Binho Cultura: das raízes às novas histórias da Zona Oeste

“Dom Pedro foi a Santa Cruz a cavalo muito mais do que qualquer outro governante de helicóptero”. Esta foi uma das muitas frases inspiradas que marcaram a participação de Binho Cultura, poeta, cientista social e criador da Flizo – Festa Literária da Zona Oeste, um dos debatedores convidados para o Rio de Encontros sobre “Subúrbios cariocas, ontem e hoje”, no auditório da ESPM. Dizendo que foi um choque quando descobriu que não era considerado suburbano, porque morava numa área tida como rural, Binho, criado na Vila Aliança, em Bangu, afirmou categórico: “quem desconhece a Zona Oeste está desconhecendo uma parte linda da história do país”.

Conhecer seu lugar de origem e escrever sua história são como mantras na fala de Binho Cultura, criador do Centro Cultural A História que eu Conto, título de seu livro lançado pela Aeroplano Editora, em 2013. Durante o Rio de Encontros, Binho apresentou também seus livros infantis – “Aninha, a Peixinha Bailarina”, “Não Existe Bicho Papão” e “O Menino que Lia”, lançados em conjunto, na Coleção Amigoteca. “É importante a gente ir às escolas e projetos sociais da nossa comunidade para as crianças verem que um cara preto e com cabelo duro como elas pode escrever. Para as crianças, o escritor é branco, velho e é morto”.

Lidar com estigmas: uma tarefa constante

Cabelo grande enrolado em dreadlocks estilosas, colar de contas grandes no pescoço, o evangélico Binho Cultura chama atenção pelo que diz e a forma como se apresenta – e sabe que seu estilo pode ter o poder de influenciar e inspirar outras pessoas, especialmente os mais jovens. “Meu cabelo é aceito hoje, mas muitas vezes já me mandaram cortar”, lembrou ele, citando alguns dos enfrentamentos pelos quais passou (e continua passando). “Quando você fala de onde é, as oportunidades acabam se afunilando. Quando falo que moro em Bangu, associam ao presidio. Há pessoas que pensam que Campo Grande é na Baixada. Tem gente q me pergunta: você vem pro Rio hoje? Como assim? Investigar e contrapor tudo isso foi um grande desafio para mim e continua sendo”, diz.

Super articulado, Binho reforçou para a plateia a importância de se fazer redes de colaboração entre produtores, articuladores e agentes culturais da cidade. “Não acredito em cultura para todos se a gente não compartilha conhecimento. Vocês não são meus concorrentes. Precisamos fazer redes, compartilhar conhecimento, convidar e comparecer ao evento do outro”, disse ele, revelando ainda que a estratégia que adota é a do “efeito bumerangue”: “fui lançado de lá da Zona Oeste, venho aqui, acerto o alvo e volto. E chamo as pessoas para irem lá também. Desse jeito a gente começou a realizar o contrafluxo”.

Êxodo cultural: uma questão nas periferias

Binho se empolgou tanto durante o encontro que depois da primeira rodada das falas iniciais, responder de pé às perguntas da plateia do Rio de Encontros, que, entre outras, apresentou várias questões a respeito da produção cultural nas zonas Norte e Oeste da cidade.

Classificando como “êxodo cultural” o fenômeno que observa na região em que mora, Binho não teve dúvidas ao afirmar que “a favela e a periferia é lugar de quem está tentando. Quem consegue, se muda”. Criar condições para que esse êxodo diminua (ou deixe de existir) e seja possível ao produtor cultural se manter em seus lugares de origem é um dos desafios a enfrentar. Não só este: circular pela cidade também é uma tarefa que exige grandes esforços.

“Hoje o meu trabalho é reconhecido, mas o sacrifício é muito grande. Vou aos lugares, mas voltar para a Zona Oeste, dependendo do horário, é complicado. A extensão do horário de funcionamento do trem, que para às 21h/22h, já seria muito bom. Se parasse de circular meia-noite, ajudaria até para o cara que sai da faculdade parar até no barzinho antes de voltar para casa”, disse ele.

