O homem e a cidade

Ibis Silva Pereira, coronel da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro / Foto: Marco Sobral

Ibis Silva Pereira, coronel da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro / Foto: Marco Sobral

O coronel da Polícia Militar do Rio de Janeiro Ibis Silva Pereira carrega o livro “Cidades rebeldes”, obra do geógrafo, urbanista e antropólogo David Harvey debaixo do braço. E tem, quase na ponta da língua, a frase do sociólogo americano Robert Park sobre o que é a cidade:

“A tentativa mais consistente do homem e a mais bem-sucedida como um todo para refazer o mundo em que vive o mais próximo de seu desejo íntimo. Mas, se a cidade é o mundo que o homem criou, é o mundo no qual ele está doravante condenado a viver. Assim, indiretamente, e sem qualquer clareza da natureza de sua tarefa, ao fazer a cidade o homem refez a si mesmo.”

A cidade, o homem e a forma como a habita e se relaciona estão na essência do trabalho que o coronel desenvolveu à frente da Academia de Polícia Militar.

“O número 50 mil (citado por Silvia Ramos) não sai da minha cabeça. Que tipo de humanidade produz essas cifras? São homicídios dolosos. Os de trânsito são mais 40 mil. Os estupros são outros 50 mil. Meu Deus, que tipo de humanidade produz isso?  E o que isso faz com a nossa humanidade?”, o coronel questionou e recorreu ao que viu no cinema, durante uma sessão do filme “Tropa de elite” para exemplificar o quão carente de sensibilidade estaria a sociedade:

“Ouvi aplausos em cenas de tortura. Nós banalizamos os dados, conseguimos dormir e 50 mil mortes não nos tiram o sono. Os dados são divulgados e 15 dias depois já estão em nosso passado. Ano que vem teremos os 50 mil mortos ou até mais”, vaticinou.

Afetos, paixões e sensibilidade

Em comum com o delegado Orlando Zaccone, Ibis aponta a escravidão como leitura indispensável para se entender o Brasil. Assim como a militarização da política de segurança pública e a hierarquização da sociedade tal ela se apresenta.

“Joaquim Nabuco dizia que tão importante quanto acabar com a escravidão é acabar com a obra da escravidão. A categoria matável tem muito que ver com isso”, afirmou ele, apontando ainda outro ponto em comum: a questão da segurança pública ultrapassa a polícia e não pode ser reduzida ao emprego das forças policiais.

Seria preciso superar a dificuldade de se pensar políticas da prevenção e não apenas do enfrentamento e do combate ao criminoso.

“O assunto ultrapassa, e muito, a polícia, mas chegou o momento de discutirmos também a polícia. Comandei durante 22 meses a academia que forma o policial militar. A desmilitarização é um tema que precisamos enfrentar. Penso que é interessante problematizar a pertinência em nosso sistema de segurança pública de uma polícia estruturada no modelo militar”, argumentou o comandante.

O currículo de formação do policial, explicou Ibis, lida com medo da morte. Estatisticamente, os policiais têm três vezes mais chance de serem vítimas de homicídio do que o cidadão comum.

“O medo está presente o tempo inteiro na formação do policial. Mas temos de prepara-lo para a possibilidade da morte, que é a paixão mais básica do ser humano, sem que ele perca sua racionalidade. A primeira ocorrência em que me deparei com a morte, o colega levou um tiro na testa e caiu aos meus pés. Precisamos estar preparados para manter a nossa racionalidade mesmo diante de uma cena como essas”, ponderou.

Segundo ele, do medo decorre o embrutecimento que acaba tomando conta das formações. Daí a necessidade de recorrer a atenuantes. “Nós temos muitos psicólogos militares em nossa corporação. Mas são militares. Um soldado precisa trabalhar com os afetos e questões internamente. A desmilitarização da polícia poderia contribuir para que pudéssemos trabalhar os afetos e as paixões tristes de forma mais eficaz.”

Ibis defende um caminhar na direção de um modelo de polícia diferente do que está posto e que, segundo ele, sobretudo fragmentado. “Uma é ostensiva e não apura, a outra não polícia, ajudaria se trabalhássemos com um ciclo completo”, sugeriu.

