa é a parte mais difícil”, afirmou. “A gente tem Fundação Ford e outros apoios desse tipo, como a Open Society, além de aluguel de espaço e patrocínio. Mas são modelos frágeis. Não tenho resposta para isso. A gente tem momentos de abundância e profundo desespero. O que fazemos é gerenciar olhando pra frente. E a capacidade de se antecipar na busca de financiamento é determinante”.

Links:

Olabi: http://olabi.co/

Gambiarra Favela Tech: http://www.gambiarrafavelatech.org/

Debaixo pra cima: http://www.debaixoparacima.com.br/

Forte, frágil, multi

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Batmam Zavareze em conversa amistosa com plateia no último encontro de 2015. Foto: Davi Marcos (Imagens do povo)

Premiado, requisitado, admirado, BATMAN ZAVAREZE fala sobre suas habilidades e acredita que fazer redes seja a maior delas.

Curador do Festival Multiplicidade, Batman Zavareze traçou um panorama da própria carreira, desde a formação de designer, passando pela experiência nos primórdios da MTV, à temporada de estudos na italiana Fabrica, com Oliviero Toscani, até chegar ao momento atual em que ele se dá ao luxo de ter tempo para desenvolver os trabalhos para os quais é convidado – entre eles, por exemplo, o que realizou com Marisa Monte, na turnê de Verdade uma ilusão. “O que realmente me interessa é esse poder que a gente tira sei lá de onde para realizar as coisas”, resumiu ele, que costuma trabalhar com um número variável – mas sempre grande – de pessoas para colocar de pé suas ideias. “Eu tento fazer rede e acho que essa é minha grande habilidade”.

Entre os trabalhos apresentados por ele, o que mais emocionou a plateia foi uma instalação multimídia inspirada na experiência de enfrentamento da doença de sua esposa. “Teve esse momento pesado na vida. A pessoa que estrutura meu tripé para eu sair caminhando, começou ano passado com câncer de mama, que é super comum e você vai vendo que acontece com mais gente do que imaginava. E ela tomou uma decisão: ‘eu vou vencer. É inegociável’. Além de qualquer êxito profissional, eu tinha que estruturar o momento espiritual da gente. Documentei os momentos mais frágeis e mais fortes, gravando o som do coração dela”, contou. O resultado foi apresentado na exposição Força na Peruca. “Quando me chamaram, topei na hora, mas pedi para me ligarem em três meses porque não podia me desconcentrar. Pedi uma sala e pus a foto dela antes e depois, e a trilha sonora era esse som do coração. A Miriam agora está super bem, e deu uma aula pra gente sobre o que estava errado e precisávamos mudar”.

AO QUE VIRÁ

IMG_0288Parece que essas são ideias que estão sempre na cabeça de Batman. “Mesmo que num determinado trabalho o processo tenha sido difícil, quero colocar as coisas na minha mochila e ter orgulho das relações que fiz ali”, diz. A tal mochila nas costas tem sentido figurado e literal: nela também costuma estar o laptop onde rodam os softwares sofisticados que ajuda a criar, ao lançar desafios para engenheiros, designer e outros criadores. Normalmente, shows e eventos que têm recursos para bancar grandes estruturas são oportunidades para desenvolver as inovações, que podem ser reaproveitadas em outras ocasiões.

Batman vive criando espaços para inovações. O mais longevo deles é o Multiplicidade, festival de múltiplas artes, que completou 10 anos em 2015. Realizado no Oi Futuro e no Parque Lage, o festival reúne artistas de várias linguagens, do mundo todo – e, na equipe, gente que vem de todos os lugares também. “O Multiplicidade investiga diálogos da arte com a tecnologia no sentido mais amplo possível”, explica Batman que batizou a edição deste ano como Festival Multiplicidade 2025. “Há um tempo, numa conversa, o Tom Zé falou pra mim: não deixe para fazer retrospectiva quando fizer 10 anos. Faz dois anos de retrospectiva e quando o Festival fizer 10 anos faça sua antevisão. Foi o que fizemos. Esse ano a gente fez esse exercício libertador para se projetar em 10 anos. A gente inventou um manifesto que serve para o festival e qualquer coisa na vida, que tem que envolver compartilhamento, honestidade, amor”.