O papel central da cultura na política pública

Ativista político, Binho Cultura tratou de temas delicados com a plateia, como as dificuldades que ele sabe que surgem quando muitos moradores dizem o lugar em que vivem, o preconceito que sentiu por conta do penteado e dos adereços que usa, da religião que professa, do lugar em que mora. Para tudo isso, ele tem uma estratégia de combate: conhecer a própria história e reescrevê-la. “A gente precisa conhecer a história, nossas raízes. Pertencimento é reconhecer sua origem, e valorizar sua história. Se índios, negros e negras tivessem oportunidade de escrever a nossa historia, ela seria diferente da que a gente está aprendendo na escola”.

Para Binho, é fundamental e determinante o papel que os produtores e agentes culturais desempenham hoje no Rio de Janeiro: “Se não fôssemos nós, a violência estaria muito pior nessa cidade”, afirmou, aplaudido pela plateia. E foi além, colocando a área da cultura como indispensável no debate político atual: “Não tem como fazer política pública sem a gente. Não existe pacificação sem nós”, disse.

Links que podem interessar:

Flizo – Festa Literária da Zona Oeste: http://flizo.org/

Perfil de Binho Cultura: http://oglobo.globo.com/cultura/binho-cultura-pai-da-festa-literaria-da-zona-oeste-10995693

Rio de Encontros sobre drogas em frases e fotos

Julita Lemgruber, Christiane Sampaio e Alessandra Oberling: drogas em debate no Rio de Encontros / Foto: Paula Giolito

Julita Lemgruber, Christiane Sampaio e Alessandra Oberling: drogas em debate no Rio de Encontros / Foto: Paula Giolito

Três mulheres, o mesmo tema, uma plateia ávida por fala e um debate inflamado. O Rio de Encontros da terça-feira, 29 de abril, reuniu a socióloga Julita Lemgruber, coordenadora do Centro de estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), a psicóloga Christiane Sampaio, da Secretaria Municipal de Saúde, e a antropóloga Alessandra Oberling, da rede Pense Livre,  para uma conversa além de necessária. No centro da discussão, o tema “Drogas: respostas alternativas e políticas públicas”.

Para ver as fotos do encontro, clique aqui

Confira as frases que pontuaram as quase três horas de debate:

“Da justiça à democracia, o tema nos atravessa. Não dá para pensar as questões da cidade sem passar pelas drogas”
Ilana Strozenberg

“O resultado da guerras às drogas foi um fiasco. Nos países latinos, as consequências foram ainda mais graves. Resultou em encarceramentro de populações negras e pobres, e no fortalecimento do tráfico”
Alessandra Oberling

“O Rio está vivendo um momento tão dramático que não há como falar sobre política de droga sem discutir o que ocorre na cidade”
Julita lemgruber

“A cidade está literalmente pegando fogo. A polícia é violenta, entra e sai, troca tiro e provoca morte de pessoas. O que está acontecendo? tem algo mais que a gente não percebe?”
Julita Lemgruber

“Não vamos nos enganar. A questão não é o uso, mas o abuso dE drogas”
Julita Lemgruber

“As drogas sempre existiram e sempre vão existir”
Julita Lemgruber

“A redução de danos é um olhar que não exclui a droga. O médico e a enferemeira não dizem mais que você tem de usar drogas para ser feliz”
Christiane Sampaio

“Não inventemos outras rodas. O que se pode trazer das políticas internacionais é a forma de olhar o problema”
Christiane Sampaio

“O tabu que a proibição causou nos últimos anos levou à falta de informação das mais básicas às mais complexas”
Alessandra Oberling

“A escola expulsa (o aluno) por qualquer comportamento fora do padrão de normalidade”
Christiane Sampaio

“A gente está pronto para legalizar?”
Marcão Baixada

“O exemplo do tabaco nos mostra: esse país é esculhambado no que quer ser. O Ministério da Saúde conseguiu implantar uma política decente contra o cigarro. O governo precisa querer, mas vai querer se nós, sociedade, quisermos”
Julita Lemgruber

“A internação (dos usuários) não é a salvação. O buraco é muito mais embaixo.”
Christiane Sampaio

“Maconha não é cool”
Rhayana Gonçalves Sousa, estudante da ESPM

“O Brasil tem uma violência letal inaceitável para uma sexta economia do mundo”
Julita Lemgruber

“O que está por trás da violência é a guerra às drogas”
Julita Lemgruber

“Não há resposta para todas as questões, mas há a certeza de que o que temos não está funcionando”
Julita Lemgruber

“Já tentei levar viciado para a escola, a escola não aceitou. O estado fecha todas as portas”
Raquel, do Providenciando

“Existe interesse político por trás das comunidades terapêuticas. Algumas fazem trabalho sério, outas são puro interesse monetário”
Alessandra Oberling

“A liberdade é terapêutica”
Christiane Sampaio

“Há meia dúzia de pessoas lucrando porque a droga não é legalizada. Mas não é essa meia dúzia que vai para a cadeia”
Julita Lemgruber

 

Rio de encontros e desencontros, como viabilizar o diálogo na cidade?

