Caminhos para a educação no Rio de Janeiro

Jailson de Souza e Silva, Vilma Guimarães, Delânia Cavalcante e Rosana Heringer abrem a roda de discussão sobre os caminhos para a educação no Brasil – Foto: Ariel Subirá

Nem a chuva nada mansa que caiu sobre boa parte da cidade inibiu a plateia. O Rio de Encontros sobre os caminhos para a educação no Rio de Janeiro, realizado no dia 26 de junho, seguiu o protocolo de estímulo à diversidade de pontos de vista. Das três horas de conversa ficou a certeza de que as possibilidades são muitas e os exemplos de experiências exitosas se espalham de Nova Iguaçu ao Complexo do Alemão. No Rio de Janeiro, como no Brasil, acertar a mão pode ser uma questão de vontade política.

Os provocadores do debate são nomes conhecidos, profissionais que estão na ativa por melhores indicadores, melhores resultados, mais projetos em prática. Educação está no dia a dia e na trajetória de Vilma Guimarães, gerente geral de Educação da Fundação Roberto Marinho; da professora Rosana Heringer, do departamento de Educação da UFRJ; do professor da UFF Jailson Souza e Silva, fundador do Observatório das Favelas; e de Delânia Cavalcante, coordenadora da Central de Relacionamentos com o Usuário da Secretaria de Estado da Educação.

Para mediar a conversa, o nome não podia ser outro: Eliana Sousa Silva, diretora da organização Redes de Desenvolvimento da Maré. “Quando se pensa em alguém para mediar um diálogo sobre educação, o nome é obvio. Eliana tem um currículo longo. Na Rede de Desenvolvimento da Maré, ela trabalha na área em várias frentes. Começou com a preparação para o vestibular, faz reuniões com professores, produz documentos que estão sendo usados para políticas públicas”, disse Ilana Strozenberg, diretora acadêmica d’O Instituto, ao dar as boas-vindas a todos.

No Rio de Encontros, quem é provocador pode estar na plateia. E vice-versa. “As posições se alternam e se complementam. Todos são igualmente importantes”, ressaltou Ilana, sobre o formato do projeto, diante do público já devidamente acomodado. Depois do café, servido pontualmente às nove da manhã.

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Para início de conversa

Eliana Sousa Silva faz a mediação do Rio de Encontros – Foto: Ariel Subirá

As estatísticas da educação no Brasil avançaram nas duas últimas décadas. Há escolas suficientes para as crianças, num acesso quase universal. No Rio de Janeiro, 93,2% da população em idade escolar, de 7 a 17 anos, estão devidamente matriculados. Os números do nível superior também evoluíram, o que significa redução do número de analfabetos. Os problemas, no entanto, persistem: atraso escolar, repetência, abandono das salas de aulas, descompasso entre ensino e necessidade real de aprendizado.

Quais os caminhos para a educação no Rio de Janeiro? Em que medida as iniciativas alternativas de educação apontam para novas realidades? Como pensar a complementariedade entre a escola e outros espaços da cidade? É possível fazer dialogar saberes acadêmicos e expressões da cultura locais? Qual tem sido o lugar das novas tecnologias nesses diálogos?

A mediadora, Eliana Sousa Silva, fez questão de lembrar que as respostas podem ser tão abrangentes e inquietantes quanto as perguntas. “São muitos agentes, muitos atores, segmentos e experiências diferentes. O que se pretende aqui é pensar – ou repensar – propostas diferenciadas, trazer experiências que possam provocar o diálogo sobre os desafios que temos quando se fala sobre a educação no Rio de Janeiro”, disse ela, ao apresentar os provocadores. “A proposta é discutir caminhos e possibilidades, e a ideia é que a conversa siga.”

Sujeito sensível

Jailson de Souza e Silva, professor UFF e fundador do Observatório das Favelas – Foto: Ariel Subirá

Minoria numa mesa formada por quatro mulheres, Jailson de Souza e Silva entende do que o lápis risca. Há 30 anos em sala de aula, ele aprendeu – e passa adiante – que a educação pode ter muitas nuances mas são dois os seus eixos fundamentais: a luta pela iguadade, legado do século XIX; e o direito à diferença, herança do século XX. “O século XXI torna inseparáveis essas questões. Hoje, é necessário vincular a igualdade no campo da dignididade, como direito”, ele parte daí para explicar as dimensões básicas em quaisquer projetos de educação.

