Drogas, respostas alternativas e políticas públicas

Ilana Strozenberg abre o Rio de Encontros sobre drogas, respostas alternativas e políticas públicas / Foto Paula Giolito

Ilana Strozenberg abre o Rio de Encontros sobre drogas, respostas alternativas e políticas públicas / Foto Paula Giolito

Rio de Encontros, dia 29 de abril, Casa do Saber O Globo Rio. Depois do usual café, com a plateia acomodada, Ilana Strozenberg, diretora acadêmica d’O Instituto anunciou o tema e as iniciadoras da conversa: a socióloga Julita Lemgruber, a psicóloga Christiane Sampaio e a antropóloga Alessandra Oberling discorreriam, a partir de suas experiências, sobre “Drogas, respostas alternativas e políticas públicas”.

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“Chegamos ao quarto ano do projeto e, é sempre bom lembrar, o objetivo não é buscar respostas prontas, mas caminhos possíveis para uma cidade mais pacífica, mais humanista e mais justa. Além disso, queremos promover o encontro entre a turma de jovens lideranças que atuam na cidade e a turma de jovens alunos da ESPM, nossa parceira e patrocinadora do Rio de Encontros. Desejamos que os encontros resultem em produções conjuntas”, disse Ilana.

Conhecedoras e defensoras da causa da descriminalização e da legalização, opositoras da atual guerra às drogas estabelecida pelas políticas em vigor no Brasil, Julita, Christiane e Alessandra, cada uma a seu modo, trataram de elucidar as muitas nuances que o tema envolve.

“Não dá para pensar a cidade sem passar pela questão das drogas. Da justiça à democracia, elas permeiam o nosso dia a dia”, Ilana justificou a urgência da discussão proposta pelo Rio de Encontros.

Pela problematização da política de drogas

A antropóloga Alessandra Oberging, da rede Pense Livre, faz a mediação do Rio de Encontros / Foto Paula Giolito

A antropóloga Alessandra Oberging, da rede Pense Livre, faz a mediação do Rio de Encontros / Foto Paula Giolito

Alessandra Oberling traz na fala o lema da organização que representa, a Rede Pense Livre.  Na luta por uma política de drogas que funcione, a antropóloga e membro do Comitê Interino para a Aliança Global defende que é hora – ainda que tardia – de problematizar o tema.

“Temos de parar e rever essa política. O número de dependentes cresceu e a política não atingiu os resultados a que se propôs. É uma política datada, que se disseminou a partir da década de 1970, na qual a proibição se faz pela criminalização. Esse paradigma perdurou, mas o resultado da guerra às drogas foi um fiasco em todos os países que a implementaram. Nos países latinos, as consequências foram ainda mais graves”, afirmou.

Encarceramento de negros e pobres, fortalecimento do tráfico, aumento de dependência de drogas mais pesadas, como o crack. A lista de resultados negativos da proibição, começa, mas não se encerra em três itens. Para Alessandra, autora do estudo etnográfico “Maconheiro, dependente, viciado ou traficante? Representações e práticas dos policiais militares sobre o consumo e o comércio de drogas na cidade do Rio de Janeiro”, a estratégia de intervenção do estado é totalmente equivocada.

O tabu que a proibição causou nos últimos anos foi a falta de informação das mais básicas às mais complexas, ela assegura. É preciso, portanto, dar um outro enfoque: “O Brasil anda muito lentamente. Ainda temos muita dificuldade de falar sobre o tema. Esperamos que o país pare e pense nessa política que tem produzido muito mais danos que benefícios. Em larga escala, o ápice da violência tem a ver com a política de extermínio”, sentenciou a pesquisadora, que atua em projetos com enfoque em direitos humanos, segurança pública, política sobre drogas, gênero e políticas públicas. 

Pela liberação das drogas

 

A socióloga Julita Lemgruber (à direita): “Não vamos nos enganar. A questão não é o uso, mas o abuso de drogas” / Foto Paula Giolito

A socióloga Julita Lemgruber (à direita): “Não vamos nos enganar. A questão não é o uso, mas o abuso de drogas” / Foto Paula Giolito

A socióloga Julita Lemgruber, coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes, é defensora voraz da legalização das drogas. Ex-diretora-geral do sistema penitenciário fluminense entre 1991 e 1994, e ex-ouvidora de polícia do Estado do Rio de Janeiro, ela tira os argumentos da experiência passada e da análise da realidade dramática atual: o Rio está pegando fogo. E a quem resiste a fazer a ligação entre os temas, ela responde com eloquência que não se engane, a política de guerra às drogas adotada no país e a violência caminham juntas.

