Projetos colaborativos e inovação urbana

Três iniciativas concretas e prontas para mobilizar esforços em prol de cidades mais responsivas, de relações menos burocráticas e pela conciliação entre serviços públicos e privados. Foi o que o Rio de Encontros mostrou no dia 8 de setembro, quando abriu espaço para a o tema “Projetos colaborativos e inovação urbana”.

Para iniciar a conversa, uma questão que está na cabeça de muita gente: em que medida as tecnologias digitais e as redes de colaboração criativa  podem contribuir para o empreendedorismo e novos modelos de produção, que articulam arte e economia, no contexto da cidade?

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Marco Konopacki, Luisa Rodrigues., Teresa Guilhon e Julia Zardo / Foto: Roberta Voigt

Convidado para estimular o diálogo, um time de provocadores disposto a expor à plateia com quantos esforços se transforma uma cidade: Julia Zardo, gerente do Programa de Cultura Empreendedora do Instituto Gênesis/ PUC-RIO; Luisa Rodrigues, gestora de comunicação do site de financiamento coletivo Benfeitoria; e Marco Konopacki, cientista político e coordenador de projetos de Democracia e Tecnologia do ITS Rio.

Responsável pela mediação da conversa, Teresa Guilhon, coordenadora d’O Instituto, abriu com um questionamento pertinente: “Como cidadão e governo podem colaborar, em que nível isso pode ser recíproco? Quando a gente vai conseguir a governança de baixo para cima, já que, em última instância, é isso que se quer?”. Com a palavra, a seguir, os convidados.

Cidades responsivas

O cientista político Marco Konopacki, coordenador de projetos de democracia e tecnologia do ITS Rio, tem muito para contar sobre como a tecnologia pode ajudar e melhorar as cidades para os seres humanos. Pensar uma cidade que “aprenda” e que responda positivamente passa, necessariamente, pela construção de uma relação entre poder público e o cidadão, defende  ele.

As reflexões surgem da prática, ou de situações velhas conhecidas de quem circula pelo Rio de Janeiro. “Todo ano, as ruas alagam, o trânsito dá nós, as chuvas causam desastres. Os flagrantes estão à nossa vista e,porque ainda assim, não conseguimos dar respostas eficazes? No Rio, mudaram as linhas de ônibus, o caos se instalou na cidade. E o tempo gasto em mobilidade, raro e caro, uma vez perdido, não gera nenhum valor”, pontua.

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Marco Konopacki / Foto: Roberta Voigt

Doutorando em Ciência Política pela UFMG, pesquisador nas áreas de governança de tecnologia da informação, desenvolvimento de software, participação social e ação coletiva, Konopacki conhece bem os meandros dos setores público e privado. Daí ele insiste em que cidadãos podem e devem interferir nas leis que regulam a cidade. “Provocar espaços em que as pessoas possam decidir juntas é mais do que votar, é abrir vãos para que as pessoas apresentem seus argumentos, pois o voto, muitas vezes, é mudo, você assina algo que está posto, não dá vez a alternativas e ao diálogo”, esmiúça ele.

E  vai além do que se experimenta na rotina carioca. Se as cidades são o espaço que nos deveriam acolher para a troca de experiências, valores e emoções, por que elas ainda não respondem aos problemas de forma ágil? Por que as rotinas se repetem ano a ano e nenhuma resposta efetiva é dada?

As respostas possíveis, segundo Konopacki, estão em quatro frentes: o poder público não usa a tecnologia como suporte para a solução dos problemas, o que gera estruturas duras e difíceis de se alterar, como o sistema (e-governo); o cidadão ainda não se habituou a demandar o poder público, menos ainda utilizando meios de vanguarda, como a internet (expansão do e-cidadão); há poucas opções de aplicativos que dêem respostas a esses problemas, sinal de que as estruturas não estão preparadas (aplicativos de soluções smart city, como o move it); e a quarta é relativa ao uso de dados pessoais e ao limite em que se consiga agregar dados.

Burocracia sexy

A solução vem pelo Facebook? O poder público pode fazer parcerias com o cidadão? Uma breve olhada no perfil institucional da cidade de Curitiba no Facebook é um bom exemplo de aproximação com a população via redes sociais, realça Konopacki. Ali, a informalidade gera engajamento. Em vez do texto quadrado, uma linguagem mais próxima de quem faz a consulta.

No redesenho das relações em tempos de internet, o chamado e-governo precisa atender algumas premissas. Uma delas é estabelecer um login único para acesso, sinaliza o cientista, que saca como exemplo o login cidadão, criado no Rio Grande do Sul, com apoio do Banco Mundial. O acesso a quaisquer serviços do estado a partir dessa interface, com instrumentos que fazem a informação chegar ao governador,é feito a partir de um único login digital.

