Juventude carioca

Rio de Encontros e as Experiências de Mobilização de Jovens na Cidade, 28 de agosto de 2012 – Fotos: Ariel Subirá

Uma mesa franca e jovens inquietos. O Rio de Encontros sobre as Experiências do Mobilização de Jovens na Cidade, na terça-feira, 28, foi o que se pode chamar de instigante. No centro do debate, quatro modelos de projetos bem-sucedidos. Na plateia, rapazes e moças dispostos a ouvir e ansiosos por perguntar. Um encontro genuíno entre quem planeja e quem é alvo das ações, uma conversa pontuada por reflexões essenciais.

“O objetivo é problematizar as respostas que já se tem e criar novas perguntas”, anunciou Ilana Strozenberg, diretora acadêmica d’O Instituto ao apresentar os convidados: Beá Meira, coordenadora pedagógica da Universidade das Quebradas, projeto de extensão da UFRJ; Eliane Costa, professora e consultora de gestão cultural; Tiago Borba, gerente de projetos do IPP e coordenador da UPP Social; e Vera Íris Paternostro, gerente de Desenvolvimento do Jornalismo da TV Globo e uma das implementadoras do projeto Parceiros do RJ.

Mesa formada, no Rio de Encontros, todos têm a palavra. “Todo mundo é público e todo mundo é palco. Vamos falar dos problemas e dos impasses que impedem que as coisas funcionem como deveriam estar funcionando”, completou.

Com a tarefa da mediação, Marcus Vinícius Faustini. “São quatro pessoas, quatro projetos no sentido de invenção de maneiras de trabalhar com jovens de origem popular na cidade. Temos aqui uma grande emissora de televisão, uma autarquia pública, a universidade e a própria Agência, todos reafirmando que o jovem é protagonista”, Faustini avaliou, com conhecimento da causa que ele mesmo defende, o projeto Agências de Redes para a Juventude.

Sim, existe uma agenda na cidade para o jovem de origem popular experimentar. “Mas, curiosamente, nenhum  candidato a prefeito colocou a cultura ou o jovem popular de origem de favela em seus projetos de governo. Eles estão alijados do projeto político das eleições”, Faustini ressaltou e aproveitou para avisar que a Rede de Agências para a Juventude abrirá uma nova frente para o diálogo mediado.

“O jovem de classe média faz protesto. O jovem de favela faz projeto. E essas duas juventudes não conversam. A gente quer fazer crescer a rede de projetos e ações”, Faustini explicou o que mobiliza empreitadas como o seminário Todas as Redes, que será realizado em novembro, em parceria com o Sebrae.

Todos devidamente apresentados, à conversa.

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A favela no mapa

Tiago Borba, diretor de Projetos Especiais do IPP (Instituto Pereira Passos/Prefeitura do Rio de Janeiro) e coordenador do Programa UPP Social. Foto: Ariel Subirá

“Eles circulam por lugares íngremes, de computador e mochila nas costas. São jovens, majoritariamente.” Tiago Borba, diretor de projetos especiais do IPP, abriu a conversa já contextualizando quem são as pessoas que percorrem os territórios pacificados e estão em campo, pelo programa UPP Social, desde julho de 2011.

As favelas existem e precisam constar nos mapas da cidade. A primeira tarefa que os jovens moradores das favelas ocupadas pelas UPP’s receberam foi checar e identificar as ruas, becos e vielas de seus territórios. “Os mapas da cidade, até a década de 1980, não identificam as favelas. Queremos colocar a favela no mapa da cidade. A base oficial dos logradouros da favela está sendo oficializada pela construção dos seus moradores”, explicou Tiago.

A contratação de gente da própria favela, segundo o diretor, tem uma repercussão mais ampla: “Para a UPP Social, isso significa trazer esses moradores para a gestão pública. A ideia é que eles aprendam, mas nós também. Esse mapa será reconhecido oficialmente pela prefeitura e isso é uma pequena revolução. A gente tem uma formação voltada para eles.” O que ele chama de tarefa mãe vai acontecer até maio de 2013 e a previsão é que inclusive as favelas maiores já terão, até aí, seus mapas todos checados.

O reconhecimento do território na cartografia oficial da cidade é importante, mas a nais valia está na interação que o projeto possibilita (A UPP Social está nas favelas desde 2010). “Reconhecer no outro coisas de você, essa alteridade de olhar para o outro e pensar no que isso significa, isso é o mais enriquecedor que essa troca possibilita.”

