Internet e as novas formas de mobilização e representação em debate

Plateia na abertura do Rio de Encontros 2016, na ESPM / Foto: Thiago Brito

Plateia na abertura do Rio de Encontros 2016, na ESPM / Foto: Thiago Brito

O Banco dos Irreais tem uma moeda valiosa que circula a despeito do capital como o conhecemos. O Mudamos conecta pessoas em torno de elaboração de políticas públicas. O Meu Rio mantém uma panela que faz pressão na caixa postal de políticos e de quem mais subverta a ordem que a cidade merece ter. Três iniciativas voltadas ao fortalecimento da cidadania tendo a internet como território essencial para a disseminação das suas práticas. Delas vieram os provocadores convidados para o primeiro Rio de Encontros de 2016, realizado no dia 28 de abril, no auditório da ESPM, no Centro do Rio: José Miguel González Casanova, artista plástico e educador; Fabro Steibel, professor do mestrado em Economia Criativa e da graduação da ESPM Rio; e Rafael Rezende, ativista e mobilizador de causas pró-Rio.

Com o tema “A internet e as novas formas de mobilização e representação”, o evento reuniu a nova turma de jovens realizadores que dará o ar de sua graça durante a temporada deste ano, alunos da Escola Superior de Propaganda e Marketing e gente interessada no tema vinda de instituições afins ou simplesmente pelo interesse em dar sua contribuição para o bom debate. Se o Rio é de todos, nada mais justo que manter as portas abertas para o encontro.

Para ver as fotos do encontro, CLIQUE AQUI

Mediado pela diretora acadêmica d’O Instituto, Ilana Strozenberg, o Rio de Encontros começou, claro, com boas-vindas e um aviso: os encontros têm lugares intercambiáveis. A plateia pode trocar o papel com os provocadores e vice-versa. “É sempre bom dizer ‘que a gente pretende, aqui, potencializar a riqueza que  só se encontra no enfrentamento de diferenças. Como é bom poder, efetivamente, dialogar”, reforçou Ilana.

A abertura é a hora também de agradecimentos e de reforçar parcerias. A ESPM, patrocinadora desde 2014, e responsável por manter o laboratório de comunicação aberto aos jovens do projeto para experiências com o uso de novas mídias. “Especialmente em momentos como esse que a gente está vivendo, de tamanha incerteza, o Rio de Encontros só ganha mais importância pela oportunidade de dividir e partilhar”, realçou a diretora da unidade Rio, Flávia Flamínio.

Plataformas de mobilizaçāo e novos modelos de participação

Um tema guarda-chuva e muitas conversas derivadas. Assim será o Rio de Encontros em 2016. Em seu sétimo ano, o ciclo de debates propõe o desafio de pensar o futuro a partir das transformações provocadas pelas tecnologias da comunicação e a cultura das redes.

26112998344_fd1aa1b6e0_o.jpg

Fabro Steibel: “É preciso engajar as pessoas, conectar setores diversos. A internet dá a riqueza de poder trazer outras vozes.” / Foto: Thiago Brito

Para começar, uma exposição sobre uma plataforma inovadora, o Mudamos, explicada por um dos seus idealizadores, Fabro Steibel, professor do mestrado em Economia Criativa e da graduação da ESPM Rio, pesquisador independente da Parceria de Governo Aberto no Brasil e  diretor executivo do ITS Rio.

O princípio da plataforma é a construção democrática de soluções sobre temas relevantes para a coletividade a partir da reunião de segmentos diversos da sociedade. Pessoas que participaram, inclusive, da construção do Marco Civil da Internet, a lei que regula direitos e deveres na web brasileira. Um exemplo da força que tem a união de muitas mãos e mentes por uma causa comum.

Trocando o Mudamos em miúdos, trata-se de uma plataforma que pretende ser colaborativa e multisetorial. “Existem muitas forças polarizadas e antagônicas em todos os principais temas. O que a gente faz é criar uma ferramenta para que as pessoas possam conversar e chegar a um tipo de acordo”, explicou Steibel.

Afinal, como se dá o processo de elaboração de políticas públicas? “Do papel para a prática há uma estrada longa. Todos nós nos importamos. Mas quem nos convida para opinar? Existe algum canal de acesso? Nosso modelo de governo determina que representantes decidem lá dentro como as coisas devem ser. Só que um puxa para um lado e outro para o outro e ninguém avança naquilo. Como levar o método para larga escala? Como fazer centenas de milhares falarem como se fossem 30? E como fazer com que todas as vozes sejam ouvidas? Que tecnologia permite a participação para uma transformação social real?”, Fabro adiantou perguntas.

