Provocações

Eliana Sousa e Silva: "Vocês estão produzindo muito conteúdo, mas o que é feito depois com isso?" (Foto: Kita Pedroza)

Nem só de falas positivas foi feito o Rio de Encontros. Havia alguma tensão no ar, como o incômodo de Fiell com a fala dos Parceiros do RJTV, projeto que ele considera limitado. Houve também uma provocação construtiva de Eliana Sousa e Silva: “Vocês estão produzindo muito conteúdo, mas o que é feito depois com isso? Que outros usos podemos dar para esse material? Nossa parceria com a Redes da Maré vai levar o jornal para as escolas do Complexo, será que isso pode ajudar? Por um lado sabemos que os professores estão lotados de informação, mas esse material pode ser útil para discutir nas aulas. Por que, indo mais longe, não desenhamos um projeto de cobertura integrada de grupos para o Rio + 20, que vai acontecer ano que vem?”

Houve ainda o desabafo do jornalista Guilherme Amado, setorista de UPP do jornal Extra: “Mídia convencional não é estrutura monolítica em que um ser superior decide. Vocês podem participar ativamente, têm que ter os celulares dos editores. Já fui acordado pelo Fiell várias vezes. Temos que trabalhar juntos para que ela seja melhor, não acho que ela seja um vilão”. Guilherme citou o caderno de fim de semana do jornal, que listou eventos culturais em favelas com UPP. Flavia Oliveira ponderou: “Concordo com você que tem intolerância de parte a parte. Tem morador de favela que tem visão preconceituosa. O ponto é: por que uma programação de favela só numa edição, temos que avançar, incluir, o subúrbio, a zona oeste, que não estão contemplados na programação cultural”.

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O debate bombou (parte 2):

Confira trechos das falas de Luis Henrique Nascimento, Julia Michels e Jean Jacques Fontaine, Parceiros do RJTV, Milton Quintino e Don:

Luis Henrique Nascimento, coordenador da Escola Popular de Comunicação Crítica do Observatório de Favelas: “Hoje temos turma de 50 alunos, mas vai ter 150 em breve. Nosso sonho é que os participantes possam viver de comunicação. Tem muita gente que já criou rádio comunitária ou jornal, mas teve que começar a trabalhar em outra coisa e largou. Um dos focos é trabalhar sustentabilidade para que essas iniciativas não desapareçam. E focar na qualidade profissional desses alunos. Por que não podemos publicar anúncio do comércio local? A escola trabalha com módulos sobre teoria da comunicação, comunicação integrada, (rádio, web etc.), comunicação visual… Se ficarmos falando só entre a gente não geramos mudança. Foco é falar com milhares de pessoas. Por isso, na próxima turma vai nascer uma agência de publicidade, com objetivo de desnaturalizar o discurso que existe sobre favela.

Julia Michels (Rio Real Blog) e Jean Jacques Fontaine (Vision Brésil): Dois estrangeiros (Julia é americana, Jean Jacques é suíço), ambos residentes no Brasil e com experiência em comunicação. Julia vive no país há 30 anos e se dedica ao blog em que dá sua visão das questões cariocas em posts em português e inglês. “Temos muitos leitores fora. O maior desafio é ser levada a sério no Brasil, queria muito que os cariocas me lessem também”, disse ela, aproveitando para divulgar uma área do blog para convidados. Jean Jacques é jornalista de rádio e televisão e foi correspondente na América Latina, até decidir se mudar definitivamente para o Brasil. Além do blog, escrito em francês há três anos, ele coordena o Projeto Jequitibá, que oferece formação básica em jornalismo de rádio comunitária no Brasil todo, em parceria com a Unesco e com financiamento de instituições suíças. “Na perspectiva dos jogos olímpicos a gente se pergunta se seria possível montar, com recursos do Comitê Olímpico, ou da Unesco, um projeto de apoio de melhoramento técnico das rádios comunitárias”, sonha ele.

Parceiros do RJTV: Gisela, Lana e Thiago, do RJTV. Gisela: “O jornal está cada vez mais próximo da comunidade. Abrimos inscrições para oito regiões do Rio de Janeiro, houve prova escrita, dinâmica, escolhemos 16 pessoas, tinha que ter ao menos ensino médio. São moradores preocupados com suas comunidades. Aprendemos muito com essa etapa de seleção. Demos equipamentos para eles, eles se revezam na função de repórter e câmera, tiveram curso com um monte de gente. Uma vez por semana a gente se encontra e  conversa”. Alana: “Somos contratados com carteira assinada. Sou do Complexo do Alemão, não quero sair de lá. Foi brilhante ideia para colocar o morador pra falar”. Tiago: “Também sou do Complexo do Alemão. É um canal para ligar os jornais comunitários à grande impresa, mas os dois lados têm que estar abertos. Denunciamos o atraso no pagamento do aluguel social para 300 famílias e conseguimos reverter a situação”.