“O direito à autenticidade, a dimensão singular subjetiva, sou Jailson, negro, nordestino, hetero, professor, fluminense, sulamericano e assim vai; meus pertencimentos sociais – dos quais não posso abrir mão -, que formam a dimensão particular social; a dimensão humano-genérica, ou seja, me reconheço e reconheço o outro, trabalho a comunhão para me relacionar com o outro; e, por fim, a quarta dimensão é a de que somos seres globais, ecológicos”, ele explica o que fundamenta o trabalho no Observatório de Favelas. “Queremos o garoto da Rocinha e o do Leblon. A concepção do encontro é fundamental. Bondade, fraternidade, amorosidade.”

A educação, segundo o professor da UFF, é importante demais para ficar só na escola, precisa abarcar outros ambientes, acontecer em todos os níveis. “É preciso desenvolver racionalidade, cognição, capacidade sistemática de ir além do senso comum. Atentar para a Ética, porque a educação tem de trabalhar valores. Tão importante também é a dimensão estética, desenvolver a plenitude como sujeito, estabelecer uma relação sensível com o mundo”, defende.

A escola que está aí, portanto, não funciona. ” Temos um sistema medíocre no sentido epistemológico. No campo da escola primária e secundária, trabalhamos conteúdos inúteis que não fazem sentido. Objetivamente, aprendemos um monte de coisas que têm como único objetivo queimar etapas, no caso, o vestibular”, ele afirma que qualquer conteúdo tem de ter significado para a interpretação da realidade. A cidade também precisa ser educadora.

Escola com significado

Vilma Guimarães, gerente geral de educação da Fundação Roberto Marinho – Foto: Ariel Subirá

A escola precisa ir além dos próprios muros e ultrapassar o currículo seriado, em que a formação segue na contramão da vida. Para Vilma Guimarães, gerente geral de educação da Fundação Roberto Marinho, o Brasil já sabe como criar a escola que promove o aprendizado com sentido, com ética e respeito à identidade de cada um. Falta por em prática as lições. “A alternativa para a educação de qualidade dar certo é a possibilidade de acolher com ciência, consciência e dignidade. Isso o Brasil já sabe fazer. Temos um elenco muitíssimo qualificado de alternativas. Só falta vontade política, assumir o compromisso. Botamos o aluno dentro da escola, mas ainda não conseguimos segurar esse aluno”, afirma.

O acesso é universal mas a permanência fica aquém. O fracasso escolar, segundo Vilma, está ligado à desconexão da escola com a realidade. O aluno está no século XXI mas a escola permanece no século XIX. Atada. Educação e cultura, por exemplo, não se descolam. “É uma separação impossível de acontecer. Somos um ser que lê, que canta, que bate papo, que deseja. Há muitos espaços de aprendizagem. Não é mais apenas a escola. O menino quer muito mais do que tem na escola. O tempo é definidor, é um icone do nosso século. A escola tem de abraçar metodologias alternativas para fazer com que o aluno avance na sua busca, no ponto de vista da provocação, que a capacidade de sonhar não se esgote na escola mas se renove todos os dias”, defende.

Não é utopia, a experiência de Vilma Guimarães na busca e na implementação de alternativas, como o Telecurso, é prova do que é possível executar. A escola próxima da ideal é aquela em que o aluno compreende que não há uma única resposta para um determinado problema, mas uma diversidade de respostas. A vida, aliás, é assim. Oferece milhares de alternativas. A escola básica tem de oferecer ao aluno a possibilidade de desenvolver sua capacidade de trabalhar em grupo, de respeitar o outro.

O currículo tem de abarcar a diversidade em todas as suas dimensões, inclusive de caminhos. A universidade não é o único. “A grande massa se prepara para a corrida da universidade como se lá estivessem as respostas para todas as dúvidas e anseios. Ou você passa no vestibular ou está condenado à exclusão. Somos uma caixinha de surpresa. A gente esquece rapidamente o que não nos interessa”, daí que o currículo falha, segundo Vilma, por não ofertar o aprender com significado, com sentido, com ética, com respeito ao que cada um tem.

A teoria do conjunto perdeu o sentido, o google dá respostas para tudo ou quase tudo, o aluno, se não vê significado, foge. Assumir o fracasso é essencial, segundo Vilma, para seguir rumo ao que pode ser a construção de um aprendizado mais libertário. “Os espaços de aprendizagem que sempre existiram, e existem hoje numa proporção ainda maior, preciaam ser usados. No cinema, na feira, na calçada, é a vida, é o ser que precisa ser desenvolvido. Quem sou eu, para onde vou?”. Os conteúdos podem, sim, ocupar compartimentos disciplinares que possam dar conta da formalidade. “Mas não é preciso que se esteja amarrado. É possível formar outros elos, desenvolver a minha totalidade, no meu tempo, com a minha história. Precisamos preparar as pessoas para serem felizes.”

