Encerramento do ciclo de debates 2016

Como os conteúdos de plataformas digitais inovadoras podem transformar a vida na cidade e as relações dos seus moradores com o espaço urbano? Esta será a provocação inicial da última edição do Rio de Encontros em 2016, que será realizada no dia 17 de novembro, e terá como tema “Inovação tecnológica e o futuro das cidades”.

Venha conversar com os nossos convidados: Marcos Ferreira, fundador da mobCONTENT, produtora e distribuidora de conteúdo audiovisual, transmidia e digital; e Victor Vicente, jornalista e coordenador de comunicação do Instituto de Tecnologia e Sociedade – ITS RIO. A mediação será de Fabro Steibel, professor de inovação e tecnologia da ESPM Rio e diretor executivo do ITS RIO.

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Quando: 17 de novembro, quinta-feira
Debate: 14h
Cerimônia de encerramento e entrega de certificados: 17h
Onde: Auditório da ESPM/RIO
Endereço: Rua do Rosário, 90/ 11º andar – Centro
Não esqueça de confirmar sua presença pelo email: riodeencontros@oinstituto.org.br

Tecnologias digitais e novas formas de aprendizado

Ilana Strozenberg, diretora acadêmica d'O Instituto, faz a abertura do Rio de Encontros / Foto: Roberta Voight

Ilana Strozenberg, diretora acadêmica d’O Instituto, faz a abertura do Rio de Encontros / Foto: Roberta Voight

As escolas não são mais as mesmas de antigamente. Com a presença de tecnologias cujos recursos alteram os ambientes pedagógicos e influenciam o próprio processo de ensino e aprendizagem, elas precisam descobrir maneiras de lidar com novas configurações de tempo, espaço e construção de subjetividades. As perguntas relativas ao embate entre a escola que se deseja e a educação que elas de fato oferecem são de muitas ordens. O sexto Rio de Encontros de 2016, realizado no dia 27 de outubro, reuniu quatro profissionais cujas inserções no universo da educação se complementam para discutir o tema “Tecnologias digitais e novas formas de aprendizado” com uma plateia composta majoritariamente por jovens e professores.

Afinal, a percepção de que os métodos de educação tradicionais são anacrônicos em relação ao mundo atual parece se configurar como um consenso. Ainda é lícito falar em “pedagogia”, num contexto em que prevalece o valor das relações interativas na produção de conhecimento? Estes são os questionamentos iniciais apresentados a André Couto, diretor de arquitetura de aprendizagem da Tamboro Educacional; Eliane Ferreira, diretora da Escola Municipal Professor Souza Carneiro; Fernando Mozart, cineasta, diretor e roteirista de TV e coordenador da escola de arte e tecnologia Oi Kabum!; e Jonathan Caroba, coordenador de midiaeducação do Planetapontocom.

Flávia Flamingo, diretora da ESPM Rio / Foto: Roberta Voight

Flávia Flamínio, diretora da ESPM Rio / Foto: Roberta Voight

O tema do evento, que tem patrocínio da ESPM, não poderia ser mais oportuno, já que a Escola festeja seus 65 anos em 2016. Aliás, por uma feliz coincidência, sua inauguração ocorreu exatamente na data do encontro. “Neste dia, comemoramos a data em que o primeiro presidente da ESPM entregou a Assis Chateaubriand o projeto de uma escola de propaganda que funcionaria no MASP. A empresa cresceu e tornou-se de grande porte, lado a lado com agências e empresas de mídia de todo país. O tema de hoje é sobre futuro e inovação. E inovação é a marca da ESPM”, anunciou a diretora da escola no Rio, Flávia Flamínio, na abertura.

O debate iniciado a seguir por Ilana Strozenberg, diretora acadêmica d’O Instituto e responsável pela mediação do debate, foi acalorado e se prolongou muito além do tempo marcado.

