Inovação tecnológica e o futuro das cidades

Rio de Encontros sobre tecnologia e cidades / Foto: Roberta Voight

Rio de Encontros sobre tecnologia e cidades / Foto: Roberta Voight

O último encontro do ano tem um quê de despedida e também de expectativa. A edição final do Rio de Encontros 2016, dedicada ao tema “Inovação tecnológica e o futuro das cidades”, no dia 17 de novembro, teve o tradicional e acalorado debate entre provocadores e plateia, entrega de certificados aos jovens que compuseram a audiência fixa do projeto ao longo de suas sete edições, para fechar, exibição de curta-metragem que eles produziram em oficinas  do laboratório de audiovisual da ESPM.

Aos provocadores Marcos Ferreira, fundador da produtora e distribuidora de conteúdo audiovisual, transmídia e digital mobCONTENT,  e Victor Vicente, jornalista e coordenador de comunicação do Instituto de Tecnologia e Sociedade – ITS RIO, coube apresentar conteúdos de plataformas digitais inovadoras que podem transformar a vida na cidade e as relações dos seus moradores com o espaço urbano. A mediação ficou por conta de Fabro Steibel, professor de inovação e tecnologia da ESPM Rio e diretor executivo do ITS RIO.

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A diretora acadêmica d’O Instituto, Ilana Strozenberg, deu as boas vindas e apresentou os muitos convidados especiais e parceiros presentes ao encontro, como a diretora do Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC/LETRAS/UFRJ), Heloisa Buarque de Hollanda; a coordenadora da Universidade das Quebradas e artista performática Numa Ciro; a socióloga e pesquisadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), Bárbara Soares; a coordenadora da ONG Rio Como Vamos, Thereza Lobo; e a diretora da ESPM Rio, Flávia Flamínio, que anunciou o que está por vir, em 2017. Patrocinadora da série de Encontros desde 2013, a Escola vai reunir em um livro a cobertura e artigos sobre assuntos abordados nos eventos realizados até aqui: “Está ficando maravilhoso. Estamos muito felizes”, disse.

Sem delongas, Fabro Steibel, que há mais de dez anos trabalha com pesquisa e projetos aplicados sobre tecnologia e sociedade para organizações como Unesco, Parlamento Europeu, Comissão Europeia, Mercosul e IDRC, passou a palavra aos provocadores.

Cidades e realidade virtual

Marcos Ferreira apresenta soluções da mobCONTENT / Foto: Roberta Voight

Marcos Ferreira apresenta soluções da mobCONTENT / Foto: Roberta Voight

Tecnologia é commodity, está aí e qualquer um pode usar. Essa é a máxima que pontua a fala de Marcos Ferreira, que mostrou cenários que a realidade virtual possibilita, equipamentos, protótipos e o que está por vir pela indústria. Com tanto à mão, difícil é produzir o conteúdo, defende o fundador da mobCONTENT, empresa que desenvolveu pelo menos dois aplicativos de destaque: Polissonorum, de mapeamento georreferenciado, e Cidade Antigamente, de realidade virtual no campo da memória.

Menina dos olhos da empresa, o Polissonorum tem como proposta criar uma camada afetiva entre os usuários e o espaço urbano. A cidade é desvelada a partir de histórias pessoais contadas em mais de 100 áudios organizados em pacotes editoriais, que aparecem a cada vez que o usuário escolhe as rotas do seu interesse. O georreferenciamento do aplicativo se dá com o GPS do smartphone.

Já o Cidade Antigamente é um  aplicativo de realidade virtual desenvolvido para Google Cardboard, Oculus Rift e Samsung Gear VR. Trata-se de uma ferramenta de aprendizado que ajuda a propagar conhecimento em áreas múltiplas a partir de cenários histórico. “Você vai pulando em determinados cenários. O mouse é o olho, você mira e é teletransportado. Basicamente é 3D”, explica. Sinal de que deu certo, o aplicativo foi finalista do Prêmio Brasil Criativo, reconhecido como o prêmio oficial da economia criativa do país, e do  Inovativa, programa voltado para estímulo à inovação tecnológica realizado pelo Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços

Incubada e graduada na Rio Criativo, a mobCONTENT coleciona cases próprios desde 2010. Mas Ferreira, que foi o brasileiro premiado no programa Young Creative Entrepreneur Award, promovido pelo British Council, em 2013, faz da pesquisa um hábito de trabalho, por conta da rapidez de propagação de tecnologias e inovações. “A gente gera cases legais, claro que alguns dão mais prazer que dinheiro, mas somos obrigados a pesquisar continuamente”, diz.

