Do Rio para o Rio

A jornalista Anabela Paiva, mediadora do Rio de Encontros sobre iniciativas para o Rio de Janeiro. Foto: Ariel Subirá

Iniciativas não faltam. Tampouco gente disposta a pensar soluções, fazer mapeamentos, traçar estratégias, produzir informações, arregaçar mangas. Nos últimos anos, os projetos em prol do Rio de Janeiro vêm se multiplicando. Seja pela educação, pela saúde, pelo uso do espaço público, por mais praças, pela cidadania em sua acepção plena. O Rio de Encontros do dia 23 de outubro reuniu quatro instituições e uma plateia igualmente engajada numa luta mais que razoável: tornar o Rio um lugar melhor. Para todos e em todos os sentidos.

Com o tema Do Rio para o Rio, iniciativas em debate, o Rio de Encontros contou, entre os provocadores, com Thereza Lobo, socióloga e coordenadora executiva do Rio Como Vamos; Miguel Lago, diretor do Meu Rio; Cindy Lessa, presidente do conselho do Instituto Rio; e Luciana Phebo, coordenadora do escritório do Unicef no Rio de Janeiro. Na plateia, representantes de outras organizações, como Instituto Desiderata, Fundo Social Elas, Brazil Foundation e Agência de Notícias das Favelas, entre outros movimentos sociais e organizações não governamentais.

“Essa nossa conversa é uma tentativa de constituir uma rede entre esses projetos. Podemos aproveitar essa palavra tão na moda e fazer uma rede de redes pelo Rio de Janeiro”, disse Ilana Strozenberg, diretora acadêmica d’O Instituto, sobre as pretensões do Rio de Encontros. A sociedade civil vem demonstrando força e vontade e não é de hoje.

Os sinais mais visíveis de articulação e qualificação surgiram nos anos 1980, ressaltou Anabela Paiva, coordenadora de comunicação do Instituto Pereira Passos – IPP, que assumiu o papel de mediadora do debate. “O que se discute agora é como qualificar mais, como estabelecer padrões de transparência, para que esse trabalho seja reconhecido como uma contribuição de fato para a sociedade”, disse ela, ao apresentar e passar a vez aos convidados.

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Rio, como – e para onde – vamos?

Thereza Lobo, coordenadora executiva do Rio Como Vamos. Foto: Ariel Subirá

Criado há cinco anos, o Rio Como Vamos tem pouca idade e já enfrenta dilemas de adulto. Mas se alguém perguntar para onde a cidade deve caminhar, a resposta é rápida.

“É muito bom distribuir informações, ideias e angústias. É o que nós fazemos. A ideia, desde o início, era de que a gente, como faz, lançasse alertas. Cinco anos atrás, tínhamos uma cidade deprimida, com autoestima baixíssima, à beira do precipício. Era uma cidade maltratrada, resultado dos efeitos maléficos de sucessivos governos”, explicou, de pronto, a coordenadora executiva Thereza Lobo.

Está na origem do movimento trabalhar com informação. “Estamos na era do conhecimento, então vamos usar esse conhecimento. Nós acreditamos que o Rio de Janeiro merece conhecer o que acontece, que a população precisa saber. Participação sem informação é manipulação. O que nós queremos é dizer que a população, quanto mais bem informada, melhor poderá lutar para que a cidade seja o que efetivamente merece.”

Por que a Cidade de Deus está sempre aparece nos mapas na cor mais escura? O que isso significa? Para o Rio Como Vamos, é fundamental identificar tendências. “Nós construímos indicadores em cima do existente, dos registros públicos. O que a gente agrega de valor é a espacialização. 86% dos jovens da Cidade de Deus estão atrasados pelo menos dois anos no ensino médio. Como você pode dizer que o destino desses jovens pode ser glorioso se eles estão nessa situação? As portas foram abertas para eles irem embora”, ela deu o exemplo.

A informação, segundo a socióloga, só faz sentido se é usada. “Essa é a regra do Rio Como Vamos: ter apenas indicador que se usa. Como se usa? Na interlocução com o poder público. Na interlocução com a sociedade. Todos sabem do nosso grau de apartidarismo. Há metas, os planos estratégicos para a cidade têm metas, e nós temos uma matriz de acompanhamento de políticas públicas”, afirmou.