“Uma pesquisa recente realizada pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos revela que, no Brasil, a maioria dos estudantes, incluindo os da elite, são capazes de reproduzir conteúdos mas não de formular um raciocínio próprio. Esse é um tipo de aprendizado que não enriquece o próprio sujeito. Como as redes sociais e a internet podem ser incorporadas às práticas de ensino para mudar esse quadro?”, foi a pergunta com que passou a palavra aos convidados.

O tempo e o espaço na escola

André Couto (no centro): "A escola é anacrônica por definição" / Foto: Roberta Voight

André Couto (no centro): “A escola é anacrônica por definição” / Foto: Roberta Voight

André Couto apresentou uma reflexão abrangente, que abordava um amplo conjunto de questões relativos aos dilemas da escola hoje. Ex-aluno da Escola de Comunicação da UFRJ, com passagens pela Casa França Brasil e Oi Futuro, participou da elaboração do projeto piloto da escola pública NAVE, em Recife e no Rio, e, atualmente, é diretor de arquitetura de aprendizagem da Tamboro Educacional. Começou questionando a inadequação da escola aos tempos atuais:

“É preciso refletir sobre o consenso de que a escola de hoje é anacrônica. O tempo é uma variável inescapável na equação entre o que se projeta e o que se realiza. Mais ainda, o que o aluno recebe agora será utilizado em um tempo futuro desconhecido. Diante da impermanência e da incerteza, em vez de brigar com o deus Chronos, melhor que o aceitemos”, sugere.

E continua: “A escola não está anacrônica, a escola é anacrônica por definição. Você faz algo hoje para que o resultado se dê mais à frente. Obviamente, algumas experiências pedagógicas podem ser diferentes, mas de maneira geral é assim que se organiza”, afirma.

Por uma escola feliz

Valorizar o contexto cultural é trazer a experiência do aluno para dentro da sala de aula. Em sua fala, o cineasta, diretor e roteirista de TV, criador e diretor de animações e de sites Fernando Mozart não economiza exemplos de como a tecnologia pode contribuir para a criação de um novo ambiente e novas posturas em sala de aula. A vida do aluno, efetivamente, deve estar dentro da escola. E os recursos são muitos, ele garante. Se bem usados, podem provocar transformações.

Fernando Mozart: "Na escola do século 21, é importante aprender a obter as informações de que precisamos" / Foto: Roberta Voight

Fernando Mozart: “Na escola do século 21, é importante aprender a obter as informações de que precisamos” / Foto: Roberta Voight

Professor de oficinas de criação há mais de 20 anos, Mozart trabalha com arte e mídia na educação, na formação de professores e de jovens desde o início dos anos 1980, quando criou uma produtora com amigos, em pleno advento do videocassete. O primeiro desafio, na Secretaria de Cultura do MEC, abriu um mundo de possibilidades e a certeza de que o audiovisual podia ajudar a levar a vida dos alunos para dentro da escola. Bastou para garantir a sua permanência na área e o interesse pelo tema. Hoje, ele é coordenador da escola de arte e tecnologia Oi Kabum!.

Como era o futuro no passado e qual é o futuro no presente? Mais de 30 anos atrás, ao trabalhar com alunos numa escola da Tijuca, Zona Norte do Rio, Mozart ouviu uma pergunta que o move até hoje: “Ano após ano, os alunos condenados pelo sistema seguiam na repetência. Por que os alunos não aprendiam, e o que podíamos fazer para reverter aquele quadro?, a professora queria saber”, conta.

A saída foi criar um contexto favorável para que os estudantes trouxessem conteúdos para a sala de aula. “Querem fazer novela? Vamos fazer novela. O que é importante? Aprender a contar, somar e dividir, escrever? Criávamos situações de aprendizagem para juntar uma coisa com a outra. Enquanto isso, a professora desenvolvia atividades complementares. Vamos medir a casa do Heitor (um dos alunos) e trazer o resultado para o quadro. A professora sabia que era uma oportunidade para o desenvolvimento deles, e ia fazendo conexões de conceitos e conteúdos. Se em 1984 o vídeo era algo novo, o mais importante para aquela educadora foi que ela facilitou o processo de interação entre ela e os alunos, eles e a comunidade”, relembra, exibindo um vídeo no telão.