Indo além, os serviços ao e-cidadão devem ser mais inteligentes para encurtar o caminho até as ouvidorias públicas. “O cidadão tem de saber que tem um canal de acesso e que será atendido em sua solicitação. Quando a prefeitura abre os canais, pode estabelecer hierarquia de prioridades e definir sua atuação num raio maior de questões. Se tem a capacidade de ler e priorizar, pode atender, ainda que não imediatamente. Mas o cidadão precisa estar seguro de que vai ser atendido em algum momento”, afirma.

Sim, ao poder público cabe boa parcela do trabalho. Mas aplicativos smart cities, por sua vez, podem perfeitamente partir de iniciativas da sociedade civil. ”A prefeitura do Rio tem o Centro Integrado de Informação e Controle, mas ainda há muito para fazer e criar para ajudar o cidadão”, relata.

Também é preciso dar transparência ao uso dos dados pessoais postados na rede. “É importante que seja firmado um pacto de bom uso, pois o cidadão tem de estar protegido quanto à sua privacidade”, pondera. O incentivo à abertura de dados gerados pelo poder público, por sua vez, é uma grande oportunidade para empreendedores: precisamos de soluções inteligentes. Para fechar, Konopacki deixa o desafio de se promover – e fazer – a burocracia sexy, ou seja, encontrar novas  formas de nos conectarmos com o maquinário de governança.

Para inspirar

colab.re
consumidor.gov.br
Marco Civil da Internet
Jennifer Pahlka, do Code for America (TED 2012) 

União que faz crescer a força

A turma da plataforma de financiamento coletivo Benfeitoria tem a cidade construída por todos – governo, cidadãos, empresas e academia – como bandeira.  Os resultados do projeto são vultosos: desde 2011, quando foi fundado, já arrecadou R$ 11 milhões de 70 mil benfeitores, que viabilizaram 700 projetos, feitos devidamente enumerados pela gestora de comunicação, Luisa Rodrigues, em sua participação no Rio de Encontros.

“A Benfeitoria é uma vaquinha repaginada que ajuda projetos a se transformarem em campanha de arrecadação de dinheiro”, explica ela, que foi uma das produtoras da primeira edição do Reboot Festival de Wikinomia (2014), feito totalmente em rede,  e uma das responsáveis pelo Natura Cidades, o primeiro canal de matchfunding do Brasil, no qual, para cada R$ 1 investido por um benfeitor, a Natura colocou mais R$ 1.

Com o sucesso do financiamento coletivo, o grupo decidiu se aventurar para além. Vieram dessa disposição a plataforma colaborativa de soluções para a cidade Rio+ (2013); o Recorrente (2014); e a UFC, a Universidade do Financiamento Coletivo.

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Luisa Rodrigues / Foto: Roberta Voigt

“As provocações que deram origem ao projeto Rio+ tiveram a cidade como projeto coletivo, o  espaço público para todos. Era o cidadão comum mandando ideias para a plataforma, em 13 temas”, conta Luisa. Foram mais de 1.700 ideias enviadas, das quais 26 ficaram abertas para  votação online. Por fim, 13 foram eleitas para serem implementadas. Uma delas, de mobilidade reciclada, resultou no protótipo de uma máquina que foi usada para a troca de embalagem plástica por uma bilhete de ônibus. “As outras 12 ideias votadas estão engavetadas em diferentes áreas da prefeitura, ninguém sabe onde está”, lamenta.

Nem todas as ideias emplacam, quem faz a Benfeitoria já sabe. Mas as apostas no coletivo seguem com firmeza. “As pessoas não se engajam, muitas vezes, por excesso de barreira, mas criatividade é um dom que todo mundo tem. E as pessoas precisam se sentir empoderadas para mudar a cidade”, avalia Luisa.

O desafio fica para a plateia, ou melhor, para os cidadãos: como unir todas as esferas sociais em prol de uma mudança real nas cidades e na sociedade? “Só na união do coletivo a gente vai conseguir, não só no Rio, em outras cidades também”, finaliza.


Para inspirar

Rio+
Recorrente
UFC
TED O antídoto para a apatia, com Dave Meslin
Bel Pesce: FazINOVA   

É preciso ser sustentável

Centro de inovação, o Instituto Gênesis, da PUC Rio, é um lugar de encontros que reúne governo, academia, iniciativa privada e projetos fablab. Em defesa empolgada do próprio trabalho, a gerente do programa de cultura empreendedora, Julia Zardo, fez, no Rio de Encontros, uma fala inspiradora sobre as possibilidades que se abrem a partir da unidade complementar que administra e desenvolve todas as ações de empreendedorismo na universidade desde 1997, quando foi criada.

