Rio de encontros e desencontros, como viabilizar o diálogo na cidade?

Luiz Eduardo Soares, autor dos livros que deram origem aos filmes Tropa de Elite 1 e 2 / Foto Paula Giolito

Luiz Eduardo Soares, autor dos livros que deram origem aos filmes Tropa de Elite 1 e 2 / Foto Paula Giolito

Pontualidade britânica em solo carioca. A abertura do Rio de Encontros 2014 teve direito a casa cheia e uma saudável disputa por espaço. Na terça-feira, 25 de março, o antropólogo e escritor Luiz Eduardo Soares deu uma aula sobre segurança pública para uma plateia diversificada: pesquisadores, professores, jornalistas, representantes de ONGs e instituições governamentais formaram uma plateia composta ainda pela turma de jovens atuantes nas periferias da cidade e alunos da ESPM, nova parceira e patrocinadora do projeto.

Com o tema “Rio de encontros e desencontros, como viabilizar o diálogo na cidade”, o autor dos livros “Meu casaco de general” e “A Elite da Tropa 1 e 2” percorreu a trajetória do Rio no enfrentamento da violência, apontou distorções e erros, reforçou acertos, contou além dos 500 dias no front da segurança pública.

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Ilana Strozenberg, diretora acadêmica d’O Instituto, deu as boas vindas e anunciou as novidades. Iniciativa de sucesso em 2013, a turma de jovens integrantes do Rio de Encontros foi ampliada, o Rio Real Blog ganhou o status de parceiro efetivo, a Escola Superior de Propaganda e Marketing juntou-se ao time de apoiadores e é patrocinadora oficial do ano.

A diretora acadêmica d'O Instituto, Ilana Strozenberg faz a abertura do Rio de Encontros / Foto Paula Giolito

A diretora acadêmica d’O Instituto, Ilana Strozenberg faz a abertura do Rio de Encontros / Foto Paula Giolito

“O mote do nosso trabalho são novas abordagens que nos levem a pensar alternativas para uma cidade como gostaríamos que ela fosse. A nossa turma de jovens indicados por iniciativas espalhadas pelo Rio nos dá a medida de que a empreitada deu certo. Este ano, temos mais alguns que vão se juntar aos que já estão desde o ano passado”, Ilana explicou.

O Rio de Encontros é de parcerias e a união de forças vai resultar também em concurso para a escolha da nova logomarca do projeto. Tarefa dada aos alunos de Design e de Publicidade da ESPM. As candidaturas já estão abertas e o resultado será divulgado em maio.

A sinergia entre o ciclo de debates sobre a cidade do Rio de Janeiro e a ESPM, realçou a diretora geral da escola, Flávia Flamínio, é grande e a parceria promete ser profícua.

Flávia Flamínio, diretora geral da ESPM, patrocinadora da série Rio de Encontros 2014 / Foto Paula Giolito

Flávia Flamínio, diretora geral da ESPM, patrocinadora da série Rio de Encontros 2014 / Foto Paula Giolito

“Nós somos uma instituição sem fins lucrativos cuja missão é gerar valor em programas de qualidade para formar líderes. A escola aposta nos jovens e na comunicação como instrumentos de transformação da sociedade.  Temos 40 anos na cidade do Rio de Janeiro. Foi um feito nos mantermos e acompanharmos todo o processo de mudanças pelo qual passou a cidade.”

Antes da palestra, que se estenderia pelas três horas seguintes, com intervenções da plateia, a turma do Rio de Encontros, que já tem veteranos, fez as devidas apresentações dos projetos que representam. A Agência de Redes para a Juventude, Circo Crescer e Viver, Parceiros do RJ, da TV Globo, Redes de Desenvolvimento da Maré são alguns deles.

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Rio de erros e melancolia

Luiz Eduardo Soares e a plateia do Rio de Encontros / Foto Paula Giolito

Luiz Eduardo Soares e a plateia do Rio de Encontros / Foto Paula Giolito

Desde que foram instaladas as UPPs, em 2008, o Rio vive seu momento mais delicado. Olhando mais para trás, o grande dilema, sustenta Luiz Eduardo Soares, é o fato de que o  estado rodopia em torno do seu próprio eixo ao lidar com dificuldades como desigualdades, racismo, violência, brutalidade nas ações policiais, obstáculos à participação.

