Democracia no Brasil: Riscos e perspectivas – o debate em frases

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O Rio de Encontros reiniciou suas atividades com força total. Na 1ª roda de conversa do ciclo de 2018, o tema foi Democracia no Brasil: Riscos e perspectivas. Temas como os 30 anos da Constituição Federal de 1988, a diferença entre a letra da lei e a sua aplicação na prática e a importância do diálogo no exercício da política estiveram entre os mais lembrados. Diante de uma sala 2.2 lotada, a historiadora e socióloga Maria Alice Rezende de Carvalho, o sociólogo Antonio Engelke e os demais presentes conversaram por 3h. A mediação do evento ficou a cargo de Ilana Strozenberg, diretora acadêmica d’O Instituto.

Confira abaixo algumas das falas mais emblemáticas do debate:

“A constituição de 1988 pensou no cidadão, que pode se organizar e conceber sua vida por meio de ações autônomas. Sua marca é o consenso pautado pela questão dos direitos humanos. Apostar na constituição de 1988 é apostar nisso”
(Maria Alice Rezende de Carvalho)

“Ao completar 30 anos, a constituição de 1988 está em crise, assim como outros princípios. Um exemplo é a presunção da inocência, que foi violada no episódio das prisões durante uma festa em Santa Cruz”
(Igor Rosa)

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Tarcísio Lima: “A ausência de filosofia no currículo dificulta a percepção de direitos e deveres”

“Já fui ridicularizado por agir dentro da lei durante uma batida policial. A ausência de filosofia e outras noções básicas no currículo dificulta a percepção de direitos e deveres”
(Tarcísio Lima)

“As cidades são vistas como espaços por excelência da vida democrática, pela maior diversidade, oferta de alternativas, serviços e possibilidades de circulação. Mas como pensar isso no Rio, onde a circulação é limitada e os direitos são violados?”
(Ilana Strozenberg)

“Em relação a obras, o debate está dominado pela indignação com a corrupção, mas com pouca discussão sobre o interesse público delas. Os desvios na construção do metrô são um descalabro, mas também é um absurdo ele ir à Barra e não à Baixada”
(Antonio Engelke)

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Mariana Xavier: “Talvez, a gente saiba mais do que quem só ouviu falar de onde moramos”

“Quero que, mais que territórios, pessoas de periferia estejam representadas na política. O olhar externo para nossos problemas é diferente do nosso, que circula a cidade. Talvez, a gente saiba mais do que quem só ouviu falar de onde moramos”
(Mariana Xavier)

“Democracia não é só para quem quer, é para quem tem acesso”
(Ellen Rose)

“É muito difícil pensar em representação acordando às 5h30 para ir trabalhar. Em Caxias, temos coronéis que mandam e desmandam nos vereadores. Na Baixada, a constituição está passando muito longe. Não sei como levar esse debate para lá”
(Aline Costa)

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“Sobre a angústia de levar essa discussão para outros territórios, penso que não dá para esperar pelo poder público. Precisamos levar o que aprendemos aqui para praças, terreiros, igrejas. Não podemos ter medo. Lugar de coitado não é para mim”
(Cyntia Matos)

“O saber popular tem que estar presente na democracia. Sei que isso é um desafio, mas é algo que me inquieta. A democracia não vai ser um direito de todos enquanto saber popular precisar ser filtrado pela academia”
(Veruska Delfino)

“Tocqueville dizia que há povos que se apaixonam tanto pela igualdade que esquecem da liberdade. Não adianta todos serem iguais, mas mudos. Esse tema vem sumindo do horizonte brasileiro. De tão desiguais, quase não falamos mais em liberdade”
(Maria Alice Rezende de Carvalho)

“A democracia não é a realização do interesse de quem a pratica, mas a conciliação de vários interesses conflitantes (…) Fazer acordos não é um desvio ou doença, mas a própria essência do jogo democrático”
(Antonio Engelke)

“Eu estava no último comício do Freixo quando, na empolgação da hora, ele disse que não ia abrir diálogo com o outro lado. Nesse momento, senti que perdemos. Representante tem que ser mediador”
(Teresa Guilhon)