Luiz Eduardo Soares, autor dos livros que deram origem aos filmes Tropa de Elite 1 e 2 / Foto Paula Giolito

Luiz Eduardo Soares, autor dos livros que deram origem aos filmes Tropa de Elite 1 e 2 / Foto Paula Giolito

Pontualidade britânica em solo carioca. A abertura do Rio de Encontros 2014 teve direito a casa cheia e uma saudável disputa por espaço. Na terça-feira, 25 de março, o antropólogo e escritor Luiz Eduardo Soares deu uma aula sobre segurança pública para uma plateia diversificada: pesquisadores, professores, jornalistas, representantes de ONGs e instituições governamentais formaram uma plateia composta ainda pela turma de jovens atuantes nas periferias da cidade e alunos da ESPM, nova parceira e patrocinadora do projeto.

Com o tema “Rio de encontros e desencontros, como viabilizar o diálogo na cidade”, o autor dos livros “Meu casaco de general” e “A Elite da Tropa 1 e 2” percorreu a trajetória do Rio no enfrentamento da violência, apontou distorções e erros, reforçou acertos, contou além dos 500 dias no front da segurança pública.

PARA VER AS FOTOS DO ENCONTRO, CLIQUE AQUI

Ilana Strozenberg, diretora acadêmica d’O Instituto, deu as boas vindas e anunciou as novidades. Iniciativa de sucesso em 2013, a turma de jovens integrantes do Rio de Encontros foi ampliada, o Rio Real Blog ganhou o status de parceiro efetivo, a Escola Superior de Propaganda e Marketing juntou-se ao time de apoiadores e é patrocinadora oficial do ano.

A diretora acadêmica d'O Instituto, Ilana Strozenberg faz a abertura do Rio de Encontros / Foto Paula Giolito

A diretora acadêmica d’O Instituto, Ilana Strozenberg faz a abertura do Rio de Encontros / Foto Paula Giolito

“O mote do nosso trabalho são novas abordagens que nos levem a pensar alternativas para uma cidade como gostaríamos que ela fosse. A nossa turma de jovens indicados por iniciativas espalhadas pelo Rio nos dá a medida de que a empreitada deu certo. Este ano, temos mais alguns que vão se juntar aos que já estão desde o ano passado”, Ilana explicou.

O Rio de Encontros é de parcerias e a união de forças vai resultar também em concurso para a escolha da nova logomarca do projeto. Tarefa dada aos alunos de Design e de Publicidade da ESPM. As candidaturas já estão abertas e o resultado será divulgado em maio.

A sinergia entre o ciclo de debates sobre a cidade do Rio de Janeiro e a ESPM, realçou a diretora geral da escola, Flávia Flamínio, é grande e a parceria promete ser profícua.

Flávia Flamínio, diretora geral da ESPM, patrocinadora da série Rio de Encontros 2014 / Foto Paula Giolito

Flávia Flamínio, diretora geral da ESPM, patrocinadora da série Rio de Encontros 2014 / Foto Paula Giolito

“Nós somos uma instituição sem fins lucrativos cuja missão é gerar valor em programas de qualidade para formar líderes. A escola aposta nos jovens e na comunicação como instrumentos de transformação da sociedade.  Temos 40 anos na cidade do Rio de Janeiro. Foi um feito nos mantermos e acompanharmos todo o processo de mudanças pelo qual passou a cidade.”

Antes da palestra, que se estenderia pelas três horas seguintes, com intervenções da plateia, a turma do Rio de Encontros, que já tem veteranos, fez as devidas apresentações dos projetos que representam. A Agência de Redes para a Juventude, Circo Crescer e Viver, Parceiros do RJ, da TV Globo, Redes de Desenvolvimento da Maré são alguns deles.