A lição foi devidamente assimilada e a instigação permanece: “Como fazer o menino aprender fatoração se ele não está interessado em fatoração? Uma aula feliz, em que os alunos são sujeitos ativos, desperta o interesse porque os jovens desenvolvem projetos criativos a partir de seus próprios temas e assuntos”, garante. E seja o vídeo, o cinema, o teatro ou qualquer outra linguagem, todas elas ajudam nas interações e no desenvolvimento do processo pedagógico e criativo.

“Tem a ver com a vida deles. A conta para caber todo mundo na kombi que vai levá-los ao local da filmagem precisava ser feita, e a professora agregava matemática à dinâmica da criação do projeto. O vídeo facilitava o percurso da cultura para a sala de aula, ajudava no protagonismo das crianças, já cansadas do fracasso escolar. Elas começam a perceber que é uma troca”, afirma ele, que, nos últimos sete anos, atua com alunos de baixa renda de 16 a 21 anos.

É importante, portanto, repensar métodos. A escola segue imprescindível, mas aquela que transmite conteúdo apenas, segundo Mozart, está fadada a perder a concorrência. “Os jovens desenvolvem projetos criativos a partir de seus temas, seus assuntos, formas e material para reforçar o aprendizado de formas diversificadas. Todos vão aprender o básico. Eles não têm de saber todos os conteúdos porque os conteúdos estão no mundo.”

O mundo mudou desde 1984, mas as tecnologias hoje são mais baratas, fáceis e integradas. Na Oi Kabum!, o celular é uma ferramenta, e as regras são construídas junto com os alunos. “A escola odeia o celular. O professor teme a evasão pelo celular, mas os alunos evadem o tempo todo. No entanto, a escola pode ser um recurso fundamental para que nos apropriemos das tecnologias”, reforça Mozart, com o argumento de que escola tem função e é ambiente favorável para incentivar protagonismo, leitura crítica do mundo; e é lugar propício a se superar frustrações, a críticas e ao trabalho em grupo:

“Na escola do século 21, é importante aprender a obter as informações de que precisamos. Não basta acessar a fonte, é preciso aprender a aprender. É no processo de construir o seu projeto que você vai obter meios de se desenvolver como pessoa, cidadão e profissional”, argumenta.

Por uma escola que todos querem

A diretora da Escola Municipal Professor Souza Carneiro, na Penha, Eliane Ferreira, não perde a capacidade de se surpreender com a escola. Há vinte anos no posto, 16 deles em escolas dentro do Complexo da Maré, ela diz que aprendeu a olhar para a escola de vários lugares. Ora como aluna, ora como mãe, ora como professora, ora como diretora, ela viu muitas mudanças e transformações. Em cada posição, uma inquietação dupla: qual é o lugar da escola na sociedade, e qual é o nosso lugar na escola? As tecnologias, que papel têm desempenhado na tarefa de tentar responder esses questionamentos? A resposta, invariavelmente, envolve a forma como lidamos com a parafernália que nos é apresentada.

Eliane Ferreira: "A escola tem de ter sentido" / Foto: Roberta Voight

Eliane Ferreira: “A escola tem de ter sentido” / Foto: Roberta Voight

Uma certeza Eliane já carrega: “Aprendizagem pressupõe interesse e motivação. Trata-se de abrir um canal de diálogo entre o sujeito que está ali para aprender e o sujeito que está ali para ensinar. Escola é para viver, não pode ser um ovini jogado no meio da sociedade”, afirma.

