Paisagem carioca: de quem é esse patrimônio?

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Rio de Encontros 2012: café da manhã na abertura da última reunião do ano, na Casa do Saber
Foto: Ariel Subirá

O último Rio de Encontros de 2012 começou bem cedo, com mesa farta, café quente e abraços calorosos. Na manhã chuvosa de terça-feira, 27 de novembro, a  Casa do Saber ficou cheia de gente e de opiniões sobre a paisagem como patrimônio maior do Rio de Janeiro. Convidados como provocadores, quatro especialistas das áreas de urbanismo, arquitetura, paisagismo e economia se juntaram a uma plateia falante cuja participação foi um dos pontos altos do encontro. A despeito da chuva.

Paisagem carioca, de quem é esse patrimônio? “A gente termina com um tema que não podia ser mais premente:  é um título questionador, que dá um pouco o tom de todos os encontros. O Rio de Encontros não é um seminário para ideias acabadas, propostas fechadas ou diretrizes. Nós queremos instigar a conversa sobre temas que não são abordados, em outras instâncias ou fóruns, da maneira que gostaríamos”, afirmou Ilana Strozenberg, presidente d’O Instituto.

A cidade sede das Olimpíadas de 2016 e principal palco da Copa do Mundo está em obras. As intervenções e a expansão que se estendem da Zona Portuária à Zona Oeste, por sua vez, modificam a paisagem urbana e afetam diretamente o carioca. “O estado em que estamos é de alerta e o diálogo, portanto, é mais que oportuno”, reforçou Ilana.

O arquiteto Manoel Ribeiro, na mediação, apresenta os provocadores do encontroFoto: Ariel Subirá

O arquiteto Manoel Ribeiro, na mediação, apresenta os provocadores do encontro
Foto: Ariel Subirá

Mediador do debate , o arquiteto e urbanista Manoel Ribeiro apresentou os provocadores do dia: Augusto Ivan de Freitas Pinheiro,  professor de Urbanismo da PUC-Rio e integrante da equipe da Empresa Olímpica Municipal do Rio de Janeiro; a deputada estadual Aspásia Camargo; a paisagista Cecília P. Herzog, presidente do INVERDE (Instituto de Pesquisas em Infraestrutura Verde e Ecologia Urbana); e José Márcio Camargo, professor titular do departamento de Economia da PUC-Rio.

Cada um em sua respectiva área, os provocadores tiveram a tarefa de esmiuçar questões como as múltiplas dimensões que  circundam a paisagem, como a econômica, a social e a cultural.

Na ordem de apresentação, Manoel Ribeiro explicou: “Aspásia é  uma lutadora pela cidade e seu papel mais importante é a luta pelo respeito à cidade e seu plano diretor. José Márcio é um economista que se interessa pelos problemas urbanos, com enfoque na sensibilidade moradora. Augusto Ivan é servidor público na acepção da palavra, o principal responsável pelo Corredor Cultural, abriu a consciência sobre o patrimônio construído na cidade. Cecília é uma militante do meio ambiente, uma brigadora pelas questões sócio-ambientais.” Todos a postos, ao debate.

Turning point

Aspásia Camargo

A deputada Aspásia Camargo entre Augusto Ivan, Manoel Ribeiro e Ilana Strozenberg
Foto: Ariel Subirá

O momento é de transformação e é preciso avançar em uma direção mais pró-ativa, anunciou Aspásia Camargo, logo de início, para a plateia do Rio de Encontros. Com discurso assertivo, documentos, códigos e leis à mão, a deputada foi taxativa: “A cidade engole e destrói a natureza. Por conta do que praticamos nas últimas décadas, temos um passivo que precisa ser acertado para que esse processo seja revertido”.

A conscientização e a mudança cultural precisam ser exercidas e o princípio está na legislação, ou seja, no direito aceito, defendeu Aspásia. O trabalho, no entanto, é árduo e longo. Uma vez que o plano diretor estabelece a paisagem como o bem mais valioso da cidade, por sua inserção turística, que gera emprego e renda, é preciso inventariar essa paisagem, para que cada espaço seja preservado.

