Forte, frágil, multi

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Batmam Zavareze em conversa amistosa com plateia no último encontro de 2015. Foto: Davi Marcos (Imagens do povo)

Premiado, requisitado, admirado, BATMAN ZAVAREZE fala sobre suas habilidades e acredita que fazer redes seja a maior delas.

Curador do Festival Multiplicidade, Batman Zavareze traçou um panorama da própria carreira, desde a formação de designer, passando pela experiência nos primórdios da MTV, à temporada de estudos na italiana Fabrica, com Oliviero Toscani, até chegar ao momento atual em que ele se dá ao luxo de ter tempo para desenvolver os trabalhos para os quais é convidado – entre eles, por exemplo, o que realizou com Marisa Monte, na turnê de Verdade uma ilusão. “O que realmente me interessa é esse poder que a gente tira sei lá de onde para realizar as coisas”, resumiu ele, que costuma trabalhar com um número variável – mas sempre grande – de pessoas para colocar de pé suas ideias. “Eu tento fazer rede e acho que essa é minha grande habilidade”.

Entre os trabalhos apresentados por ele, o que mais emocionou a plateia foi uma instalação multimídia inspirada na experiência de enfrentamento da doença de sua esposa. “Teve esse momento pesado na vida. A pessoa que estrutura meu tripé para eu sair caminhando, começou ano passado com câncer de mama, que é super comum e você vai vendo que acontece com mais gente do que imaginava. E ela tomou uma decisão: ‘eu vou vencer. É inegociável’. Além de qualquer êxito profissional, eu tinha que estruturar o momento espiritual da gente. Documentei os momentos mais frágeis e mais fortes, gravando o som do coração dela”, contou. O resultado foi apresentado na exposição Força na Peruca. “Quando me chamaram, topei na hora, mas pedi para me ligarem em três meses porque não podia me desconcentrar. Pedi uma sala e pus a foto dela antes e depois, e a trilha sonora era esse som do coração. A Miriam agora está super bem, e deu uma aula pra gente sobre o que estava errado e precisávamos mudar”.

AO QUE VIRÁ

IMG_0288Parece que essas são ideias que estão sempre na cabeça de Batman. “Mesmo que num determinado trabalho o processo tenha sido difícil, quero colocar as coisas na minha mochila e ter orgulho das relações que fiz ali”, diz. A tal mochila nas costas tem sentido figurado e literal: nela também costuma estar o laptop onde rodam os softwares sofisticados que ajuda a criar, ao lançar desafios para engenheiros, designer e outros criadores. Normalmente, shows e eventos que têm recursos para bancar grandes estruturas são oportunidades para desenvolver as inovações, que podem ser reaproveitadas em outras ocasiões.

Batman vive criando espaços para inovações. O mais longevo deles é o Multiplicidade, festival de múltiplas artes, que completou 10 anos em 2015. Realizado no Oi Futuro e no Parque Lage, o festival reúne artistas de várias linguagens, do mundo todo – e, na equipe, gente que vem de todos os lugares também. “O Multiplicidade investiga diálogos da arte com a tecnologia no sentido mais amplo possível”, explica Batman que batizou a edição deste ano como Festival Multiplicidade 2025. “Há um tempo, numa conversa, o Tom Zé falou pra mim: não deixe para fazer retrospectiva quando fizer 10 anos. Faz dois anos de retrospectiva e quando o Festival fizer 10 anos faça sua antevisão. Foi o que fizemos. Esse ano a gente fez esse exercício libertador para se projetar em 10 anos. A gente inventou um manifesto que serve para o festival e qualquer coisa na vida, que tem que envolver compartilhamento, honestidade, amor”.

Realizado no Oi Futuro e no Parque Lage, o festival reúne artistas do mundo todo – e, na equipe, gente que vem de todos os lugares também. “Tem um momento que é festa, mas a gente aglutina e tenta fazer o máximo de troca possível, focada em celebrações, discussões. É uma plataforma de troca artística e cultural”, frisa ele, que, quando começou, percebeu que tinha que aprender sobre leis de financiamento se quisesse levar sua ideia adiante. “Se eu tiver que aprender, não tenho medo, não”. Isso ele aplica a tudo.

E foi também o conselho de Batman Zavareze à plateia. Inventor do próprio caminho, Batman se mostra aberto a fazer junto, criar conexões, aprender e compartilhar conhecimento, com quem tiver talento e disposição, juntando gente dos mais diferentes lugares e estratos sociais. Silvia Ramos, conselheira do Rio de Encontros, quis saber se ele estabelecia algum tipo de cota social para escolher a equipe de trabalho. “Não trabalho com cotas, mas com esse olhar para quem quer agarrar as oportunidades. Sigo minha intuição. Às vezes a gente acha pedras que obviamente tem que ser lapidadas, e que são super valiosas”, disse ele, também envolvido com duas escolas de arte e tecnologia voltadas para jovens de bairros e comunidades populares: a Oi Kabum e a Spetaculu. “Quando terminei o curso na Itália com o Toscani e estava voltando para o Brasil, ele me disse: ‘não se engane. Em terra de cego, quem tem um olho é caolho’. Ou seja, eu não podia voltar me sentindo o rei, porque tinha estudado fora. Eu tinha que aplicar o que aprendi e estudar mais, sempre. E sempre me junto com pessoas que têm essa paixão”.