“Acho que nos ajudaria muito ter um projeto de nação. Os militares tinham, prezavam o investimento em ciência e, por isso, criaram universidades, investiram em tecnologia. Hoje em dia, nem direita nem esquerda têm isso. Ficamos sem saber em quem votar.”
(Maria Alice Rezende de Carvalho)

“Quando se toma uma decisão por plebiscito ou forma parecida, fica muito mais difícil revê-la. No fim, nem sempre a participação é tão democrática assim, embora pareça, na teoria”
(Antonio Engelke)

“A pergunta que eu me farei nessas eleições é ‘que candidato dará mais chance para sociedade se organizar com mais autonomia? Quem melhor responder a isso terá o meu voto”
(Maria Alice Rezende de Carvalho)

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Reveja vídeos que marcaram o Rio de Encontros em 2017

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Davi Marcos: integrante da turma 2017 foi autor de filmes exibidos em diversos encontros

Os vídeos marcaram a temporada 2017 do Rio de Encontros. Feitas por integrantes da turma, diversas imagens marcaram os participantes da roda de conversa nos sete encontros ao longo do ano. Reveja a seguir algumas das mais marcantes: Continuar lendo

Rio de Encontros fecha 2017 com “Artes do Encontro”

Última edição do Rio de Encontros em 2017 terá visita guiada e sarau

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Arte, imaginação e reflexão estarão presentes na última edição do Rio de Encontros em 2017, na próxima quinta (23). Batizado de Artes do Encontro, o evento tem a sua programação composta por uma visita guiada e um grande sarau com integrantes das turma 2017.

Tudo começa às 14h, com uma visita à exposição de fotografias “Feito Poeira ao Vento”, mediada por Janaina Melo, gerente de educação do Museu de Arte do Rio. Logo depois, acontece um sarau que reunirá o pesquisador de periferias, culturas e política João Guerreiro, artistas convidados, integrantes da turma Rio de Encontros e um palco aberto onde todos os que desejarem poderão se inscrever.

Os lugares são limitados e, em função das normas do Museu, a inscrição pelo e-mail riodeencontros2017@gmail.com é indispensável para constar da lista de convidados na entrada. Os que não se inscreverem poderão entrar, em ordem de chegada, caso haja lugares disponíveis.

Juventude, gênero e afeto: o debate em frases

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Quando o assunto é juventude, gênero e afeto, a crescente diversidade e a emergência de jovens mais informados e abertos à discussão são novidades interessantes dos últimos anos. Entretanto, questões como os limites impostos pela noção de identidade, cura gay e outras formas de discriminação ainda são desafios a serem superados.
Essas e outras questões foram discutidas na 5ª edição do Rio de Encontros em 2017, realizada no último dia 21. O debate reuniu no MAR a militante feminista Bruna de Lara, o jornalista e ex-assessor de imprensa do Rio Sem Homofobia Diego Cotta, a transsexual, fotógrafa, ativista cultural e militante LGBTQI Quitta Pinheiro e a antropóloga Sílvia Naidin, que estuda o uso das biotecnológicas na construção do gênero. A antropóloga e organizadora do Rio de Encontros Ilana Strozenberg ficou responsável pela mediação da roda de conversa.

 

Confira abaixo algumas das falas mais emblemáticas do evento:
  
Na minha família, tenho pessoas que acreditam na cura gay. Não brigo mais com elas, mas apresento pessoas, converso e tomo outras atitudes. A eficiência do afeto é muito maior do que a de uma briga no Facebook. (Veruska Delfino)
 
Apesar de ser visto como um colégio formador de uma elite acadêmica, o Pedro II não discutia relacionamento abusivo no período em que estudei lá. Se eu soubesse delas antes, teria sofrido muito menos. (Bruna de Lara)
 
Existe um mundo por trás da palavra trans. Uma das consequências da luta identitária é esse efeito homogeinizador e isso é natural. Quando você reconhece uma determinada identidade, algo sempre fica de fora. (Sílvia Naidin)
 