“Dez anos atrás, começamos a discutir a relação entre paisagem cultural e patrimonial. Não foi fácil atender aos critérios e limites da Unesco sobre a Cidade Patrimônio da Humanidade. As práticas são obsoletas e não combinam mais com o que se discute aqui. A cidade do Rio de Janeiro é um território federalizado. No fundo, o governo federal é um conjunto de órgãos desarticulados.”

Falta clareza, segundo Aspásia, às ações e projetos que estão sendo postos em prática e que podem afetar a cidade de forma definitiva. “Reuniões secretas impõem à cidade  algo que ainda tentamos resolver. O que está em jogo é que vamos pegar a área mais nobre da cidade e em vez de resolver os problemas pendentes e que precisam de solução, o que vamos fazer é criar um muro de navios que, além do problema ambiental, é horrível”, disse ela sobre as intervenções na zona portuária. “Essa é uma luta importante, assim como o Jardim Botânico”, disse.

A questão é tão complexa que não basta uma legislação emancipadora para criar práticas corretas. “Estamos com todas as práticas com prazo de validade vencido. As legislações vêm do regime militar e jamais foram discutidas publicamente. Hoje, no estatuto da cidade, nós temos instrumentos que podem ajudar a fazer intervenções inteligentes e mais rápidas. Temos de fixar regras claras e harmonizar a legislação”, completou.

Aproveitar o que já existe é fundamental. “Sem utilizar os instrumentos de que já dispomos, não vamos ter uma cidade harmoniosa, que possa contemplar o desenvolvimento sustentável com o uso inteligente do patrimônio natural e  cultural.”

Rio, teu cenário é uma beleza de riqueza

José Márcio Camargo: “É impossível precificar a beleza. É difícil cobrar para uma pessoa se locupletar com o Corcovado.”
Foto: Ariel Subirá

José Márcio Camargo é apaixonado pelo Rio de Janeiro. Tanto que, como ele faz questão de esclarecer, não é um economista que trabalha em questões urbanas: a exceção é a cidade que ele escolheu para morar. “Minha única inserção na economia urbana é o Rio de Janeiro. Isso vem do fato de que adoro essa cidade e, por esse sentimento, comecei a pensar nela. Mas uma coisa que me impressiona é que todo mundo acha essa cidade espetacular. Mas não vejo nenhum carioca cuidando dela”, pontuou, para início de conversa.

A relação do economista com a cidade é longa. Começou em 1971. Tempo suficiente para muitas conclusões. Uma delas é a de que a cidade do Rio de Janeiro não existe sem o estado do Rio de Janeiro, do qual ele aponta três regiões estratégicas:

“O Sul, geograficamente bem localizado e próximo de grandes centros de consumo; o Norte, que já foi mais bonito, até descobrirem o petróleo, e onde, por alguma razão, a agricultura nunca funcionou; e o Triângulo Mágico (Parati, Búzios e Angra dos Reis). Conheço muita coisa no mundo, mas essa é a região mais espetacular que conheço, pela combinação única de água doce e água salgada, montanha e floresta. Que região do mundo, numa área tão pequena tem essa combinação? Em uma hora, você muda de ar, de ambiente, de vida, e isso é maravilhoso”, ressaltou.

O estado deveria se concentrar em manter a beleza que lhe é natural e sua grande riqueza. “Que São Paulo e Belo Horizonte tenham atração mórbida pela indústria, entendo. São horrorosas, não têm nada belo ou agradável para se ver. Não dá para comparar. O problema é que a beleza é um bem público no sentido de que não tem preço. É impossível precificar a beleza. É difícil cobrar para uma pessoa se locupletar com o Corcovado. Quando é um bem privado, você cobra uma mensalidade, como nos clubes, onde o prazer compensa o valor da mensalidade. Mas no Rio de Janeiro, o que tem de riqueza é a beleza”, avaliou.

O Rio de Janeiro deveria, portanto, criar a economia da beleza, calcada no que os economistas chamam de externalidade de bem público, sugere José Márcio, certo que de coisas a que todos têm acesso, ninguém cuida. “A humanidade só cuida do que paga. Se não paga, se pode se locupletar com a paisagem ou coisa, você vai usando.”