Frases e fotos do Rio de Encontros

 

Encerramento do Rio de Encontros 2013 / Foto: Marco Sobral

Encerramento do Rio de Encontros 2013 / Foto: Marco Sobral

Como as forças policiais podem conciliar a garantia da ordem e da segurança com o direito à participação democrática? Por onde começar a mudar a estrutura da segurança pública no Rio de Janeiro e no Brasil? No Rio de Encontros sobre “Violência, polícia e direito à cidade”, realizado na terça-feira, 12 de novembro, as opinões e embates foram muito além do papel da polícia.

VEJA AS FOTOS DO ENCONTRO

Confira algumas das frases que pontuaram a manhã na Casa do Saber Rio – O Globo, no evento que contou com a participação do coronel da Polícia Militar do Rio de Janeiro, Ibis Silva Pereira, e do delegado de polícia civil Orlando Zaccone D’Elia Filho, secretário-geral da LEAP Brasil (Agentes da Lei Contra a Proibição) e autor do livro “Acionistas do nada: quem são os traficantes de drogas”.

“Pelo menos 50 mil pessoas morrem assassinadas por ano no Brasil. É o número mais alto do mundo em termos absolutos. O quinto em taxas de homicídio. Como e por que o país convive com isso?”
Silvia Ramos

Todos os dias, cinco pessoas são mortas pela polícia no Brasil”
Silvia Ramos

Ser um policial pensante é um primeiro passo para mudar a experiência da relação da polícia com a sociedade no Brasil
Orlando Zaccone D’Elia Filho

“Uma polícia que não pensa está cada vez mais atrelada a interesses políticos e mais distante da sociedade”
Orlando Zaccone D’Elia Filho

Discordo dessa tese. Defendo que existe uma política na gestão da decisão sobre a vida e a morte”
Orlando Zaccone D’Elia Filho

Pobre é potencialmente criminoso, é isso que significa dizer que nessas áreas a violência é mais possível”
Orlando Zaccone D’Elia Filho

“A escravidão é uma marca no Brasil que pode caracterizar a nossa matriz violenta. Não é só a polícia. Nós precisamos olhar para essa questão e aprofundar o debate”
Orlando Zaccone D’Elia Filho

“O número 50 mil não sai da minha cabeça. Que tipo de humanidade produz essas cifras? São homicídios dolosos. Os de trânsito são mais 40 mil. Os estupros são 50 mil. Meu Deus, que tipo de humanidade produz isso?  E o que isso faz com a nossa humanidade?”
Ibis Silva Pereira

“Precisamos desmilitarizar nossa lógica de enfrentamento do crime e pensar segurança do ponto de vista da prevenção”
Ibis Silva Pereira

Na favela, ou você mata ou você morre, o ideal é que você mate”
Igor de Sousa Soares

Será que 50 mil mortos é o que se conseguiu matar? Se mais pudéssemos, mais seriam mortos?”
Zeca Borges

Não posso concordar que a polícia vai ser canal de viabilizar política pública em lugar algum do mundo. Não podemos ter o fetiche de que a polícia vai ser porta de entrada para política pública na favela”
Orlando Zaccone D’Elia Filho

O Amarildo é um marco da necessidade de desqualificação da vítima. Não ser cidadão legitima qualquer ação”
Orlando Zaccone D’Elia Filho

Policiais e negros vêm do mesmo extrato dos traficantes. Não à toa que todos são vidas matáveis”
Orlando Zaccone D’Elia Filho

Durante todo o século XIX convivemos com uma constituição liberal, mas que admitia a escravidão. Em nenhum lugar dela a palavra escravidão aparece. Sobre essa base nós construímos a nossa república”
Ibis Silva Pereira

“O policial deve aprender a usar o fuzil, mas o olho dele não pode brilhar quando ele está com esse fuzil. A violência corrompe a alma de quem a usa. O que a escravidão fez com as nossas almas? Não tenho dúvidas de que ela nos corrompeu”
Ibis Silva Pereira

Por que matam-se mais negros que brancos? Isso não é um genocídio?”
Letícia de Freitas

O policial permanece na comunidade e passa a ser corrupto. Ele entra como segurança e sai como traficante”
Paulo César Valério

Estou parada na fala de que quando entramos na onda dos direitos humanos aumentou a letalidade”
Teresa Guilhon

Eu acredito na poesia. A gente precisa disso no país como um todo para dar conta desse nosso humanismo que talvez se precise reconstruir”
Ibis Silva Pereira

É em pró da vida que se realizam os maiores holocaustos e genocídios da história”
Orlando Zaccone D’Elia Filho