Querem uma prova? Julita exibiu no telão  o cenário da morte do dançarino do programa de Regina Casé, o  DG, ocorrida em 22 de abril . Com a manchete do dia do jornal O Globo, a socióloga levantou a primeira questão: “O que leva o jornal a definir a população das favelas como vândalos? É ser no mínimo ingênuo achar que essas pessoas estão ali a mando do tráfico”, disparou. A explicação e as motivações são outras. “As UPPs, claramente, não tiveram o sucesso esperado e começam a fazer água por todos os lados. Além de não funcionar, há uma estratégia esquizofrênica por trás das ações policiais: a polícia é violenta, entra e sai, troca tiro e provoca morte de pessoas. O que está errado? Tem algo maior que a gente não percebe?”

Não vamos nos enganar, a quê está nos levando a guerra às drogas?

Com a imagem de um produtor de maconha em Denver, no Colorado, Julita discorreu sobre experiências que deram certo. “Denver legalizou a maconha recreacional. Dois estados americanos vão vender maconha para adultos em locais determinados e com orientação adequada. As taxas de criminalidade no Colorado caíram nos três primeiros meses de 2014 em relação a 2013.”

Portugal legalizou o consumo de todas as drogas há 12 anos. Na faixa de 15 a 24 anos, em vez de aumentar o consumo, houve redução ao longo desses anos. A Holanda, que tem política de tolerância ao uso da maconha, é o país que tem menos mortalidade por drogas pesadas e está desativando as unidades prisionais porque tem mais guardas que presos. Efetivamente, a criminalidade caiu, Julita lembra e compara com o Brasil, onde a população prisional por criminalidade triplicou. “O cara da ponta do varejo é o que vai preso porque não tem dinheiro para comprar polícia nem pagar advogado”, afirma.

Há certa – ou muita – hipocrisia no modo como a sociedade enfrenta a questão, segundo a socióloga. “O que tem no intervalo das novelas? Propaganda de cerveja. E o álcool é droga mais lesiva e que, disparado, causa mais danos ao indivíduo e seu entorno. Não vamos nos enganar. O problema não é o uso, mas o abuso das drogas, que sempre existiram e sempre vão existir. No caso da maconha, apenas 9% dos usuários se tornam dependentes”, ela sustenta os dados e levanta a questão:

“A que está nos levando a guerra às drogas? As pessoas se respeitam? Estamos preocupados com redução de danos? A população pobre não tem acesso a tratamento para dependência química. Como lidar com essa população usuária de crack que está nas ruas?”, ela deixa a pergunta.

Pela redução de danos

Christiane Sampaio: “A redução de danos é um olhar que não exclui a droga" / Foto Paula Giolito

Christiane Sampaio: “A redução de danos é um olhar que não exclui a droga” / Foto Paula Giolito

A psicóloga Christiane Sampaio conhece de perto a realidade dos dependentes químicos. Foi coordenadora dos Consultórios na Rua, ação do governo federal, e durante toda a década de 1990, esteve à frente da política de redução de danos do governo do estado do Rio de Janeiro. As experiências renderam a constante e atual militância em defesa dos usuários de drogas e o conhecimento sobre as políticas públicas implementadas para tratar a questão das drogas pelo viés da saúde.

“No início da década de 1990, o movimento deixa de ser uma ação sanitária para ganhar força de mobilização social. Isso perdeu força no início dos anos 2000, o que descongregou a base do trabalho. Mas ficou a ética do cuidado, da compreensão da questão do uso da droga, que ganhou um novo papel. Hoje, a redução de danos dentro dos serviços de saúde tem como desafio transformar o saber em hegemônico”, avalia.

A diferença entre a política tradicional e a política de redução de danos é fácil de compreender. A primeira prega que o sucesso no cuidado está na abstinência. A segunda, por sua vez, trata de garantir que o sujeito se relacione de modo mais equilibrado com a substância. O sucesso, nesse caso, está na ressignificação da prática.

“A redução de danos é um olhar que não exclui a droga das relações. Trata-a como inerente à história do sujeito e estabelece um novo paradigma: o médico e a enfermeira não dizem mais ‘você tem de parar de usar drogas para ser feliz’. Essa é uma mudança muito significativa na forma de estabelecer o cuidado. Tem de ter o olhar e a atitude de quem quer ajudar”, explica a psicóloga.