Com quem e como eles falam? “A gente fala com os órgãos públicos. A prefeitura pediu que víssemos o que estava sendo proposto para o Alemão, para avaliarmos se estava coerente. Somos chamados a ir a determinadas áreas da cidade para falar da situação daquela área comparada com outras áreas da cidade”, ela enumerou parte do trabalho, que envolve dialogar também com os formadores de opinião. “Temos uma página mensal no jornal O Globo, e vamos aproveitando outras mídias que porventura passem na nossa frente. A gente quer que a informação circule.”

O que fazer com isso?

O cidadão bem informado sabe cobrar melhor. O cidadão bem informado também se comporta melhor. E tão importante quanto o que o cidadão sabe ou como age, é em que momento a gestão pública vai dar o salto qualitativo para que programas de governo passem a ser políticas de estado.

“Quem garante que o Saúde da Família veio para ficar? Como é que avançamos na direção de políticas duradouras, independentemente de quem chegue? É absolutamente fantástico ter a capacidade de dizer para onde deve caminhar a cidade”, Thereza pontuou. Para início de conversa.

Na pressão

Miguel Lago, diretor-presidente do Meu Rio. Foto: Ariel Subirá

Gente jovem reunida pode fazer muito estardalhaço e a turma do Meu Rio sabe disso. Para quem nasceu quase com o mouse na mão, é pela internet que eles fazem barulho. Mas o objetivo da plataforma virtual é provocar mudanças no mundo real. Inclusive distribuir atribuições e dividir soluções.

“O Rio passa por um momento extraordinário, de alinhamento quase inédito entre os governos federal, estadual e municipal. Mas a gente não sabe se esse alinhamento vai prosseguir. Daí é importante a gente tomar a cidade”, avisou Miguel Lago, co-fundador do Meu Rio, junto com o economista André Urani (1960-2011). “O carioca tem de se preparar para os eventos e tem de ser digno da cidade que tem, esse é o discurso oficial. O que André dizia é que a cidade também tem de ser digna de seus cidadãos. O carioca tem de ser digno, mas a cidade também tem de dar dignidade. O Rio é uma cidade muito cara e os serviços públicos não funcionam”, Miguel contou sobre a origem do movimento.

O momento é único, mas absolutamente frágil. Não é à toa que, na estratégia do Meu Rio, informação e participação estão intrinsecamente vinculadas. “Usamos a informação ao máximo para mudar a situação e os equívocos que ela aponta”, disse o diretor-presidente.

A informação circula, mas a escala de participação na cidade é localizada. Contra essa corrente, o Meu Rio atua em três frentes: o desenvolvimento de ferramentas e interfaces online; produção de conteúdo, que envolve transformar temas complexos numa linguagem mais jovem e mais próxima; e as campanhas, que são o carro-chefe.

“Quantas pessoas precisamos mobilizar para obter essas mudanças? Como esse cidadão vai influenciar a maneira como a cidade está sendo conduzida? Criamos espaços de participação, conteúdos,  e fazemos campanhas. O Meu Rio é voltado para a ação”, Miguel resumiu bem a experiência, que já rendeu algumas conclusões. Uma delas é sobre quem melhor acolhe as queixas. “O legislativo está muito mais receptivo do que o executivo. É onde a gente sente muito mais sensibilidade.”

As campanhas também já deram prova de que a pressão faz a força. “O Meu Rio trata questões que são mais da cidade como um todo. Já foram mais de 100 pedidos de campanha”, Miguel contabilizou também as vitórias. As barcas, por exemplo, voltaram atrás na resolução de cobrar mais pelo excesso de bagagem.

“O que a gente quer é ter uma plataforma descentralizada em que todas as plataformas possam estar juntas”, Miguel anunciou o desejo. A cidade, afinal, não é homogênea.

Terceiro setor

Cindy Lessa, presidente do conselho do Instituto Rio. Foto: Ariel Subirá

Muitas coisas acontecem no Rio. E a sociedade civil tem uma participação inequívoca nesse mar de mudanças. “É fato banal e consumado que a sociedade civil é quem vem construindo a democracia no Brasil nesses últimos 30 anos. Forte, rica e estratégica, faz parte de um aprendizado de exercício da cidadania”, alteou Cindy Lessa, presidente do conselho do Instituto Rio.

