O tempo e o espaço na escola

André Couto (no centro): "A escola é anacrônica por definição" / Foto: Roberta Voight

André Couto (no centro): “A escola é anacrônica por definição” / Foto: Roberta Voight

André Couto apresentou uma reflexão abrangente, que abordava um amplo conjunto de questões relativos aos dilemas da escola hoje. Ex-aluno da Escola de Comunicação da UFRJ, com passagens pela Casa França Brasil e Oi Futuro, participou da elaboração do projeto piloto da escola pública NAVE, em Recife e no Rio, e, atualmente, é diretor de arquitetura de aprendizagem da Tamboro Educacional. Começou questionando a inadequação da escola aos tempos atuais:

“É preciso refletir sobre o consenso de que a escola de hoje é anacrônica. O tempo é uma variável inescapável na equação entre o que se projeta e o que se realiza. Mais ainda, o que o aluno recebe agora será utilizado em um tempo futuro desconhecido. Diante da impermanência e da incerteza, em vez de brigar com o deus Chronos, melhor que o aceitemos”, sugere.

E continua: “A escola não está anacrônica, a escola é anacrônica por definição. Você faz algo hoje para que o resultado se dê mais à frente. Obviamente, algumas experiências pedagógicas podem ser diferentes, mas de maneira geral é assim que se organiza”, afirma.

Por uma escola feliz

Valorizar o contexto cultural é trazer a experiência do aluno para dentro da sala de aula. Em sua fala, o cineasta, diretor e roteirista de TV, criador e diretor de animações e de sites Fernando Mozart não economiza exemplos de como a tecnologia pode contribuir para a criação de um novo ambiente e novas posturas em sala de aula. A vida do aluno, efetivamente, deve estar dentro da escola. E os recursos são muitos, ele garante. Se bem usados, podem provocar transformações.

Fernando Mozart: "Na escola do século 21, é importante aprender a obter as informações de que precisamos" / Foto: Roberta Voight

Fernando Mozart: “Na escola do século 21, é importante aprender a obter as informações de que precisamos” / Foto: Roberta Voight

Professor de oficinas de criação há mais de 20 anos, Mozart trabalha com arte e mídia na educação, na formação de professores e de jovens desde o início dos anos 1980, quando criou uma produtora com amigos, em pleno advento do videocassete. O primeiro desafio, na Secretaria de Cultura do MEC, abriu um mundo de possibilidades e a certeza de que o audiovisual podia ajudar a levar a vida dos alunos para dentro da escola. Bastou para garantir a sua permanência na área e o interesse pelo tema. Hoje, ele é coordenador da escola de arte e tecnologia Oi Kabum!.

Como era o futuro no passado e qual é o futuro no presente? Mais de 30 anos atrás, ao trabalhar com alunos numa escola da Tijuca, Zona Norte do Rio, Mozart ouviu uma pergunta que o move até hoje: “Ano após ano, os alunos condenados pelo sistema seguiam na repetência. Por que os alunos não aprendiam, e o que podíamos fazer para reverter aquele quadro?, a professora queria saber”, conta.

A saída foi criar um contexto favorável para que os estudantes trouxessem conteúdos para a sala de aula. “Querem fazer novela? Vamos fazer novela. O que é importante? Aprender a contar, somar e dividir, escrever? Criávamos situações de aprendizagem para juntar uma coisa com a outra. Enquanto isso, a professora desenvolvia atividades complementares. Vamos medir a casa do Heitor (um dos alunos) e trazer o resultado para o quadro. A professora sabia que era uma oportunidade para o desenvolvimento deles, e ia fazendo conexões de conceitos e conteúdos. Se em 1984 o vídeo era algo novo, o mais importante para aquela educadora foi que ela facilitou o processo de interação entre ela e os alunos, eles e a comunidade”, relembra, exibindo um vídeo no telão.