A crítica vem acompanhada de um reconhecimento: cuidar do Rio não é tarefa simples. “O estado é fundamental. Estado que gera incentivos e menos proibições. Como criar instituições que gerem o incentivo correto para que as pessoas cuidem da cidade? Não adianta proibir, não adianta censurar o mal educado. É assim.”

Economia da beleza e o incentivo correto

Exemplos não faltam. Centro da região metropolitana, a baía de Guanabara é, segundo José Márcio, o projeto de maior retorno econômico e social para a cidade. “No dia em que a baía de Guanabara for limpa, o fundo da baia vai valer muito. Esse é o maior projeto de transferência de riqueza que a cidade poderia fazer. É um sinal de que preservar a beleza do lugar é parte do projeto de ocupação da cidade, o que muda a forma como as pessoas vêem a cidade”, explicou.

Economia da beleza não é economia de entretenimento. “A cidade deveria ter por princípio valorizar o bem-estar. Por que o Rio não tem um centro médico espetacular? Médico, certamente, valoriza o bem-estar. Isso significa que você valoriza menos dinheiro porque tem mais bem-estar. Em São Paulo, você precisa de mais dinheiro”, comparou.

O Rio de Janeiro esbanja vantagens para atrair tecnologias e profissionais liberais, para quem o estado deve mirar em suas políticas de incentivo. “As pessoas respondem a incentivos. É preciso gerar emprego para pessoas pouco qualificadas a partir da atração de pessoas qualificadas que sejam capazes de gerar empregos para pessoas pouco qualificadas. A gente tem de estar muito preocupado em gerar os incentivos corretos”, afirmou.

Quanto vale uma praia?

Augusto Ivan: “Não estamos caminhando tão mal assim, temos muitos exemplos positivos”
Foto Ariel Subirá

Não houvesse a cidade não haveria natureza. Não houvesse gente morando, a cidade não estaria preservada. O urbanista Augusto Ivan é otimista. Em quinze minutos, enumerou exemplos de experiências que deram certo, apesar da tão alardeada má educação da população. Do Parque de Madureira ao Parque do Flamengo, de Copacabana ao Corcovado, a inserção de novos elementos na paisagem da cidade demonstra que se a natureza é bela, os elementos postos sobre ela são igualmente espetaculares.

“Nossa graça é também nossa desgraça. O hábito de destruir a natureza, esse medo e pânico dela, deve ter vindo de um lugar que desconheço. Todos nós somos um produto de misturas das mais gerais e criamos uma cultura um pouco diferente do resto do país”, analisou.

A cidade cresceu convivendo com a natureza, defendeu Ivan. Uma relação conflituosa mas essencialmente rica.”Mesmo quando não era poluída a Lagoa, os peixes morriam. A natureza não é estranha à vida. Em Paquetá e Santa Teresa há um modo particular de vida e um tipo especial de gente. Bairros como a Urca adquiriram identidade muito própria por causa da presença da natureza. O Parque de Madureira deu certo porque atende  uma população que estava ansiosa. É uma natureza domada que dá diversão”, ressaltou.

Se a construção do Cristo fosse anunciada hoje, provavelmente estaríamos preparando um abaixo-assinado contra, ele brincou. Mas os elementos inseridos na paisagem, por sua vez, criaram uma harmonia, ele empunha a bandeira.  “Vêm da época do Getúlio as primeiras experiências de remoção de favelas na Lagoa, que foi sendo tomada por uma classe de renda muito mais alta, o que fez com que os favelados acabassem saindo dali. Num momento posterior, a gente chega a uma ocupação que hoje também seríamos contra: o Aterro do Flamengo. A gente tem uma tradição de parques sem igual na América. O Passeio é o primeiro parque público da América”, exemplificou ele, para lembrar que reclamação demais é bobagem. É desconsiderar um longo trabalho feito décadas atrás e que deve ser aproveitado.