Realizado no Oi Futuro e no Parque Lage, o festival reúne artistas do mundo todo – e, na equipe, gente que vem de todos os lugares também. “Tem um momento que é festa, mas a gente aglutina e tenta fazer o máximo de troca possível, focada em celebrações, discussões. É uma plataforma de troca artística e cultural”, frisa ele, que, quando começou, percebeu que tinha que aprender sobre leis de financiamento se quisesse levar sua ideia adiante. “Se eu tiver que aprender, não tenho medo, não”. Isso ele aplica a tudo.

E foi também o conselho de Batman Zavareze à plateia. Inventor do próprio caminho, Batman se mostra aberto a fazer junto, criar conexões, aprender e compartilhar conhecimento, com quem tiver talento e disposição, juntando gente dos mais diferentes lugares e estratos sociais. Silvia Ramos, conselheira do Rio de Encontros, quis saber se ele estabelecia algum tipo de cota social para escolher a equipe de trabalho. “Não trabalho com cotas, mas com esse olhar para quem quer agarrar as oportunidades. Sigo minha intuição. Às vezes a gente acha pedras que obviamente tem que ser lapidadas, e que são super valiosas”, disse ele, também envolvido com duas escolas de arte e tecnologia voltadas para jovens de bairros e comunidades populares: a Oi Kabum e a Spetaculu. “Quando terminei o curso na Itália com o Toscani e estava voltando para o Brasil, ele me disse: ‘não se engane. Em terra de cego, quem tem um olho é caolho’. Ou seja, eu não podia voltar me sentindo o rei, porque tinha estudado fora. Eu tinha que aplicar o que aprendi e estudar mais, sempre. E sempre me junto com pessoas que têm essa paixão”.

Links

Festival Multiplicidade: http://www.multiplicidade.com/site/

Debate “Caminhos para o Rio: economia criativa e cultura maker” em frases

O convidado Batman Zavareze provoca plateia para pensar a cidade de forma criativa. Foto: Davi Marcos (Imagens do povo)

O convidado Batman Zavareze provoca plateia para pensar a cidade de forma criativa. Foto: Davi Marcos (Imagens do povo)

Natural que as questões sobre “como fazer” tenham sobressaído nas perguntas durante o debate que se seguiu à apresentação de Gabi Agustini e Batman Zavareze, convidados para falar do tema Cultura Maker. Mas além de saber mais sobre o caminho das pedras, muitas ideias e reflexões sobre o Rio, as conexões e formas de convivência marcaram o último Rio de Encontros de 2015. Algumas delas estão destacadas nas frases a seguir:

MÚLTIPLAS TROCAS

Admiro muito todas as tentativas de diálogos da cidade”, Gabi Agustini

O Rio de Encontros para mim foi uma oportunidade de poder olhar criatividade, foco, necessidade. Me senti inspirado por eles. Tivemos seis encontros, com temas como inovação, audiovisual, visões inaugurais… Pude ser bombardeado por pessoas e pesquisas maravilhosas. Na real: quem aprendeu nessa história fui eu” – Giovani Marangoni

O processo de montar uma máquina é mais importante do que o resultado.
Esse espaço não é sobre as máquinas ou as ferramentas, mas sobre as pessoas em conjunto construindo coisas” – Gabi Agustini. 