Links

Festival Multiplicidade: http://www.multiplicidade.com/site/

O espaço da loucura e o ritual da rua

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Público do Rio de Encontros 28/10/2014. Foto Paula Giolito

Um arquiteto, uma professora, um psiquiatra e ator e uma plateia engajada na busca por soluções que ajudem a melhorar a cidade produziram um dos debates mais impactantes do Rio de Encontros em 2014. Realizado no dia dia 28 de outubro, na Casa do Saber, com o tema “Ocupações do espaço público, cultura e política na cidade”, e penúltima edição do projeto revelou cidadãos interessados em pensar formas de transformar a cidade em um ambiente mais acolhedor e comprometido com a cultura e as necessidades da população. Há sensibilidade visível, além de disposição para execução efetiva de projetos que tornem o espaço público mais habitável e alegre.

Foram convidados, para iniciar a conversa, a doutora em Literatura Comparada e professora da Escola de Comunicação da UFRJ Beatriz Jaguaribe; o arquiteto e diretor do Studio-X Rio Pedro Rivera; e o médico, ator, psiquiatra cultural e pesquisador Vitor Pordeus, que é também fundador do Hotel Spa da Loucura no Hospital Psiquiátrico Nise da Silveira.

Responsável pelo desenvolvimento e gerenciamento de projetos d’O Instituto, Teresa Guilhon apresentou as perguntas previamente formuladas para orientar o assunto: existe uma crise no modelo de cidade moderna? É possível dizer que estamos retomando ruas, praças e outros espaços, como os manicômios, enquanto lugar da política? Essas ações apontam caminhos para uma cidade mais democrática? Qual o papel da cultura nesse processo? Os convidados trataram de responder, cada um em seu tempo, a cada uma das questões.

A cidade ideal

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Pedro Rivera. Foto Paula Giolito

Do inconsciente para o espaço concreto. Segundo a dialogar com a plateia, o arquiteto Pedro Rivera partiu do adensamento populacional das metrópoles nas últimas décadas para demonstrar a vultosa capacidade de agregação das cidades e apontar, por sua vez, a necessidade de transformar suas estruturas complexas, difíceis e incontroladas com seriedade. Segundo ele, há uma forte e inconteste crise gerada pelo desconforto, a violência e o descontrole.

“Tenho pensado intensamente na dimensão do espaço que a cidade global ocupa e no que se transformou nos últimos anos. O que chamam de cidade moderna está em crise, porque para que fosse escalada a uma rede de cidade global passou-se por cima de uma série de especificidades, produziram uma certa pasteurização, uma homogeneização de diversos códigos para que todo mundo pudesse conversar. E o resultado foi a crise”, disse.

A cidade ideal, pontuou Rivera, existe, ainda que no campo das ideias. É aquela capaz de produzir um sentimento de domesticidade, de acolhimento, de pertencimento ao território, de proteção.

“Para pensar o futuro da cidade é importante considerar aonde a gente quer chegar e que tipo de transformação queremos. Todos nós sabemos como o espaço vem sendo cerceado, mesmo os mais jovens (apontando para a plateia) aqui experimentaram ao longo da sua vida uma diminuição da possibilidade do uso do espaço público. A cidade se tornou mais violenta e mais fortificada. Muitas barreiras, sejam mentais, sejam físicas, foram construídas e ela está cada vez mais subdividida”, afirmou ele. O grande desafio, de acordo com o arquiteto, é ultrapassar as barreiras interpostas para produzir outros modelos de convívio.

Um Rio mais gentil

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Beatriz Jaguaribe, Pedro Rivera, Vitor Pordeus. Foto Paula Giolito

O Rio de Janeiro não foge à regra, mas carrega sua particularidade. Por conta do seu território ímpar, há uma superposição do que é considerado centro e o que é periferia, assegura Pedro Rivera. Contextualizar e dar conceitos, portanto, é importante:

“Em termos estritamente urbanísticos, o centro da cidade é onde ela está fundada e se desenvolve, e a periferia é tudo aquilo que se produziu depois, orbitando em volta desse centro”, explicou.

Usando como referência o arquiteto e teórico Rem Koolhaas, mais especificamente o texto Cidade Genérica, Pedro Rivera esmiuçou as consequências da constante valorização dos centros em detrimento das periferias:

“No momento em que as cidades explodem de tamanho, as periferias não são mais conectadas aos centros. E a gente continua advogando a ideia de centralidade. É preciso repensar essa relação. Mas no Rio de Janeiro, em particular, existem esses dois territórios sobrepostos em um território único, e essa é a condição particular de onde surge a nossa cultura”, disse ele, acentuando que a potência urbana do Rio existe a partir dessa sobreposição entre centro e periferia.