Do que você está precisando hoje?

Os Consultórios na Rua surgiram integrados aos CAPS – Centros de Atenção Psicossocial -, serviços comunitários para o tratamento de pessoas com transtornos mentais graves e pessoas com problemas mentais decorrentes do uso de álcool e outras drogas. Dos tempos em que coordenou a distribuição de seringas para usuários de drogas ao atendimento em Manguinhos, a psicóloga faz a comparação e atesta que, apesar dos poucos avanços, a situação é outra:

“Nos primeiros programas de redução de danos, as redes funcionavam às escondidas. O acesso, hoje, é bem mais fácil. Os Consultórios na Rua são a via de acesso dessas populações ao SUS, sem exigir que o sujeito seja abstêmio. A abordagem é de aproximação, é de perguntar o que ele está precisando hoje”, ela afirma.

Nos consultórios, o atendimento é feito de forma rotineira para garantir o vínculo do usuário com a equipe. “Existem ações que dificultam, o processo, como questões de segurança pública, isso faz com que os usuários migrem de um território para outro, o que dificulta as ações de saúde. É preciso remapear essas populações.”

 

Debate aberto

Christiane Sampaio, Alessandra Oberling e Julita Lemgruber / Foto Paula Giolito

Christiane Sampaio, Alessandra Oberling e Julita Lemgruber / Foto Paula Giolito

Alessandra Oberling, no papel de mediadora, dez as duas primeiras perguntas. A Julita Lemgruber, sobre o que a experiência do Uruguai tem a ensinar. A Christiane Sampaio, por que a internação não é a melhor solução para os dependentes químicos, principalmente a população de rua.

Julita Lemgruber está certa de que o Uruguai vai nos ensinar muito. “Até o ano passado, 60% da popúlação eram contra a Lei. Duas semanas atrás, uma nova pesquisa mostrou que mais de 50% acreditam estar no caminho certo. É importante lembrar que maconha é generalizada como modo de ser naquela sociedade. O traficante estava oferecendo outras drogas. A existência do tráfico é que leva a outras drogas. Estudos mostram que a maconha pode, inclusive, ser porta de saída para usuários do crack”, pontuou.

De acordo com a psicóloga Christiane Sampaio a internação é excludente e dá ao sujeito um lugar distante, a exemplo do que ocorreu com os pacientes psiquiátricos. “A internação não é medida de salvação, não problematiza, exclui. O buraco é bem mais embaixo. Não existe fórmula mágica. A gente tem tecnologias de cuidado, como o CAPS. A internação pode ocorrer para desintoxicar, por um período de 15 dias, por exemplo. O tratamento tem de ser multidisciplinar. Mas não temos dispositivos disponíveis, é preciso ampliar a cobertura”, ressaltou ela.

Bate e volta

Na plateia, jovens atuantes em projetos nas periferias do Rio / Foto Paula Giolito

Na plateia, jovens atuantes em projetos nas periferias do Rio / Foto Paula Giolito

A legalização das drogas, bandeira respaldada em experiência e pesquisa de Julita Lemgruber, Christiane Sampaio e Alessandra Oberling, virou polêmica quando chegou à plateia. As perguntas e opiniões que seguiram demonstram que o consenso está longe de ser alcançado. Mas reforçam que o tema está interligado a muitos outros, da educação às manifestações indignadas e violentas nas ruas, da ausência do estado e dependência da igreja no cuidado com os dependentes ao combalido esquema da segurança pública no Rio.

Como seria o controle de outras drogas no Brasil? O Brasil está pronto para legalizar? “Esse país é uma esculhambação generalizada. É mais fácil comprar outras drogas que antibióticos. A possibilidade de regular mercado e fazer campanhas só pode ocorrer com a droga legalizada”, realçou Julita Lemgruber, que usa o exemplo do cigarro para falar da importância do que defende: “Em 15 anos, o Brasil reduziu em mais de 60% o número de fumantes. A gente proibiu? Não. Esse país é esculhambado no que quer ser. O Ministério da Saúde conseguiu implantar política pública decente contra o cigarro. O governo precisa querer, mas só vai querer se nós, sociedade, quisermos. Nós somos os primeiros a ter de exigir”, clamou ela.

Como seria feita a fiscalização do consumo pela população menor de idade? “Existe o mercado ilegal, mas que é regulamentado, só que não pelo governo. As regras existem e são violentas”, alertou Alessandra Oberling.