O primeiro ciclo de experimentos foi sobre reforma política. Antes que o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, dissesse “eu vou fazer uma reforma política”. “As eleições de 2014 foram um marco para o Mudamos. Os programas de todos os governos eram ruins. Era preciso pegar um outro tema. Veio a segurança pública e a PEC 51”, contou Fabro, que tem pós-doutorado em consultas públicas pela UFF,  sobre o início da empreitada.

Por que reformar a segurança pública? Ora, não faltam dados concretos para justificar a escolha do tema e mobilizar as pessoas. Só em 2014, por exemplo, o Brasil teve 60 mil homicídios em ações policiais. E como usar a internet para mudar a segurança pública? “O debate tem de ser informado. Alguém tem de fazer conteúdo. É preciso engajar as pessoas, conectar setores diversos. A internet dá a riqueza de poder trazer outras vozes”, resumiu ele.

Os resultados foram promissores. A campanha sobre a polícia obteve mais de  mais de 11 mil comentários de dois mil participantes, e conquistou 12 mil seguidores no Facebook, quatro mil usuários. Até o final de 2016, estará disponível um aplicativo em que o cidadão poderá assinar projetos de lei que serão encaminhados diretamente para os respectivos destinatários. Participar vai ficar bem mais fácil.

Quanto vale o tempo no ‘Banco dos irreais’

É possível viver sem dinheiro e estabelecer trocas em outras bases além do capital. O artista plástico mexicano José Miguel González Casanova tanto crê nessa premissa, que criou o Banco dos Irreais, uma interface que une pedagogia e arte, trata a informação como economia, tem o tempo como valor, e está pronta para quem quiser participar.

26653213041_558233d1eb_o

José Miguel González: “Nós questionamos a economia única do dinheiro como nos é naturalizado.” / Foto: Thiago Brito

A ideia é derivada de outros experimentos. Professor da Universidade Nacional Autónoma do México (UNAM), mestre em  Artes Visuais, autor dos livros “Gramática del dibujo en 100 lecciones” e “Agenda oculta”, o artista residente no Museu de Arte do Rio realizou, em 1998, o Banco Intersubjetivo dos Desejos, um estudo sobre desejos, aqueles que se expõe e os que deixamos guardados. Foi conversando com grupos significativos que ele descobriu o que querem cubanos, mexicanos, venezuelanos, canadenses, colombianos e argentinos entre outros povos.

O Banco dos Irreais é uma plataforma capaz de reunir pessoas e fomentar a solidariedade e a autonomia frente ao dinheiro. Tanto que a  economia solidária pregada por Gonzalez estabelece uma nova relação entre produção e consumo, privilegia a cooperação e a boa vida, rechaça a acumulação de capitais. A circulação é livre, mas os bens são outros. “O que procuramos é criar uma ferramenta que promova a economia alternativa além do dinheiro como uma forma de economia única. Podemos criar entre nós outras maneiras de estabelecer trocas. Nós questionamos a economia única do dinheiro como nos é naturalizado”, justifica.

O irreal criado agora por Gonzalez não é imaginário. Tem cédula, até. E cada irreal  pode ter  o exato valor do conhecimento que se troca. Se alguém oferece aula de música, pode pedir em troca a aula de design que outro ofereça, e o contrato está selado. As relações podem ser simples assim, prega o professor artista. As lições são muitas e o  site contêm dicas, mutirão de horas aberto a projetos específicos, o troca-treco. O tempo é sempre o balizador das relações.

O projeto é estético na medida em que cria uma sensibilidade e possibilita experiências e relacionamento. Plataforma livre, sem fim determinado, neutra e sem controle da moeda, o Banco dos Irreais foi  inaugurado há apenas um mês e  já tem 80 cadastrados. “As pessoas fazem as trocas diretamente entre elas. A relação é direta entre os usuários e sem controle. O importante é construir novas formas de viver o mundo, de trocar experiências e questionar o capitalismo. Não é possível quantificar, a relação é uma vivência”, finalizou, arrancando suspiros da plateia.