Trata-se de uma sobreposição perversa, uma vez que produz a desigualdade social, mas construtiva, já que também produz uma proximidade rica no aspecto cultural.

“Estar no espaço público significa estar perante os demais, significa necessidade de negociar com as outras pessoas permanentemente. Temos uma legislação celebrada e muito moderna no Brasil chamada O Estatuto da Cidade, que basicamente defende a função social da propriedade urbana, o que significa que todo o território, não importando se pertence à dimensão pública ou privada, tem o dever de servir ao coletivo da cidade”, ressaltou.

Além da dimensão política, é preciso considerar um aspecto mais sutil, mas igualmente importante: o nosso corpo no espaço, o que o arquiteto fez questão de enfatizar como prioridade:

“Estou falando de uma dimensão sensorial da cidade, da textura, do cheiro, da temperatura. Como o nosso corpo se relaciona com esse espaço? A aspereza e a sensação tátil do espaço. Devíamos ter a ambição de produzir uma cidade onde fosse possível caminhar descalço, uma cidade gentil e generosa”, finalizou.

Por uma cidade imaginada

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Beatriz Jaguaribe. Foto Paula Giolito

A professora e pesquisadora nas áreas de nação, memória e cidades midiáticas Beatriz Jaguaribe tem interesse particular na imaginação artística sobre a cidade. Com uma produção acadêmica centrada também na cultura urbana, ela fez questão de iniciar a conversa com a plateia do Rio de Encontros respondendo à primeira pergunta formulada para o debate: existe crise no modelo de cidade moderna?

A cidade é como o céu e o inferno, Beatriz invocou a obra “A Divina Comédia” de Dante para dar conta da resposta:

“Todo mundo sabe que inferno é horrível, mas na hora de imaginar o que é o paraíso a nossa mente fica em branco, porque o paraíso de um é o inferno do outro. Acontece o mesmo com a cidade. Há utopias urbanas que se transformaram em modelos extremamente disfuncionais: a ideia modernista da cidade como abolição da rua invadida pelo automóvel, sem integração entre classes, sabores, pessoas, áreas de lazer e áreas de comércio, deixando tudo compartimentalizado. Não é que esse seja um modelo totalmente fracassado, mas está sendo altamente questionado”, ressaltou ela.

Há uma crise de imaginários possíveis para a cidade, adiantou Beatriz. Já não mais planejada considerando o cotidiano das pessoas, não é possível  enxergar a relação de afetividade e pertencimento do homem ao seu ambiente. Homogeneizadas, as cidades foram transformadas em não lugares.

Cidade, memória e coletividade

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Beatriz Jaguaribe, Pedro Rivera e Vitor Pordeus. Foto Paula Giolito

A importância da relação entre os repertórios pessoais, as tradições e o passado é consensual. A memória, segundo Beatriz Jaguaribe, pode reconectar as pessoas. Um bom exemplo foi a descoberta do Cais do Valongo durante a reforma do Porto Maravilha:

“De repente, dessa escavação emergiram objetos, ossos e do próprio solo veio a memória muito contundente do que foi a criação e negociação da cidade”, analisou ela. “O que é importante para ter cidade vital é não só a cultura do presente, mas o diálogo com o passado, com as representações anteriores da cidade, e não ser totalmente dominado pela cultura audiovisual. É preciso deixar os poetas falarem e deixar outros tipos de imaginação surgirem”, realçou.

Quem vive na cidade necessita estar em contato com o outro e fazer parte do que Beatriz define como coletividade dionisíaca, o desejo de participar e estar na multidão a despeito do encapsulamento cibernético gerado pelo mundo virtual. O carnaval revitalizado nas ruas é um bom exemplo, segundo ela, assim como a retomada das ruas pelas passeatas em junho de 2013, quando as pessoas puderam manifestar fisicamente sua ideia de frustração:

“Temos ali cidadãos que não querem ser domesticados, querem chocolate, pão transporte e todas essas coisas juntas. É importante pensar que a cidade que é imaginada na telenovela, que é conectada no mundo virtual se transforma no espaço físico. A palavra se transforma em carne. Precisamos pensar uma cidade vivenciada, midiática, imaginada e imaterial, juntar tudo num só lugar”, sentenciou ela.

A função da cultura e em que momento ela ficou equiparada à ideia de consumo ou não são aspectos também importantes nesse processo, pontuou Jaguaribe. “A cultura e o papel que ela representa tem escolha. Você escolhe o que quer ler, o que quer ouvir e ver. Bens institucionais culturais estão circulando. Se você tem acesso, tem poder de escolha. E não é só uma escolha de consumo, é uma escolha de construção de imaginários urbanos com os quais você vai interagir e vai fazer parte”, finalizou.