A lição foi devidamente assimilada e a instigação permanece: “Como fazer o menino aprender fatoração se ele não está interessado em fatoração? Uma aula feliz, em que os alunos são sujeitos ativos, desperta o interesse porque os jovens desenvolvem projetos criativos a partir de seus próprios temas e assuntos”, garante. E seja o vídeo, o cinema, o teatro ou qualquer outra linguagem, todas elas ajudam nas interações e no desenvolvimento do processo pedagógico e criativo.

“Tem a ver com a vida deles. A conta para caber todo mundo na kombi que vai levá-los ao local da filmagem precisava ser feita, e a professora agregava matemática à dinâmica da criação do projeto. O vídeo facilitava o percurso da cultura para a sala de aula, ajudava no protagonismo das crianças, já cansadas do fracasso escolar. Elas começam a perceber que é uma troca”, afirma ele, que, nos últimos sete anos, atua com alunos de baixa renda de 16 a 21 anos.

É importante, portanto, repensar métodos. A escola segue imprescindível, mas aquela que transmite conteúdo apenas, segundo Mozart, está fadada a perder a concorrência. “Os jovens desenvolvem projetos criativos a partir de seus temas, seus assuntos, formas e material para reforçar o aprendizado de formas diversificadas. Todos vão aprender o básico. Eles não têm de saber todos os conteúdos porque os conteúdos estão no mundo.”

O mundo mudou desde 1984, mas as tecnologias hoje são mais baratas, fáceis e integradas. Na Oi Kabum!, o celular é uma ferramenta, e as regras são construídas junto com os alunos. “A escola odeia o celular. O professor teme a evasão pelo celular, mas os alunos evadem o tempo todo. No entanto, a escola pode ser um recurso fundamental para que nos apropriemos das tecnologias”, reforça Mozart, com o argumento de que escola tem função e é ambiente favorável para incentivar protagonismo, leitura crítica do mundo; e é lugar propício a se superar frustrações, a críticas e ao trabalho em grupo:

“Na escola do século 21, é importante aprender a obter as informações de que precisamos. Não basta acessar a fonte, é preciso aprender a aprender. É no processo de construir o seu projeto que você vai obter meios de se desenvolver como pessoa, cidadão e profissional”, argumenta.

Pelo protagonismo

Jonathan Caroba diz que sabe bem o quão difícil é encontrar um lugar para ser ouvido. Coordenador de midiaeducação do Planetapontocom, estudante de Comunicação Social na UERJ, é aluno egresso do Colégio Estadual José Leite Lopes – NAVE/Rio, onde, atualmente, forma equipes de alunos líderes no Programa de Formação de Monitores de Mídia. A vivência nos dois lados, como estudante e professor, rende uma perspectiva otimista: assim como ele, os outros também podem ser protagonistas, termo chave para entender o que ele pensa sobre tecnologia e aprendizado.

Jonathan Caroba: "É preciso dar espaço para todo mundo que tem talento" / Foto: Roberta Voight

Jonathan Caroba (no centro): “É preciso dar espaço para todo mundo que tem talento” / Foto: Roberta Voight

Um menino ensinando outros, ele ouve muito. Aos 21 anos, Caroba mais parece um dos alunos nos projetos que desenvolve. A proximidade da idade tem vantagens. Como os estudantes, ele conhece os apetrechos tecnológicos que ensandecem professores salas de aula adentro e, ele mesmo, não desgruda do celular.

“Muitas vezes o professor não está preparado para as situações que aparecem na escola. Os alunos estão muito à frente. A sala de aula não é mais espaço onde o professor fala e o aluno absorve conteúdo”, afirma ele, que, ao lado de outros 60 professores, trabalha com mais de 400 alunos.

Para manter o aluno interessado no que ele diz, Caroba lança mão de projetos integrados. Vale utilizar rádio, produzir websérie, promover sarau literário, shows e o que é possível inventar. “Daí para frente a criação é coletiva. Não é questão de gostar ou não gostar, quando eles querem fazer, a motivação é totalmente diferente. É dar espaço para todo mundo que tem talento. O espaço não é só para quem quer fazer, mas para quem quer ver, também”, observa.