As transformações se dão de muitas maneiras, defendeu Cindy, no Rio de Encontros. Principalmente no Terceiro Setor. “É onde a sociedade se organiza de diferentes formas para criar as políticas públicas que, por sua vez, não são uma coisa que se instala, mas que vêm sendo construídas de diversas formas, seja por incidência direta, lobby, pesquisas, novas informações”, ela ressaltou.

Consultora independente e membro do conselho de varias organizações, como a Associação Saúde Criança e o Fundo Elas, além do Instituto Rio, Cindy Lessa foi categórica ao afirmar que a sociedade civil tem formas de influenciar gestores públicos que, dentro de seus espaços, mudam as políticas e as formas de as impor.

A atuação do Instituto Rio, por exemplo, se dá tanto na cidade como em espaços mais amplos: “O Instituto Rio faz parte de um fenomeno muito legítimo e muito interessante, das grandmakers brasileiras, organizações que não operam projetos, mas investem recursos em organizações locais”, ela explicou e citou algumas dessas organizações, entre elas Brazil Foundation, Baobas, Fundo Brasil de Direitos Humanos, Fundo Elas, e duas fundações – Grande Florianópolis e Baixada Maranhense – que, como o Instituto Rio, seguem o modelo comunitário.

A prática é recente e o que há em comum entre essas organizações é a forma de atuar: todas elas se empenham em levantar e em investir recursos. “Antes, isso não existia. Todas essas organizações foram fundadas nos anos 2000. Elas pipocaram, muito atentas à justiça social. Criamos (no caso do Instituto Rio) um fundo independente, no qual a governança pode tomar a decisão que quiser na forma de seu investimento. Essas organizações, embora não sejam organizações que operam, são organizações muito vinculadas aos movimentos sociais, porque reunem pessoas com grande capilaridade em suas redes”, Cindy enfatizou o caráter de financiador de projetos e a preocupação em provocar mudanças no setor cidadão. É o que as diferencia, por exemplo, das organizações empresariais que, segundo ela, existem para se criar parcerias, mas representam uma filantropia que não existe.

As grandmakers são independentes, não recebem dinheiro do governo, a maioria foi fundada por organizações grandes e todas são 100% brasleiras. “O cenário em que essas organizações surgem é um país rico. No entanto, são organizaçõs que constituem um fenômeno como agente de mudança”, ela analisou e anunciou que o Instituto Rio pretende, agora, apoiar organizações não formais, mas que têm potencial. “O Instituto inova porque tem capilaridade para identificar inovações, afeta uma cultura geral de como se exercer a cidadania, ou seja, fortalece uma ação ou uma agenda através do seu conhecimento.”

Diagnósticos participativos

Luciana Phebo, coordenadora do escritório do UNICEF no Rio de Janeiro. Foto: Ariel Subirá

Luciana Phebo, foi direto ao ponto: a dificuldade do diálogo é um dos principais problemas de grandes centros urbanos como Rio de Janeiro. Tanto que quando assumiu a coordenação do escritório do Unicef no Rio de Janeiro, em 2006, tratou de fazer conexões com gente do governo, do terceiro setor e de universidades. Afinal, o que o UNICEF pode agregar a uma cidade como o Rio?

A Plataforma para Centros Urbanos foi uma boa resposta. “As pessoas disseram que, por ser um órgão das Nãções Unidas, o Unicef tem uma possibilidade maior de promover diálogos. Também tínhamos de construir uma plataforma em que o Unicef se mostrasse em centros urbanos, afinal, mais de 50% da população mundial estão nas grandes cidades. Nós precisamos também estar nesses centros”, Luciana explicou como surgiu o projeto cuja proposta é a redução das disparidades urbanas que influenciam na forma de viver das crianças na cidade.

Desenvolvida no Rio e em São Paulo simultaneamente, a Plataforma de Centros Urbanos foi constuída de forma participativa. Reúne quem forma opinião e quem vive nas comunidades. Duas visões que se comunicam e  se complementam. “Íamos trabalhar com informação, dados, indicadores. Mas a proposta não era trabalhar com as médias da cidade, e sim com os dados desagregados, os dados da Cidade de Deus com os do Borel, por exemplo. Dos indicadores, avaliamos se houve uma melhora na média, é a cidade comparada com ela mesma, em ponto de partida e ponto de chegada, para avaliar se houve redução das disparidades”, explicou Luciana.

