A história viva nos museus de favela

MARIO CHAGAS fala da experiência forte e inovadora em curso no Rio de Janeiro.

“As favelas fazem parte das memórias urbanas que se quis apagar”. A sentença é de Mario Chagas, museólogo, cientista político e poeta, um dos três provocadores convidados para conversar sobre o tema “A favela no imaginário carioca”, no 5º Rio de Encontros. Mario fez a apresentação “Memórias e museus: poéticas, políticas e práticas contemporâneas”, em que apontou as condições que permitiram a criação dos museus de favelas, definidos por ele como “inovadores”. “São museus que não têm medo de afetar e ser afetados. Essa é uma experiência forte e a cidade do Rio de Janeiro tem muito a dizer sobre isso”.

Para começar, Mario Chagas lembrou o lugar inexistente das favelas nos museus tradicionais. “Quem visitou museus nos anos 60, 70, não encontrava referência a elas. É como se nós vivêssemos num mundo onde as favelas não existiam. Não cuidaram de registrar absolutamente nada a esse respeito. Os museus de grandes narrativas cuidaram de não tratar das favelas”, lembrou Mario, no rápido panorama que fez sobre a mudança na concepção dos museus, que passaram a ser vistos como lugares “bons para pensar, intuir, sensibilizar, agir e fazer política”.

A partir da descrição de Mario Chagas entende-se a criação dos museus de favela como resultado de uma confluência de pensamentos e práticas de uma nova museologia, “comprometida politicamente com a redução das desigualdades sociais”, que colocaram em questão o papel dessa instituição. “Os museus passaram a ser pensados como território do ‘e’ e não do ‘é’: museu é isso, e aquilo, e mais outra coisa que não sabemos sequer o que é”, conta. “Compreendeu-se que os museus não cabiam nas gavetas classificatórias e que era preciso superar o aprisionamento deles na ordem do racional. Era preciso um conhecimento mais inteiro”, contou o museólogo, lançando um pensamento provocador: “nós não somos animais racionais. Somos muito mais complexos do que isso. E as favelas ensinam tudo isso”.

ESPAÇOS DE RELAÇÃO

A nova museologia, a discussão da Política Nacional de Museus, o interesse de museólogos pelas favelas convergiram. “Os museus passaram a ser compreendidos como espaços de relação, e não de acumulação. Essas ideias foram mudando e era preciso praticar uma nova organização museal, transver o mundo, os museus”, disse, parafraseando a poesia de Manoel de Barros, registrada num muro grafitado no Méier, fotografado por Mário: “o olho vê, a memória revê, a imaginação transvê”. “Estava aberto o caminho para os museus de favela”, referindo-se ao início do século 21, que permitiu a criação de cinco museus de favela no Rio de Janeiro, entre 2006 e 2013.

Pensados como “conectores espaço-temporais de pessoas e grupos sociais”, os museus de favela são, como diz Mario Chagas, “projetos políticos e poéticos”. “Há nas favelas, não só no Rio de Janeiro, mas em todo o Brasil, uma extraordinária história de resistência; elas têm resiliência; têm uma capacidade de reinvenção, de imaginação, de produção de novos repertórios, produzem linhas de fuga, de agenciamento. E no final do século 20, início do 21, à luta das favelas por saneamento, água, luz, foi acrescida também a luta pelo direito à memória e ao patrimônio”.

RESISTÊNCIA E SOBREVIVÊNCIA

Os museus de favela têm características muito diferentes entre si – alguns são “museus de território”, outros, “de percurso” – e também tiveram sua história iniciada de formas variadas. No Santa Marta, o EcoMuseu Nega Vilma foi batizado em homenagem a uma moradora líder da comunidade.“Alguns professores quando viram o lugar sem teto acharam que não era museu. Por que não?”. O EcoMuseu Amigos do Rio Joana começou com um mutirão de limpeza do rio. O MuF – Museu da Favela tem 25 casas-tela, e o visitante percorre as favelas Cantagalo e Pavão-Pavãozinho para fazer o circuito, que conta a história da ocupação daquele morro.

Apesar de sua importância para a história da cidade, a criação deles não é um processo simples, menos ainda a manutenção. “Esses museus estão à margem de tudo, inclusive da atenção do poder público”, disse, citando como exemplo o Museu do Horto – “que sofre uma campanha violenta, com moradores que estão lá há 80 anos sendo chamados de invasores pelos jornais” – e o Museu da Maré, que corre o risco de ser despejado do galpão que ocupa há 10 anos.