O que está aí não está funcionando, Julita Lemgruber emendou o coro. “A legislação atual dá brechas para que o juiz, por exemplo, use circunstâncias pessoais e sociais na hora de julgar entre usuário e traficante. O que está aí está dando resultados? O que está por trás da violência é a guerra às drogas.”

Na comparação com outros países, a socióloga lembrou que os EUA, por exemplo, tem apenas 400 mortes por ano provocadas pela polícia. “No Brasil, um quinto das pessoas que morrem em ações letais são mortas pela polícia. Cinco mil pessoas desaparecem por ano. está indo tudo bem? Tudo está esculhambado porque o Brasil tem uma violência letal inaceitável para uma sexta economia do mundo”, exclamou a socióloga.

Alunos da ESPM, a Escola Superior de Propaganda e Marketing, na plateia do Rio de Encontros / Foto Paula Giolito

Alunos da ESPM, a Escola Superior de Propaganda e Marketing, na plateia do Rio de Encontros / Foto Paula Giolito

Como a escola deve lidar com o aluno usuário de drogas? Essa guerra tem cunho social? O que classifica uma pessoa como viciada? A clientela do crack não estaria morrendo muito jovem?

“A escola tem de poder problematizar, discutir, educar para a autonomia em vez de educar para a obediência. E não somente em relação às drogas, mas para a vida”, Christiane Sampaio esclareceu que vício e a dependência são subjetivos. “O vício tem relação com o grau que o sujeito estabelece com a droga. toda relação de exclusividade é danosa. O vício ocorre quando o sujeito estabelece vínculo que não dá brechas para outras coisas na vida. É a compulsividade. A morte prematura pelo crack é fantasia. O que mata não é o crack, são as questões de saúde que se agravam pelo laço da exclusividade com a  droga. A violência também mata. Mas o crack, apesar de potente, não mata”, afirmou.

Maconha está sendo tratada como já foram tratados o cigarro e o álcool. Mas a maconha não é cool. Não é importante ter como pauta parar de consumir? O álcool leva a drogas mais pesadas? É possível pensar em descriminalização de todas as drogas? Se liberar, como a maconha vai circular na indústria? Novamente a plateia se manifestando. As muitas vozes da plateia se manifestaram. Houve defesa do papel das instituições religiosas no acolhimento aos usuários de drogas, queixas contra a falta de referência no atendimento proposto pelo estado.

“O atendimento em instituições como a Cristolândia existe, mas não é humano. Não posso ficar feliz porque a porta está aberta. A ação religiosa não pode substituir a ação do estado. Há uma estratégia política de esvaziamento. O estado não tem de se vincular a ações de higienização. A liberdade é terapêutica. A ausência dela é algo muito sério”, realçou Christiane Sampaio.

Por sua vez, Alessandra Oberling lembrou que há interesse político por trás das comunidades terapêuticas. “Algumas fazem trabalho sério, outras são puro interesse monetário. Há um projeto de lei no Congresso que propõe uma política nacional de intervenção maciça. Não é porque o estado não faz que vamos aceitar práticas indevidas”, completou. A legalização, segundo ela, vai abrir uma porta.”Não é uma panacéia. Vai permitir que não se veja o usuário como criminoso. Não é a polícia que vai cuidar, mas o agente de saúde.”

E o policiamento comunitário que não funciona? E as UPPs, que vieram importadas da Colômbia? As interrogações seguiram manhã adentro. Julita Lemgruber tratou de esmiuçar o que considera relevante para o debate sobre a necessária revisão da política de drogas no Brasil.

“O policiamento comunitário foi tentado desde o governo Brizola. Por várias razões, as tentativas não tiveram continuidade. A UPP não foi importada, mas dá segmento a outras políticas que não foram continuadas. Demos com os burros n’água por razões que talvez também levem as UPPs a dar com os burros n’água. Foi anunciada a ouvidoria das UPPs no dia em que o DG foi morto. Somente agora? Fui ouvidora da polícia e sei a importância que isso tem. Entrou a polícia, mas não entraram outros serviços, os policiais não são capacitados. Essas UPPs não funcionam porque não são levadas a sério. Não basta encher a favela de polícia. Policiamento comunitário tem de ter cuidado que não é só invadir territórios. Se desde 2008 tivessem sido criadas ouvidorias, haveria interlocução com a comunidade”, avaliou.