O Brasil vai bem em metas. Mas as aparências dos indicadores enganam. “Se avaliarmos nossas médias, estamos bem. Por elas, o Unicef não precisaria estar aqui. Mas vai na Amazônia, vai na favela do Rio de Janeiro”, é lá, segundo Luciana, que as desconformidades ficam mais evidentes.

Quanto mais qualificada a informação, mas precisas podem ser as ações. “No
Rio, trabalhamos a territorialidade e a espacialização. Damos apoio a
gestores, fazemos cruzar novos conhecimentos”, disse ela, que esteve à frente
de todo o primeiro ciclo do trabalho, de 2008 a 2012.

Na Plataforma, o Unicef entra com a metodologia e a comunidade ganha espaço para qualificar suas próprias demandas. “A proposta é considerar os vários micropoderes que existem dentro das comunidades (associação de moradores, redes de jovens, organizações comunitárias), e juntar essas turmas e grupos de articuladores locais para que eles gerem seus próprios diagnósticos participativos”, explicou Luciana.

Com o diálogo aberto, os jovens também participam. “E participam muito. Eles querem melhorar a cidade, o lugar onde moram. É preciso acreditar na comunidade, na força jovem, acreditar nas soluções que eles mesmos propõem. Quando a gente pergunta para os jovens os seus problemas, aparecem coisas que você nem imagina”, disse ela, pronta para o segundo ciclo, que começa em 2013.

O Rio, como São Paulo, foi certificada. A ideia agora é chegar a outros centros urbanos e, com o foco na territorialidade, fazer arrticulação com o poder público para garantir que os direitos da criança sejam respeitados. “É preciso acreditar na força do jovem, do menino, da menina das comunidades; e na cidade, nos centros urbanos, local onde os diferentes fazem a força, onde as coisas estão acontecendo”, afirmou Luciana. É assim que a Plataforma pretende contribuir para fortalecer a coesão social e o sentimento de pertencimento.

Vamos combinar?

Leona Forman, da Brazil Foundation: o importante é combinar, que significa agir de igual pra igual. Foto/Ariel Subirá

Chegou a vez da plateia falar. E a primeira pergunta foi exatamente sobre a articulação possível entre as instituições e movimentos, uma eventual cooperação entre elas. Um dos momentos mais instigantes do Rio de Encontros, as respostas dadas demonstraram que ainda há um bom caminho a ser percorrido quando o que está em jogo é o trabalho conjunto.

“Nunca tivemos uma conversa para ver o que podemos fazer juntos. Esse é um desafio maior que temos. As pessoas trabalham cada uma para o seu próprio universo. Por razões óbvias, claro. Vocês já agem muito na área de informação, o que é importantíssimo para poder chegar à ação. Mas pouco se falou de duas coisas: recursos para fazer tudo que gostaríamos de fazer, e ação, que ainda está num estágio incipiente. É importante ter informação, mas é preciso ter uma ação. Como a ação da panela de pressão se realiza para que o jovem sinta que foi ouvido? Não basta perguntar e ouvir a resposta, o importante é combinar, que significa agir de igual pra igual. Como cada um de vocês vê o combinar para poder ter a ação além da informação?”
Leona Forman, Brazil Foundation

Thereza Lobo – Se há alguma coisa difícil é fazer com que se desarmem os interesses privados das organizações. A gente acusa muito o poder público de que os setores não conversam. Mas a sociedade civil também tem uma dificuldade enorme de se articular. Vi milhões e milhões de dólares que iam para países da África e da América Latina e esses países não conversavam. Eu e Miguel Lago sentamos com o Unicef e queremos sentar com o Instituto Rio. Mas há uma dificuldade inerente. Cabe a nós e exclusivamente a nós. Não precisamos de nenhuma tutelagem para que isso aconteça. É a nossa função.