Quando a gente começa esse projeto em Honório Gurgel, a gente não levou nada para lá e encontrou coisas que a gente acha super interessantes. A ideia é encontrar as potências criativas e dar visibilidade ao lugar onde a gente mora” – Victor Hugo Rodrigues

Como fazer para não trabalhar só com jovem de classe média que estudou no São Vicente? Como você incorporou o pessoal de periferia?” – Silvia Ramos

A RIQUEZA DO LIXO

O componente do lixo é bastante central na nossa atuação. Fazer não diz respeito a algo novo, mas também a transformar algo que já existe, criando algo novo em cima” – Gabi Agustini

Na Colônia Juliano Moreira sempre aproveitamos o lixo. O Bispo do Rosário utilizava o lixo. Lixo não é para jogar fora. É para reutilizar”, Bruna Rios

PERIFÉRICOS CONECTADOS

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A convidada Gabi Agustini fala sobre seu trabalho no Makerspace ‘Olabi’. Foto: Davi Marcos (Imagens do Povo)

As tecnologias não são neutras. As funções embutem comportamentos culturais” – Gabi Agustini

A gente é da periferia e não se via representado em nenhum lugar. Por isso criamos a TV Hare, que é uma web emissora. A gente não depende de grandes equipamentos e criamos a primeira web novela do mundo, Geminies. Temos 3 milhões de acesso e como tudo é legendado, por causa da qualidade do som, temos um público deficiente auditivo muito grande” – Denise Kosta

Nosso papel é auxiliar organizações sociais relevantes, trazer olhar da tecnologia e o que está por trás para que se potencialize e transforme a cidade em um lugar mais humano, justo e bom para todos” – Gabi Agustini 

MEIOS E MENSAGENS

Máquinas para laboratórios caseiros geram autonomia para as coisas que estão nas bordas, nas periferias, no sentido amplo. A gente vem estimulando essa criação e trabalhando com parceiros no eixo sul, tentando mostrar ao norte que existe muita coisa importante produzida aqui. É preciso trazer diversidade para esse discurso” – Gabi Agustini

Qual o conselho que você daria pra gente estimular a criatividade?” – Luiz Gustavo

Quando eu estava na faculdade, desejei muito trabalhar com um cara, que era o Gringo Cardia, que fazia várias coisas nos anos 90. Quando tive oportunidade, a primeira coisa que ele me pediu foi pegar uma vassoura e varrer o palco. Naquele momento, entendi que a melhor coisa para ser criativo é ser comprometido. Tem que ter comprometimento. O resto é estrada. A gente vai errando e aprendendo” – Batman Zavareze

Queria saber o que você quer dizer para o mundo com o que você produz. Qual é a interação de sentimento, que faz seu trabalho ser o que é?” – Diogo Rodrigues

Meu objetivo é ser grande. Na impossibilidade de mudar o Brasil, quero mudar o Rio, me envolver em projetos que tenham impacto, que sejam bom pra mim e pra todo mundo” – Batman Zavareze 

Vamos perder o medo das caixas pretas” – Gabi Agustini

ADMINISTRAR TEMPO, CRIATIVIDADE

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O músico Eddu Grau também esteve presente na plateia Rio de encontros. Foto: Davi Marcos (Imagens do Povo)

Como você trabalha o seu eu? Às vezes me sinto sobrecarregado… Como você faz para não ter problema de estômago, estresse?” – Eddu Grau

Acho que a gente tem que ser totalmente emocional para compensar a avalanche de razão que cobre a vida. Não quer dizer que não vai colocar emoção na dose certa, no momento certo. Se a gente competir com o robô, a gente vai perder. Só que eu nunca vou deixar um robô me ganhar” – Batman Zavarese 

Para mim, é difícil gerenciar o que resolver primeiro, e o que resolver depois. Como você lida, separa e classifica os desafios?” – Priscilla Alves de Moura

Aqui eu mostrei uma sequência encapsulada de sucessos. Mas a vida não é isso. A gente vive numa montanha russa danada” – Batman Zavareze 

Criatividade e inovação são coisas diferentes. Criativos todos somos. Inovação é questão de obstinação? Quando foi que você entendeu o seu processo criativo? Você lembra o momento em que o desenvolveu?” – Renata Codagan