“Continuamos a viver os problemas que são os nossos há tantos e tantos anos. Há uma espécie de inércia nesses desafios mais fundos, e temos dificuldade de vencer essa inércia”, afirmou ele.

Ainda que resignificados por contextos diversos, a persistência desses dilemas impõe-se como desafio e aponta para limitações dissimuladas. “A persistência continuada significa que a sociedade fluminense não foi capaz de lidar adequadamente com eles. Não estamos nas mesmas posições, não estamos estáticos, é claro, mas, fundamentalmente, as questões se recolocam e nos interpelam.”

Trocando em miúdos, o Rio de Janeiro faz mais do mesmo, quando o mesmo prova ser insuficiente. “Já que estamos condenados aos erros, que pelo menos erremos erros novos. Errar erros novos é uma contribuição extraordinária para a experimentação coletiva. Errar os erros conhecidos é melancólico”, diz ele, inspirado em John Stuart Mill.

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O escritor e antropólogo Luiz Eeduardo Soares e a mediadora do evento, jornalista Anabela Paiva / Foto Paula Giolito

O escritor e antropólogo Luiz Eeduardo Soares e a mediadora do evento, jornalista Anabela Paiva / Foto Paula Giolito

Estado bruto

A experiência democrática provocou avanços nas políticas públicas, garantiu o diálogo. Ainda assim, segundo Luiz Eduardo, atolamos no pântano.

“Esse auditório seria impensável há algumas décadas. O Brasil mudou profundamente nos últimos 20 anos. Há revoluções nas políticas afirmativas que são comoventes e extraordinariamente gratificantes. As paisagens cultural e social se renovaram, as políticas culturais dos últimos anos foram muito importantes para o Brasil inteiro. Falamos muito dos governos do Fernando Henrique com a estabilização da moeda, do Lula com a redução das desigualdades, mas, muitas vezes, negligenciamos a contribuição na área da cultura.”

As mudanças não foram suficientes, no entanto, para mitigar o que Luiz Eduardo  Soares destaca como intolerável moral, politica, ética e humanamente inaceitável:

“Nós lutamos contra a ditadura, resistimos durante tantos anos à brutalidade do estado justamente para construir uma cidade democrática e alterar a forma como as coisas funcionam. E o estado, no Rio de Janeiro, continua matando, patrocinando verdadeiros genocídios. Uso essa expressão há muitos e muitos anos, talvez impropriamente, mas para qualificar a brutalidade previsível e padronizada da violência do estado. ”

A brutalidade previsível e padronizada tem alvo certo. As vítimas são negros e pobres, moradores de favelas e de periferias. “Nós não podemos conviver com isso. Durante a ditadura, nós, da minha geração cultural e social, compartilhávamos a repugnância, a angústia e a necessidade de promover mudanças. E, durante a democracia, esse processo de brutalidade perpetrado pelo estado se naturalizou.”

Não foi por falta de eloquência e quantificação. As ações policiais provocaram 9.646 mortes no Estado do Rio de Janeiro entre 2003 a 2012.

“Ao longo de todos esses anos, eu repetia os números, ano a ano, fazia a divulgação dos números daqueles que são mortos pela atividade policial nas favelas. E dizia ‘nós precisamos bater as panelas, buzinar, despertar a cidade, contribuir para que a insônia contagie toda a comunidade’, porque é impossível continuar convivendo com esses números, com esses processos que se padronizam e se reproduzem”, sentenciou.

Pingue pongue

Luiz Eduardo Soares não deixou pergunta sem resposta. Uma a uma, o antropólogo fez questão de opinar sobre cada intervenção da plateia. A sequência foi disputada. Confira abaixo o resultado da conversa entre palestrante e plateia.