Luciana Phebo – No nivel comunitário, lá dentro, quando há composição dos grupos articuladores locais, o ‘vamos combinar’ acontece. Numa mudança de relação, quando a gente fez o encontro dos meninos com o prefeito do Rio, eles não eram pedintes: eles disseram ‘nós somos a força e sabemos o que você precisa fazer’, numa tentativa de deixar claro que ‘aqui você não é o todo poderoso, seu poder público’. Em relação à ação, participar é uma ação para o adolescente. É uma condição de desenvolvimento. Quando ele participa, ele está agindo.

Cindy Lessa – As mudanças são moleculares e, às vezes, não são tão visíveis assim. Isso tudo aponta que ações estão acontecendo. O que falta, além de amadurecimento democrático e político, é infraestrutura para o Terceiro Setor. Não é uma passeata, é toda uma organização de uso de espaço urbano. O trabalho é um início dessa infraestrutura em que o cidadão cria o ambiente onde a ação pode acontecer. O cidadão precisa ter a agenda na cabeça.

Anabela Paiva – Esse espírito de integração já é consenso. Não se vai avançar se não criar sistemas de integração na sociedade e na gestão pública. É uma construção. Um vai ter de ouvir o outro e começar um caminho de diálogo.

Miguel Lago – Estou há pouquíssimo tempo nesse setor. E há causas estruturais, como a falta de transparência e concorrência por recursos públicos. Por mais bonito que seja, são organizações. O objetivo último de toda organização é se perpetuar. Quando você tem esse problema que quer remediar para justificar sua existência, é difícil ser transparente com relação aos seus pares. Existe uma dificuldade de dar transparência ao trabalho e também uma cooptação por parte do setor público. E, diante desses dois problemas, dá para fazer alguma coisa. O Meu Rio não quer estar em concorrência com ninguém. A gente não ia pautar nossa ação na participação voltada mais para política pública. O Meu Rio é mais de ação que de informação. Esse é um problema estratégico. Nosso código é aberto, qualquer organização pode pegar e montar um site com base em nosso código. É muito difícil ter organização entre nós. É preciso olhar de forma crítica os indicadores. Um exemplo concreto é a redução de emissão de gases de efeito estufa. A prefeitura diz que fechou Gramacho e atingiu a meta. Mas não diz como calcula o inventário. É muito perigosa a apropriação do discurso, pautar política pública unicamente por um indicador. Queremos melhorar a educação para avançar no Ideb? Não faz sentido. Temos de tomar muito cuidado com os indicadores.

Aspásia Camargo: Com essa ilusão de que temos riqueza, não estamos sendo criativos para sair da pobreza. Foto/Ariel Subirá

“É um privilégio ouvir as instituições e seus resultados. Mas, ao mesmo tempo, acho que paramos no meio do caminho. Houve avanço nas políticas públicas? Onde e como? Sou a panela de pressão mais explosiva nessa sala. Minha percepção, entendendo tão bem o trabalho que vocês fazem, é de que mais importante que a própria política é a verdade. Estamos despolitizados. Ser tolerante na política não significa ser omisso. Nossas políticas estão velhas, caducas.Quando você fala com gente de carne e osso é uma tragédia. O Ideb, frágil, sai de 4.7 para 5.4 e todo mundo fica conformado com isso. Tem de dizer as fragilidades e tem de dizer as forças. E botar no papel. Até os números mais elementares, que deveriam nos orientar, são falsos. A cidade é repartida em 15 critérios diferentes. E, no final, são critérios impossíveis de comparar o que quer que seja. O que aconteceu aqui que melhorou? Ah, em Bom Sucesso melhorou a gravidez na adolescência? Até hoje ninguém acordou para as políticas equivocadas. Quem sabe medir a economia do Rio de Janeiro? A qualidade social dessa cidade é péssima. Com essa ilusão de que temos riqueza, não estamos sendo criativos para sair da pobreza. Temos de ter coragem de politizar as coisas quando é preciso.” 
Aspásia Camargo

Thereza Lobo –  As informações são as mesmas? Essa é uma provocação absolutamente legítima. Há um cheiro de velhice no ar no que diz respeito a esses indicadores. Somos pautados pelo poder público. Sei quase todos os indicadores de cor e uma das coisas que se discute é como trabalhar mais indicadores. Se depender da imaginação criativa eles não vão parar. Mas indicador só tem razão de ser se vai ser utilizado. Eu não quero um indicador que tenha morte súbita, que não ganhe vida própria. Há necessidade de oxigenar a informação, mas até nisso a gente tem de combinar. Para evitar que cada um saia com seus indicadores e amanhã a maioria deles sequer chegue até a praia. Dá para parar de falar de mortalidade infantil ou distorção idade-série? Não dá. Temos, na cidade do Rio de Janeiro, padrões de mortalidade africanos. Não tem como fugir, eles dizem alguma coisa. Mas como criar outros, inclusive que introduzam algum grau de mudança que a cidade está vivendo? A cada espaço aparece um núcleo diferenciado de problemas e eles têm de se falar.