“O Museu da Maré está passando por uma situação dramática e trágica. Ele ocupa um galpão e o prazo de cessão venceu. Uma reunião recente estabeleceu que o Museu pode ficar até março do ano que vem e o governo do Estado e a Prefeitura têm que encontrar um terreno para os donos do galpão, que querem construir uma escola. Nada mais perverso também: colocar uma escola contra o museu é uma covardia grande. As pessoas, claro, vão preferir ter escola, quando o museu tem programa educacional importantíssimo. Não existiria projeto de memória da Maré se não existisse o Museu da Maré”, disse Mario, também chamando atenção para a disputa entre instituições culturais que atuam na comunidade. ”Nas favelas também existem facções culturais, e uma quer destruir a outra. O que é uma perversidade, um absurdo.”

POESIA NA ORIGEM

Suburbano de Cavalcante – “um bairro que ninguém passa: você vai até lá; e onde que tem a escola de samba Em Cima da Hora, da qual meu pai foi um dos fundadores” –, Mario Chagas também retomou sua trajetória de vida para chegar ao momento em que descobriu que seu caminho seria a museologia e não a arqueologia. “Comecei a me conectar com as ideias de Erich Fromm, tinha lido “O coração do homem”, que ele trabalhava com as síndromes da necrofilia e da biofilia. Essas duas síndromes me fizeram pensar nos museus biófilos e museus necrófilos. E isso abriu minha cabeça”, resumiu. “Desde a graduação segui na pegada dos museus conectados à vida”, diz Mario, também cientista social.

Poeta desde sempre – “como poeta, não peço permissão a ninguém. Eu sou poeta e ponto” -, além dos bairros em que morou, Mario Chagas percorreu a Zona Norte com o grupo de poesia militante Panela de Pressão. Da época, mantém o hábito da poesia e foi com uma de sua autoria, “Declaração de amor para Rose Méier”, que ele encerrou o Rio de Encontros. Aos versos:

Seu olhar, quase Ipanema

Baixou como Copabacana

Amadureirando o fruto

Amolecendo a casca dura

Me deixando encantado

Não tendo dó nem piedade de mim

Vem cá, Maria da Graça, da Glória, da Vila de Isabel

Vem cá, minha Santa Teresa

Depois que te der um beijo,

Minha flor de laranjeiras

Minha flor da mangueira

Eu decreto a abolição de todo e todo e qualquer del Castilho,

De todo e qualquer engenho

Real, novo, de dentro ou da rainha

Sem Fátima e sem saúde, a vida não é gamboa

Sem Fátima e sem saúde, eu não tenho bom sucesso, minha maré fica vazia

Sem Fátima e sem saúde, eu não tenho nenhuma harmonia

Sem Fátima e sem saúde, a vida não dá recreio

Sem Fátima e sem saúde, a vida é barra, barra, barra…

 

Aplausos gerais da plateia.

PARA CONHECER OS MUSEUS DE FAVELA:

Conexão favela-subúrbio: uma alternativa possível

O cineasta GUSTAVO MELO fala sobre o valor de filmar o universo familiar

“O suburbano se uniu aos favelados e a gente conseguiu fazer cinema”. Foi assim que Gustavo Melo resumiu sua trajetória de menino de Brás de Pina, zona norte do Rio, a cineasta com filmes exibidos em festivais importantes do mundo, como Cannes. Um dos provocadores do 5º Rio de Encontros, Gustavo tratou o assunto proposto – “A favela no imaginário carioca” – a partir da sua história de vida. “Tem uma frase do Chico Sciense que diz: ‘a tecnologia do povo é a vontade’. Isso me leva pra frente até hoje”.

Formado pelo Nós do Morro, onde começou a dar aula logo depois de ingressar no grupo, sendo o primeiro morador de fora da favela do Vidigal aceito por lá, Gustavo falou da importância de se contar histórias do universo próximo. “Não se diz que se você quer ser universal, fale do seu quintal? Falei noutro dia pro pessoal de um cineclube da Baixada: vocês têm a responsabilidade de mostrar a Baixada porque ninguém vai dizer isso por vocês”, afirmou.