A praia tem preço

Medir a riqueza da beleza pode ser difícil, mas Augusto Ivan já fez algumas contas. No início dos anos 2000, percorreu a praia de Copacabana e, metro a metro, mediu como se movimenta a economia nas areias da praia famosa do Rio. O resultado foi o estudo intitulado “Praia de Copacabana: um ícone carioca”, publicado na revista do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

“As praias são o Rio de alguma maneira. Elas são tão públicas que já não são mais praias. Esse estudo era sobre como a praia do Rio é especial. Sempre me espantava ver uma montanha de gente trabalhando na praia de manhã cedo. Durante três meses, contamos todos os camelôs, quiosques, gente de hotel, até a cigana e os meninos que fazem a escultura de areia. Chegamos a um número e calculamos aquilo em valor. Contei 20 mil pessoas empregadas na orla de Copacabana que gerariam um emprego indireto para 100 mil pessoas”, explicou.

No balanço feito pelo urbanista, o faturamento na praia era equivalente ao orçamento da cidade de Nova Iguaçu.

“Copacabana também é espetacular. Apesar dos prédios altos, dos hotéis, se tirou partido econômico da paisagem. Não estamos caminhando tão mal assim, temos muitos exemplos positivos. Enfim, a paisagem da cidade é democrática”, finalizou.

Salve-se quem puder

Cecília Herzog

Cecília P. Herzog: “O que a gente quer é só carro? Palmeira e gramado não são árvores e não têm função ecológica”
Foto: Ariel Subirá

A paisagista Cecília P. Herzog carrega uma causa no laptop. É do pequeno computador que ela tira as imagens de uma paisagem deslumbrante que ela tando defende: o Rio de Janeiro. Principalmente se vista do alto, a cidade é espetacular, ela afirma, de braços abertos.

Realista ao apontar problemas, Cecília também é confiante que as soluções uma hora aparecem. Não sem esforço, é bom lembrar. À frente do INVERDE (Instituto de Pesquisas em Infraestrutura Verde e Ecologia Urbana), ela tem se dedicado, nos últimos sete anos, a pesquisas sobre como as cidades podem se tornar sustentáveis e resilientes. O Rio, em particular, tem muito que aprender.

As lições e o alerta vêm da natureza. “Tirando a paisagem, o Rio é uma cidade como outra qualquer. A gente ocupou os lugares que eram das águas e não fez nada a respeito. As lagoas estão fadadas a desaparecer, mas estamos adiantando esse processo. A cidade é extremamente rodoviarista, as águas acabam nos bueiros, é uma dragagem sem fim, tudo caindo, não se consegue andar em calçadas. A gente vive enxugando gelo nessa cidade, não parte para soluções sustentáveis de longo prazo”, a contagem estava apenas no início.

A cada chuvarada, o caos. Entre um slide e outro na apresentação da paisagista, uma beleza e uma tristeza. “O que estamos fazendo na baixada de Jacarepaguá?”

Ao mostrar a geometria das retas e das esquinas, Cecília explicou funções ecológicas e foi taxativa sobre o que vê: ecossistemas sem funcionalidade. “Estamos simplesmente fazendo mais do mesmo, não partimos para um modelo novo. Jardins de condomínios não têm função. Em vez de arvores temos palmeiras e gramado de plástico.”

Cecília assegura que a população está completamente desconectada do ecossistema. Ninguém sabe nem pergunta de onde vem água ou comida.

“É para assustar. O problema é mais sério do que se imagina. O que acontece com as crianças que vivem de caixa em caixa? Como as crianças vão cuidar da natureza se não a conhecem? As doenças são fruto do nosso descolamento. Nos últimos anos, a cidade industrial nos descolou da natureza. Todo mundo vive estressado, a gente vive assim na cidade. Nossa baixa qualidade de vida é total: engarrafamentos, enchentes e deslizamentos, altos índices de ruídos, falta de espaço público.”

Para piorar, um campo de golfe

Nas andanças pela cidade, Cecília colhe exemplos de abuso e retrocesso: a eliminação da floresta de Deodoro, uma floresta primária; as desapropriações pela Light, no Complexo do Alemão; ameaças aos manguezais de Guaratiba, que estão morrendo por falta de aporte de água doce; a Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema.