Rio de resistência para todos

Rafael Rezende atua em muitas frentes. Ativista, formado em comunicação pela UFRJ, o jovem estudante ingressou como voluntário da rede Meu Rio, e hoje é um dos mobilizadores que agitam causas pró-Rio a partir das redes. Com a palavra e muitos slides para exibir, coube a ele a tarefa de explicar para a plateia do Rio de Encontros o trabalho que se espalha pelo país e conquista novos territórios. Em 2014, a iniciativa ganhou o prêmio de Impacto Social Google Brasil, que garantiu a expansão para as atuais oito cidades onde atua além do Rio.

26112977734_def927b4df_o

Rafael Rezende: “A internet é uma ferramenta contra as forças que ameaçam a democracia, o ir e vir dos cidadãos.” / Foto: Thiago Brito

Ferramentas e interfaces online têm muitos usos. Para o Meu Rio, elas servem para produzir conteúdos transformadores e engajadores. Criada em 2011, o objetivo da iniciativa é aproximar o cidadão comum – e não envolvido com política – das decisões políticas da cidade. “Era o momento de surgimento dos grandes eventos, oportunidade ideal de alavancar a cidade. Nossa pergunta era para quem seriam as oportunidades que esses investimentos trariam”, contou Rafael sobre o início.

Se era difícil responder às muitas perguntas, o melhor mesmo era ampliar as origens dos interessados em aderir ao movimento. Assim, o Meu Rio reuniu especialistas em comunicação, design, políticas, programação e desenvolvimento de software para desenvolver metodologias que dessem conta de provocar engajamento.

A internet seria utilizada como forma de canalizar demandas. E vem sendo. O principal exemplo que a turma faz questão de alardear é a já conhecida Panela de Pressão, ferramenta inspirada em abaixo-assinados online, como o Avaaz. Só que, nesse caso, o email vai direto para a caixa de entrada do alvo da campanha.

“Assim fomos enchendo as caixas de mensagem dos políticos, que não podem mais se manter inacessíveis. A dinâmica foi mudando, as pessoas foram se apropriando dessa metodologia. No caso do impeachment, os dois lados, pró e contra, se apropriaram dessa ferramenta para fazer suas campanhas e abaixo-assinado”, realçou ele.

Canalizar demandas, conectar talentos, potencializar e viabilizar eventos e ações online e offline. O Meu Rio quer conquistar ainda mais territórios..

A escola que resiste

“Você pode disputar narrativas e criar contrapoder. Pega uma webcam e um computador e veja o poder que você tem”, Rafael dispara para contar o caso da Escola Municipal Friedenreich, no Maracanã, ameaçada de demolição em 2012. Na época, com aval e produção do Meu Rio, uma vigília virtual fez com que duas mil pessoas acompanhassem o colégio, ao vivo, 24 horas por dia. Foi assim que o governo recuou da demolição.

No dia 24 de dezembro daquele ano, veio a garantia de que não haveria qualquer movimento durante as férias. “Esse foi o grande exemplo de criação de contrapoder. Em 2013, veio mais uma demonstração de força, que foi a população se armar com seu próprio celular para fazer vigilância social. A internet cria novas formas de Big Brother, mas é uma ferramenta contra as forças que ameaçam a democracia, o ir e vir dos cidadãos”, afirma Rafael.

Os resultados vão além. Até aqui, o Meu Rio já engajou 200 mil pessoas em suas campanhas. O desafio hoje, segundo Rafael, é criar, para além de uma rede, uma comunidade feita de pessoas. “Como a gente faz a organização online fortalecer a ação e o ativismo da sociedade?”, ele deixou a pergunta.

A conversa está aberta

Nossa tradição cultural é um modelo em que tudo vem de cima, disse Ilana Strozenberg, antes de abrir a rodada de participação da plateia. Hora da conversa propriamente dita, que no Rio de Encontros, segue um modelo nada convencional. Entre opiniões, adendos, relatos e desabafos, perguntas que vão desde o que viabiliza sonhos ao que pode manter e fazer prosperar as participações de públicos mais diversificados. Afinal, quem paga a conta? Em ordem de perguntas e respostas, segue abaixo o que disseram plateia e provocadores.