Se a pedagogia persiste, Caroba faz questão de opinar. “O primeiro pensamento que se tem quando se fala de educação é a palavra escola. A pedagogia vai continuar existindo, a diferença é que o momento é de ressignificar”.

E nessa ressignificação de que fala, o estudante de jornalismo defende que o aluno tenha o seu devido espaço assegurado. “O impacto do que é feito na sala de aula é maior que a sala em si. Não existe dizer para um aluno o que é liderança e não dar espaço para que ele seja um líder”.

Trocando em miúdos, ele diz que a escola precisa dar espaço para o protagonismo. “Eles aprendem a ler no celular. Nada de computador, livro ou tablet. Mas a pergunta que ninguém responde antes de pensar é: por quê você vem à escola? Eles não sabem muito. Perspectivas e sonhos estão ali, mas muitas vezes morrem ali também”.

Para inspirar: NAVE/RIO

Do jornalismo, do humor e da guerra

A socióloga Silvia Ramos, que também é curadora do Rio de encontros, iniciou a segunda rodada do debate. “O fato de o Brasil ter pouca tradição das mídias serem processadas por veicular notícias falsas importa na ausência de relevância que se dá à checagem na reportagem? Fico impressionada como as pessoas bem formadas compartilham coisas tão evidentemente falsas. O que acontece?”, questionou ela, lembrando a péssima cobertura jornalística quando o assunto é violência. “A polícia é sempre a fonte principal, quando não é a ultima fonte”, deixou a constatação.

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O cartunista Claudius Ceccon faz defesa do humor / Foto: ESPM

O cartunista Claudius Ceccon tratou de defender um tema que lhe é caro: “Humor tem de ter como objetivo desmontar, desmistificar, desvelar o que está escondido atrás. Não vai mudar a realidade, mas pode ajudar as pessoas a perceberem o que está por trás da realidade”, afirmou ele, emendando a pergunta em seguida: “A Globo não derruba uma presidente, mas é muito importante o papel que ela desempenha. Eu compro e leio dois ou três jornais por dia porque só acredito no papel. Essa juventude só vê internet. Ninguém abaixo de 40 anos compra jornal. Há uma crise de credibilidade. Estamos na fase da internet e, nessa fase, que papel têm os robôs? Como é que determinadas notícias falsas e tendenciosas conseguem ser disseminadas de forma tão total?

Anabela Paiva retomou a questão da imparcialidade: “Os veículos são feitos por pessoas, com hierarquias e metas, mas há espaço para contradição. PIG é uma perspectiva reducionista. A imprensa faz parte e reproduz preconceitos e práticas que estão na sociedade. De um lado é bom ver a parcialidade dos veículos, faz parte da tradição da imprensa no Brasil. Com advento do modelo americano mais empresarial, há uma clareza maior de posições políticas. Cabe a nós todos ouvir várias fontes e não ficar só entre pessoas que pensam como a gente. A gente precisa de imprensa de qualidade que faça checagens para que a gente possa tomar deicisões estando bem informados.”

Informações em disputa: confiabilidade e a legitimidade nas redes virtuais

As redes sociais na internet se tornaram um campo de disputa de versões e narrativas. Como avaliar a confiabilidade e a legitimidade da informação na era da “massa de mídias”? Para debater essas questões e suscitar novas perguntas, o segundo debate do Rio de Encontros 2016 vai receber a coordenadora do curso de Jornalismo da UFRJ, Cristiane Costa, o midiativista Rafucko e a jornalista e coordenadora da agência de checagem Lupa, Cristina Tardáguila.riode encontros

A internet e as novas formas de mobilização e representação

Eis o nosso convite para a primeira edição do Rio de Encontros 2016. Como convidados, o diretor executivo do ITS Rio, Fabro Steibel, responsável pela plataforma Mudamos; artista plástico José Miguel González Casanova, criador do projeto Banco dos Irreais; e o ativista e comunicador Rafael Rezende, diretor da plataforma Meu Rio.Cartaz-2016

 

Mão na massa!