A jornalista Julia Michaels, autora do Rio Real Blog / Foto Paula Giolito

A jornalista Julia Michaels, autora do Rio Real Blog / Foto Paula Giolito

Julia Michaels, autora do Rio Real Blog – É intuitivo concluir que a violência nas ruas vem de atos praticados anteriormente. Como ter certeza de que não é uma resposta geral à violência praticada no Brasil, como sair da conclusão que muitos têm de que são violências pontuais? 

Sobre a atribuição da violência, não, não temos base. Há sempre uma multiplicidade de situações , circunstâncias e atores com motivações das mais diversas. Então, sendo mais cauteloso, me parece que, havendo bases para uma investigação empírica, aqueles que se comportam dessa forma foram vítimas. É uma hipótese que pode ser avaliada no conjunto. Nós não temos pesquisa suficiente. De toda maneira, quem já sofreu aversão pelo estado numa favela sabe quão traumático isso é. Nos EUA, se diz o suspeito até que haja definição da culpa. No Brasil, as descrições se precipitam na identificação. Não temos apenas o fato, mas a forma como é tratado o fato. Isso aprofunda esse abismo. Portanto, você tem razão, não é possível provar. Todas as situações têm de ser examinadas com cautela.

William Oliveira, da Rocinha  É fácil ocupar, mas quem fica continua armado. Tem 500 fuzis na Rocinha. O que fazer para dialogar com a cidade?

O controle de armas é uma questão chave que continua passando ao largo, entra ano, sai ano. Não pode circular arma ilegal. Quem leva para a favela a arma? É fácil controlar, se houver um míimo de rigor. Mas quantos policiais se dedicam às armas? Estamos num momento propício para que o diálogo verdadeiro aconteça.

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Karen Kristen, monitora do Rio de Encontros  Nomear o crime é importante. Mas e nomear a vítima? Cláudia Ferreira e Amarildo foram exceções. É sempre a favelada, o pedreiro, mas não se diz quem é. Dar nome à vítima e a quem cometeu o crime também é importante.

Quando a vítima tem nome, endereço, biografia, ela nos emociona, provoca empatia. Stálin disse que a morte de um milhão de pessoas é acidente demográfico. Alguém morrer com nome e rosto merece respeito. Por isso Amarildo e Cláudia foram tão importantes. É preciso dar-lhes vida, rosto, biografia. Números acrescentam conhecimento, mas não sensibilizam. Eu passei do relatório para a construção do personagem, uma comunicação mediada pela emoção. Os números são eloquentes mas são genéricos.

Nathália Rodrigues, aluna da ESPM, e integrante da turma 2014 do Rio de Encontros / Foto Paula Giolito

Nathália Rodrigues, aluna da ESPM, e integrante da turma 2014 do Rio de Encontros / Foto Paula Giolito

Nathália Rodrigues, aluna de jornalismo da ESPM  Não é uma pergunta, mas fiz um link com a questão das mutilações que fazemos conosco. Sou moradora de favela, sou preta, pobre, e ainda sou cega. Assumi que tenho um problema. Fica muito mais fácil enfrentar. Era isso.

Natália, muito importante escolher não ser vítima. Há momentos de escolha. Há muitos discursos que se adequam às nossas histórias. A vítima não tem força, não tem potencial criador. O Brasil se rebelou porque melhorou muito. Alguém que é indigente, miserável, e se vê como incapaz, não pode ter ação transformadora alguma. É esvaziado de potência humana. Por isso foi tao importante o processo de redução de desigualdade, a chegada à universidade. Falamos tanto de cidadania, desde 1988. Se dizem que somos cidadãos, então vamos lá, vou agir como cidadão.

Guilherme, produtor cutural na Maré – O que as manifestações de junho trouxeram de vitória concreta? Só os garis, no Carnaval. Até onde esse protagonismo é tão forte?

Essa é uma questão muito pertinente. Mas o que se extrai dali? Acho que é uma pergunta equivocada. A forma como nos perguntamos sobre os efeitos nos condena a não identificar erros facilmente identificáveis. Temos resultados extraordinários, novas possibilidades de estar juntos, a formação de coletivos, a criação de alternativas, a reflexão crítica. Ganhos para além de ganhos materiais. Não deveríamos simplesmente perguntar a um processo histórico, mas o que sabemos dele.