26112987814_456f9b0670_o.jpg

Plateia no Rio de Encontros / Foto: Thiago Brito

“Quero saber, delicadamente: quem paga a conta e remunera o trabalho que vocês fazem? Aliás, o financiamento é uma pergunta que vale para todos”, Denise Kosta

Rafael Rezende  – O Meu Rio saiu do campo das ideias para o concreto com grana de pessoas e organizações que têm muito dinheiro e acreditaram no projeto. A primeira grande vaquinha é uma possibilidade, mas há outras, como editais de fomento à cultura e coletivos de mídia e buscar quem tenha relação com o território. O financiamento colaborativo, como Catarse e a Benfeitoria, são opções também. Os financiadores estão todos no site, mas (o projeto) não seria sustentável só através deles. Fomos atrás também de quem tem pouca grana mas também acredita na ideia. É crowdfunding nato, na sua essência. A equipe é profissional e remunerada, tudo direitinho. E tem de estar tudo direitinho. Manter custa R$ 50 mil mensais. Para isso, precisamos de 2,5 mil doadores independentes a R$ 20 por mês. Essa é a meta.

Fabro Steibel – Abrimos para doação e tivemos dez reais. Temos dois financiadores internacionais, empresas, agências. E não tem dinheiro do governo no projeto.

José Miguel González Casanova – Faço pesquisa sem dinheiro. E como produtor cultural, acredito que o mercado encarece o produto, separa produtor do consumidor e isso é um problema. O capitalismo financeiro está em crise. Quero criar uma economia alternativa que funcione. Como posso ir além do museu onde está a instalação do projeto? Encontrei parceria nas Quebradas. No México, a mais importante moeda, o Túmin, criada pela Universidade Vera Cruz, funciona em 20 dos estados da república. Essa moeda tem um valor equivalente ao peso. São moedas usadas para consumir dentro do bairro, criar uma economia local. A moeda dos irreais pretende fomentar uma troca maior na cidade, do país, na América. Como podemos criar essa economia alternativa? Eu devolvo a pergunta: além do museu, da universidade, da academia e chegar a outros meios? Assim poderemos construir grandes redes de economia. Vamos criar essa economia? É um convite.

“Como mobilizar não somente o universitário, a academia, mas a juventude popular, já que as plataformas atuais mobilizam muito mais uma classe média? Como seduzir o jovem e aproximá-lo desse debate?”, Veruska Delfino

26625965882_5a6845e845_o.jpg

Veruska Delfino: “Como mobilizar a juventude popular?” / Foto: Thiago Brito

Rafael Rezende – Na escolha da mobilização, a gente pensa no processo de exclusão. Não podemos estar em todos os lugares, por isso, importa com quem a gente se articula para fazer os projetos circularem. Será lançada este mês uma ferramenta de denúncia de violações de abuso do Estado. Uma ferramenta de encaminhamento das denúncias aos órgãos responsáveis. E o público será o que está sofrendo esses abusos.

“Para que vai servir o que já foi feito? Qual o próximo passo da Mudamos? Quem vai ouvir e concretizar essas propostas tendo um Congresso tão difícil como o que temos hoje?”, Anabela Paiva

Fabro Steibel – Pensamos em discutir políticas públicas. Temos a figura do embaixador, uma figura que se interessa por aquilo e que leva a ideia para frente. A Constituição tem mecanismo de participação direta. Com 1% das assinaturas o projeto pode ir direto. O próximo desafio é garantir a votação pelo telefone. O feedback da implementação é importante, algo que o Meu Rio faz muito bem. Quanto mais você quiser mudar, mais pressão você vai sofrer. Já aconteceu com pessoas que trabalharam conosco, de serem perseguidas.

Rafael Rezende – Existem casos em que os governos começaram a reconhecer a legitimidade das ferramentas de colaboração. Tentamos entender quando os governos de fato querem incluir as pessoas na tomada de decisões que vão mudar o destino do país e quando fazem marketing e criam iniciativas para parecer participativos. Somos usados como censores da cidade ou vamos de fato participar e ser considerados? Participação de fato, incluir o cidadão na tomada de decisões é outra coisa.

“Os três projetos têm um viés muito fortemente marcado pelo aspecto pedagógico. Não é comum a sociedade pensar sobre como elaborar políticas públicas. Porque não se ensina o que é política pública?”, Pedro Cruz

Rafael Rezende – Sem dúvida a educação política é a saída. Como dar protagonismo aos voluntários e membros? Nossa ideia de fortalecer o Meu Rio é buscar pessoas interessadas em participar e ensinar para outras pessoas.