O homem e a cidade

Ibis Silva Pereira, coronel da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro / Foto: Marco Sobral

Ibis Silva Pereira, coronel da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro / Foto: Marco Sobral

O coronel da Polícia Militar do Rio de Janeiro Ibis Silva Pereira carrega o livro “Cidades rebeldes”, obra do geógrafo, urbanista e antropólogo David Harvey debaixo do braço. E tem, quase na ponta da língua, a frase do sociólogo americano Robert Park sobre o que é a cidade:

“A tentativa mais consistente do homem e a mais bem-sucedida como um todo para refazer o mundo em que vive o mais próximo de seu desejo íntimo. Mas, se a cidade é o mundo que o homem criou, é o mundo no qual ele está doravante condenado a viver. Assim, indiretamente, e sem qualquer clareza da natureza de sua tarefa, ao fazer a cidade o homem refez a si mesmo.”

A cidade, o homem e a forma como a habita e se relaciona estão na essência do trabalho que o coronel desenvolveu à frente da Academia de Polícia Militar.

“O número 50 mil (citado por Silvia Ramos) não sai da minha cabeça. Que tipo de humanidade produz essas cifras? São homicídios dolosos. Os de trânsito são mais 40 mil. Os estupros são outros 50 mil. Meu Deus, que tipo de humanidade produz isso?  E o que isso faz com a nossa humanidade?”, o coronel questionou e recorreu ao que viu no cinema, durante uma sessão do filme “Tropa de elite” para exemplificar o quão carente de sensibilidade estaria a sociedade:

“Ouvi aplausos em cenas de tortura. Nós banalizamos os dados, conseguimos dormir e 50 mil mortes não nos tiram o sono. Os dados são divulgados e 15 dias depois já estão em nosso passado. Ano que vem teremos os 50 mil mortos ou até mais”, vaticinou.

Afetos, paixões e sensibilidade

Em comum com o delegado Orlando Zaccone, Ibis aponta a escravidão como leitura indispensável para se entender o Brasil. Assim como a militarização da política de segurança pública e a hierarquização da sociedade tal ela se apresenta.

“Joaquim Nabuco dizia que tão importante quanto acabar com a escravidão é acabar com a obra da escravidão. A categoria matável tem muito que ver com isso”, afirmou ele, apontando ainda outro ponto em comum: a questão da segurança pública ultrapassa a polícia e não pode ser reduzida ao emprego das forças policiais.

Seria preciso superar a dificuldade de se pensar políticas da prevenção e não apenas do enfrentamento e do combate ao criminoso.

“O assunto ultrapassa, e muito, a polícia, mas chegou o momento de discutirmos também a polícia. Comandei durante 22 meses a academia que forma o policial militar. A desmilitarização é um tema que precisamos enfrentar. Penso que é interessante problematizar a pertinência em nosso sistema de segurança pública de uma polícia estruturada no modelo militar”, argumentou o comandante.

O currículo de formação do policial, explicou Ibis, lida com medo da morte. Estatisticamente, os policiais têm três vezes mais chance de serem vítimas de homicídio do que o cidadão comum.

“O medo está presente o tempo inteiro na formação do policial. Mas temos de prepara-lo para a possibilidade da morte, que é a paixão mais básica do ser humano, sem que ele perca sua racionalidade. A primeira ocorrência em que me deparei com a morte, o colega levou um tiro na testa e caiu aos meus pés. Precisamos estar preparados para manter a nossa racionalidade mesmo diante de uma cena como essas”, ponderou.

Segundo ele, do medo decorre o embrutecimento que acaba tomando conta das formações. Daí a necessidade de recorrer a atenuantes. “Nós temos muitos psicólogos militares em nossa corporação. Mas são militares. Um soldado precisa trabalhar com os afetos e questões internamente. A desmilitarização da polícia poderia contribuir para que pudéssemos trabalhar os afetos e as paixões tristes de forma mais eficaz.”

Ibis defende um caminhar na direção de um modelo de polícia diferente do que está posto e que, segundo ele, sobretudo fragmentado. “Uma é ostensiva e não apura, a outra não polícia, ajudaria se trabalhássemos com um ciclo completo”, sugeriu.