Minha filha teve um debate sobre o transfeminismo, que tenta conciliar a adoção do estereótipo por pessoas que querem marcar sua transformação e o esforço feminista para acabar justamente com esses estereótipos. (Anabela Paiva)
 
Eu não me maquio, não me depilo, mudo meu cabelo quando quero e não entendo que, com isso, esteja reforçando um estereótipo feminino. Estou só buscando algo que eu queira dentro daquilo que o mundo me oferece. (Quitta Pinheiro)
 
Faço parte do movimento feminista negro, que tem bandeiras muito específicas, e sempre penso no que poderia ser um princípio comum do feminismo. Qual é a luta de todas as mulheres, inclusive as não-feministas? (Sinara Rúbia)
 
Devíamos nos preocupar menos com coisas como a cura gay. No campo do gênero e da sexualidade, já ganhamos. Só fico preocupada em como temos entregado o gênero e outras questões à medicalização. Viver é difícil mesmo. (Sílvia Ramos)
 
Queer era um termo pejorativo para gay que hoje denomina um movimento baseado na ideia de dessencialização, de coisas que não se deixam aprisionar. Em geral, movimentos se solidificam e o queer questiona isso. (Sílvia Naidin)
 
O cenário atual é muito positivo. Temos a personagem trans da novela, a Pabllo Vittar acontecendo identitária e mercadologicamente e as novas gerações têm a faca e o queijo na mão para acabarem com os preconceitos. (Diego Cotta)
 
Outro dia, uma amiga me disse: ‘você era um homem gay e virou uma mulher trans, que gosta de homens. Logo, você é hétero’. Nunca tinha me dado conta disso! (Quitta Pinheiro)

Rio de Encontros discute juventude, gênero e afeto no próximo dia 21

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As categorias de gênero são construções culturais? Como as mudanças e novas modalidades de gênero impactam a vida dos jovens? Como isso se manifesta nas mais diversas relações? No próximo dia 21, a 5ª edição do Rio de Encontros em 2017 vai abordar essa e outras questões ao debater o tema Juventude, gênero e afeto no Museu de Arte do Rio (MAR), a partir das 14h.  Continuar lendo

Turma do Rio de Encontros faz perguntas tão boas quanto alunos em Berkeley, diz Janice Perlman

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Janice Perlman na 2ª edição do Rio de Encontros (Thiago Brito/ESPM)

A socióloga americana Janice Perlman já deu aulas em cursos de pós-graduação nas universidades da Califórnia e de Berkeley, nos Estados Unidos. Ela acompanhou a 2ª edição do Rio de Encontros em 2017, que discutiu o tema “O que é ser jovem no Rio de Janeiro?” e ficou encantada com o que viu. “as perguntas que ouvi no Rio de Encontros eram iguais ou melhores do que aquelas feitas pelos meus alunos no exterior”, afirmou a pesquisadora em entrevista ao blog do Rio de Encontros.
Confira os melhores momento da conversa:
Qual foi sua impressão do Rio de Encontros?

São eventos inspiradores pela heterogeneidade do público, com gente diferentes locais, cores e idades. No evento com o tema “O que é ser jovem no Rio de Janeiro?”, os convidados falaram coisas interessantes, mas não responderam à pergunta principal. Em qualquer cidade, ser jovem é sempre um desafio. Trata-se de definir quem você é sobre pressão e criar sua própria imagem. O formato da sala foi excelente, com todas as cadeiras em círculo e funcionou super-bem. Ele quebrou a distância entre os especialistas e os espectadores, que conheciam de fato o tema do evento.

Você considera importantes iniciativas como o Rio de Encontros? Por quê?

Acho importante por reunir gente de todas as áreas do Rio. Outro ponto interessante são as falas competentes e autoconfiantes da turma, que tem segurança de si. O terceiro aspecto que me chama atenção é ver nordestinos e negros discutindo lugar de fala com honestidade. Surgiram perguntas maravilhosas e nenhuma delas com raiva ou intenção de humilhar, apesar de sérias e duras. Dei aulas em cursos de pós-graduação nas universidades da Califórnia e de Berkeley e as perguntas que ouvi no Rio de Encontros eram iguais ou melhores do que aquelas feitas pelos meus alunos no exterior.