Tem uma discussão grande sobre se a criatividade nasce da necessidade ou do foco. Música é muito bom para pensar sobre isso: você não inventa o novo, mas consegue fazer novas combinações, que produzem coisas novas” – Giovani Marangoni

Se eu tiver que aprender, não tenho medo não” – Batman Zavareze

O MOMENTO DA CIDADE

Aqueles meninos eram pra estar aqui com a gente. Nossos pensamentos hoje vão pra esses meninos, essas famílias, esse movimento que está no Parque Madureira”, Silvia Ramos

Esse trabalho começou para sair da crítica e chegar na ação. Moro na região de atuação do Batalhão da Morte, como é conhecido o 9º BPM. Honório Gurgel é separado de Costa Barros, onde os cinco jovens foram fuzilados pela PM, por apenas um bairro, Barros Filho” – Victor Hugo Rodrigues

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Turma 2015 encerra o ciclo de debates do ano. Foto: Davi Marcos (Imagens do povo)

Caminhos para o Rio: economia criativa e cultura maker

O RIO DE ENCONTROS se despede de 2015 com um formato diferenciado: além dos provocadores, para fechar o ano, contaremos com a participação de 5 jovens da turma – que desenvolvem diferentes projetos culturais – como provocadores especiais e apresentarão um pouco do que vêm fazendo para criar novos caminhos para o Rio.

Vamos debater CAMINHOS PARA O RIO: ECONOMIA CRIATIVA E CULTURA MAKER, com o auxílio das visões do designer Batman Zavareze, curador do festival “Multiplicidade”, e Gabi Agustini, diretora do makerspace Olabi.

Se você ainda não pôde participar dos nossos debates este ano, não pode perder este, pois o tema mais uma vez promete uma boa conversa.

 

Endereço: Rua do Rosário 111, 8º andar, centro. Auditório ESPM.

Horário: Das 14h às 17:30

Pedimos para não esquecer de confirmar sua presença pelo email: riodeencontros@oinstituto.org.br

O Rio de imagens: fotografia e narrativas da cidade

Uma conversa sobre representação visual, estereótipos e novos narradores da linguagem fotográfica Cidade cartão-postal, o Rio de Janeiro está acostumado a ter sua imagem propagada por todos os cantos, de todos os ângulos. Todos? Que imagens se produzem e se propagam da cidade? Que narrativas são construídas a partir das imagens feitas da cidade e seu morador? E a formação dos fotógrafos, cada vez com mais acesso aos equipamentos digitais de produção e compartilhamento de imagens? Foram muitas as questões levantadas ao longo da quinta edição do ano do Rio de Encontros – a penúltima de 2015 – que reuniu no auditório da ESPM, no Centro do Rio, Pedro Vazquez, fotógrafo, pesquisador e escritor, Maurício Hora, fotógrafo, e Ana Maria Mauad, historiadora, numa conversa mediada pela fotógrafa Kita Pedroza.

Como lembrou Kita Pedroza, é oportuno discutir a representação do Rio de Janeiro em 2015, “ano que separa a realização de dois eventos mundiais, que trouxeram uma ambição dos realizadores de tornar o Rio uma cidade global”. “A imagem do Rio tem sido fundamental na política de imagem da cidade”, ressaltou, lembrando que os preparativos para os dois eventos – Copa do Mundo e Jogos Olímpicos – “têm trazido transformações urbanas sem precedentes na vida da cidade”. Não sem motivo, o FotoRio, maior festival de fotografia do Brasil, realizado nos anos ímpares, teve pela primeira vez na sua história um tema único, o Rio de Janeiro, no ano em que se comemoram os 450 anos da cidade. Uma das exposições que fez parte do calendário do Festival foi Ser Carioca, que teve curadoria de Pedro Vazquez, um dos três provocadores convidados. “Pensar a fotografia como narrativa é pensa-la também como texto”, disse Kita, citando ainda um texto de Ana Maria Mauad, que estabelece a fotografia como “uma leitura do real”. “A fotografia é uma linguagem e, portanto, uma possibilidade de voz, uma expressão da existência a partir da visualidade”, formulou. Fazendo um rápido histórico da fotografia no Rio de Janeiro – “1840 é quando a fotografia inaugura sua contribuição para a cidade” – Kita centrou atenção na forma como a população dos espaços populares é (ou vem sendo) representada na fotografia, especialmente através dos meios de comunicação. “Na imprensa, a população tem sido representada por apenas uma parte das características existente nesses lugares. Na maioria dos casos, a imprensa, muito importante na questão de representação da cidade, dá relevo às questões da violência”, pontuou.