“Quero saber da continuidade das mobilizações. O próprio debate sobre impeachment esfriou. Como manter o interesse? E como mobilizar onde a internet é restrita?”, Nyl MC

Rafael Rezende – Precisamos dialogar com partidos e parlamentares. A gente mantém o princípio do diálogo. Alguns políticos entenderam o que deve ser a política no seculo XXI e tem os que vão sempre dizer que somos uns moleques que querem se intrometer no trabalho de vereadores e deputados e tumutuar sessão. No Maranhão, o governo está querendo criar uma forma de participação. E lá o nivel de penetração da internet é muito baixo. Se no Rio achamos pouco, não sabemos como é lá. Há indicadores muito graves. As cidades começam a se deparar com a necessidade de ter internet e muitas cidades menores não têm esse acesso. Como chegar ao Nordeste? Estamos nos esforçando para chegar lá. O primeiro passo é entender que não dá para ser igual. No Rio, em São Luís ou Recife, cada território tem sua singularidade. Não é só replicar.

Fabro Steibel – Em 2013, perguntaram sobre as manifestações: o que aconteceu? Eu duvidei que alguém explicasse. Como pegar a voz das manifestações e as tornar possíveis de provocar transformação? A dificuldade de escutar permanece porque o que causou as manifestações continua. O Mudamos pega um pedacinho do que causou tudo aquilo. Duas mil pessoas vigiando uma escola parece pouco, mas é muita gente. Você não precisa de todo mundo, mas precisa ter gente para provocar. De onde as pessoas vêm é uma questão que temos de problematizar. A gente fala pra todo mundo.

Vamos reinventar os modelos?

Os conselhos municipais e federais têm participação da sociedade civil, mas emperram na falta de representatividade, lembrou  Letícia Brito, que experimentou o diálogo no Conselho Nacional da Juventude. Afinal, como ter uma população que participe das decisões políticas, questionou a estudante. Carlos Roberto Gonçalves quis saber, afinal, como fazer reforma política no Brasil. Seria viável usar todas as plataformas para criar uma outra maior e única?  E por que não existe controle do que o prefeito faz? O inquieto Edgar Siqueira afirmou querer participar, mas ter dificuldade, pediu eventos presenciais, além das redes. No bate e volta, o diálogo seguiu.

“Que pressões e problemas vocês das plataformas enfrentam?”, Davi Marcos

Fabro Steibel – Quando você abre a porta para todo mundo entrar, a primeira que entra é que te odeia, que diz ‘eu discordo’. Se você estabelecer o diálogo com o ‘hater’, o debate se torna muito positivo. Você evolui do ‘vou te matar’ para o diálogo.

José Miguel González Casanova – Estou buscando reunir produção e consumo. Somos donos do banco e quebramos a fronteira entre produção e consumo. Artes, pedagogia e produção cultural contra um jeito hegemônico de viver.

“A gente tem de pensar juntos sobre os procedimentos e o que mobiliza a mim. Cada um tem de saber o que sabe, porque a partir do momento que você entende, você não para. Não é doação quando me ofereço para fazer movimento de ocupação com meus alunos. Estou indo para uma troca. Quero entender o que os nutre. O que mobiliza vocês individualmente?”, Renata Codagan  

José Miguel González Casanova – Sou um artista e a arte não significa nada por si mesma, mas assume o significado dado por quem vê. Não é uma produção genial que você faz à parte do público. Acredito que o processo artístico é o diálogo com o público. Como psicopedagogo, o processo educativo é aquele em que todos estão gerando conhecimento, não é vertical. Acredito na construção coletiva de conhecimento.

Rafael Rezende – O que me mobiliza é conhecer novas pessoas e novos lugares, mais pessoas com experiências diferentes com as quais vou aprender muito.

26112996184_36760c609c_o.jpg

José González dialogando com a plateia / Foto: Thiago Brito

“Eu fico enlouquecida compartilhando, curtindo, isso dá muito trabalho, a forma de representação e mobilização. E a gente tem de entender também que o tempo é outro. Os tempos da política são outros. Eles organizam enquanto a gente está distraído fazendo outras coisas. As redes criam ansiedade de solução que exige paciência. Esse momento é desafiador para a gente se manter mobilizado”, Ana Cláudia Souza

Fabro Steibel – Admiro um brasileiro que fez uma lâmpada que funciona à base de luz solar, ideia simples que foi multiplicada para zilhões de países. E é isso: uma ideia que seja simples o suficiente para fazer uma grande transformação. Fazer uma ideia que transforme. A instituição do Estado é hermética e feita para funcionar com poucos humanos. A lógica da rede social é para muitos humanos. Há uma evolução; estamos melhores do que quando os portugueses chegaram aqui. Pouco a pouco, com pequenos hacks, a gente tenta fazer um pedacinho funcionar melhor. Os outros regimes são piores que a democracia.