O CINEMA E A GUERRA

São exemplos do quintal que Gustavo Melo vem mostrando ao longo da carreira os filmes “A distração de Ivan” – selecionado para a Semana de Crítica do Festival de Cannes, em 2010 –, “O jeito brasileiro de ser português”, e “Picolé, pintinho e pipa”. Os dois primeiros foram filmados em Brás de Pina. O último, no Vidigal, no intervalo de uma das guerras de facções daquela favela com a vizinha Rocinha. “Entre 2004 e 2006, a gente queria fazer o filme e não conseguia porque a guerra entre as favelas era mais forte. Mas um dos milagres que aconteceu na época foi esse: o boca a boca com os pedidos a todos os setores – tráfico, batalhão – foi tão grande que a guerra parou durante seis dias pra gente filmar. A guerra não tem hora para acontecer. E durante aqueles seis dias os moradores puderam resgatar o cotidiano. As pessoas batiam palma pra gente. E os bandidos mandavam perguntar quando ia terminar de filmar, porque eles queriam voltar a dar tiro”, contou.

A vontade de fazer cinema fez Gustavo Melo tentar o vestibular para a UFF e não desistir mesmo sem conseguir passar. “Na época, pré-retomada, o mercado estava parado mas, mesmo assim, eram 15 candidatos por vaga. Fazer cinema sempre esteve no imaginário da galera”, conta ele, que credita o mau desempenho ao ensino técnico do segundo grau, numa escola pública em Vigário Geral, que não incluía disciplinas como física, química e matemática, exigidas no vestibular.Da época da escola, aliás, ele guarda a memória de uma história triste, violenta e emblemática da cidade. “Estava no ônibus 906 indo para a escola e vi os corpos da chacina de Vigário Geral”.

Depois de assistir a uma entrevista de Cacá Diegues na TV, resolveu procurá-lo, mandando um fax para o cineasta, e dizendo que queria fazer cinema. “Fui até o Centro passar o fax. Quando cheguei em casa de volta, meu irmão disse que o Cacá tinha ligado. Fui ao escritório dele e ainda vi o Caetano Veloso, com quem ele dividia o escritório na época”, lembra. Na época, Cacá estava captando recursos para fazer “Orfeu”. Gustavo teria uma chance, mas acabou não acontecendo. Foi então fazer curso com Tizuka Yamazaki, na Vídeo Fundição, da Fundição Progresso, e os dois amigos mais próximos que fez acabaram saindo do país.

VIDIGAL, A SAÍDA

“Depois é que fui entendendo o que houve com minha geração. A década de 90 já representava essa falência do estado, principalmente na área cultural. Meu bairro não tinha cultura, nem na Zona Norte. Fui ficando meio desesperado, ficava muito isolado, meus amigos já no crime, nas drogas…” Fora da Faculdade, sem trabalho e sem amigos, voltou a Cacá, enviando nova correspondência. Foi aí que o cineasta sugeriu que ele procurasse o Nós do Morro, onde Rosane Svartman e Vinicius Reis já tinham começado a dar aulas de cinema. “Cheguei lá e o mundo parou: eles estavam ensaiando “Abalou, um musical funk”, e iam fazer um ‘passadão’, que nunca tinha ouvido falar e soube naquele momento o que era, um ensaio direto, sem interrupção. O Guti me deu a maior atenção. O musical era uma explosão. Comecei a fazer a conexão Brás de Pina-Vidigal”.

Em pouco tempo no Nós do Morro, Gustavo Melo foi chamado por Guti Fraga, criador do projeto, para dar aulas. “A melhor coisa que aconteceu foi dar aula porque os alunos eram muito exigentes. Eu comecei a estudar também”, conta ele, autodidata. Ao lembrar sua história, Gustavo se refere a uma época em que subir o Vidigal era assustador. “Quem leu Abusado, sabe que tinha lá um cara, Patrick, que era super violento. Eu tinha muito medo. Na época, você não subia um morro da Zona Sul sem ninguém. Mas fui subindo, vendo muita gente na rua, criança brincando. Me adaptei muito rápido ao Vidigal”. A distância Zona Norte-Zona Sul, vencida durante as madrugadas, incluía uma rotina de assaltos e sobressaltos. “Um assalto no ônibus é um pesadelo”, sabe. Muitas das histórias vividas por Gustavo acabaram se tornando roteiro de filmes, ambientados em lugares da cidade que ele conhece bem: o subúrbio e a favela, onde residem tipos que fazem parte do imaginário carioca.