As máquinas de inteligência artificial já nos espreitam e os computadores começam a assimilar informações a partir de dados coletados, garante Marcos Ferreira. Pode estar próximo o tempo em que as máquinas vão tratar de ensinar a si mesmas. A tal máquina pensante sobre a qual o cientista da computação britânico Alan Turing especulava nos idos 1950, antes que o termo fosse oficialmente cunhado pelo cientista John McCarthy, em 1956.

Marcos Ferreira usa como exemplo a experiência desenvolvida pelo laboratório de computação da Sony em Paris que impunha ao computador o desafio de reorquestrar a clássica música Ode to Joy, de Beethoven, identificando padrões de estilos musicais (http://www.flow-machines.com/odetojoy/). “O resultado é prova de que a informação artística e criativa pode ser decomposta e reconstruída para fins diversos”, afirma Ferreira.

A tecnologia aplicada à cultura é um território que a mobCONTENT conhece bem. Mas como estender a aplicação e usar a informação em benefício das cidades e torná-las de fato inteligentes?

“Esse é o desafio. Até então, fala-se muito em fins comerciais para o Big Data, que é um grande armazém de informação, mas um dos reflexos é a construção de personas que se comunicam com você com uso de inteligência artificial”, diz. O concreto, ele ressalta, são os chatbots (programa de computador que tenta simular um ser humano na conversação com as pessoas), que travam diálogo com o usuário em níveis que vão do básico ao complexo. A interação abastece o banco de dados, que passa a oferecer cada vez mais respostas possíveis. Trocando em miúdos, é uma conversa com um robô, que responde  a partir do que o usuário escreve. 

A indústria avança em realidade virtual e as cidades podem ser beneficiárias uma vez que a realidade virtual social é cada vez mais concreta, argumenta Ferreira. “Criar soluções e desenvolver aplicativos tem seu custo, mas não é uma tarefa difícil. A tecnologia é commodity, está aí, você pode usar à vontade. Difícil é fazer conteúdo, uma coisa útil”, pondera ele. A pergunta que inquieta é:  o quanto o nosso espaço físico vai ser transportado para a realidade virtual?

Olhar para o passado para definir o futuro

Victor Vicente: 'Em essência, a tecnologia digital é diálogo'/ Foto: Roberta Voight

Victor Vicente: ‘Em essência, a tecnologia digital é diálogo’/ Foto: Roberta Voight

O gelo, o telefone, o carro, o sistema de esgotos, a água tratada, invenções que parecem  banais hoje, mas que serviram para moldar as cidades como as conhecemos. O coordenador de comunicação do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio), jornalista Victor Vicente, faz questão de fazer um retorno ao passado para explicar como enxerga a cidade contemporânea, que futuro nos aguarda, e constata: a tecnologia sempre permeou a vida urbana. A novidade agora é outra. O século 21 é baseado em soluções de software.

O interesse de Vicente está em tudo que se relaciona a tecnologia e inovação com impacto social. E é por esse viés que ele constrói sua narrativa para explicar o que permeia a tão presente expressão cidade inteligente:

“A cidade inteligente é aquela que usa o Big Data para pensar processos de gestão interna, como melhorar a vida da população, como otimizar processos”, ele define. Dado o conceito, um retorno no tempo: “O que acontece quando se olha para trás? A tecnologia sempre permeou o surgimento das cidades modernas e todos os processos de mutação pelos quais elas passaram nos últimos dois séculos.”

Duas invenções, prossegue Vicente, mudaram a forma como se vive nas cidades: a água tratada e o sistema de distribuição para redes e o saneamento urbano. Estão aí os fatores que possibilitaram às cidades florescerem como floresceram. “O processo de purificação da água é muito novo, somente desde 1908 ela é tratada através de processo químico. Um ano depois do tratamento da água com cloro, o índice de mortalidade nos EUA diminuiu 42%. Isso que é preciso pensar: que tecnologia promove impacto real na vida do cidadão?”