“Como discutir segurança pública em espaços que legitimam a violência da polícia?”, Aline Copelli

Rafael Rezende – A forma de discutir segurança em locais onde há apoio à violência é tentar ir para o diálogo, a conversa, a troca. O jovem se torna protagonista e passa por instrumentalização e ferramenta, compartilha o que é restrito. E como acolher novos códigos e formas de fazer política que vão além do padrão? Acolhendo códigos de territórios diferentes, estando abertos à diversidade.

Abertura do Rio de Encontros 2016 em frases e fotos

O Brasil anda agitado. No Rio, como no restante do país, mais que vozes dissonantes, os movimentos urbanos evidenciaram o grande poder de mobilização das redes sociais. Na abertura do Rio de Encontros 2016, debatedores e plateia exibiram afinação sobre as múltiplas possibilidades que a internet proporciona quando o objetivo é espalhar boas iniciativas.

O diretor executivo do ITS Rio, Fabro Steibel, responsável pela plataforma Mudamos; artista plástico José Miguel González Casanova, criador do projeto Banco dos Irreais; e o ativista e comunicador Rafael Rezende, diretor do Meu Rio, foram os convidados especiais para discutir e provocar sobre o tema do dia: A internet e as novas formas de mobilização e representação.

Moderado por Ilana Strozenberg, diretora acadêmica d’O Instituto, o encontro ocorreu na quinta-feira, 28, na ESPM, no Centro do Rio.

Para ver as fotos do encontro, CLIQUE AQUI

Fotos_por_Audiovisual_ESPM_363_2.jpg

Ilana Strozenberg, José Miguel González Casanova, Fabro Steibel e Rafael Rezende / Foto: Thiago Brito

Confira algumas das falas mais marcantes do debate:

“É sempre bom dizer ‘que a gente pretende potencializar a riqueza que a gente só encontra quando faz enfrentamento das diferenças. Como é bom efetivamente dialogar.”
Ilana Strozenberg

“Especialmente em momentos como esse que a gente está vivendo, de tamanha incerteza, o Rio de Encontros só ganha mais importância pela oportunidade de dividir e partilhar.”
Flávia Flamínio

“Quando você abre a porta para todo mundo entrar, a primeira que entra é que te odeia, que diz ‘eu discordo’.”
Fabro Steibel

“Podemos criar entre nós outras maneiras de estabelecer trocas. Uma alternativa além do dinheiro como uma forma de economia única.”
José Miguel González Casanova

“Você pode disputar narrativas e criar contrapoder. Pega uma webcam e um computador e veja o poder que você tem.”
Rafael Rezende

“Como mobilizar não somente o universitário, a academia, mas a juventude popular? As plataformas atuais mobilizam muito mais uma classe média. Como seduzir o jovem e aproximá-lo desse debate?”
Veruska Delfino

“A gente tem de pensar juntos sobre os procedimentos e o que mobiliza a mim. Cada um tem de saber o que sabe, porque a partir do momento que você entende, você não para. Só me vejo coletiva.”
Renata Codagan

“Os tempos da política são outros. Eles organizam enquanto a gente está distraído fazendo outras coisas. As redes criam ansiedade de solução que exigem paciência.”
Ana Cláudia Souza

“É tão difícil (para quem não tem acesso à internet). Eu quero participar e não consigo. Como a gente consegue, além das plataformas, criar eventos presenciais?”
Edgar Siqueira

“Como reivindicar o que não conhecemos? É difícil participar sem conhecer.”
Ingrid Soares Pereira Pimentel

“Sou um artista e a arte não significa nada por si mesma, mas assume o significado dado por quem vê.”
José Miguel González Casanova

“Os outros regimes são piores que a democracia.”
Fabro Steibel

“Como discutir segurança pública em espaços que legitimam a violência da polícia?”
Aline Copelli

“Não é comum a sociedade pensar sobre como elaborar políticas públicas. Porque não se ensina o que é política pública.”
Pedro Cruz

“Duas mil pessoas vigiando uma escola parecem pouco. Mas é muita gente. Você não precisa de todo mundo, mas precisa ter gente para provocar.”
Fabro Streibel