Afetos e conflitos na internet: Rio de Encontros em frases e fotos

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Cora Rónai, Silvia Ramos e Mônica Machado / Foto por Audiovisual ESPM

Espaço genuíno de expressão, a internet é, ao mesmo tempo, espaço propício à expressão e desabrochar dos afetos, e também de fomentadora de disputas e intrigas. Esse foi o mote da quarta edição do Rio de Encontros, realizada no último dia 21 de julho. O evento contou com a participação de Cora Rónai, jornalista e fotógrafa, e de Mônica Machado, professora da Eco/UFRJ. A mediação ficou sob a responsabilidade da socióloga Silvia Ramos.

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Confira, abaixo, algumas das falas mais marcantes do debate:

“A internet permite que se estabeleça co-presença afetiva sem estarmos geograficamente presentes”
Mônica Machado

“A minha vivência não tem limitação geográfica. Só me limito pelas fronteiras da lingua. Às vezes, nem isso. A internet passou a te dar amigos de acordo com os seus interesses”
Cora Rónai

“Um pai enlutado quer falar sobre o filho que se foi. Somente é possível a troca com quem passou por essa experiência. A internet possibilita isso”
Betty Wainstock

“Internet é espaço de alteridade, dos discursos autorais, espaço de intersecção de vozes”
Mônica Machado

“O erro é achar que as amizades virtuais são menos amizades porque são virtuais”
Cora Rónai

“Internet dá falsa ideia de formação ou militância política. Para coisa rápida, funciona, mas não aprofunda”
Renata Kodagan

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Leonardo Oliveira / Foto por Audiovisual ESPM

“Na relação entre política e redes sociais, cada um dos lados tende a ondas de extremismo”
Leonardo Oliveira

“O que se imaginava que podia ser ferramenta de democracia acabou virando espaço dos clichês” – Silvia Ramos

“As pessoas não se aprofundam, ponto. A internet apenas coloca isso em evidência” – Cora Rónai

“Quando se fala em tecnologia e comunicação, predominam as figuras masculinas. Onde está a representatividade feminina?”
Nyl MC

“Como fazer para que fiquemos mais independentes do Facebook e de suas mudanças de algorítimos?”
Luiz Gustavo

“Falta de censura é o que eu louvo na internet: hoje, entendo melhor a causa das mulheres, dos gays, da maconha. Mas as mentiras circulam livremente, qual o limite das redes sociais?”
Leonardo Oliveira

“Os pais nao se dão conta do que as crianças estão fazendo na internet?” –
Aline Copelli

“A dimensão da relevância de uma postagem ainda não está internalizada na cultura de um jovem em formação” – Mônica Machado

“Os imbecis perderam a modéstia. A imbecilidade é ancestral, não precisou da internet para progredir”
Cora Rónai

Afetos e conflitos na internet

Saudadas por muitos como espaço de relações de afeto e solidariedade, as redes sociais revelaram ser também palco de disputas e segregação.  Como pensar o impacto da internet nas relações pessoais? Esta será a provocação inicial do próximo Rio de Encontros, que ocorrerá na quinta-feira, 21 de julho, e terá  a participação especial das jornalistas Cora Rónai e Monica Machado.

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Quando: 21 de juho, às 14h
Onde: Auditório da ESPM/Rio
Endereço: Rua do Rosário, 111/8 andar – Centro

Justiça e ética nas redes

Em edição especial, na quinta-feira, 23 de junho de 2013, o Rio de Encontros ocupou o Salão Nobre do Palácio da Justiça do Estado com um debate sobre a relação entre redes sociais, ética e justiça. A juíza Andréa Pachá – ouvidora do Tribunal de Justiça e autora de A vida não é justa, livro cujas histórias, inspiradas na vida real, estão sendo gravadas em formato de série de TV a ser exibida no Fantástico, da Rede Globo -, e o jornalista João Márcio Dias – especialista em comunicação digital, redator e produtor de conteúdo para internet -, atuaram como provocadores do evento. A tarefa de mediação coube ao jornalista Mauro Ventura, atual Diretor de Comunicação e Difusão do Conhecimento do TJ do RJ, ganhador dos prêmios Esso e Embratel, autor do livro O espetáculo mais triste da Terra e responsável pela coluna Dois cafés e a conta, na Revista O Globo.

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João Marcio Dias, Mauro Ventura e Andrea Pachá no Museu da Justiça. / Foto: Thiago Brito

Foi com uma série de questionamentos que Mauro Ventura deu partida à conversa dessa tarde de debates. Como conciliar a utopia da liberdade de expressão e a necessidade da norma ética e da lei no universo virtual? A liberdade de expressão é um dos pilares da democracia, mas é um direito absoluto? Como ela se harmoniza com outros direitos, como o direito à privacidade? Com as redes sociais da internet, disse ele, questões como essas questões ganharam enorme complexidade. “A internet trouxe um aumento de crimes contra a honra, como a difamação e a calúnia, e houve acirramento de manifestações de homofobia e racismo. Como garantir proteção contra esses crimes e manter o caráter libertário da internet? Censura? Como o Judiciário pode contribuir? A Educação seria uma saída?”, indagou ele, passando a palavra aos convidados.