Milton Quintino, do site Correspondentes da Paz: “A ideia era criar uma rede social que desse voz ao jovem na questão da criação da UPP. Reparamos que já havia muitos cursos de formação para esse público, então investimos no entendimento conjunto do valor do espaço das redes sociais para politização. Discutimos muito com eles: o que é relevante mostrar?”

Don (blogueiro e fotógrafo da Cidade de Deus): “Fui aluno de formação de correspondentes Viva Favela. Me identifiquei com fotografia, comecei a produzir conteúdo da Cidade de Deus para o site e para meu blog. Circular com câmera numa comunidade não é fácil, tem assédio de polícia, de traficante que não quer que algumas coisas sejam mostradas. É difícil ser remunerado, produzo conteúdo de graça para o Viva Favela, faço por amor. Recentemente o Toni Barros, também fotógrafo, teve câmera quebrada por agente de polícia militar. A sensação é que estamos em território de guerra, não senti diferença nenhuma com UPP. Para jornalismo comunitário até piorou, porque a polícia fica enchendo o saco. Na época do tráfico só a gente tinha mais liberdade.”

O debate bombou (parte 1)

Confira uma seleção dos melhores momentos das falas de Fiell, Maria do Socorro, Dudu de Morro Agudo, Marina do NPC e Eliane Silva, da Redes da Maré:

Fiell, da Rádio Comunitária do Morro Santa Marta: “Comunicação é um poder, como o legislativo e o judiciário. Ela informa ou desinforma. Nossa rádio surgiu para dar atenção para as informações daquele lugar. O desafio é formar essa rádio com todos os empecilhos da lei, como não poder vender propaganda. Ela sobrevive na solidariedade, todos os trabalhadores são voluntários. Quando abriu foi uma revolução, as pessoas podiam participar. Mas em 3 de maio de 2011, Dia da Liberdade de Imprensa, chegou lá a Anatel, com Polícia Federal, e fechou tudo. A rádio não tem nada a ver com a UPP, pelo contrário. Sem a rádio a população perde muito. No próximo mês voltamos ao ar, na 103,3 FM e na internet – mas internet quase ninguém ouve ainda.

Maria do Socorro, do Portal da CDD: “Sou moradora da Cidade de Deus há 30 anos. O portal é experiência que vem de um jovem, que chegou na comunidade para fazer uma pesquisa sobre as instituições da Cidade de Deus e descobriu que todas desejavam ter um site. Aí ele estimulou a discussão sobre um site coletivo, em 2008. Conseguimos construir o portal comunitário, onde cada instituição tem seu espaço, sua senha de acesso. Começamos a construir memória da comunidade a partir do portal. Tem também o espaço do “Fala comunidade”, pras pessoas se expressarem. O site está ficando mais popular na comunidade, semana passada tivemos mil acessos. Pena que a internet digital da Cidade de Deus não funciona até hoje”. [Risos na plateia: William da Rocinha comenta que lá também não; Fiell diz o mesmo do Santa Marta].

Dudu de Morro Agudo, do Portal Enraizados: “O portal foi criado inicialmente para botar em contato as pessoas de hip hop do Brasil inteiro. Começou em 1999, mesmo com a internet não tão difundida. Em 2006 o portal tinha 600 mil acessos por mês. Pouco tempo depois esse número caiu, porque as pessoas começaram a ter seus próprios blogs. Hoje o site é uma revista, com gente que escreve do Brasil todo. Tem também o site institucional. A partir de 2005 começamos a viajar e conhecer políticas públicas, então começamos a ver nosso bairro de jeito diferente. O padrão dos jovens era admirar bandido, começamos a mostrar outras coisas, e trazer pessoas de fora da comunidade com histórias motivadoras. Temos rádio web. Temos também TV no Youtube e jornal [Te cuida Globo, berrou alguém na plateia]. E mantemos um espaço alugado de 400 metros quadrados com biblioteca, estúdio e telecentro. Nosso grupo é bom, mas tem pouca gente qualificada. Então voltamos todos a ser estudantes. Hoje temos um dos nossos como Parceiro do RJ, tem um pessoal no Futura e também no jornal O Dia.”