O panorama começa a mudar no século 21, início dos anos 2000, quando acontece “a grande revolução nas comunicações que é a internet”. “Surgem vários coletivos e mídias comunitárias, e esses grupos vão reivindicar a criação de uma autoimagem, e vão começar a produzir imagens e narrativas sobre si”, lembrou Kita, ela mesma ativa participante deste movimento: foi a ela a primeira coordenadora da Escola de Fotógrafos Populares Imagens do Povo, criada no Observatório de Favelas, na Maré, e responsável pela formação de vários fotógrafos emergentes da cidade.

Diálogo de tempo e imagens

A historiadora ANA MARIA MAUAD fala do papel da fotografia como mediadora do passado Com perdão do lugar comum, a apresentação “Prática fotográfica e experiência histórica – a fotografia como agenda história”, feita pela professora da UFF Ana Maria Mauad foi uma aula interessante e sucinta sobre fotografia, que mobilizou a plateia do Rio de Encontros. “As perguntas do debate permeiam minha reflexão de mais de 30 anos trabalhando sobre fotografia”, disse Ana, historiadora social, que fez uma síntese das questões que vem abordando em suas pesquisas sobre a relação entre história e fotografia. “Como não sou historiadora da fotografia, mas historiadora social, a fotografia para mim é um suporte, uma mediação com o passado”, disse ela, que apresentou algumas ideias-chave com as quais trabalha. “Em primeiro lugar, na relação entre fotografia e história, a fotografia é uma imagem documento, uma fonte histórica”, explicou, apresentando uma imagem de Augusto Malta, com a qual ela trabalhou num projeto para o Museu da Eletricidade, e que permitia entender os sistemas de fornecimento de energia para a cidade – a gás e elétrico – através daquele registro fotográfico. “A documentação escrita não dava informações que a fotografia sintetizou. Neste caso, ela é uma imagem documento”.

IMAGEM COMO DOCUMENTO E MONUMENTO

Outra ideia chave apresentada por Ana é a da fotografia como imagem-monumento. “O passado nos deixa de legado uma série de representações de como as sociedades queriam se ver no futuro”, explicou Ana, dessa vez apresentando uma imagem clássica da fotografia, chamada “Os 30 Valérios”, feita pelo fotógrafo paulista Valério Vieira, em 1902, em que o próprio fotógrafo aparece 30 vezes na imagem, desempenhando 30 papeis diferentes, “numa época em que não existia Photoshop”. “Ele cria um monumento ao próprio realismo fotográfico, discutindo e apontando representações em torno dessa ideia da fotografia como espelho do real”, disse. Como as ideias não são estanques, logo depois de fazer a diferença entre as imagens, Ana Mauad demonstrou que ambas podem também ser encaradas como de outro tipo. “Gosto de pensar um pouco que a fotografia que a gente chama aqui de imagem documento é também um monumento à lógica do trabalho, num momento pós- Abolição, no início do século 20, onde o trabalho tradicionalmente vinculado à mão de obra escrava, tinha que ser reconfigurado em termos de representação social. Ela cria uma representação que se projeta para o futuro da própria ideia do trabalho. Ao mesmo tempo, a imagem que a gente chama de monumento é também uma imagem documento, porque aponta registros da técnica fotográfica, do estado da arte em termos de representação. Então, quando a gente trabalha com fotografia e história, a fotografia é tanto fonte quanto objeto de estudo da história”, explicou.