O que pode ser pensado junto a uma política inovadora para preparar a sociedade e as famílias? Perguntou Ilana Strozenberg, diante do visível susto e da resistência dos jovens.

“O problema é a existência de uma rede de baixa cobertura para cuidado em álcool e droga. Tem a ver com desinvestimento. As unidades de saúde são colchas de retalhos com pouco poder de barganha. Tem de se investir em moradia, em lazer, em espaço de tratamento e dispositivos de cuidado. Há regiões com verdadeiros vazios de inserção. São Paulo tem uma experiência que tenta algo novo, o programa Braços Abertos, que oferta oportunidade de ocupação e emprego. Tem gente para quem se você dá o espaço, a droga esvazia, perde sentido”, avaliou ela, lembrando também que atenção básica tem sido o grande foco das ações de saúde. “Há uma aposta na ação próxima do território do sujeito. Não sei se essa atenção básica dá conta, mas esse é o foco”, disse.

Julita Lemgruber foi taxativa: “Todos vocês estão resistentes a discutir. Lamento profundamente que não queiram discutir. Estão repetindo mantras que a mídia alardeia todo dia. O nível de desinformação é grande, assim como a recusa em aceitar os resultados palpáveis que alguns países estão alcançando. O Brasil é um país de mentirinha. Há uma meia dúzia de pessoas que estão lucrando com a droga que não é legalizada. Mas não é essa minoria que vai para a cadeia. Vou dedicar os últimos anos da minha vida profissional a tentar estimular o debate na minha cidade, no meu país. Gostaria que vocês saíssem daqui dispostos a pesquisar mais. Tentem abrir suas mentes e seus corações e tentem ver um pouco mais do que estão vendo hoje. Nós estamos vivendo numa sociedade minimamente segura e respeitosa dos direitos das pessoas?”, encerrou.

Legalização das drogas: Quê? Como? Cuma? Onde?

Um texto cheio de opinião. Para dar provas de que está disposto ao debate, Jorge Soares, da turma do Rio de Encontros 2014 e do Parceiros RJ, programa da Rede Globo, escreveu suas impressões sobre o encontro “Drogas, respostas alternativas e políticas públicas”. É para ler e, quem quiser, escreva o seu, o espaço está disponível. Ao Jorge, logo abaixo:

Opinião: Jorge Soares, da turma do Rio de encontros 2014 / Foto Paula Giolito

Opinião: Jorge Soares, da turma do Rio de encontros 2014 / Foto Paula Giolito

Nesta terça-feira, 29/04, jovens de diversas regiões do Grande Rio e atuantes em projetos sociais, estudantes da ESPM e demais pensadores da cena carioca se reuniram em mais um Rio de Encontros para discutir a seguinte questão: “DROGAS: RESPOSTAS ALTERNATIVAS E POLÍTICAS PÚBLICAS. “Não dá pra pensar cidade sem passar por esse tema”, disse Ilana Strozenberg. A conversa foi mediada pela antropóloga Alessandra Oberling e os espaços de fala
ficaram a cargo da socióloga Julita Lemgruber e da psicóloga Christiane Sampaio.

Alessandra fez uma breve exposição questionando a “política sobre drogas” que parte do principio que essas substâncias devem ser proibidas para garantir saúde à população; política essa que impera no Brasil e em diversos países do globo, gerando resultados catastróficos. Segundo a antropóloga, “Vemos hoje o fácil acesso às drogas e o controle é pífio. Há uma série de consequências negativas associadas a uma estratégia do Estado equivocada”.

Julita iniciou sua fala mostrando imagens dos últimos acontecimentos no Rio, onde ônibus foram queimados por manifestantes que vivem em favelas, questionando o termo “vândalos” utilizado na manchete do jornal O Globo. “A política de segurança pública chegou a um ponto que não tem como as pessoas não se indignarem”, disse Ela. Logo depois, fez um panorama das mudanças que estão acontecendo ao redor do mundo quanto à legalização das drogas:

o Live Well, maior produtor de maconha do estado do Colorado,EUA. Produz uma tonelada por mês empregando 300 funcionários trabalhando 7 dias por semana, 24hrs por dia.[ O Colorado decidiu em 2012, por plebiscito, legalizar a produção e venda de maconha para fins recreativos. Redução considerável da criminalidade]

o Portugal descriminalizou o consumo de drogas há 12 anos.

o A Holanda não legalizou as drogas, mas há uma política de tolerância quanto ao uso da maconha. Estão reduzindo a população carcerária e fechando presídios.