Luis Gustavo, Parceiros do RJ – A polícia que pacifica, mata. Como dialogar?

O vocabulário, a linguagem e as práticas vão se sobrepondo.  Paz e proximidade ou guerra e abalroamento? Não estão claras as palavras e os significados. Todas são justificáveis. Não há nenhuma clareza para identificarmos quais são as linhas do projeto. É complicado atribuir à policia outras qualidades sem que ela se transforme de fato.

 André Luiz Dametto – Como dialogar com o cínico?

Por definição, somos cínicos. Nós somos cínicos em algum momento. Mas as pessoas mudam.  Os cínicos não serão cínicos todo o tempo, não é possível. O  problema é o cínico fashion. Aí é terrível, porque você educa as pessoas para o cinismo. O eles casa com o cínico. Nenhum de nós é nem dialógico nem cínico todo tempo.

Anabela Paiva – Quem seriam eles no caso reverso, das forças de segurança? Quem é o eles para o policial?

Sem dúvida, é precisso pensar. O (site) “depois de junho” traz entrevistas na contramão da velocidade da internet. Permite que as ideiais fluam, é valorização da conversa. Numa entrevista, o coronel Ibis fala sobre isso, e pensamos num encontro de Black blocs e policiais, todos desarmados. Temos certeza de que eles descobririam que são irmãos. Black blocs e policiais são provenientes das mesmas áreas sociais, não faz sentido  o enfrentamento.

Igor Souza Soares, do JOCUM Brasil e integrante da turma Rio de Encontros desde 2013 / Foto Paula Giolito

Igor Souza Soares, do JOCUM Brasil e integrante da turma Rio de Encontros desde 2013 / Foto Paula Giolito

Igor de Souza Soares, do JOCUM Brasil  Foi preciso implantar a UPP para que a cidade continuasse a sua vida?

As decisões políticas têm esse tipo de motivação. Mas isso não esgota toda a realidade, porque é demanda das comunidades algum tipo de cuidado, ação, intervenção, para que esse abandono não se perpetue. O estado não reage apenas às pressões da classe média. O estado depende também do voto das periferias. Há uma politica complexa que não é só bandido e mocinho. O clientelismo envolve todos os lados. Mas aqueles que são mais pobres, quando lhes aparece uma oportunidade, é legítimo compreender que eles se apropriam dela. A bica d’água merece todo nosso respeito porque faz diferença para as condições de vida imediatas. Feitas as ressalvas, volto ao clientelismo, o fisiologismo e as cooptações. Todos somos cúmplices do processo que tem degradado a representação e bloqueado a participação.

Igor de Souza Soares, do JOCUM Brasil  E a PEC 51?

É uma proposta que define que não é possível promover nenhuma mudança sem alterar a constituição. As limitações são muito fortes. Entre as propostas está a desmilitarização da polícia. Independentemente de ideologias, há uma estrutura que atribui o papel de gestor local da segurança pública ao policial que está na ponta. O policial bem treinado promove, ao lado dos agentes, a intervenção preventiva. Essa pessoa tem de ser respeitada e exercer práticas que suscitem respeito. O orgulho que advém do respeito alheio dá amor próprio que você não troca. Essa pessoa precisa d eum celular mais do que de uma arma. e de conhecimento que não é militar nem de direito, mas de experiências. A estrutura militar não atribui autonomia , eles estão lá para cumprir ordens. A PM é estrutura que deve se organizar à semelhança do Exército. Faz sentido para o Exército, mas não para Polícia. Os confrontos são menos de 1% das atividades policiais no Brasil. Nós negligenciamos a questão policial como se ela estivesse resolvida ou fosse irrelevante.