Quem diz e quem ouve?

Julia Michaels, do Rio Real Blog: Como nos fortalecer para sermos ouvidos pelo executivo? Foto/Ariel Subirá

“Falta diálogo com o executivo. O prefeito acaba de anunciar aumento de tarifa de ônibus, unilateralmente. Cerca de 19 organizações se juntaram para protestar contra o metrô na Praça Nossa Senhora da Paz, e não deu em nada. Como vai ser a moradia na área do Porto? Como nos fortalecer para sermos ouvidos pelo executivo?”
Julia Michaels, Rio Real Blog

Miguel Lago – Você disse que esse governo não escuta nada do que a gente fala, mas isso se dá em todos os sentidos e esferas. O prefeito não escuta, o governo não escuta, não se debate. Não é questão de ser Eduardo Paes ou Sérgio Cabral. O problema é a democracia “delegativa”. É tudo de cima para baixo. A esquerda vai abrir mais a participação? Mas vai abrir para quem é favorável a ela. É uma questão mais estrutural. Mas acho que vai mudar pouco a pouco. Até porque é fundamental. Se a gente sempre for derrotado pelo governo, qual o estímulo para a participação?

“Qual a interlocução com as pessoas que estão fazendo uso desses indicadores, a mídia, em particular? Como o jornalismo está contribuindo para esse cenário?
Roberta Marques, Instituto Desiderata

Thereza Lobo – Qualquer coisa, agora, você cria um conjunto de indicadores e sai defendendo isso como verdade. É a doença do “indicadorismo” que, como todo vírus, traz consequências. Na minha época de faculdade havia a humildade científica: o que a realidade está mostrando pra gente que precisa ser redefinido? Quando chegamos mais perto do executivo, nossa argumentação precisa melhorar. As armas estão dadas. Já ouvimos, no Rio Como Vamos, “ué, mas são dados de 2011”. A informação tem de ser do aqui e do agora, como se essa informação não tivesse história. O que é isso? Que indicadores são esses? Soltar números é indicador de marketing e conclusões apressadas – para o bem ou para o mal – saem desses números.

Cindy Lessa – Temos de olhar para outras formas de mudanças sociais, que se dão nas pessoas, nos lugares, nos indivíduos. E precisamos apoiar essas inovações para que elas funcionem e causem mais efeitos.

Luciana Phebo – Quando a gente fala de ensino fundamental, por exemplo, parece uma coisa resolvida: 98% das crianças têm acesso. Mas 2% são cerca de 500 mil crianças. É muita criança. Não podemos prescindir dos indicadores, mesmo os velhos, os antiquados que estão aí. Não podemos pensar no todo, precisamos pensar em cada um. Essa agenda não será finalizada se cada uma das crianças não estiver na escola. A mídia ainda é formadora de opinião, mas as redes sociais ganham mais espaço a cada dia. Os jovens e as próprias crianças usam essas redes e podem promover mais mudanças. É uma nova forma de pauta e formar opinião. O importante é dar espaço para os jovens, para a garotada, para os meninos e meninas participarem.

Miguel Lago – A apropriação do discurso se dá pelos políticos e pela mídia também. O indicador comunica muito rapidamente, porque ele sintetiza. Você pode dizer o que quiser, de maneira sintética, e ainda com comprovação científica. A lógica das nossas democracias, é também do estado. Há poucos jornais, poucos canais de comunicação. Na medida em que outras organizações vão surgindo, se estabelecem outros tipos de relação.

Ilana Strozenberg – Se a gente tem de combinar alguma coisa, por que não combina em torno de indicadores? Um debate comum sobre como eles podem ser construídos, alterados e atualizados? Uma nova discussão sobre indicadores fica como proposta prática para encontros futuros.