Na sequência das tecnologias que foram mudando as feições das cidades, tamanho o seu impacto, estão o gelo, o telefone e o carro.

“Todas essas tecnologias atuaram em processo de densidade urbana. O telefone impacta até a construção de edifícios. Já o carro muda radicalmente a cidade. Hoje, muitas cidades brasileiras são projetadas para o carro. Qual o seu aspecto diferencial? Permitiu mobilidade urbana mais  facilmente. Nos EUA, fez surgirem os subúrbios, no Brasil, a Barra da Tijuca”, avalia.

O que há de novo? O início do século 21 é baseado em soluções em software, e esse é o debate que se precisa ter, defende Victor Vicente. Big Data e soluções em software são os diferenciais  da atualidade, considerando que a maior parte da população é urbana.

“Pela primeira vez temos muito acesso a dados. O Big Data, que está ali para ser explorado. Cabe aos governos usarem essas informações a favor da população. Ou seja, fazer uso dos dados para tomar decisões mais inteligentes. E, além disso, encontrar soluções que favoreçam e recriem a interação do sujeito com a cidade. Em Chicago, na década de 1850, com problema de saneamento, um engenheiro criou macacos mecânicos e elevou a cidade para construir canos. Uma inovação em infraestrutura”, compara.

Rio em crise

Victor Vicente / Foto: Roberta Voight

Victor Vicente: ‘É preciso é pensar sobre qual tecnologia promove impacto real na vida do cidadão’ / Foto: Roberta Voight

Em 2010, o Rio era um grande case de cidade inteligente. A  partir de 2013, Copa e Olimpíada mudaram a narrativa. De centro importante no cenário global, passou a ser cidade em crise. No entanto, compreender os movimentos de ascensão e queda é importante para se definir o projeto de cidade que se quer. A turbulência, afinal, pode render bons frutos futuros.

Crises econômica e política também tornam a cidade um espaço de experimentação e recreação, ajudam a entender de onde sai a narrativa. Os motivos que mudaram a trajetória do Rio, segundo pesquisadores, como Vicente destaca, começam pela má aplicação de tecnologia, concentrada na Zona Sul; pela falta de soluções para o cidadão; e a falta de tratamento mais aprofundado, pela prefeitura, dos dados de que dispõe.

“Os problemas não ficam isolados e a dinâmica se mostrou ineficiente. Cidade tem de ser inteligente e inclusiva, daí é importante  implementar processos em toda camada urbana. A prefeitura não soube se conectar de verdade com o cidadão, o próprio Centro Integrado de Comunicação e Controle da polícia é exemplo, não tem sequer site. Inteligência carece de conexão com o cidadão, além da exploração de dados. E o terceiro ponto é como superar o gap entre tecnologia e a realidade física, como sair da tela para o espaço  físico, o que fazer  indo até o lugar”, enumera.

O caso do Rio é emblemático: a tecnologia pode criar soluções genéricas, mas cada lugar precisa de uma solução única. A partir daí se pode extrapolar para outros lugares, mas tem que fazer sentido. O que a cidade inteligente tem de novo é conseguir usar a tecnologia  que é comunicação para criar um espaço de diálogo real, que provoque transformação. Centralização de poder a gente já sabe que nunca dá certo, em nenhum lugar”, finaliza.

Urgência e emergência: a gestão do tempo nas cidades

A socióloga Thereza Lobo, coordenadora da ONG Rio Como Vamos, deu uma importante contribuição ao debate. Convidada especial, levantou a bandeira da gestão do tempo como essencial também para quem pensa e desenvolve projetos voltados para as cidades. Horas livres são uma commodity tão valiosa quanto a tecnologia. Tempo tem a ver com qualidade de vida e com desigualdade.

“A gestão do tempo urbano é de extrema relevância. Falamos em cidades inteligentes, mas como ser inteligente a cidade que não controla o tempo das pessoas, que não permite às pessoas terem o seu tempo? O tempo, como a tecnologia, é uma commodity e tem um preço no mercado. Dependendo de como se gerencia, pode ser muito alto”, pontua.