Ao mestre, a ousadia

Delânia Cavalcante, coordenadora da Central de Relacionamentos da Scretaroa de Educação do Estado RJ – Foto: Ariel Subirá

Delânia Cavalcante, coordenadora da Central de Relacionamentos com o Usuário da Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro não poupa verbos para falar do que considera essencial. A saída para a educação passa por ações continuadas e também por trazer o professor para o século XIX. “Educação pressupõe o professor, o formador de opinião daquele grupo que está ali. Toda vida que se fala em educação os governos são messiânicos, dizem que seu projeto vai mudar a estrutura… isso não existe. O tempo de resolver não é o tempo de um governo. Na prática de quem trabalha, o desafio de melhorar a escola pública é a descontinuidade. A educação pressupõe um professor e a escola pressupõe participação. Qual o papel do professor hoje?”, ela questiona. “Como usar a informação do google? É a í que entra o professor. Só que o professor da escola pública brasileira está cansado. Minha prática laboral diária mostra que esse professor está descrente”, afirma Delânia.

Descrente e desanimado. Se a proposta é sair do dia a dia, do quadrado da sala de aula, o aluno quase sempre diz sim, eu quero. O professor olha e reage com reticência. “Ao mesmo tempo existe uma vontade, um amor, o que se percebe por conta dessa desassociação de cultura e educação. O papel do professor é uma questão muito séria. Tem uma questão do patrão que não faz uma formação continuada. O mundo vai mudando e a escola tem de acompanhar essa mudança. O professor precisa se sentir valorizado”, defende.

Para DeLãnia, é preciso mudar parãmetros, tirar o professor do século XIX, dizer para ele que a internet, por exemplo,é boa e pode ser útil. “A educação no Rio de Janeiro teve um sopro de diferença para esse professor quando entrou a prática diferenciada de educação que foi o telecurso. O professor percebeu que podia ousar, podia misturar conteúdos, a matemática com a geografia”, avalia. O problema, mais uma vez, é o fantasma da descontinuidade. “Ao mesmo tempo que gostava, ele já esperava o fim do projeto”.

A gestão da informação dá a Delânia uma percepção diferenciada. Permite que ela conheça o perfil do professor, da escola, do pai, que quer saber como manter o filho na escola, e do aluno. “Os meninos têm fome de saber, de conhecimento, eles querem mais da vida. Ao abandonar a escola que não é intregralizada, eles sofrem. Quando eles percebem que podem ficar, é uma felicidade”, afirma.

Qualquer projeto para educação, segundo a coordenadora, passa pelo bem estar do professor. “Ou não adianta entrar com projeto. O aluno vai sempre querer algo novo. O professor, que dá dois tempos de aula em escolas diferentes, não”, pondera. Segundo ela, é preciso entender, também, qual o professor que se quer.

Resumo acadêmico

Provocações de Rosana Heringer, professora da UFRJ – Foto: Ariel Subirá

Uma provocação puxa outra. Rosana Heringer aproveitou a deixa de Delânia Cavalcante sobre o aspecto messiânico das práticas educacionais para ressaltar, de início, o que ela vê como falha: o discurso político consensual de que a educação é importante. Um consenso, segundo ela, trágico porque não se porque não se realiza na prática.

“Todos concordam que educação é importante, mas isso não leva a ações. Podia ter alguem que dissesse não, educação não é importante. Quem sabe a ausência do consenso gerasse uma ação efetiva de melhoria de educação”, sugere.

Melhorar, para Rosana, significa refazer ou repensar percursos. “Muito do que é feito hoje no ensino básico tem como finalidade fazer com que o aluno chegue ao ensino superior. Se a gente pensa no público para o qual o ensino superior se expande hoje, a meta de inclusão de 30% dos jovens de 18 a 24 anos é ambiciosa. Estamos em 13%. Para chegar a essa meta do novo Plano Nacional de Educação, não são os filhos da classe média que vão entrar, esses já estão. Quem vai entrar são os pobres, os negros, os jovens da periferia”, ela faz a previsão.

De volta a uma das perguntas iniciais sobre se é possível fazer dialogar saberes acadêmicos e expressões culturais locais, Rosana ponderou que existem, nos diversos ciclos de ensino, experiências que devem ser consideradas. “É possível o diálogo? É possível e se está fazendo isso em muitos lugares, as experiências estão acontecendo o tempo todo, mas é preciso potencializar ainda mais. As pessoas estão muito preocupadas com sua produção acadêmica e suas projeções de carreira que acabam esquecendo um pouco os porquês de estarem ali”, afirma.