“A informação que a gente gera (na instituição) é para todo mundo. E o conhecimento também é gerado na sociedade, não apenas na academia. A proposta de qualquer  incubadora é fazer com que esses conhecimentos se encontrem e as ideias geradas no ambiente universitário encontrem utilidade efetiva na sociedade”, ressalta Julia.

Os números dão conta do alcance: quase 1,2 mil alunos já foram impactados pela cultura empreendedora. Em 19 anos, o Gênesis ostenta a geração de mais de 2,6 mil postos de trabalho, um crescimento médio anual de 20% das empresas, e cerca de R$ 680 milhões de faturamento total.

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Julia Zardo / Foto: Roberta Voigt

“Nossa crença é o empreendedorismo e inovação. As incubadoras funcionam para transferir conhecimento da universidade para a sociedade, fazer a viabilidade técnica e econômica de um empreendimento. Empreender são duas viagens, uma da ideia, e a outra do papel, que aceita tudo que você quiser lá”, explica Julia, que acompanhou, em 2001, o lançamento de uma incubadora cultural e, em 2005, os negócios sociais de meio ambiente. Áreas transversais mas igualmente importantes.

Tido como uma das mais completas incubadoras do país, o Gênesis anuncia um índice de sucesso de 90% entre os projetos que promove. O trabalho acompanha desde o processo inicial de criação e desenvolvimento do espírito empreendedor, até a implantação de fato dos empreendimentos. Quanto mais impacto social, melhor.

“O empreendedorismo é uma ferramenta de empoderamento, desde que você se entenda na lógica da sustentabilidade. É preciso estar saudável, inclusive financeiramente. A nossa plataforma política é fazer com que o empreendedor que formamos entenda como o trabalho que ele realmente gosta pode ser sustentável. Tem de ser sustentável, mas não necessariamente lucrativo, essa é a premissa do Gênesis”, explica Julia.

O lugar da cultura

O Instituto Gênesis atua com ferramentas de capacitação. A cultura, por sua vez, passou a ocupar espaço na cadeia produtiva mais recentemente do que se imagina. Segundo Julia Zardo, os estudos sobre os ambientes de negócios no setor deslancharam apenas a partir de 2003.

“Quando comecei, há 16 anos, empreender não era uma opção de carreira, era como dizer para o pai que ia ser músico, coisa em que a família não se amarra. Hoje, empreender é uma opção de carreira. E esse é um caminho que está mais pavimentado”, afirma.

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Julia Zardo / Foto: Roberta Voigt

As mudanças que ocorreram desde então são visíveis também setorialmente. “Na música, por exemplo, o principal problema em 2003 era a pirataria. Hoje, o vinil está de volta. Tudo mudou muito rapidamente, inclusive o sujeito que produz as tecnologias, e essas mudanças fizeram com que o produtor passasse a distribuir ele mesmo. Uma cadeia de valor substituiu o processo linear da cadeia produtiva”, pontua.

Um bom exemplo do lugar que a cultura ocupa atualmente está no mapa estratégico do desenvolvimento do estado, com perspectivas até 2020, feito pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan). No documento, o foco está em turismo, petróleo e gás e economia criativa (música, audiovisual, games, etc).

“O Rio pode ter um diferencial tanto em relação às demais cidades brasileiras como lá fora. Pessoas trabalhando juntas para desenvolver um setor e negócios sustentáveis. Se a gente se apropriar e participar, independentemente do que aconteça com  o estado, a gente pode se tornar viável”, finaliza.

Para inspirar

Genesis.puc-rio.br
Rio Criativo
Associação Nacional de Entidades promotoras de Empreendimentos Inovadore (Anprotec)
Empreendedor Criativo
Firjan: Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil 

Perguntas da plateia

Muitas secretarias trabalham como pequenos feudos, têm suas próprias redes e prioridades, o que têm pouco a ver com o que o cidadão espera. Essa é uma grande barreira. Como a gente pode mudar daí para o trabalho em conjunto? (Julia Michaels)

Marco Konopacki – Tem uma questão forte para além do que foi dito que é o papel do gestor público. O estado ainda é um ente de poder muito grande, apesar de o avanço da tecnologia proporcionar uma cobrança maior por parte da população e dar a ela um papel maior. Se tentava quebrar caixinhas na Secretaria de Cultura e romper a estrutura de feudos de poder, mas pensando em oferecer um serviço melhor e manter um estado diferente, isso eu vi em 2012. Há modelos de estado, é importante pensar em uma reforma e esse é um debate que ficou para trás, mas o aparelho de estado deve ser mais aberto e mais permissivo ao diálogo.