Entender as novas tecnologias e a suas aplicações possíveis dentro da escola pressupõe considerar as dimensões tempo e espaço, como bem demarcaram André Couto e Fernando Mozart, são questões importantes para se entender as novas tecnologias dentro da escola. Ideia reafirmada também por Eliane:

“Será que o problema da escola com a tecnologia está na idade do professor, na formação ou em como a gente olha para esse sujeito?”, questiona, ao mesmo tempo em que assegura que não se trata apenas de um recurso, mas de linguagem.

“O computador e as tecnologias chegaram sem que a escola desse conta de questões básicas que ainda estavam pendentes com a sociedade. Não basta ter a parafernália dentro da escola. A escola precisa saber aonde ela quer chegar, qual o sentido que ela tem”, completa.

A escola tem de ter sentido. Ou tem de continuar a ter sentido. E se tecnologia distancia, a ética aproxima. “Eu sou do tempo do betamax e também do iPhone. Tecnologia de ponta, para mim, já foi giz colorido. Hoje há muitos recursos. O desafio é pensar como a escola se apropria dessas tecnologias”, opina ela, que lida com a inserção de recursos no ambiente escolar desde o início na profissão e passou por experiências diversas. “Fomos vendo o quanto o computador, aquele com sistema operacional DOS, lá atrás, dava autonomia, e o quanto era preciso ousar”, conta.

Não basta, no entanto, pensar só no aluno, tem de preparar também o professor e na gestão dos recursos, que são também de pessoal. No município, quando foram feitas as primeiras experiências de informatização da gestão, em 1999, ela percebeu uma terceira vertente que também merecia igual atenção. “As demandas também passaram a ser protocoladas muito mais rapidamente, e recebemos uma avalanche de demandas. Vieram facilidades, mas também problemas”, relembra.

A coleção de tentativas inclui erros e acertos. Em uma outra escola, ela desenvolveu um projeto embrionário, em parceria com o jornal O Globo, o Repórter do Amanhã. Era a abertura para o aluno ávido para aprender e assumir o seu protagonismo. As crianças produziam as matérias e tinham capacitação dentro do jornal.

De rádio a mimeógrafo, de disquete a DVD, ela já testou muito para ampliar o repertório dos alunos. Tecnologia é um caminho sem volta, ela aposta, sem perder o foco na pergunta que considera chave: por quê o aluno vai à escola? “A resposta pode ser ‘porque eu quero’, ‘porque minha mãe vai me bater’, mas pode ser também porque a escola representa tantas possibilidades e horizontes. O adolescente que está na escola elabora e produz conhecimento de modo diferente de uma década anterior. Então, eu tenho de repensar a minha forma de ensinar, sobre os recursos dos quais disponho, que caldo posso tirar de toda essa parafernália”, prega.

O trabalho é árduo e as tarefas são múltiplas e envolvem muitas negociações. O que Eliane intenta é estabelecer o compromisso da escola com o trabalho intelectual, ou seja, a partir do aprendizado técnico, agregar conhecimento e valor para a vida. “O lugar da escola é fazer refletir, trazer o diálogo entre ontem e hoje. Não se pode prescindir da dimensão intelectual do seu trabalho. O aluno vai mudar e tenho de estar preparada para essa mudança. A dimensão ética também perpassa essa discussão.”

Pelo protagonismo

Jonathan Caroba diz que sabe bem o quão difícil é encontrar um lugar para ser ouvido. Coordenador de midiaeducação do Planetapontocom, estudante de Comunicação Social na UERJ, é aluno egresso do Colégio Estadual José Leite Lopes – NAVE/Rio, onde, atualmente, forma equipes de alunos líderes no Programa de Formação de Monitores de Mídia. A vivência nos dois lados, como estudante e professor, rende uma perspectiva otimista: assim como ele, os outros também podem ser protagonistas, termo chave para entender o que ele pensa sobre tecnologia e aprendizado.