“A Transoeste é feita sem o menor estudo de ecologia de estrada, que tinha de ser feito sob uma outra ótica. Imagina o túnel, que vai ser construído, em dia de tempestade?”, ela pergunta e tece mais assombros: “Áreas alagadas estão sendo ocupadas sem plano e sem visibilidade. É tudo feito no tapa. Jogo a tolha e vou morar em Paris ou continuo aqui brigando?”

A cidade, na visão de Cecília, planta erros. “É essencial adaptar as cidades para as pessoas viverem em harmonia com a natureza. Ou essa cidade maravilhosa que se tem vai se perder. Fico muito preocupada com a cidade que as minhas netas vão ver.  Como é que faz? Ninguém sabe, as pessoas estão buscando, mas se sabe que é preciso sair disso.”

Os parques de Seul

Cecília enxerga o Rio mas amplia o olhar em direção ao mundo. “As mudanças climáticas estão agindo. Como estamos nos preparando? O mar não quer saber, ele entra, a gente não controla a natureza. A Holanda já aprendeu, deixa o mar entrar. O mar já subiu nas últimas décadas, a gente vai ficar sobre as águas, mas isso não nos está impedindo de estreitar rios. Continuamos fazendo as mesmas bobagens que fizemos esses anos todos. Continuamos aterrando e construindo empreendimentos imobiliários”, o tom é de revolta baseada em dados concretos.

Na lista de bons exemplos, Seul é o mais emblemático: “É um caso de mudança radical, de transformação de uma cidade infernal em cidade celestial. Tudo que eles fizeram calcados em educação e em planejamento da paisagem urbana que privilegia o verde”, ela explicou como a cidade aproveitou os Jogos Olímpicos de 1988 e a Copa do Mundo de 2002. “Ficaram cinco parques de herança para a cidade. É um exemplo de desenvolvimento com harmonia, de serviços ecossistêmicos. Tanto que o prefeito virou presidente e, hoje, a Coréia vende tecnologia para o mundo inteiro”, ela ressaltou.

O que a gente quer é só carro? Palmeira e gramado não são árvores e não têm função ecológica, adianta Cecília, para quem ainda não entendeu. “O que a gente está construindo nessa cidade? O Rio tem de ser uma cidade inclusiva e a escolha é nossa. Se eu achasse que estava tudo perdido, não estava aqui.”

O Rio é nosso, conversa com a plateia

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Claudius Ceccon: “Devemos desejar educação de qualidade para todos. Assim como o hospital também deve ser para todo mundo”
Foto: Ariel Subirá

“Dá para não vender a paisagem? Todos os hotéis vendem seus espaços. E a paisagem tem um significado positivo. É um ativo econômico o tempo todo. Um conteúdo simbólico independente da rua onde está. Como que se incorpora a legislação que nós temos? Como se cola nela? O lixo diminuiu na praia por educação, o que é fundamental. Tem todo um trabalho de educação, sem dúvida. Mas como colar no dirigente municipal?” Thereza Carvalho (UFF)

“Cecília está certa, foi sensacional. As experiências mostram que as crianças têm uma ideia muito clara do lugar onde elas moram e do que elas querem. Resolvemos fazer uma experiencia e dar às crianças do Santa Marta uma câmera. Crianças com idade de quatro e cinco anos. Selecionamos 100 fotos das quase mil que elas tiraram durante um passeio pela comunidade e fizemos uma exposição. E vamos fazer outra, as fotos ficaram fantásticas. Outra ideia, no Chapéu Mangueira, monta o mapa afetivo do local, feito por crianças um pouco maiores, com idade de oito a dez anos. E é incrível, as crianças identificam tudo, sabem exatamente onde está cada coisa. Essa experiência demonstrou que as crianças curtem a natureza e têm essa noção do lugar onde vivem. Incentivar a participação delas no diagnóstico, na elaboração e no acompanhamento do projeto, é uma escola de cidadania como nenhuma outra. Devemos desejar educação de qualidade para todos. Assim como o hospital também deve ser para todo mundo.” Claudius Ceccon (CECIP – Centro de Criação de Imagem Popular)