Alvíssaras

A plateia e o antropólogo e escritor Luiz Eduardo Soares  / Foto Paula Giolito

A plateia e o antropólogo e escritor Luiz Eduardo Soares / Foto Paula Giolito

Marisa Vassimon, do Canal Futura – Se as manchetes dos jornais dissessem que o exército vai ocupar a Lagoa, o Jardim Botânico, o que aconteceria? Quem precisa entrar na conversa para efetivar de fato a pacificação? A Maré, por exemplo, tem incontáveis atores que buscam o processo de pacificação, mas não são ouvidos. Quem tem de entrar junto com a polícia e o exército?

Desde “Tropa de elite” o grande debate passou a ser polícia. A agenda incorporou esse elemento. Agora (2010, invasão do Complexo do Alemão), volta a ser polícia contra bandido. Esse é o recurso mais simples da política: quando a situação é delicada e você precisa de coesão,  você inventa uma guerra, inventa o inimigo. A dimensão política é prioritária, quem conhece os personagens sabe disso. Não pensem que qualquer outra consideração se impôs à política. Não há outra hipótese. De novo, vamos tentar o feito espetacular do Alemão  (com a ocupação do Complexo da Maré). A mídia a postos. Para quem está melancolicamente em ruínas do ponto de vista político, essa é a boia de salvação. Essa é a primeira questão. É pra pensar um pouco mais. Depois vamos pensar a problemática das favelas. Sobre a Maré, sabemos que nenhuma comunidade esteve tão preparada para dialogar com as instituições policiais e com o governo como a Maré. E tudo isso deu em quê? Ao invés de o governo entender isso como um qualificador, temos uma comunidade organizada, não, tá muito complicado, e o governo diz vamos fazer como nós sabemos fazer. De que manneira se pode fazer isso? Trazendo um novo ator.

Vanessa, jornalista da Rede Globo –  Por que tem ganhado tanto espaço a figura do justiceiro? Por que o pensamento reacionário, o clamor público por repressão e justiça com as próprias mãos?

Proponho uma relação, que é uma hipótese interpretativa: acho que os linchamentos que emergiram por aí são respostas globais da sociedade brasileira conservadora aos rolezinhos. O que caracterizou o processo brasileiro nos últimos anos? Os pobres avançando, chegando aos aeroportos, os negros à universidades, ao consumo, ao shopping. Cada um está em seu lugar em nossa sociedade e o racismo assim se reproduz. O nosso racismo é distinto do racismo dos EUA, mas é brutal. Os rolezinhos são diversos, são múltiplos, são provocadores, basicamente representam, no imaginario coletivo, a migração sociológica, uma desestabilização, um desarranjo que provoca medo no velho racismo brasileiro. Paulo, era esse o nome do rapaz que foi acorrentado, foi amarrado pelo pescoço ao poste. O corpo exposto como posta de carne e desprovido de vestes, ele está entregue à sua corporeidade, desnudo. Uma performance brutal com uma instalação com o ser humano. Estamos num momento de grandes tensões, que não estão elaboradas.

André, estudante da ESPM – Existe uma ditadura disfarçada no Rio, é isso?

Nós que vivemos a ditadura sabemos que não. Ditadura não é um adjeivo. Tem um significado muito preciso, não é compatível com o estado democrático de direito. Identificamos no Brasil democrático práticas brutais que continuam a ser tão bárbaras quanto aquelas praticadas pelo estado na ditadura.

Mayra Jucá, jornalista – De onde você tira elementos para uma visão otimista desse diálogo no plano institucional?

Precisamos de instituições intermediárias, instituições políticas, além de renovação do associativismo. Essa criação fecunda e inspiradora de coletivos, em certo sentido, se dá no vácuo do  PT, que perdeu as ruas e se divorciou dos movimentos sociais, do colapso dos partidos tradicionais, e do descrédito do associativismo. Temos como alternativa a emergência de novos exercícios de sociabilidade e de organização coletiva. Nós precisamos de mediações políticas, também. É como se a democracia representativa estivesse trocando a pele. Precisamos de imaginação institucional para renovar. Esse diálogo vai requerer, para além da utopia coletiva, um redesenho das instituições. E eu vejo essa renovação em curso com otimismo.