Jonathan Caroba: "É preciso dar espaço para todo mundo que tem talento" / Foto: Roberta Voight

Jonathan Caroba (no centro): “É preciso dar espaço para todo mundo que tem talento” / Foto: Roberta Voight

Um menino ensinando outros, ele ouve muito. Aos 21 anos, Caroba mais parece um dos alunos nos projetos que desenvolve. A proximidade da idade tem vantagens. Como os estudantes, ele conhece os apetrechos tecnológicos que ensandecem professores salas de aula adentro e, ele mesmo, não desgruda do celular.

“Muitas vezes o professor não está preparado para as situações que aparecem na escola. Os alunos estão muito à frente. A sala de aula não é mais espaço onde o professor fala e o aluno absorve conteúdo”, afirma ele, que, ao lado de outros 60 professores, trabalha com mais de 400 alunos.

Para manter o aluno interessado no que ele diz, Caroba lança mão de projetos integrados. Vale utilizar rádio, produzir websérie, promover sarau literário, shows e o que é possível inventar. “Daí para frente a criação é coletiva. Não é questão de gostar ou não gostar, quando eles querem fazer, a motivação é totalmente diferente. É dar espaço para todo mundo que tem talento. O espaço não é só para quem quer fazer, mas para quem quer ver, também”, observa.

Se a pedagogia persiste, Caroba faz questão de opinar. “O primeiro pensamento que se tem quando se fala de educação é a palavra escola. A pedagogia vai continuar existindo, a diferença é que o momento é de ressignificar”.

E nessa ressignificação de que fala, o estudante de jornalismo defende que o aluno tenha o seu devido espaço assegurado. “O impacto do que é feito na sala de aula é maior que a sala em si. Não existe dizer para um aluno o que é liderança e não dar espaço para que ele seja um líder”.

Trocando em miúdos, ele diz que a escola precisa dar espaço para o protagonismo. “Eles aprendem a ler no celular. Nada de computador, livro ou tablet. Mas a pergunta que ninguém responde antes de pensar é: por quê você vem à escola? Eles não sabem muito. Perspectivas e sonhos estão ali, mas muitas vezes morrem ali também”.

Para inspirar: NAVE/RIO

Conversa com a plateia

Ilana Strozenberg, na mediação, abre a conversa com a plateia / Foto: Roberta Voight

Ilana Strozenberg, na mediação, abre a conversa com a plateia / Foto: Roberta Voight

Na escola, quando você é pequeno, você é obrigado a ser bom em tudo. Isso não é limitar muito o jovem? (Leonardo Rangel)

Fernando Mozart – A gente vive em um universo midiático, um novo contexto que acentuou o potencial interativo. Como se apropriar desse potencial em um processo educativo? Se a educação não é pensada unidirecionalmente, em outro paradigma em que conhecimento é produção coletiva e fruto de interação entre sujeitos, como se apropriar dessas tecnologias para potencializar a educação?

André Couto – Fui um aluno amado pelos professores porque tirava boas notas e não tinha problema com aula expositiva, mas o ponto é a falta de reconhecimento da  singularidade. A escola que a gente deseja é uma escola de singularidades e não uma escola de diversos Andrezinhos.

E como pensar que um professor do século passado consegue dar aula? (Nyl)

Eliane Ferreira – Realmente, é isso: temos uma escola do século 19, um professor do século 20 e um aluno do século 21. Como adapto à realidade? É chamar o sujeito para discutir esse currículo.

Fernando Mozart – Não importa se você usa uma coisa ou outra, a questão chave é o processo, é a mudança de paradigma, é criar um contexto favorável. É o que você faz com a tecnologia para conservar ou para transformar. Precisamos de educadores abertos a se apropriarem do que está no mundo. A escola é um coletivo de educadores, vamos trabalhar juntos, com cabeça aberta e coração para enfrentar esses novos desafios.