o O Brasil já possui a quarta população carcerária do mundo e parte considerável é composta por pessoas da ponta do mercado ilegal de drogas.
“A questão não é o uso, é o abuso das drogas”, sintetizou a socióloga.
Christiane definiu duas políticas sobre drogas: a “tradicional” que tem por objetivo principal a abstinência e a de “redução de danos” que visa a possibilidade do sujeito se relacionar melhor com a droga, dar outra alternativa ao usuário, não tendo como perspectiva de sucesso a abstinência. “A droga faz parte da vida das pessoas”, disse a psicóloga. Ela também salientou que a porta de entrada para o diálogo com os usuários é “a via da saúde, do cuidado”.

Resumindo, disse: “Não inventaria grandes rodas. O que devemos trazer de fora é a forma de olhar o problema”.

Após as falas iniciaram as perguntas, e de fato foram muitas perguntas e poucas as respostas. O plote central não foi a legalização das drogas em si, já que – mesmo não parecendo – a maioria dos integrantes era a favor, e sim, como isso seria feito em uma sociedade onde:

o A bebida alcoólica, droga lícita, é proibida para menores de 18 anos. E mesmo assim milhares de jovens consomem indiscriminadamente e a fiscalização é insignificante.

– O Avião da FAB (Força Aérea Brasileira) é utilizado para o trafico de drogas; O banco internacional HSBC lavava dinheiro proveniente do narcotráfico mexicano e onde o helicóptero do deputado estadual de MG é retido com 445 kg de cocaína.

– Ações de entidades privadas e cristãs mostram efeitos concretos de ajuda a
dependentes químicos e mesmo assim não são apoiadas pelo estado. Sendo taxadas como desumanas.

– Há uma nítida de distinção entre as classes que classifica o consumidor das camadas mais pobres como traficante e o da classe media e alta como usuário.

– A Escola não possui estrutura pedagógica e estrutural para lidar com jovens usuários e acaba excluindo estes de seu ambiente.

Os tópicos acima foram extraídos das perguntas feitas pelos participantes. Dentre respostas vagas e abrangentes mencionou-se: a experiência no Uruguai onde, antes da legalização da maconha, mais de 60% da população era contra e hoje mais de 50% acredita que estão no caminho certo; a regulação e fiscalização do uso de antibióticos no Brasil que hoje é bem executada; a redução do uso de tabaco no Brasil após ação séria do governo; a internação como uma forma de tirar o usuário do bojo da sociedade, porém foi considerada, em um período pequeno, em casos de desintoxicação. Alessandra Oberling finalizou com a seguinte frase: “A legalização vai permitir que o usuário [de droga] não seja
visto como criminoso”.

Até esse debate, a minha posição era: O álcool – causa de 80 mil mortes por ano, no Brasil – é liberado, o tabaco – 200 mil mortes por ano, no Brasil – é liberado, porque as drogas não? E agora, minha posição é: a mesma.

A grande questão, repito, é como essa legalização será feita. Será Legalização da droga (maconha) ou Legalização das drogas (Maconha, Ópio, Psilocibina, DMT, Anfetaminas, Barbitúricos, Ecstasy, LSD, Metanfetamina, etc.)? E a fiscalização? Quantidade de consumo por pessoa? E será qualquer pessoa, inclusive turistas e menores de 21 anos? Os impostos da produção, distribuição e comercialização? E essa legalização será acompanhada de uma ação ativa e efetiva contra o tráfico, minando os PEIXES GRANDES desse grande negócio? Minar os PEIXES GRANDES significa desmantelar a corrupção no Legislativo, Executivo e Judiciário? E a saúde será preparada para acolher as novas demandas dessa política? E a educação, será implementada uma política efetiva de cconscientização e reflexão? O quadro de guerra ao tráfico que vivemos hoje tem que chegar ao fim, agora o próximo passo não pode ser dado com essas questões soltas no ar.

O discurso não pode ser: “Legaliza, e depois a gente vê o que faz”. E tenho plena noção de que a legalização não virá simultaneamente junto com todas as ações acima questionadas, mas pelo menos temos que ter as diretrizes claras, objetivas e plenamente construídas a partir do diálogo com a sociedade civil. E diálogo significa discutir com pessoas dos mais diferentes níveis sociais, com atuação diversa nos mais variados setores da nossa cidade, com pontos e contrapontos, e não apenas com os que possuem uma opinião semelhante a nossa.