A conversa com Gustavo Melo incluiu várias referências a seus filmes, listados abaixo.

Picolé, pintinho e pipa

A distração de Ivan

O jeito brasileiros de ser português

Filmes do Nós do Morro

Filmes importantes sobre Rio de Janeiro:

Rio 40 graus

Rio Zona Norte

Meninas

 

 

Por uma cidade sem fronteiras

ANDRÉ BALOCCO fala sobre o papel da imprensa na construção do olhar sobre as favelas.

O destaque dado pelos jornais do Rio à morte de um menino de 11 anos no Caju, ocorrida na véspera, foi o ponto de partida do jornalista André Balocco, primeiro dos três provocadores a falar no 5º Rio de Encontros, dia 24 de setembro. “Quem leu as capas dos três jornais que sobraram no Rio de Janeiro já começa a ter ideia de como funciona o filtro desses jornais”, pontuou Balocco, referindo-se ao Globo, que não destacou o assunto, e ao Extra e O Dia, que deram manchete na primeira página.

Balocco centrou a fala na tensão que existe na narrativa dos jornais sobre a realidade das favelas. “Como a imprensa vê a favela? Nós estamos todos cegos, porque só olhamos para as consequências e não para as causas”, criticou. E citou alguns indicadores do Caju, onde o menino Herinaldo Vinicius foi morto – “assassinato é o que houve”, frisou Balocco. O bairro ocupa a 111ª posição do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) entre os 160 do município do Rio de Janeiro. “Como pode um bairro do Rio, a poucos quilômetros da prefeitura, perto do aeroporto, perto do Centro, ser um lugar tão esquecido?”, questionou.

MUDAR O MUNDO

Jornalista de O Dia, Balocco é o criador da coluna Rio Sem Fronteiras, proposta ao jornal pouco tempo depois de ele voltar a morar no Rio, no final de 2012, após um período trabalhando em São Paulo. “O Rio estava vivendo um processo de tentar incluir na cidade formal suas favelas. Soube da FLUPP (Festa Literária Internacional das UPPs), no Morro dos Prazeres, e já achei legal poder entrar no morro sem pedir autorização. Fiz a matéria para o Dia, mas depois quis apurar mais. Comecei a investir nisso, que passou a se chamar Rio Cidade sem Fronteiras, uma tentativa de trazer para o leitor do asfalto o processo de 15 dias de imersão pelas comunidades”, contou.

No fim de cada período de imersão nas comunidades, era realizado um debate, reunindo o poder público, ONGs, lideranças locais e moradores. “Foram 12 encontros e pessoas quenunca tiveram oportunidade de ter a voz ouvida na grande imprensa podia falar”, lembrou Balocco, destacando este como um momento importante na própria carreira. “Quis ser jornalista para mudar o mundo. Hoje sei que dá para mudar o meu mundo. E caí onde eu queria chegar”.

PELA INCLUSÃO

O tema deu certo, mas Balocco não escondeu da plateia que, internamente, passou a enfrentar certa resistência entre colegas, que não enxergavam valor na iniciativa. “Tinha dificuldade de encaixar as matérias dentro das editorias”, contou. O material se transformou na coluna Rio Sem Fronteiras e depois no Guia das Comunidades, que teve 23 edições publicadas, até ser encerrado pelo jornal, por alegada falta de patrocínio. “A 24ª edição está pronta”, lamenta.

Além de uma cobertura mais abrangente pelos jornais, para Balocco é crucial resolver a questão das comunidades, transformando-as em bairros populares. “Só a inclusão salva”, acredita.

Links importantes:

Coluna Rio Sem Fronteiras, no jornal O Dia

Guia das Comunidades, do jornal O Dia

Debate AS FAVELAS NO IMAGINÁRIO CARIOCA em frases

Além da possibilidade de ouvir diferentes especialistas sobre assuntos centrais para a vida na cidade, a participação ativa da plateia é uma das características mais marcantes do Rio de Encontros. No 5º debate do ano, com o tema “A favela no imaginário carioca”, não foi diferente: sinceras, desconcertantes, contundentes, corajosas, as considerações da plateia – formada pela Turma Rio de Encontros, composta por jovens ativistas da metrópole, alunos da ESPM, da Universidade das Quebradas, além de convidados – revelam contradições, dilemas, soluções, (im)possibilidades da cidade, e marcam um momento importante do Rio de Encontros, o da conversa. Confira abaixo algumas das considerações feitas durante o debate mediado por Mariana Cavalcanti, com os provocadores André Balocco, jornalista, Gustavo Melo, cineasta, e Mario Chagas, museólogo e poeta.