A escola tem visão de local antigo por ter uma pessoa ali passando conhecimento. A gente só recebendo, fica cansativo. Como adaptar o currículo para a realidade do aluno, isso é o que o professor deve se questionar. Antigamente, um dez do aluno dava ao professor a sensação de dever cumprido. E agora, qual o momento em que vocês pensam que o objetivo foi alcançado, o momento em que vocês percebem que deu certo? (Elisabeth)

Eliane Ferreira – Não é pedagogia do oprimido,  é para o oprimido. O sujeito não pode ser abolido dessa discussão e é claro que a tecnologia não foi pensada para a escola. A escola vai na enxurrada de todas essas mudanças. Cabe a quem tem uma formação mais humanista trazer o sujeito para essa discussão para que ele não seja apenas mais uma ferramenta.

Jonathan – Como o professor consegue ter noção do impacto do trabalho dele? O aluno passou a ser aluno, isso é humanização. A escola é produto do meio. O NAVE em Recife é totalmente diferente, são outras experiências, outras vidas. O currículo tem de ser responsivo, flexível, a professora de biologia ensina cidadania, não meramente biologia.

André Couto – Ao avaliar,  dar uma nota e dizer se a pessoa é boa ou ruim é falacioso, essa é  uma estratégia avaliativa que diz muito pouco. Os professores não abrem mão disso. Há  muita gente querendo mudar, mas é muito duro para quem está lá ter sua  competência como educador questionada. Não é questão de querer ou não querer inovar, as pressões externas são muito duras. É uma situação difícil.

Fernando Mozart – Currículo é consequência de todo esse papo. Há interesses, e formas de tirar do foco o principal e colocar em foco uma ideia antiquada de educação, que está morrendo, mas que tem força política. A gente tem de mudar o conceito de avaliação, para que serve isso? A avaliação tem de estar a serviço do desenvolvimento. Como acompanhar as mudanças tecnológicas para ajudar as pessoas a se desenvolverem mais? Avaliação processual? Bancas? Na Oi Kabum! não tem prova, o aluno é avaliado no processo, nas bancas, em grupo e individualmente.

Participação de jovens na plateia / Foto: Roberta Voight

Participação de jovens na plateia / Foto: Roberta Voight

Esse debate me deu um susto. A gente não está mais no celular, a internet das coisas está aí… aonde a gente vai chegar? O foco é sempre nas novas tecnologias, mas se esquece do sujeito nessa história, qual o impacto não só nos professores, mas também nos alunos? A minha maneira de ler, escrever, pensar e dialogar mudou. A informação que antes chegava em mãos agora está na nuvem. Onde estaremos daqui a cinco anos?  (Pedro)

Fernando Mozart – Nós educadores temos de superar o receio e partir para dentro, que é pensar sobre o que fazer para renovar, inovar, mudar a educação tomando partido dessas novas possibilidades? Quando Paulo Freire falava do diálogo e da interação, não havia internet, mas ele falava das coisas mais básicas, como aprender a se expressar, a partir da vida, a ouvir, a conviver, a dividir. As tecnologias interativas podem ser apropriadas pela pedagogia freireana de uma maneira incrível, articulando a distância com a  presença, porque a relação humana é a base de tudo. Educação à distância unidirecional é o mesmo que foi feito no passado, e não queremos isso. Há um potencial incrível nessas tecnologias educativas. O educador vai ter de mudar a sua função, porque o educador do passado morreu. Não será fácil transformar esse sistema. Algo morreu e algo novo ainda não o substituiu, mas tem muitas experiências sendo feitas e muitas possibilidades. Transformar o sistema é desafio herculeo de médio e longo prazo.

Eliane Ferreira – A tecnologia muda os paradigmas de tempo e espaço e muda também os sujeitos. Esse sujeito é que precisa ser pensado, como também a sociedade em que estamos. O teletransporte em sala de aula é para daqui a pouco, mas nada disso vai mudar a pergunta que é qual o sentido da escola? A escola reflete a sociedade e o sentido dela vai variar no tempo e no espaço. A escola tem sentido? A escola vai ter sentido quando tiver sentido para um e para todos. A totalidade é uma ilusão, mas a gente não pode ter um índice de analfabetismo como se tem num país que fez os investimentos que fez nesses últimos vinte anos.