Julia Zardo – Trabalhar em secretarias é difícil mesmo. Mas, às vezes, é uma forma de você ajudar a transformar. É interessante entender que quem está lá dentro tem de ser parceiro. O secretário e todos os funcionários estão lá para isso.

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Diálogo com a plateia / Foto: Roberta Voigt

Deveria haver um canal no qual você possa falar de maneira mais qualitativa, se você quer reclamar, sugerir. Deveria ter um gerente da rua que você pudesse acessar. Falta aos governos usar a capacidade de inteligência dos cidadãos para construir uma cidade mais organizada. (Anabela Paiva)

Marco Konopacki – Os canais existem, o problema é superar as estruturas arcaicas de poder dentro do aparelho do estado. Daí eu penso numa reforma de estado para prestar mais eficientemente os seus serviços, que seja menos pautado e focado nos processos. Não se constrói uma visão do estado como serviço, como plataforma a favor do cidadão, colaborando e oferecendo uma estrutura que resolva os problemas do cidadão. Na Estônia, um bom exemplo, você tira sua identidade digitalmente, abre empresa, porque lá eles pensam o estado como facilitador das conexões. É uma postura, uma mudança cultural, no é simples de se pensar, depende de gestores que tomem essa iniciativa e também depende de nós, população, nos organizarmos. Orçamento participativo, no passado, foi uma postura política, uma forma de entender como se fazer política. existem duas visões possíveis: includente ou excludente, então pensar a política mais aberta e com a postura de incluir pessoas terá sempre um resultado melhor. Principalmente se você incluir pessoas diferentes.

A perspectiva econômica atual é nefasta, mas pode ser um bom momento para as pessoas começarem a levar seus projetos para a iniciativa privada. Como acessar o apoio privado? (Nyl MC)

Luisa Rodrigues – Não é uma divisão entre público e privado. O financiamento coletivo surgiu preenchendo a lacuna. Cultura e arte são categorias que mais crescem no financiamento coletivo. É, hoje, uma opção para produtores culturais. A gente acredita no tudo ou nada, a pessoa estipula uma meta financeira e se ela não for atingida, o dinheiro é redistribuído.  Qual o menor custo que você tem para botar alguma coisa na rua? A gente vai quebrando em metas. É uma maneira de mobilizar as pessoas pela urgência. É meio apelativo, mas funciona. As modalidades de financiamento incluem o recorrente, no qual temos hoje 50 iniciativas.

Julia Zardo – Ter voz e ser ouvido é mais fácil e o poder público vem a reboque se há mobilização. E as iniciativas já se espalham pela cidade, gente fechando rua, criando eventos, ocupando as ruas, transformando espaços, os empreendedores estão se juntando. O Beco do rato está revitalizado. A prefeitura vai lá, apoia.

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Nyl MC conversa com os convidados / Foto: Roberta Voigt

Tenho o projeto ‘E aí, vereador?’, cuja ideia é cobrir a Câmara de Vereadores das cidades. Vocês têm dicas de financiamento? O nosso copo ficou 9% cheio numa campanha flex. Meio sonho de consumo é conseguir patrocínio. Como existir juridicamente? (Vinícius Assis)

Luisa Rodrigues – Esse tipo de plataforma tem apelo coletivo muito forte. No momento político em que estamos, esse projeto é muito valioso. Tem de voltar atrás e ver o que foi errado.

Projetos como Benfeitoria se inspiram em experiências de fora? Todo mundo se inspirou em alguma? Empreendedores precisam se arriscar para entender que é preciso trabalhar mais ou quebrar sua ideia para conseguir metas financeiras mais reais. Conta um caso em que deu tudo errado. (Silvia Ramos)

Luisa Rodrigues – Acho que miliciano nunca houve (risos), mas há casos, sim, que não ocorreram como planejado. Um deles foi o Marcelo Yuka, em 2014, um cara difícil de lidar, que teve 400 colaborações e até hoje ele não lançou o CD. As pessoas mandam email perguntando se a gente pegou o dinheiro e foi para Bora Bora. Mas a gente esclarece que transfere o dinheiro para o realizador. Um dos pilares da Benfeitoria é a transparência. Nós dizemos a ele que há 400 pessoas enfurecidas porque ele ainda não lançou o seu CD, mas não temos ingerência a partir daí. Outro caso foi uma proposta em que as pessoas não chegaram à meta, acabou o tempo e o dinheiro foi devolvido. O interessante é que se você não quiser, você não gasta um tostão do seu bolso até você chegar à sua meta. Até então você está testando para saber se aquilo vai funcionar ou não.