CIDADE PARTIDA

“A partir do momento que se olha a favela com o olhar do inimigo, a questão do imaginário não é menor. É fundamental. O que se fala sobre a favela, o tipo de narrativa causal que se faz sobre essa parte da cidade, é fundamental para as políticas que vão se construir para este lugar” – Mariana Cavalcanti

“Li uma vez uma frase de alguém que dizia que o Rio é uma ilha cercada de favelas por todos os lados. Isso é super preconceituoso. Parece que as favelas não são o Rio de Janeiro” – Denise Kosta

“A gente não sai desse ciclo. Até quando a gente vai ficar tratando de assuntos da favela? Vamos falar de uma cidade única! A gente está discutindo a mesma cidade” – Renata Codagan

“Uma coisa é o nosso desejo, de que a cidade não fosse partida. Mas ela está segmentada. A Maré está segmentada. Outra coisa é onde colocamos nossa energia: se na construção ou na derrubada de muros” – Mario Chagas

“Reconhecer essa diferença é o que pode me permitir enxergá-la e fazer com que ela diminua” – André Balocco

“Por um lado, se disse aqui que a favela e a cidade são uma coisa só. Por outro, que a na favela a lei é outra. A gente tem que cerzir esse negócio. E nós somos seres dessa costura” – Mario Chagas

“A gente vive numa cidade que o problema social só existe quando chega na Zona Sul” – Diogo Rodrigues

“Por causa do clima provocado pelo arrastão na praia, o Joaquim Ferreira dos Santos compartilhou uma reportagem que fez em 1984, Nuvens suburbanas sobre Ipanema, no Jornal do Brasil, quando foram inauguradas as linhas de ônibus entre Zona Norte e Zona Sul. Lendo hoje, parece que a percepção do morador da Zona Norte sobre si mudou, mas o olhar de quem o vê, não”. – Ana Claudia Souza

“Como a gente faz para quebrar esse muro da cidade partida? Se sentindo parte dela” – Bruna Rios

“O ideal seria que a cidade fosse única. Mas a Zona Sul é pensada de um jeito, a Zona Norte de outro, o morro de outro, o asfalto de outro. É hora de escancarar essas contradições e o apartheid, e não de colocar nuvens sobre isso, tentando encobrir essa questão” – Ludmila Costa

REALIDADES DA FAVELA

“Todo mundo imagina que no Alemão está tudo lindo, mas a gente criou a hashtag #tátudoerrado. No Alemão, tem 12 escolas, mas se perguntar para 10 jovens de cada uma, eles vão dizer que falta professor de matemática, português, que são dispensados porque não tem professor” – Helcimar Lopes

“Entre 2004 e 2006, a gente queria fazer o filme e não conseguia porque a guerra entre as favelas da Rocinha e do Vidigal era mais forte. Mas um dos milagres que aconteceu na época foi esse: o boca a boca com os pedidos a todos os setores – tráfico, batalhão – foi tão grande que a guerra parou durante seis dias pra gente filmar. A guerra não tem hora para acontecer. E durante aqueles seis dias os moradores puderam resgatar o cotidiano. As pessoas batiam palma pra gente. E os bandidos mandavam perguntar quando ia terminar de filmar, porque eles queriam voltar a dar tiro” – Gustavo Melo

“A favela, além de resistir, se vira. Foi na favela que começou o mototáxi e as kombis como transporte alternativo, para suprir uma carência que havia. E a favela se vira também com a imprensa, que só entra lá atrás do camburão ou do carro da Defesa Civil” – Rosilene Millioti

“Não estou defendo os bandidos, mas se fosse nos anos 90, antes da pacificação, o cara que fez arrastão na praia, quando voltasse pra favela, tomava um couro do dono do morro. Hoje a favela não tem mais um dono, uma liderança. Na favela, a gente sabe, a lei é outra”. – Helcimar Lopes

“As favelas são lugares de resiliência, de resistência, de criatividade, de inovação. Isso faz com que a gente tenha imensa dificuldade de dizer o que a favela é”. – Mario Chagas

“É muito complicado viver em favela. Não dá pra falar que os bandidos não mandam, porque mandam”. – Igor Soares