O que o morador fala faz sentido. O que o jovem fala faz sentido.

Território livre

Beá Meira, coordenadora pedagógica da Universidade das Quebradas, projeto de extensão da UFRJ. Foto: Ariel Subirá

A universidade tem de ser território livre e o jovem deve ser reconhecido como produtor de conhecimento por excelência. Para Beá Meira, coordenadora pedagógica da Universidade das Quebradas, projeto de extensão da UFRJ, essas são questões a serem postas na mesa.

“Os artistas da periferia tinham um talento que não estava sendo discutido dentro da universidade, essa foi a força motriz do projeto. A ideia central é trazer a cultura da periferia, a cultura livre para dentro da universidade. A própria universidade tem um estranhamento dessa ação e os próprios artistas e pensadores ficam ressabiados naquele ambiente. Esse é um desafio”, Beá pontuou.

Se promover o diálogo é difícil, garantir a presença desses jovens é outro embate. “O programa precisa ser variado. Uma vez por mês, eles se organizam por temas para discutir a cultura da periferia. São poetas, rappers, cantores. A gente tenta promover uma reflexão crítica sobre a cultura que eles produzem”, Beá contou sobre a experiência e o que ela considera inovação.

A reflexão traz ganhos, ela aposta. E o projeto, na gênese voltado para uma clientela específica, ganha outros candidatos. “A cada ano há uma gama de pessoas completamente diferentes que disputam as vagas.” Gente que mora longe da favela mas ainda assim quer fazer parte. “Para nós interessa muito misturar as pessoas, certamente o debate vai ser mais rico”, disse Beá.

O objetivo do projeto é dar acesso a quem não teve oportunidade de frequentar a universidade. “Nós temos de aprender que temos de abrir um espaço para eles, são eles que estão comunicando, fazendo texto, poesia, música, seja o que for. Isso é, sem dúvida, produção de conhecimento.”

Alô Rio de Janeiro

Vera Íris Paternostro, gerente de Desenvolvimento do Jornalismo da TV Globo e uma das idealizadoras do projeto Parceiros RJ. Foto: Ariel Subirá

Um projeto muito caro, querido e revolucionário. Essa é a definição de Vera Íris Paternostro para o Parceiro do RJ, projeto em que a TV Globo abriu as portas, ou as pautas do jornalismo, para uma turma nada acostumada a ganhar a vez para contar suas histórias.

Os autores do projeto, segundo Vera, foram os próprios jovens. “Eles nos ensinaram muito nesse um ano e meio. Foi algo inédito e inovador dentro dos padrões de trabalho da TV Globo. Tivemos de mudar nossos padrões de trabalho interno, desde o recrutamento, que foi feito em comunidades.”

O projeto abrange, além do Rio, Brasília e São Paulo. Foram 12500 inscritos, jovens de 18 a 30 anos vindos das favelas do Rio, da periferia de São Paulo e das cidades-satélites de Brasília. “O objetivo era trazer moradoras de lugares como esses, que fizessem jornalismo, que trouxessem para os jornais locais o olhar deles. Interessava, essencialmente, o olhar de moradores daquele lugar sobre o qual se estava falando”, Vera explicou.

Para conquistar uma das 44 vagas, que dariam direito a equipamento e a treinamento técnico, era preciso demonstrar talento. “Mas queríamos, principalmente, que eles mantivessem sua autenticidade e que não se transformassem por estar dentro daquele lugar que era a TV Globo.”

O projeto significou ruptura de padrão para a própria emissora. “A engenharia da Rede Globo é muito rígida, eles não dariam um equipamento para quem mora em favela. Eles não apenas fizeram isso, mas ensinaram como usar”, ela ressaltou.

O ganho foi de mão dupla. Os jovens mergulharam np admirável mundo novo da televisão, a televisão mergulhou no até então inóspito território das favelas. “A TV Globo tinha interesse em avançar nas classes sociais mais baixas, isso era estratégico. E, ao mesmo tempo, viu como era importante ter essas pessoas circulando entre nós. Os telejornais locais recebram um material inimaginável pela reportagem oficial. O repórter nunca faria o que o Tiago e a Lana poderiam fazer: o diagnóstico e a denúncia dos problemas nessas comunidades”, Vera deu por certo.