Manoel Ribeiro, urbanista – O tráfico tem superestrutura. Tem plano de cargos e salários, bolsa viúva, e tem dois departamentos: departamento comercial e o departamento de segurança. Agora, entre a UPP e o tráfico, a população não sabe a quem recorrer. Fica a desordem, a sociedade, com medo, reage com linchamento. O que fazer com os desempregados do tráfico?

Eu dizia lá atrás, quando a primeira UPP foi criada no Dona Marta, que o tráfico já era. Como assim? Eu falava sociologicamente: A UPP vai ajudar o tráfico a se modernizar, vai impulsionar um processo imperativo da racionalização econômica. Esse modelo do dominio territorial é ultrapassado, regressivo economicamente. Imagina o custo. Para vender droga, e ter lucro, você precisa dominar territórios, enfrentar o confronto com os grupos rivais, montar um pequeno exército, treinar para a luta, convencer seus membros de que vale a pena perder a vida aos 25 anos, investir em arma, manter a polícia no bolso. Não existe tráfico sem associação com a polícia. Economicamente, esse modelo não faz sentido. É desnecessário e irracional. Você pode fazer como qualquer cidade desenvolvida no mundo, ter um modelo varejista nômade, não o territorializado. Agora, esses atores não estão preparados para isso. Exige mais qualificação tecnológica, precisa de inteligência, não da força. Se você tivesse uma abordagem holística, não haveria invasão miltar, mas segurança como elemento.

Claudius Ceccon, arquiteto – Falta utopia, sonho coletivo. Como vamos construir uma utopia pela mudança?

Eu fico dividido e me pergunto se nós não estaríamos sendo nostálgicos de um mundo que não pode voltar a existir. Utopia exige um desenho de mundo ideal. Eu não sei se vamos ter de adotar ou inventar, para podermos, ao invés de um kit ideal, uma mochila que nos acompanhe num horizonte de tempo tangível. utopias coletivas também são um problema, há preços a pagar. Não sou cético pelo fato de não termos utopias coletivas, desde que tenhamos referências, valores de fundo, justiça, igualdade de liberdade.

A imagem da polícia

Gustavo: criando uma nova forma de comunicação na polícia (Foto: Alex Forman)

Até pouco tempo, as Polícias Militares, instituições com milhares de funcionários, não tinham uma assessoria de comunicação profissional. A do Rio de Janeiro reverteu esse cenário e no começo de 2010 criou a área coordenada pelo jornalista Gustavo de Almeida. Experiente, com passagens em veículos como Jornal do Brasil e Isto É, Gustavo contou como saiu da posição de “atacante” para a de “zagueiro” ou, como colocou a mediadora Anabela Paiva, de pedra a vidraça.

Para ele, a criação da área de comunicação na PM é bem-vinda no momento em que a segurança pública passa por mudanças significativas. “As unidades de polícia pacificadora (UPPs), mais do que pacificar as favelas, estão pacificando a polícia. Antes, você ia entrevistar um comandante de batalhão e ele media o sucesso do trabalho pela quantidade de bandidos que matou ou de cocaína apreendida. Mudou esse parâmetro. Temos que mostrar as ruas cheias à noite, os cidadãos de comunidade com direito a ir e vir”, explicou. Não é uma mudança fácil. Envolve a necessidade de lidar não só com o tribunal formal – onde há a lei, as justificativas – mas também com o da opinião pública – mais subjetivo, humano.

É preciso lidar, também, com a assessoria militar, que muitas vezes se antecipa e dá respostas insatisfatórias, na visão do jornalista, para a imprensa. Foi assim no caso Wesley, o menino morto por bala perdido em um Ciep de Costa Barros. “Eles divulgaram que a bala não poderia ter saído de uma arma de policial. Depois se comprovou que não saiu mesmo, mas não importava. O Mário Sergio [comandante-geral da PM] foi ao RJTV e falou: ‘Nós podemos não ter culpa, mas temos responsabilidade’”. Depois, longe da imprensa, pediu desculpas à família.