A festa da uva na internet

João Márcio Dias é jovem, mas sabe muito sobre o que circula na internet. Formado em artes plásticas pela UFRJ e em comunicação social pela Facha, está no mercado de comunicação desde 2002. Nesse meio tempo, já atuou em coordenação de campanhas políticas, aprendeu a fazer gestão de crises e a construir identidades na web. Atualmente, é redator e produtor de conteúdo. Patrulhamento e achincalhe na rede, processos, impunidade e luta por direito à privacidade são temas recorrentes no seu dia a dia profissional. No entanto, apesar dos percalços e do clima de ‘tudo pode’, o mundo virtual tem direito e merece a defesa, o que Dias fez durante sua fala – sem deixar de apontar responsáveis pelos desmandos intencionais na web.

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João Marcio Dias. / Foto: Thiago Brito

“A internet tem um lado maravilhoso porque permite a troca de ideias. Mas a web como a gente conhece tem no máximo 15 anos, considerando o tempo em que se popularizou. Temos agora a primeira leva de jornalistas que nunca passaram por uma redação, e não há mais um mediador”, afirma Dias. A liberdade ou excesso de liberdade acabam criando, no entanto, um clima de tudo pode. “É a festa da uva na internet. As pessoas dão opinião sobre tudo, Mas onde a lei pode entrar sem tolher a liberdade de expressão?”, indaga.

Produtor de conteúdo para a atriz Taís Araújo, ele atuou na gestão da crise causada pelo episódio de assédio virtual sofrido pela atriz, em 2015. “Tudo é muito superficial, há a certeza da impunidade. Então, as pessoas acham que podem dizer muito”, afirma o especialista em mídias sociais, para quem somente a consolidação de uma tragédia, e sua consequente repercussão, gera mudanças na legislação. “Tem de acontecer algo absurdo para que a Lei entre em vigor”, provoca, referindo-se à Lei Carolina Dieckmann, sancionada em 2014, após o caso da exposição de fotos íntimas da atriz nas redes.

Taís e Carolina têm mais em comum do que podem julgar os mais ingênuos, segundo Dias, que defende a tese de ataques coordenados: “Como aparecem 40 perfis falsos xingando uma pessoa de forma brutal? Não era acidental”, garante. E os casos se repetem, ele cita outras vítimas, como a atriz Leandra Leal e a jornalista Maria Julia Coutinho, a moça do tempo no Jornal Nacional, da TV Globo. “Faltam punições exemplares. No caso da Taís Araújo, identificaram, prenderam e, dois dias depois, os criminosos estavam soltos. Vocês já viram alguém ser preso por racismo nesse país? A morosidade ocorre no julgamento e também na investigação, parece que estão todos cegos em tiroteio”, ressalta e deixa a pergunta: “Como melhorar o controle e quais os limites que têm de ser postos?”.

Donos do mundo

Os ataques disparados na rede têm um ponto em comum, segundo Dias: são planejados com o propósito de gerar o caos. “É uma mente que convoca adolescentes para espalhar o ódio”, afirma ele, realçando um ponto que causa estranheza: “Essa pessoa não precisa ser responsabilizada por formar uma quadrilha? Nós identificamos um grupo nas redes sociais que se amontoava para realizar ataques pontuais. Um crime menor mascara questões maiores, cria-se um fato que passa a ser discutido”, analisa.

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João Marcio Dias. / Foto: Natalia Gonçalves

“Quando os crimes ocorrem na esfera virtual, qual o controle possível?”, indaga Dias, apontando para empresas gigantes, sem sede no Brasil, que se recusam a fornecer dados sob o argumento da garantia de privacidade. “Ora, o Zuckerberg não está preocupado com privacidade. Onde a Justiça pode entrar em contato mais direto com esses escritórios e grupos que atuam no Brasil? O Twitter dialoga de maneira mais honesta, colabora. Mas o Facebook parece dono do mundo. É preocupante pensar que uma pessoa no mundo detém todas as informações sobre todos nós, e não temos mecanismos de controle. Você não pode pedir o IP de alguém que o agrediu. Em teoria, tudo que se faz na internet fica registrado. Mas você não tem acesso”, pontua.