André Couto – Como fomentar os quereres desses alunos? As novas mídias são passageiras, o que fica? É bacana, é novo, é diferente, vamos fazer. Mas qual a profundidade disso? Até que ponto não fica artificial, superficial? (Carolina)

Eliane Ferreira – Tem de mudar a lógica do ensinar e aprender, tem de ensinar o aluno a perguntar e não a só pedir respostas. É a partir das perguntas que você aprende. (Eduardo) Galeano diz que quando se entende todas as respostas mudam-se as perguntas.

Fernando Mozart – Transformação é centrar menos no professor e mais na aprendizagem do aluno. Para isso, é preciso ouvir e interagir para mobilizar e interessar esse aluno. Ele vai aprender coisas porque ele precisa. O desafio do educador é provar que a matemática está na vida. Matemático não é educador. Tem de aprender a ser educador. Aprendi com outros educadores.

Jovens na plateia / Foto: Roberta Voight

Jovens na plateia / Foto: Roberta Voight

Como conciliar inovação, o professor líder, com a política pública? Nas escolas públicas há origens e dificuldades muito diferentes. Há alunos que chegam  e sabem mexer no celular, mas qual o nível de informação que eles têm? O ensino fundamental foi universalizado, mas ainda é muito precário. Como isso se concilia com o menino que sabe mexer no celular? (Anabela Paiva)

Fernando Mozart – Quando a gente pensa em política pública depende da correlação de forças na sociedade e da sustentação no tempo. Para transformar o sistema serão necessárias décadas e é preciso força política para sustentar. No aqui e agora, há coisas estratégicas, e o professor resiste. Há a resistência conservadora que não quer dialogar com o mundo atual e a resistência do que quer fazer coisas diferentes e sabe que o contexto é adverso mas, nas frestas, ele faz alguma coisa. Numa sala de aula, o professor que quer fazer diferente, bem ou mal consegue fazer alguma coisa. O professor não pode ser subestimado. Muita gente vem experimentando coisas novas e de valor. Nesses 30 anos, conheci muitos professores incríveis em contexto violento e recursos parcos, mas que metem a mão na massa e fazem coisas muito significativas. O desafio do professor de escola pública é imenso, é muito fácil desistir. Ele diz ‘eu tô lá, mas já desisti’. Mas é grande o número de pessoas que fazem coisas interessantes. Em todas as instâncias que se tenha para ajudar a formação do educador, é fundamental ajudar. Professor tem de perceber que é um aprendiz a vida toda, é preciso se atualizar, abrir mão de conceitos antigos. Vi muita gente boa se transformando. Não adianta ensinar Paulo Freire só, o desafio é existencial, o quanto você está disposto a mergulhar nessa nova prática, como aprender a ouvir, a conciliar, a educar o muito diferente? Como se aprende a fazer isso? Toda a formação pedagógica que foi dada não ajudou. O desafio de formar educadores é estratégico, é para se fazer agora e sempre.

André Couto – No Brasil, a educação é tão estratégica que a gente não pode ficar à mercê da aleatoriedade. Não pode ser assim. Educação pública envolve grandes números. Não podemos depender de um eleito que teve uma epifania. É política de massa. E quem não tem a sorte de encontrar bons professores?

Eliane Ferreira – Nós somos herdeiros do estigma da escravidão. A escola pública ainda não é do interesse público. O Brasil não proclamou a República ainda, e não aboliu a escravidão completamente. Vivemos num país de tarefas históricas incompletas.

Ilana Strozenberg – A gente não aboliu a escravidão para ninguém. A tradição hierárquica atinge quem está embaixo e quem está em cima, porque impede as pessoas de ouvir. Quem pode centrar no aluno é o professor e, para isso, ele tem que aprender a ouvir.