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Gabi conta suas experiências com criações coletivas. Fotos: Davi Marcos (Imagens do povo)

GABRIELA AGUSTINI fala sobre o Olabi, um lugar para pessoas comuns, criações coletivas e tecnologias diversas

Lugares de experimentação e compartilhamento do fazer. Essa é uma das definições do que são os maker spaces, que podem ter ferramentas de marcenaria, componentes tecnológicos, agulhas e linhas de tricô ou ser um espaço totalmente em branco, como explica Gabriela Agustini, professora em lugares como a Fundação Getúlio Vargas e Universidade Cândido Mendes, e há um ano está envolvida com o Olabi, em Botafogo, um desses makers spaces. “No fundo, não importa muito como é a infraestrutura. Esses espaços partem do principio de que o cidadão comum tem oportunidade de criar muita coisa a partir de coisas muito simples, que as pessoas podem fazer juntas, somando conhecimentos. Não é sobre as máquinas ou as ferramentas, mas sobre as pessoas em conjunto construindo coisas”, define.

O nome em inglês desses lugares, espaços de experimentação, onde é possível colocar a mão na massa, tem razão de ser: facilitar a conexão com outros espaços semelhantes, espalhados pelo mundo. “Existe uma potência muito grande nesse tipo de produção”, explica Gabi, que embarcou para o Egito logo depois da sessão do Rio de Encontros, para conhecer iniciativas semelhantes no país.

A África, aliás, é um continente que concentra algumas das inovações originadas de espaços como esses. “No Quênia, o sistema de pagamento por celular chegou antes do sistema bancário”, conta Gabi. Criatividade e precariedade são ingredientes para inovações. “Em alguns países, as pessoas ficaram livres para fazer a engenharia reversa. Como todo o lixo tecnológico vai para lá, a galera acessa e cria novos usos. E o componente do lixo é bastante central na nossa atuação, de transformar algo que já existe e criar algo novo em cima. Embora essas iniciativas fiquem invisíveis nas mídias, porque a gente tem mais informações do que vem dos Estados Unidos e da Europa, tem muita coisa produzida na África que tem muito a ver com os desafios como os nossos”, disse.

SEM MEDO DE CAIXAS PRETAS

IMG_0056O que se faz no Quênia e outros países do Hemisfério Sul é o que, no Brasil, ficou conhecido como “sevirismo”, ou “a arte de se virar”. “As tecnologias não são neutras. As funções embutem comportamentos culturais e ter a possibilidade de criar coisas é importante no mundo de hoje, quando o nível de homogeneidade de pensamento é pouco diverso”, explica Gabi.

A desconstrução de máquinas e a utilização de sucatas inspirou as criações dos participantes do Gambiarra Favela Tech, feito pelo Olabi, na Maré. “Trabalhamos a partir do lixo, mostrando que as tecnologias podem ser apropriadas para os mais diversos fins. No processo de aprendizagem, os jovens criaram peças a partir de questão que eles colocaram”, conta Gabi. Além das criações, ficou na Maré um maker space, o Bela Labe, que vai ter uma segunda edição, agora para as crianças. A ideia é conhecer os aparelhos por dentro e vê-los como algo que pode ser produzido e não apenas consumido. “Vamos perder o medo das caixas pretas”, conclama Gabi, organizadora, com Eliane Costa, do livro Debaixo para cima, que também trata deste tema.

SUSTENTABILIDADE

A multiplicação desses espaços de criação esbarra numa questão bastante prática: sustentabilidade. Esta foi, aliás, a primeira pergunta feita por Batman Zavareze a Gabi Agustini. “Essa é a parte mais difícil”, afirmou. “A gente tem Fundação Ford e outros apoios desse tipo, como a Open Society, além de aluguel de espaço e patrocínio. Mas são modelos frágeis. Não tenho resposta para isso. A gente tem momentos de abundância e profundo desespero. O que fazemos é gerenciar olhando pra frente. E a capacidade de se antecipar na busca de financiamento é determinante”.

Links:

Olabi: http://olabi.co/

Gambiarra Favela Tech: http://www.gambiarrafavelatech.org/

Debaixo pra cima: http://www.debaixoparacima.com.br/