“As pessoas não aprendem depois dos 15 anos de idade. O custo de se aprender coisas novas quando adultos, é enorme. Criança é que aprende de verdade. E não fui eu que descobri isso. Criança é fundamental.” José Márcio Camargo

“A escola é um lugar para pensar a cidade. A mídia tem uma enorme responsabilidade em relação à atitude que o brasileiro e o carioca têm sobre a cidade. As decisões tomadas agora não ouvem ninguém, não há debate público. Qualquer coisa tem de passar pelo debate. A pressa não é uma desculpa para que não aconteça o debate.” Claudius Ceccon

“Os adultos é que ensinam as crianças. Como transformar a venda privada em benefício público? Quando o hotel se coloca em Ipanema, está vendendo Ipanema, mas se apropria disso privadamente. Como transformar isso em benefício público? Você não vai conseguir dominar o mercado. Não vai. Se ficar na frente, ele vai te derrubar e você vai ficar louco.” José Márcio Camargo

“O projeto Paineiras pretende resolver o problema do estacionamento para o Cristo Redentor. Trago essa inquietação. É serio querer construir um bolsão de estacionamento dentro do Parque da Tijuca.” Isabelle Cury (IPHAN)

“Nós somos desnorteados, a sociedade civil carioca é anômica. As praias do Rio têm uma legislação de proteção. Todo mundo adora fazer espetáculo na praia, mas aquilo é um desastre. Será que não dá para combinar o limite para esse uso? Quais são as regras que temos de aplicar para que seja um poder público articulado? A gente devia colocar nas escolas. Mas a cidade não merece o padrão arquitetônico e urbanístico dos últimos 100 anos. Não precisa ser a monstruosidade que é. Não há nada mais feio que a Voluntários da Pátria e a Rua das Laranjeiras. Cidade tem feiura e tem beleza. A gente devia considerar a beleza como fundamental.” Aspásia Camargo

“O que valorizamos nessa paisagem? Estamos na pré-escola nesse tema. É necessário abrir o diálogo internacional, mas temos de influenciar os decisores aqui. Não podemos continuar conversando em pequeno comitês, sem ter uma ação concreta. Para que serve um plano diretor? A gente constrói na cidade mas não constrói a cidade. Os setores do governo não conversam entre si, não tem visão estratégica. O prefeito não sabe para onde está indo tudo isso. Ele sabe fazer obras, mas não mais que isso. O Banco Mundial lançou o livro ‘A economia da singularidade’, aquilo que o mercado não sabe colocar preço mas que tem valor para a sociedade. O que essa sociedade quer valorar daqui para frente e deixar como legado?” Ephin Shluger ( Urbanista, consultor do Banco Mundial e da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário)

“A gente vive um conflito intenso entre aquele que fica, que é o morador que quer conservar, e o turista, que vem para os eventos. A cidade é uma cidade de eventos. O Cosme Velho é a única passagem para o Cristo Redentor. Há uma ordem geral de aumentar o limite de 360 visitantes por hora para 1200 a cada 40 minutos. Como fica a sustentabilidade da unidade de conservação? Não se consegue conservar a cidade assim. Quais são as sugestões? A gente propôs uma taxa para quem explora (usuários, moradores e gestores). São três instâncias que precisam conversar.” Maria da Silveira Lobo (Viva Cosme Velho)

“A legislação não pode ser isolada, tem de ter um conjunto de normas e desdobramentos. Há vários níveis em que a paisagem tem de ser considerada. Há uma reestruturação da filosofia maior de relação da cidade com a natureza. é preciso um corpo de leis que são legalizados através de decretos e resoluções. Sem dúvida que sem se mexer no códigos de obras e do solo, não se vai a lugar algum. O que choca no caso do Porto é que vamos demolir a Perimetral, mas não vamos substituir o modal do transporte. A cidade orgânica é o oposto da cidade especializada e inorgânica que nós conhecemos, em que todos os elementos são tratados individualmente. Tem de tratar da base orgânica, biológica. Os corredores urbanos estão tão fora da realidade política que não se sabe quantas décadas vão levar até serem acertados.” Aspásia Camargo