FOTOGRAFIA COMO AGENTE DA HISTÓRIA

Mas isso não é tudo. “A fotografia é também agente da história: há experiências sociais que só existem porque são resultado de um trabalho fotográfico”, afirmou Ana, referindo-se à produção da fotógrafa americana Genevieve Naylor, que nos anos de 1940 e 1941 fotografou o Brasil a serviço do Departamento de Estado Norte Americano. “Esse é um bom caso de fotografia como agente da história porque ela produz um conjunto de imagens da cidade que circularam como exposição itinerante nos Estados Unidos, dentro de um protocolo político de relações internacionais, que buscava criar a face do bom vizinho para o Brasil”, explicou.

Nos últimos anos, Ana vem estudando as relações das múltiplas práticas fotográficas – a fotografia pública, institucional, de imprensa, familiar – e a obra de Genevieve tem tido especial atenção em sua análise. Para Ana, o conjunto das fotos sobre o Brasil, apresentadas numa exposição em Nova York, representa uma “prática que engendra diferentes experiências históricas – de intimidade, publicização, de construção de identidade, de alteridade”. A fotografia de Genevieve Naylor atua, portanto, como “agente da história, dotada de um poder de ação, modificação do mundo social”. Com a missão de fotografar o país no período da política da boa vizinhança, Genevieve produziu uma documentação bastante extensa. E Ana ressalta que o trabalho em nada parece um mero registro burocrático ou desinteressante.

De volta aos Estados Unidos, ela fez exposição “Rostos e Lugares do Brasil”, sendo a primeira mulher a expor no MoMA. Apresentou 50 imagens – selecionadas de um total de mais de 2 mil fotos – produzidas no Rio (ela morou Leme), na região do Rio São Francisco e no Sertão, registrando pessoas, hábitos, festas populares, Carnaval, e cenas cotidianas. A exposição foi dividida em cinco temas: Carnaval, Copacabana, Rio de Janeiro, Sertão e Festas Religiosas. “Essas imagens permitem, ao mesmo tempo, perceber que, para além dos protocolos oficiais, o olhar sensível de uma fotógrafa, que se formou na New York School of Social Research e participava de uma geração de fotógrafos formados pelo olhar engajado, permitia com que ela produzisse uma imagem de um Rio de Janeiro que não era só litoral, apesar de ele estar presente. Ela mostra uma cidade que foi conformada pelos seus diferentes tipos sociais, onde a valorização do sujeito, a relação dele com seu lugar social estava sendo definida pela forma como ela fotografava. Nas fotos dela, o Rio se desenhava pelas lentes da boa vizinhança como um lugar plural, e as imagens produzem um sentido fora do padrão das fotos oficiais produzidas pelo próprio Governo Vargas”, pontuou Ana.

FOTOGRAFIA PÚBLICA

“Trouxe essas imagens para a gente poder ver como elas produzem uma representação da cidade que vai além dos protocolos oficiais e, ao mesmo tempo, identificam o Rio de Janeiro como uma cidade americana, no mosaico das repúblicas americanas, no momento em que os Estados Unidos estão definindo as três Américas como um espaço de controle político dentro do quadro da polarização entre democracia e nazismo. A fotografia dela está atuando neste sentido. Então é um agente da política da boa vizinhança”, pontuou.

Esse é um exemplo de fotografia pública, conceito que Ana Maria vem desenvolvendo nos últimos tempos. “Os movimentos de 2013 me animaram muito a pensar sobre isso”, contou ela, que vem pensando sobre “o que significa a capacidade de a fotografia democratizar a imagem?”. “Trabalhos como o do Mauricio Hora, do Imagens do Povo, da Tatiana Altberg, que é tornar essa imagem pública do ponto de vista de construção do espaço público. Politizar o espaço visual é um desafio”, acredita.