Marina, do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC). “Curso de comunicação comunitária que está na ativa desde 2005. É ministrado no Sindicato dos Engenheiros, na Cinelândia. A primeira turma tinha só gente que já fazia comunicação comunitária. Aos poucos fomos abrindo mais e recebendo gente de várias favelas, de movimentos sociais. Teve até um engenheiro que fez o curso e hoje participa do Boletim do MST. Principal desafio é como tornar a comunicação algo que faz parte da vida da pessoa. Quem financia é a Fundação Rosa Luxemburgo, agora temos 50 pessoas por turma e fila de espera. Todos os professores são voluntários. Estamos na sétima edição do curso. É aos sábados, de 15 em 15 dias, por quatro meses. Tem aula de História do Brasil, de redação, de internet. O Fiell diz que gosta de ser repetente desse curso.” [Fiell pediu a palavra de novo e falou: “Este curso foi minha janela para conhecer a luta dos trabalhadores do Brasil. Lá aprendi a diagramar, fazer pauta, não é tão difícil quanto falam por aí…”]

Eliana Souza, da Redes da Maré. “O jornal Maré de Notícias surgiu do desejo de um projeto estruturante para conjunto de favelas da Maré. Pensamos hoje que o papel que podemos desempenhar para contribuir para melhorar a qualidade de vida. Jornal nasce da ideia de ser veículo de comunicação social. Reunimos gente também de fora da maré para colaborar. Fizemos pesquisa para saber como os moradores se sentiriam representados, inclusive o nome do jornal foi votação. Tentamos passar mensagem reflexiva sobre problemas do bairro, e tentar propor soluções para o bairro e para a cidade. Para isso estamos sempre nos reunindo com associações de moradores para pensar o nosso papel e qualificar pessoas que possam ser parceiras do jornal. Ele tem 35 mil exemplares entregues de porta em porta, é mensal, tem 1 ano e 7 meses.”

Viva Favela 10 anos: mais colaborativo

Mayra Jucá fala dos 10 anos de Viva Favela (Foto: Kita Pedroza)

O Viva Favela está comemorando 10 anos. E para este marco, reformulou sua estrutura, deixando de ser apenas uma revista virtual com participantes fixos para virar um portal colaborativo. Assim, deixou também de focar apenas nas favelas cariocas para receber colaborações de pessoas do Brasil todo. Seja como for, ele continua com os elementos essenciais intactos: o desejo de mostrar o olhar de quem vive nas comunidades e o estímulo ao diálogo entre comunicadores populares e a grande mídia.

A equipe do Viva Favela participa do debate falando e filmando. (Foto: Kita Pedroza)

Pois foi assim mesmo que tudo começou: um seminário do Viva Rio reuniu dirigentes de grandes empresas de comunicação, como O Globo e O Dia, e lideranças comunitárias. Choveram reclamações destas últimas, alertando para a maneira equivocada como as populações de favelas eram tratadas nas reportagens. Assim, a entidade resolveu criar um site que juntasse correspondentes locais e jornalistas profissionais. Hoje são cerca de 1400 correspondentes em diversos estados brasileiros, dando sua visão (em imagem, texto e vídeo) dos fatos.

Mayra falou ainda da rede que já existe entre o portal e outras iniciativas ali presentes: “Muitos de nós já nos conhecemos, muitos já têm trabalhos em comum. O grupo de fotógrafos do Viva Favela fez curso no Observatório, o Vitor do Núcleo Piratininga foi editor convidado da revista, o Portal da Cidade de Deus usa o Viva Favela pra chamar atenção de seus eventos e posts”.

Futura e a ampliação dos debates

Marisa Vassimon, do Canal Futura. (Foto: Kita Pedroza)

O Canal Futura tem uma situação sui generis no universo da televisão: é iniciativa privada de interesse público, e faz parcerias com organizações locais para produzir conteúdo nacional. Neste contexto tão amplo, Marisa Vassimon, gerente de mobilização comunitária do canal, contou que um dos principais objetivos de sua equipe é estimular debate entre gente que pensa diferente. “Desconfiamos de nossos próprios pontos de vista, como comunicadores, porque nem sempre eles refletem o real”.

