Turma do Rio de Encontros faz perguntas tão boas quanto alunos em Berkeley, diz Janice Perlman

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Janice Perlman na 2ª edição do Rio de Encontros (Thiago Brito/ESPM)

A socióloga americana Janice Perlman já deu aulas em cursos de pós-graduação nas universidades da Califórnia e de Berkeley, nos Estados Unidos. Ela acompanhou a 2ª edição do Rio de Encontros em 2017, que discutiu o tema “O que é ser jovem no Rio de Janeiro?” e ficou encantada com o que viu. “as perguntas que ouvi no Rio de Encontros eram iguais ou melhores do que aquelas feitas pelos meus alunos no exterior”, afirmou a pesquisadora em entrevista ao blog do Rio de Encontros.
Confira os melhores momento da conversa:
Qual foi sua impressão do Rio de Encontros?

São eventos inspiradores pela heterogeneidade do público, com gente diferentes locais, cores e idades. No evento com o tema “O que é ser jovem no Rio de Janeiro?”, os convidados falaram coisas interessantes, mas não responderam à pergunta principal. Em qualquer cidade, ser jovem é sempre um desafio. Trata-se de definir quem você é sobre pressão e criar sua própria imagem. O formato da sala foi excelente, com todas as cadeiras em círculo e funcionou super-bem. Ele quebrou a distância entre os especialistas e os espectadores, que conheciam de fato o tema do evento.

Você considera importantes iniciativas como o Rio de Encontros? Por quê?

Acho importante por reunir gente de todas as áreas do Rio. Outro ponto interessante são as falas competentes e autoconfiantes da turma, que tem segurança de si. O terceiro aspecto que me chama atenção é ver nordestinos e negros discutindo lugar de fala com honestidade. Surgiram perguntas maravilhosas e nenhuma delas com raiva ou intenção de humilhar, apesar de sérias e duras. Dei aulas em cursos de pós-graduação nas universidades da Califórnia e de Berkeley e as perguntas que ouvi no Rio de Encontros eram iguais ou melhores do que aquelas feitas pelos meus alunos no exterior.

Qual é o foco da sua pesquisa atual?

Minha pesquisa aborda o impacto dos megaeventos no Rio e tem financiamento da Thinker Foundation, uma fundação que acompanha questões ligadas a políticas públicas. Comecei em 2015 e passei os primeiros dois anos tentando entender a esperança que antecedeu Copa e Olimpíadas. Pude ver como as políticas e a esperança de inclusão e sustentabilidade nesse período foram se desmanchando. Mas, desde o começo, fiquei impressionada com a criatividade dos jovens de favela em meio ao colapso. Houve uma tentativa da parte deles de criar um imaginário positivo em relação às comunidades.

Quais as principais conclusões que seus estudos geraram até o momento?

Sob a noção de que está tudo ruim, há uma vida plena de cores e movimentos surgindo com os jovens. Eles têm mais acesso a universidades, teatros, museus e se valem de grafite, literatura e outras linguagens para se expressar. Quase toda comunidade tem uma iniciativa assim hoje. Também admiro a emergência da noção de metropolitano, no lugar do municipal. Ela representa um processo em sintonia com o Rio que queremos. A bala perdida e o abuso de direitos civis não são capazes de matar a esperança. Apesar de tudo, as pessoas conseguem trabalhar pensando em um futuro melhor para si.

Que transformações você percebeu na sua área de estudo desde sua primeira visita ao Rio? Por que você acredita que essas mudanças aconteceram?

Vim ao Rio pela primeira vez em 1968. Era uma época em que ninguém tinha voz. Muitos não sabiam diferenciar direitos de deveres. As pessoas diziam “eu tenho direito de obedecer o governo”. Nas favelas, mais de 90% das mulheres eram analfabetas, assim como 74% dos homens. Na geração dos filhos dessas pessoas, só 6% eram analfabetos e, na dos netos, 0% não sabia ler e 11% já estavam na universidade. É uma situação muito diferente, que resulta em reivindicações muito diferentes. Entretanto, esse movimento de inclusão na sociedade de consumo não representou aumento da cidadania. Se antes eles tinham medo de perder a casa, hoje têm medo de perder a vida ou um parente.

Qual será o tema do seu próximo livro?
Pretendo abordar a importância de ser gente. Se todos no Rio fossem tratados como tal, haveria menos violência, mais mobilização social e novas ideias em cultura, educação e outras áreas. O grande desafio do momento não é o imediato, o Fora Temer, mas sim organizar esse novo contrato social, com foco no respeito às diferentes cores, raças, idades e estilos de vida, que nas favelas são muito importantes. Durante a minha pesquisa, vi pessoas com dinheiro que não saíam de suas comunidades por conta desse estilo de vida. O Rio perderia muito se acabasse com isso, porque é esse estilo de vida que faz dele uma cidade maravilhosa. Na abertura das olimpíadas, quem dançava, pulava e fazia a graça do espetáculo não era o Corcovado ou o Pão de Açúcar, mas as pessoas das favelas. Ao mesmo tempo, esses mesmos moradores são vítimas de maus tratos. Tudo isso é muito paradoxal. O que faz do Rio uma atração do turismo mundial é a cultura que sai da favela. Sufocá-la é contra-produtivo.

 

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Desejos e necessidades dos jovens devem ser ouvidos mais de perto, afirma George Yúdice

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George Yúdice: “A interação de saberes gera inovação social” (Thiago Brito/ESPM)

O nova-iorquino George Yúdice é professor da Universidade de Miami e especialista em culturas urbanas. Ele esteve presente na edição do último dia 22 de junho do Rio de Encontros, que debateu o tema “O que é ser jovem no Rio de Janeiro?”. Em entrevista por e-mail ao nosso blog, o pesquisador comentou a importância dos projetos voltados para jovens, que são seu objeto de pesquisa hoje. “As pessoas que formulam projetos e outras iniciativas devem ouvir mais de perto o que os jovens desejam e precisam”, afirmou.

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