Empreendedorismo e Sustentabilidade

Ilana Strozenberg, Ricardo Henriques, Mariana Meirelles e Ivan Accioly, no Rio de Encontros sobre empreendedorismo e sustentabilidade (Foto: Ariel Subirá)

A conversa começa cedo. Às nove da manhã, a Casa do Saber está de portas abertas para receber a plateia do Rio de Encontros. Com café quentinho. Na abertura da temporada de 2012 do fórum de debates sobre a cidade do Rio de Janeiro, o tema não poderia ser mais oportuno: empreendedorismo e sustentabilidade.

Convidados como provocadores do debate, o economista Ricardo Henriques, presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos, IPP; o também economista Emmanoel Boff, professor adjunto do departamento de Economia da UFF; e Mariana Meirelles, vice-presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), discorreram sobre suas experiências e mostraram dados e resultados de iniciativas já postas em prática. Mediados pelo jornalista Ivan Accioly, ex-assessor de comunicação do SEBRAE e diretor da IAA Comunicação, além de responder ao que a plateia pôs em xeque, lançaram, eles mesmos, novas perguntas. Afinal, tornar o Rio de Janeiro uma cidade sustentável é uma tarefa para todos.

O Rio de Encontros é feito por pessoas que se reúnem em torno de um objetivo comum, fez questão de esclarecer a diretora acadêmica d’O Instituto, Ilana Strozenberg, logo na abertura. “A ideia é fazer um grupo de discussão em que as pessoas que estão na plateia também podem levantar questões, provocar o debate. São pontos de vista e participações diferenciados. Aqui, estão presentes as várias formas de pensamento que correm pela cidade”, anunciou ela. E seguimos para o tema da vez.  A diversidade a que Ilana se refere é a marca presente na plateia.

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Quanto vale um rio limpo?

Emmanoel Boff, economista e professor da UFF, no Rio de Encontros sobre Empreendedorismo e Sustentabilidade (Foto: Ariel Subirá)

O economista e professor da UFF Emmanoel Boff tem muitas histórias para contar. Muitas delas colhidas no projeto que desenvolve sobre a influência das instituições na valoração do rio Suruí, em Magé (RJ). Além dos estudos e leituras, é de lá que ele traz uma visão otimista de temas que podem parecer paradoxais. Empreendedorismo e sustentabilidade não são antagônicos, ele garante.

“A primeira ideia que a gente tem quando fala de empreendedorismo e sustentabilidade é de contradição. Aumento do PIB, do consumo, isso vai contra a ideia de sustentabilidade, ao tripé da sustentabilidade ambiental, economica e social, que começou 20 anos atrás, na Rio 92. Mas elas não precisam entrar em conflito”, diz Emmanoel.

Empreendedorismo, reforça Boff, não significa, necessariamente, que o que se quer é que as pessoas produzam e consumam mais. “Não quer dizer que esse consumo precisa ser de bens ou serviços fisicos. O que se valoriza hoje em dia é a conexão, a informação e os bens simbólicos. A gente vai ao supermercado e compra um chocolate que vale cinco reais, mas se leva um coelho na caixa, o preço triplica. O aspecto simbólico dos bens é importante para fazer crescer o PIB. Mas não há necessidade explícita, para aumentar o PIB, de se destruir o meio ambiente”, ele assegura.

Um bom exemplo é o turismo sustentável, feito a partir da valorização do ambiente e das histórias de pessoas e lugares como Magé, onde ele desenvolve a pesquisa em parceria com a ONG Água Doce. “É muito específico, envolve cerca de duas mil famílias no entorno do rio Suruí, um trabalho que começou depois das enchentes em Petrópolis (1988). O meu pai começou a fazer um projeto e, dentro disso, comecei a fazer um trabalho de comunicação. A ideia, agora, é saber como as pessoas que moram naquele entorno valoram o rio. Basicamente, a gente pergunta para as pessoas quanto elas estão dispostas a pagar para limpar rio. Com isso, medimos a disposição a pagar ou a trabalhar pela limpeza da área, e verificamos a consciência e o capital social”, ele explica.

O trabalho consiste, em síntese, em verificar se as redes das quais as pessoas participam têm alguma influência na forma como elas se relacionam com o meio. E deve resultar também em projeto especifico de educação ambiental sustentável.