Nunca é como lhe parece

Andrea Pachá coleciona feitos no meio jurídico. Juíza do TJRJ desde 1994, foi conselheira do CNJ de 2007 a 2009, liderou a criação do Cadastro Nacional de Adoção e a Implantação das Varas de Violência contra mulher em todo o país. Ouvidora do Tribunal, é conhecida também nas redes sociais. Dona de uma página no Facebook, ostenta mais de 23 mil seguidores, embora assuma certa dificuldade em lidar com o ambiente virtual. Ao discorrer sobre os embates inclusive jurídicos que são travados na internet atualmente, ela defende que o mundo não se resolve em oposições binárias. E, para causar mais embaraços, conceitos como privacidade e esquecimento passam por uma ressignificação.

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A juíza Andrea Pachá / Foto: Natalia Gonçalves

É com uma citação de Nelson Rodrigues que ela que entra na questão do debate propriamente dito. “Se as pessoas conhecessem as intimidades umas das outras, ninguém se cumprimentava. Ninguém mostra o que é o que pensa, o que sonha ou o que deseja. A regra básica do convívio humano é o limite. Se a gente fizer tudo que tem vontade, a gente se mata no meio da rua, porque o ser humano não é bonzinho. É uma construção da cultura e, sendo assim, claro que tem que ter limite”, ressalta ela.
Quando se trata de internet, segundo Pachá, não é o desejo que está em jogo, mas a aceitação de que nesse novo espaço de convívio todos podem dizer tudo. “Ninguém é tão sincero assim. Todos mostram o que têm de melhor. Mas se todo mundo é maravilhoso e correto e quer o melhor, como o conjunto da obra é tão ruim?”, provoca. Por isso, considera importante separar o joio do trigo entre o que se vê na internet. “É assombrosa a rapidez como se julga na rede”. Entretanto, lembra ela, não existem só duas alternativas para os problemas, o mundo não se resolve em oposições binárias.

Para além das questões criminais, a juíza vê uma série de impasses e dilemas trazidos pelo convívio e comunicação no ambiente virtual. O primeiro exemplo é o do direito ao esquecimento, que, segundo aponta, é uma questão séria a ser enfrentada. “O que você diz hoje na internet é eterno. Você não tem direito ao esquecimento, porque na rede tudo é hoje”, assegura. Tampouco se pode garantir o direito à privacidade. “Não existe privacidade da forma como conhecíamos. Se você tem um segredo, um desejo, um sonho, não poste em lugar nenhum”, alerta Andrea Pachá.

Mas nem tudo é impasse, as novas tecnologias trazem perdas e ganhos. A vida hoje é muito melhor, embora seja também mais instável, e aprender a lidar com essa instabilidade é um desafio, pondera Andrea Pachá. “O mesmo ambiente que separa e ataca pessoas em função de motivos homofóbicos e racistas, une pessoas com objetivos de outra ordem, democráticos e solidários, que não teriam outro espaço de interlocução, compartilhamento de ideias e mobilização se não fosse a rede”, afirma.

Demasiado humanos

Para a juíza Andrea Pachá, seja no ambiente digital ou fora dele, a criminalização e a punição tradicionais não são saída para a transgressão de limites. Sua proposta é bem outra, menos punição e mais educação. O que pode ser feito de diferentes maneiras, como as penas através da prestação de serviços úteis à sociedade e às comunidades. “Se prende demais e se educa de menos. A população carcerária hoje é negra, jovem e envolvida com tráfico. Portanto, sem defesa”, pontua.

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Andrea Pachá: “O medo de ser exposto é pior que qualquer censura” / Foto: Natalia Gonçalves

É com algumas considerações mais gerais que Andrea Pachá termina sua provocação inicial. “O pior e mais danoso de tudo que a rede produz não são as ilhas de racismo ou afins, mas o medo que assimilamos toda vez que nos sentimos vulneráveis aos olhos de alguém. O medo de ser exposto é pior que qualquer censura”, considera, reforçando seu argumento com uma referência histórica: “Na Idade Média, as pessoas achavam que havia um Deus que tudo olhava, tudo sabia e tudo julgava. Na rede, ocorre o mesmo”, diz, categórica. “Se alguém quiser nos ligar a algum desvio, é praticamente inevitável que consiga . Quantos seguidores você tem sem saber?” Nesse contexto, o medo é paralisante, mas a racionalidade deve prevalecer. “É mais danoso eu não ter coragem de escrever do que temer que alguém derrube a minha página”, reafirma.

Para Andrea Pachá, a rede é um lugar de afirmação da humanidade. “Se, do meu lugar, eu me afirmo como pessoa que erra, acabo servindo de referência para quem acha que tem de saber tudo. Nosso projeto de humanidade é contínuo, não se descobriu nada agora, nem feminismo nem racismo, esses temas que ganham relevância  agora, mas estão presentes desde sempre”.

E conclui: “A justiça, afinal, nasce da mesma raíz que faz brotar arte, a cultura e o afeto. A raiz da racionalidade. É preciso reafirmar o controle exercido pelo convívio.”