“Como fazer isso vivendo numa favela que não tem vista, UPP, mas tem presença do tráfico, falta de professores?”  – Marcão Baixada

“Não sei sobre esse status das meninas que engravidam. No caso delas, status é namorar com bandido. Gravidez é consequência. Para os meninos, status é ser preso e voltar como herói” – Rosilene Millioti

“Hoje eu deixo de pegar ônibus, o 474, pela cultura que foi criada, onde as normas de convívio social foram esquecidas. Me sinto oprimido pelo que eu vejo no ônibus, dos garotos que saem para roubar e voltam. Mas ao mesmo tempo, vejo que eles também fazem parte de mim: eu também sou preto, também sou pobre” – Luis Gustavo

REPRESENTAÇÃO NA MÍDIA

“Quando comecei a ver jornal, TV, nunca me senti representado naquele espaço. O que impede disso acontecer: por que a gente não fala o que tem que ser falado?” – Diogo Rodrigues

“A resposta é dura. É normal você não se sentir representado: o jornal não foi feito pra favela. Agora que ele está olhando mais para esse lugar”. – André Balocco

“Eu, como morador de favela, não me sinto representado pelas favelas da novela. Como retratar a favela ideal?” – Leonardo Oliveira

“Falei noutro dia pro pessoal de um cineclube da Baixada: vocês têm a responsabilidade de mostrar a Baixada porque ninguém vai dizer isso por vocês” – Gustavo Melo

“As favelas, à revelia de tudo, dominam o imaginário e atravessam tudo, embora as pessoas tenham medo, pânico, desespero com isso”. – Mario Chagas

“Cineasta classe média faz filme sobre tudo o que quiser. O cineasta de favela só faz filme sobre seu lugar, ou pode fazer sobre o que quiser também?” – Ilana Strozenberg

“Se você fala do seu quintal, se torna universal” – Gustavo Melo

“Tem um sensacionalismo dos grandes jornais, que mostram a foto do menino morto no Caju fazendo um gesto que seria de uma facção criminosa. A pessoa está preocupada com a morte do garoto ou o gesto da mão dele?” – Michel Silva

“Evoluiu muito a cobertura e a visão hoje é para segurança pública, não mais só polícia. São verdade todas as distorções da imprensa faladas aqui, mas a imprensa tem papel fundamental na discussão de direitos humanos” – Anabela Paiva

“Estudo numa faculdade que não tem noção do que é favela e jornalismo comunitário. Será que não era melhor fazer intercâmbio dos alunos no jornalismo comunitário, antes deles entrarem nos grandes jornais? Será que não chegou a hora de criar editoria de jornalismo comunitário nos grandes jornais?” – Michel Silva

“Porque o jornal não é protagonista da mudança? Por que não interessa aos donos da imprensa que ela seja” – André Balocco

“O que acontece dentro de um jornal, que não me representa? Acho que a primeira ação é a formação dos jornalistas” – Igor Soares

“Queria entender como acontece a relação da imprensa com iniciativas de comunicação local, se elas conseguem influir na cobertura dos grandes jornais” – Anabela Paiva

FORMAÇÃO E INSPIRAÇÃO

“A gente precisa criar o arrastão cultural. Não é possível que não se tenha uma reação como essa” – Mario Chagas

“Desde o Tropicalismo, não havia um movimento cultural forte, como foi o Mangue Beat, que surgiu em Recife. E o Chico Science dizia que a tecnologia do povo é a vontade. Essa frase é tudo pra mim. Sem ela, não teria chegado em Cannes. Ela me mantém até hoje”. – Gustavo Melo

“Além da formação, educação, preparação, o nosso desafio é educar as elites. Para isso, tem que passar pelas universidades, onde há uma mentalidade conservadora. É uma tarefa dificílima. Quero saber como vai alterar o ensino básico das elites”. – Mario Chagas

“Da minha família, sou o único que chegou a ser universitário. Por que não oferecer educação que permita a pessoa sonhar um pouco mais alto?” – Leonardo Oliveira

“A favela como espetáculo: em que medida os museus de favela podem ser também utilizados nesse sentido?” – Ilana Strozenberg

“O perigo do espetáculo está presente nos museus de favela. O que pode dobrar esse perigo é buscar outros agenciamentos, é a consciência e o trabalho dos operadores do museu. Outra saída é a conversa que os museus têm para dentro, para as próprias comunidades”. – Mario Chagas