“Não vamos fazer confusão. Gosto da ideia da densidade de Copacabana, de se poder acumular mais gente. E essa ideia não entra em contradição com a natureza.” Augusto Ivan

“Os técnicos de fora ficam maravilhados com o visual do Rio, mas não com os serviços da cidade. O que coloca essa questão em outro plano de discussão, o da visibilidade internacional. Isso requer uma politica de salvaguarda, termo não conhecido. Nem o BID nem o Banco Mundial dão dinheiro ou financiam se não houver uma politica de salvaguarda.” Ephin Shluger ( Urbanista, consultor do Banco Mundial e da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário)

“A gente está falando de coisas que estão em mudança. Existe uma busca por valorizar os serviços ecossistêmicos que a natureza nos presta. Na medida em que a gente detona os recursos naturais, detona nossa capacidade de vida. A gente vem caminhando, no Rio, em um sentido oposto. Fazer um campo de golfe numa zona de areal é criar um problema gravíssimo. A gente tem de mudar. E dá para ganhar dinheiro com serviços ecossistêmicos. Existem mecanismos e instrumentos que voltam para a cidade, a gente paga imposto mais caro por morar em áreas mais valorizadas. O povo carioca é muito único. Tenho dificuldade com essa coisa extremamente bagunçada que é o carioca.” Cecília Herzog

Últimas palavras

8“A humanidade não está caminhando para trás nem está à beira do abismo. Minha experiencia de governo é dificílima, não é democrática, o governo não é democrático. A universidade virou um castelo. O Rio de Janeiro cresceu muito em termos de legislação de proteção, o que significa que instrumentos nem conhecimento nos faltam. A cidade está preparada para enfrentar o seu futuro.”
Augusto Ivan

“Como usar o mercado a nosso favor? Como criar instituições que façam com que esse cara trabalhe a seu favor? Vamos acabar com a pobreza, então transfere renda para o cara, não pode ser dessa forma. Se tratar pobre como coitadinho, o mercado destrói e se aproveita desse dinheiro. O ponto é incentivo. Se proibir, em 99% das vezes o mercado arruma uma forma de passar por fora da proibição. Tem de ser lucrativo.” José Márcio Camargo

“Há momentos em que a historia se acelera. Nós estamos marcando passo há 30 anos. Não conseguimos resolver nem o problema ambiental dos parques nem o da economia. E o que é a tal da governança? A guerra civil está se instalando pela posse do Jardim Botânico. Não há viagra que vá resolver isso a não ser nossa vontade política. Está na hora de agir estrategicamente. Como uma sociedade civil ativa pode se organizar um pouco melhor? Os instrumentos econômicos existem, os impostos existem, mas gastamos milhões para financiar petróleo e nada para financiar energia. Como fazer inclusão social e economia verde funcionarem? Estamos cansados de ser simplesmente a resistência. Achamos ainda que somos a corte, mas não passamos de bobos da corte.”
Aspásia Camargo

“Se as pessoas sentem que estão envolvidas e que podem contribuir, elas virão. Consenso é difícil, o ideal buscar convergências. Temos, sim, de mudar de paradigma geral porque estamos atrasados pra caramba.Tenho ido a vários países que a gente desconsidera porque se considera melhor, mas que estão bem mais à frente. Dá para trazer uma cultura nova e as pessoas estão ávidas. Na hora que a gente começa a olhar para dentro e entender como se está em relação tudo isso, passa a entender melhor. Tem de ter mudança de cada um. A gente tem de olhar pra dentro da gente e ver como é que se sente dentro desse sistema. A gente tem de se tornar parte do sistema. Como que a gente pode fazer alguma coisa diferente? Dá para fazer diferente e dá para buscar caminhos. Apesar do olhar critico e apavorado, acho que a gente tem de fazer alguma coisa agora. Não dá para esperar.”
Cecília P. Herzog