Interessada na reflexão crítica sobre fotografia, Ana Mauad, ao debater com a plateia, falou sobre três questões principais, levantadas no debate. A primeira é de ordem ética, que, como ela ressaltou, ultrapassa o fato de estar portando ou não uma câmera fotográfica. “É uma posição que te coloca como sujeito que compartilha determinados princípios. Essa é uma discussão importante que a gente faz quando se organiza coletivamente. E quando a gente porta um instrumento, que por mais que seja um celular, tem um poder de fogo. Nós somos sujeitos éticos. E ética significa comprometimento com a situação, com o resultado, ter clareza de que as imagens ganham vida quando são produzidas e traçam uma biografia. No nascimento da imagem, tem a condição do sujeito que opera a câmera e que produz imagem. Essa condição exige comportamento ético – e essa é uma coisa que a gente não pode esquecer”.

AUTONOMIA E CONTROLE

A segunda questão identificada por Ana está relacionada com o futuro da fotografia e do profissional da fotografia. “Existem alguns trabalhos sendo produzidos sobre essa questão da pluralização do equipamento e a ampliação do que é o sujeito fotógrafo”, disse, ampliando a reflexão sobre a dimensão do controle da própria imagem. “Ou melhor, da posse que você tem da sua autorepresentação – controle é uma palavra muito contaminada –, e de como você quer ver essa representação se tornar pública. Existe o uso privado da imagem. Mas hoje, cada vez mais, a gente tem que discutir o sentido público da imagem, o espaço público virtual que foge do controle”, disse, lembrando o caso da estudante do Colégio Pedro II, de 12 anos, vítima de abuso sexual, que teve um vídeo vazado na internet – o que levou à expulsão de três alunos. “O que significa isso? Justamente o descontrole dessa autoridade, dessa autonomia. O profissional tem uma autoridade, uma competência adquirida, uma atribuição que garante para ele mesmo como profissional. Existe um espaço de reconhecimento dessa profissionalização e vocês mesmos estão apontando que está mudando, mas não deixa de existir”. Para Ana, a pluralização de equipamentos não vai fazer com que esse reconhecimento profissional se perca. “Se a gente fica demonizando a multiplicação de equipamentos e a capacidade de você valorizar a diversidade, você acaba cerceando. O que volto a defender, que acho fundamental, é autonomia e responsabilidade”.

Por fim, a terceira questão identificada por Ana Mauad tem a ver com os conhecimentos que a fotografia produz. “A fotografia coloca um desafio epistemológico importantíssimo, que é a relativização do valor de verdade e a possibilidade de conhecimento não seja absoluto. A fotografia é sempre relativa. Isso é bom e ruim. Mas isso é um fato. Por isso que quem trabalha com fotografia do ponto de vista histórico, sociológico, antropológico, não pode perder a dimensão do circuito social, as formas de apropriação e aquilo que venho discutindo que é a forma como a imagem traça uma biografia, uma trajetória”.

TEMPOS COLETIVOS

Coube a Ana Mauad fazer as considerações finais da tarde. “A gente vive um momento importantíssimo de transição entre um determinado registro, inclusive histórico, de memória, onde a relação com o passado se faz de uma determinada forma, para um outro regime de história, que, acredito, se configura em função do valor do coletivo. Acho que cada vez mais as respostas deixam de estar no indivíduo e passam a estar num sentido de comunidade, quer seja ela um coletivo, uma favela, um espaço de sociabilidade… A forma que a gente tem para enfrentar o confronto é justamente recuperar e valorizar a emergência dessa noção de coletivo e de comunidade que é a base de qualquer principio de valorização daquilo que ainda vale a pena defender, que é a democracia”.

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Para saber mais sobre a fotógrafa Genevieve Naylor, leia o artigo “Fotografia e a cultura política nos tempos da política da Boa Vizinhança”, de Ana Maria Mauad, publicado nos Anais do Museu Paulista e disponível neste link.