As desigualdades ocorrem no Brasil assim como no resto do mundo. E a desigualdade para a qual Thereza chama atenção é atemporal: “Eu tenho possibilidade de escolher e você não tem essa possibilidade de escolha e isso gera uma desigualdade que independe de renda, gênero ou raça”, expõe.

O Rio Como Vamos tomou para si o aprofundamento da questão e a busca por respostas e realizou o estudo “Gestão do tempo nas cidades, experiências internacionais e nacionais e pesquisa de percepção”. Em que momento o estado assumiu como sua essa responsabilidade? No levantamento de experiências internacionais, o direito ao tempo aparece como um direito humano do mesmo modo que  como educação e vida.

“Pasmem, a Itália criou uma lei que obriga cidades a terem uma secretaria do tempo, à semelhança das secretarias de educação, saúde, transportes etc. O Brasil não tem experiência de setor público fazendo gerenciamento do tempo. Aqui, o direito ao tempo não está na Constituição”, compara.

Indo adiante, Thereza levanta um segundo conceito igualmente importante, que é o bem-estar temporal:

“No contexto da sua vida, o direito ao tempo e bem estar temporal são práticas que estão nas experiências pesquisadas mundo afora. O que as pessoas realmente acham e sentem? Amsterdã, na Holanda, é hoje gerenciada por meia dúzia de pessoas que trabalham num ambiente completamente virtual. Estamos chegando perto da obsolescência. Qual efeito que isso vai ter sobre a cidade inteligente? Qual o efeito da tecnologia sobre esses seres humanos, se a tecnologia vai dar respostas e apontar caminhos? E a participação da população?”, segue.

Fazer gestão de tempo exige, obrigatoriamente, que se abram canais à população. Cidade inteligente não existe sem canal de diálogo, pois é preciso ouvir para saber o que dizem as pessoas, reforça Thereza:

“O grande conflito entre tempo profissional e tempo privado só se agrava, é geracional. A queixa é de que tudo é muito corrido, as pessoas dizem que não dão conta de viver, tamanha é a pressa, dizem ‘meu tempo interno não se coaduna com meu tempo externo.’ Há um consenso imenso sobre uso da tecnologia para gerenciar melhor o tempo”, explica a socióloga. Tão embaralhado está o tempo, que se perdeu a fronteira entre o que é urgente e o que é emergente, o que tornou-se uma questão pasteurizada.

Consultora de agências governamentais nacionais e internacionais e de organismos multilaterais em temas como planejamento, políticas sociais e relações entre estado e sociedade civil, Thereza lobo deixa uma última observação, ou melhor, uma pergunta, para provocar a plateia: se você tivesse mais tempo, o que você faria?

Demasiado humano

Fabro Steibel: 'Nós programamos computadores para pensar como humanos' / Foto: Roberta Voight

Fabro Steibel: ‘Nós programamos computadores para pensar como humanos’ / Foto: Roberta Voight

Na mediação, Fabro Steibel traz uma questão ainda não reivindicada  levantada por Marcos Ferreira e Victor Vicente: nos modelos de cidade e aplicação de tecnologia a que ambos se referem, seriam os humanos opcionais?

“A tecnologia criou cidades para humanos. Quando a  gente desenvolve a realidade virtual, essa tecnologia é para quem?”, ele questiona e adianta uma nova questão: como os computadores ajudam pessoas com necessidades especiais? “

Segundo Steibel, pessoas que têm pouca visibilidade têm forma diferente de enxergar o mundo. São distintas as formas de contorno e luzes, o mundo pode parecer pixelado. “Nós programamos computadores para pensarem como humanos, e aí estão começando a entender como as máquinas pensam”, afirma.

A importância dada ao computador é tamanha que o objeto ganha personalidade:

“Quando se fala na nova Revolução Industrial, vem à mente a figura do ciborg, que é meio humano meio máquina. O celular está fora de mim, mas em algum momento ele está meio dentro. Ou seja, daqui a pouco eu vou estar na máquina”, avalia e completa: “Algo que vamos começar a falar daqui a pouco é: será que os humanos não são acessórios? Em vez de o humano comprar o celular, o celular vai comprar humanos?”

Enquanto essa realidade não chega, melhor pensar sobre o Rio de Janeiro, disse ele, abrindo o espaço para a participação da plateia.