Nem tudo é o que parece

Eliane Costa – professora e consultora de gestão cultural. Foto: Ariel Subirá

Eliane Costa está acostumada a diversidade. De sotaques, de pessoas, de projetos. Conhece bem as turmas que fazem o Nós do Morro, o Enraizados, o Vídeo nas Aldeias, o Visões Periféricas, o Tramas Urbanas, o Fora do Eixo. A explicação para uma lista de relações que só cresce é uma só: cultura da periferia e cultura digital são dois segmentos emblemáticos dos anos que passou à frente da gerência de patrocínio da Petrobras. Com um faro raro para o que merece – ou não – patrocínio na política cultural, ela aprofunda a conversa e mostra porque a  interseção da política pública com a periferia, particularmente no contexto digital, foi um marco.

“Onde se vê soluções realmente potentes e realmente criativas é na favela. É lá que estão os jovens da UPP Social, da Universidade das Quebradas, do Parceiros RJ”, Eliane afirma com veemência. Mas a leitura não pode ser rápida nem apressada. Toda a movimentação a que se assiste – e que quem faz os projetos vivencia – começou bem antes.

Eliane Costa agora se dedica a levantar a genealogia desses projetos de que tanto se fala. “A criação das ONG’s, décadas atrás, foi fundamental na formação das lideranças da maioria deles”, ela avalia e confirma duas datas e siglas emblemáticas: o ISER (1979) e o Ibase (1981). “O Ibase, por exemplo, foi fundamental também na questão da internet porque teve, além de sua própria missão, uma interseção direta com a questão digital. Há toda uma construção de redes no Rio de Janeiro anterior às redes digitais, o que foi decisivo para a formação e articulação de quem hoje está à frente.”

A trajetória, claro, não é linear. E é exatamente com esse histórico que Eliane também se ocupa atualmente: refazer esse trajeto para entender como o Rio passou do apartheid social vivido em toda a sua potência na década de 1980, à reação. “Houve todo um contexto que explodiu radicalmente no início dos anos 1990. Em julho de 1993, o massacre da Candelária; no mesmo 93, a chacina de Vigário Geral. Tudo muito justificado pela mídia. Em 1994, Zuenir Ventura escreve Cidade Partida, surgem o Viva Rio, o Afroreggae, os blocos de rua, que fazem a ocupação do espaço público de forma livre. Em 1996, o Viva Rio se apresenta como uma rede de redes. Todo mundo sabe que a partir de 1995, a internet trouxe novos protagonistas e fez uma reconfiguração das possibilidades de comunicação”, analisa.

A cidade reagiu e Eliane sustenta pelo menos uma hipótese: “De alguma forma, com o cruzamento das redes lá atrás, com o atravessamento da cultura da periferia, dentro de uma perspectiva de um presidente cujo paradigma era diferente para o poder, o Rio de Janeiro descobre suas periferias. Ao mesmo tempo em que o Brasil, periferia global, começa a ser descoberto.”

As representações sociais vão mudando com o tempo, assegura Eliane. “A favela foi lugar de comando do tráfico, com uma criminalização total de suas culturas. Depois dessa fase mais crítica, há a representação atual: lugar de originalidade, ousadia e descoberta de novas soluções. As nossas periferias, como o Brasil no cenário internacional, estão bombando. Isso nos traz grandes desafios e muitas oportunidades. É o que torna o Rio de Janeiro mais possível.” Fechou.

Juventude mobilizada no Rio de Encontros

As Experiências de Mobilização de Jovens no Rio de Janeiro em debate no Rio de Encontros

“Nenhum  candidato a prefeito colocou a cultura ou o jovem de origem de favela em seus projetos de governo. Eles estão alijados do projeto político das eleições.”
Marcos Vinícius Faustini

“O jovem é um produtor de conhecimento. Nós temos de aprender que temos de abrir um espaço para eles. São eles que estão comunicando, fazendo texto, poesia, música, seja o que for. Isso é, sem dúvida, produção de conhecimento.”
Beá Meira

“Eles (os jovens do projeto Parceiros do RJ) são talentos que tiveram uma oportunidade, mergulharam nessa oportunidade e se desenvolveram. A experiência que tiveram vai dar a eles um futuro diferenciado.”
Vera Íris Paternostro

“As nossas periferias, como o Brasil no cenário internacional, estão bombando. Isso nos traz grandes desafios e muitas oportunidades. É o que torna o Rio de Janeiro mais possível.”
Eliane Costa

“As políticas públicas ainda estão muito pulverizadas, deveriam ser mais articuladas para ser mais eficazes. Há boas iniciativas em todas as esferas, mas falta uma coordenação e uma articulação maior”.
Tiago Borba