Qual é o foco da sua pesquisa atual?

Minha pesquisa aborda o impacto dos megaeventos no Rio e tem financiamento da Thinker Foundation, uma fundação que acompanha questões ligadas a políticas públicas. Comecei em 2015 e passei os primeiros dois anos tentando entender a esperança que antecedeu Copa e Olimpíadas. Pude ver como as políticas e a esperança de inclusão e sustentabilidade nesse período foram se desmanchando. Mas, desde o começo, fiquei impressionada com a criatividade dos jovens de favela em meio ao colapso. Houve uma tentativa da parte deles de criar um imaginário positivo em relação às comunidades.

Quais as principais conclusões que seus estudos geraram até o momento?

Sob a noção de que está tudo ruim, há uma vida plena de cores e movimentos surgindo com os jovens. Eles têm mais acesso a universidades, teatros, museus e se valem de grafite, literatura e outras linguagens para se expressar. Quase toda comunidade tem uma iniciativa assim hoje. Também admiro a emergência da noção de metropolitano, no lugar do municipal. Ela representa um processo em sintonia com o Rio que queremos. A bala perdida e o abuso de direitos civis não são capazes de matar a esperança. Apesar de tudo, as pessoas conseguem trabalhar pensando em um futuro melhor para si.

Que transformações você percebeu na sua área de estudo desde sua primeira visita ao Rio? Por que você acredita que essas mudanças aconteceram?

Vim ao Rio pela primeira vez em 1968. Era uma época em que ninguém tinha voz. Muitos não sabiam diferenciar direitos de deveres. As pessoas diziam “eu tenho direito de obedecer o governo”. Nas favelas, mais de 90% das mulheres eram analfabetas, assim como 74% dos homens. Na geração dos filhos dessas pessoas, só 6% eram analfabetos e, na dos netos, 0% não sabia ler e 11% já estavam na universidade. É uma situação muito diferente, que resulta em reivindicações muito diferentes. Entretanto, esse movimento de inclusão na sociedade de consumo não representou aumento da cidadania. Se antes eles tinham medo de perder a casa, hoje têm medo de perder a vida ou um parente.

Qual será o tema do seu próximo livro?
Pretendo abordar a importância de ser gente. Se todos no Rio fossem tratados como tal, haveria menos violência, mais mobilização social e novas ideias em cultura, educação e outras áreas. O grande desafio do momento não é o imediato, o Fora Temer, mas sim organizar esse novo contrato social, com foco no respeito às diferentes cores, raças, idades e estilos de vida, que nas favelas são muito importantes. Durante a minha pesquisa, vi pessoas com dinheiro que não saíam de suas comunidades por conta desse estilo de vida. O Rio perderia muito se acabasse com isso, porque é esse estilo de vida que faz dele uma cidade maravilhosa. Na abertura das olimpíadas, quem dançava, pulava e fazia a graça do espetáculo não era o Corcovado ou o Pão de Açúcar, mas as pessoas das favelas. Ao mesmo tempo, esses mesmos moradores são vítimas de maus tratos. Tudo isso é muito paradoxal. O que faz do Rio uma atração do turismo mundial é a cultura que sai da favela. Sufocá-la é contra-produtivo.

 

Novo formato do Rio de Encontros agrada convidados

Debate com provocadores protagonistas cede espaço para roda de conversa em que todos têm o direito de falar

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Plateia acompanha a 3ª edição do Rio de Encontros em 2017 (Thiago Brito/ESPM)

Uma novidade do Rio de Encontros em 2017 vem recebendo elogios de todos os que têm participado da série de diálogos. Trata-se do novo formato, em que o debate com os convidados – no evento, sempre denominados “provocadores” – cede espaço para uma roda de conversa, em que a palavra circula entre todos os participantes. Continuar lendo