É importante, segundo Rosana, estar atento ao papel do professor como mediador, o instrutor, aquele que ajuda o aluno a selecionar. “O quanto podemos trabalhar junto com os professores? É preciso expandir programas de formação que de fato tragam o estímulo, a criatividade e a vontade dos professores se empenharem”, ao mesmo tempo em que questiona, ela aponta um caminho. Para funcionar e ser uma experiência significativa, os projetos devem conter, na sua gênese, a tendência ao diálogo. A universidade, por sua vez, deve estar aberta às muitas vozes que chegam.

Para exemplificar as contradições, Rosana fez questão de compartilhar uma experiência pontual  na Cidade de Deus, com alunos do terceiro ano do ensino médio sobre a expectativa deles de entrada no ensino superior. Em período pré-Enem, a constatação foi de que a universidade não fazia parte do universo deles. “Lá, obviamente, minha pesquisa quase virou projeto de intervenção”, Rosana levou estudantes da Faculdade de Educação para uma conversa produtiva sobre  o que é, como entrar e para que serve a universidade. “Ainda não fiz as contas de quantos se inscreveram no Enem, mas esse tipo de diálogo deve acontecer de forma permanente”, assegura.

A comunidade acadêmica tem de se envolver nessa seara que também é dela. Disso, Rosana diz não ter nenhuma dúvida.

Pílulas sobre a educação no Rio de Janeiro

Jailson de Souza e Silva, Vilma Guimarães, Delânia Cavalcante e Rosana Heringer abrem a roda de discussão sobre os caminhos para a educação no Brasil – Foto: Ariel Subirá

“Temos um sistema medíocre no sentido epistemológico. No campo das escolas primária e secundária, trabalhamos conteúdos inúteis que não fazem sentido. Qualquer conteúdo tem de ter significado para a interpretação da realidade.”
Jailson de Souza e Silva

“Como criar essa escola de onde só saio se a professora me bota para fora? A escola que me reconhece nas minhas opções, que mostra o meu caminho, em que o professor, na mediação do grupo em sala, facilite a minha busca por informaçãoes necessárias? A formação está na contramão da vida.
Vilma Guimarães

“O tempo de resolver não é o tempo de um governo. Na prática de quem trabalha, o desafio de melhorar a escola pública é a descontinuidade.”
Delânia Cavalcante

“O quanto podemos trabalhar junto com os professores? É preciso expandir programas de formação que de fato tragam o estímulo, a criatividade e a vontade dos professores se empenharem.  As pessoas estão muito preocupadas com sua produção acadêmica e suas projeções de carreira e acabam esquecendo um pouco os porquês de estarem ali. A comunidade acadêmica tem de se envolver nessa seara que também é sua.”
Rosana Heringer

“A gente não chega a soluções a partir de caminhos unificados. As soluções pequenas são importantes. É preciso pensar no protagonismo do professor. Ele é apaixonado mas é a afogado. O professor tem de ter poder para ser dono da ação.”
Beá Meira, da Universidade das Quebradas

“Um garoto no morro, de 12 anos, se está com uma arma na mão, antes de ser um trabalho de polícia, é um trabalho de educação, de saneamento básico, de muitas outras áreas que também falharam.”
Marco Pedra, do projeto Papo de Responsa

“O Brasil tem experiências que apontam para caminhos renovadores. O que a gente tem de lutar é para que as experiências de renovação acontecam. Ma sé preciso ter acesso aos fundos públicos.  Tem de dar uma limpa nas ONGs para permitir que eles públicos sejam utilizados por quem de fato quer fazer coisas.”
Claudius Ceccon, CECIP

“Não tem outro caminho, tem de se democratizar a universidade. Manter diálogo com o moleque da favela e outro na academia, não é diálogo, é sacanagem. A pós-graduação é uma das coisas mais elitistas desse país. Eles – os pobres, pretos e favelados – têm de chegar aí.”
Jailson de Souza e Silva

“A universidade é um dos caminhos. Mas a carteirinha de universitário não é garantia de felicidade. Não é símbolo de realização, de sucesso. A gente precisa ressignificar outros prazeres na área do trabalho que não estão necessariamente aqui ou acolá.”
Vilma Guimarães

“Se a gente tem um cardápio feito por nutricionista, como a professora vai servir angu?”
Delânia Cavalcante

“Educação tem de ser pensada de forma mais ampla, como responsabilidade de todos. A gente tem de educar o tempo todo. Deixar só para a escola não deu certo. Escola e TV não deu certo. Escola, TV e midias sociais, também não dá certo. Tem de ter o pai, a mãe, o professor, todo mundo.”
Luciano Cerqueira, do projeto Bairro Educador