Assim, uma das meninas dos olhos da programação atual é uma faixa de horário, na parte da tarde, em que um tema é debatido por gente de estados diferentes (ou de ideias diferentes) e quem mais quiser participar, mandando contribuições por webcam, texto ou imagem. Tudo ao vivo. Encantada com as possibilidades de interação que esse tipo de debate gera, Marisa propôs que os grupos ali presentes usassem este e outros espaços para juntar forças e trocar ideias.

A mídia popular aos olhos da Unesco

Guilherme Canela, da Unesco, foi um dos iniciadores do debate. (Foto: Kita Pedroza)

Guilherme Canela falou da perspectiva de uma entidade internacional, a Unesco, e lembrou a importância de questões nacionais para a otimização da comunicação local: os impasses sobre sigilo de documentos governamentais, do marco civil da internet e da política de banda larga.

Ele lembrou de um aspecto que deveria ser óbvio, mas é difícil de se consolidar no Brasil: a comunicação é elemento central da democracia, e todos devem poder fazer uso dela, não só os proprietários de grandes empresas de mídia. Citou ainda uma pesquisa da ONU com indicadores que mostram que só teremos um país desenvolvido se tivermos complementariedade entre sistema privado, estatal e público na comunicação. “Temos necessidades concretas de remodelação do cenário atual para que as coisas avancem. A legislação de rádio comunitária é muito restrita”, exemplificou ele, fazendo com que Fiell, da rádio comunitária fechada recentemente no morro Santa Marta, acenasse com a cabeça da primeira fila da plateia.

Para além disso, há aspectos simbólicos que valorizam a mídia comunitária: só ela consegue ser janela e espelho do mundo. “A mídia tradicional só consegue ser janela”. Além disso, são os agentes da primeira que fazem diferença na hora da implantação de uma política pública.

Mas nem sempre é fácil. A Unesco tem informes que mostram a situação vulnerável de comunicadores comunitários do mundo inteiro – há um significativo número de mortos ou ameaçados na recente revolta no mundo árabe, por exemplo. A situação no Brasil não é menos arriscada, como mostraram os relatos de alguns participantes.

Um mundo de gente

Foto de Kita Pedroza

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A edição de junho do Rio de Encontros foi, possivelmente, a mais cheia e animada da história do evento. O tema Mídia nas Favelas atraiu muita gente que participa de projetos comunitários de comunicação e pessoas de outras áreas que se interessam pelo tema. Assim, o esquema do debate – ter iniciadores do palco, mas enfatizar o diálogo entre todos na plateia – nunca fez tanto sentido.

Já no café da manhã, diversos jovens comunicadores se espalhavam pelo salão, conversando animadamente. Alguns também preparavam suas câmeras e gravadores para registrar o evento. O papo, mediado com desenvoltura pela jornalista d’O Globo Flavia Oliveira, contou com iniciadores tarimbados: Guilherme Canela, diretor de comunicação da Unesco; Marisa Vassimon, gerente de mobilização comunitária do Canal Futura, e Mayra Juca, coordenadora de comunicação do Viva Rio e do Portal Viva Favela.

Pelas cadeiras do auditório da Casa do Saber estavam alguns dos principais responsáveis pelo enorme crescimento da mídia popular em áreas diversas da cidade (seja favelas, subúrbio ou Baixada): Dudu de Morro Agudo, do grupo Enraizados; Eliana Souza, da Redes da Maré; Fiell, Zé Mário e Francisco, da Rádio Comunitária do morro Santa Marta; Maria do Socorro, do Portal da Cidade de Deus; Don, fotógrafo e blogueiro da Cidade de Deus; Lana, Thiago e Gisela, parceiros do RJTV; Marina e Luiza, do Núcleo Piratininga de Comunicação; Milton Quintino, do Correspondentes da Paz; Luiz Henrique Nascimento, do Observatório de Favelas; João Roberto Ripper, da Agência Fotográfica Imagens do Povo; Julia Michels, do Rio Real Blog; Jean Jacques Fontaine, do Projeto Jequitibá. Todos contaram um pouco de suas experiências e viram muitas semelhanças em suas trajetórias, tanto nas coisas boas quanto nas dificuldades.

E eles não foram os únicos a pedir a palavra. Leona Forman, da Brazil Foundation, contou que está trabalhando na abertura de um fundo carioca, para receber doações para projetos sociais da cidade. E Guilherme Amado, jornalista do Extra, fez um desabafo em relação à vilanização a que sua classe é submetida frequentemente, gerando o momento mais quente do debate.

Nos próximos posts, mais detalhes da conversa.