“A gente precisa aumentar o capital social. Como se pode valorizar o ambiente e as histórias, como tirar daí sustentabilidade? Pode ser possível tirar dinheiro dali. É preciso, para isso, aumentar a confiança individual”, finaliza.

Sustentabilidade além do asfalto

Mariana Meirelles, diretora do CEBDS, no Rio de Encontros sobre Empreendedorismo e Sustentabilidade (Foto: Ariel Subirá)

Depois da visão da academia, a visão de um conselho, anunciou Mariana Meirelles, vice-presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável, CEBDS. Se Emmanoel Boff trouxe uma experiência de sustentabilidade no campo, ela traria uma experiência urbana, mais especificamente a que o CEBDS vem desenvolvendo nas comunidades pacificadas do Chapéu Mangueira e da Babilônia, no Leme, Zona Sul do Rio de Janeiro.

O estopim para o projeto Rio Cidade Sustentável, segundo Mariana, foi a necessidade que as empresas apresentaram de ver as teorias postas em prática. E também de articular ações em conjunto tanto com o estado como com a prefeitura. “O Rio Cidade Sustentável é um projeto de transformação social, que envolve 12 empresas com características diferentes, de Bradesco a Michelan. Empresas grandes, complexas e diferenciadas, atuando sob a coordenação do CEBDS. O que estamos fazendo lá é um teste. Não é fácil coordenar empresas, dois níveis de estado, além da comunidade”, afirma ela.

O primeiro passo para o projeto foi a seleção do território e a definição do que pode ser considerado transformação social. “Não foi fácil chegar a essa fórmula. Há quem diga que de fato o diagnóstico foi orientado para as ações que a gente queria ofertar. Mas a partir desse diagnóstico, a gente construiu uma visão compartilhada em conjunto com a comunidade, para que ela dissesse o que ela precisava para a melhoria da estrutura local”, explica.

A conversa resultou em sete linhas de ação, cada uma com o apoio de empresas voltadas para os setores em questão. “Não é uma proposta paternalista. O Bradesco entra ofertando um tipo de crédito, o Itau entra com outro, para empreendedores, a Philipps entra oferecendo iluminação. O projeto prevê desde melhoria habitacional, sustentabilidade nas escolas e nos lares, ao desenvolvimento de empreendedorismo”.

No papel, tudo funciona. Na prática, começam os problemas. É preciso lidar com a cooperação em três esferas: o estado, o município e as empresas. “São tempos e movimentos muito diferentes. As empresas vêem a Rio +20 como marco de entrega. Para completar, o ano é eleitoral. Isso tudo gera confusões e assimetrias de comportamento. Gestão integrada é importante, parceria é importante, mas tem a dificuldade do tempo político de cada uma. Há uma demanda reprimida de uma comunidade que quer ações mais efetivas porque está esperando há muito tempo”, expõe Mariana.

O CEBDS tem como horizonte a transformação social e a melhoria de infraestrutura. Mas, antes de tudo, quer testar a metodologia e obter respostas. “Como você integra essas vias e olha para essa comunidade como uma oportunidade de negócio? E aí a gente vê que ninguém está preparado”, pondera Mariana. Os exemplos dão uma noção mais clara da evidente falta de compasso. “A Michelan ofertou um asfalto de borracha, que não está preparado para uma área íngreme. Eles tiveram de voltar ao laboratório e reverter seus processos e criar uma solução tecnológica especifica para esse tipo de situação. Outro exemplo é a oferta de crédito para uma população que não está preparada para esse tipo de negócio. Fica claro que os bancos precisam se remodelar, se redefinir. Outra questão interessante foi a proposta de fazer as hortas comunitárias em cima das lajes, mas nem todas as casas estavam preparadas”, ela enumera a constante necessidade de adaptação.

“Tem sido um grande laboratório, uma grande dificuldade para as empresas, também. Estamos vivenciando na prática, mas de um outro olhar. A gente olha de cima e acha que entende de tudo. Essa experiência tem sido interessante, um aprendizado”.

Segundo Mariana, os maiores entraves estão na dificuldade das articulações e nas expectativas distintas. “A sociedade está acostumada a ver a empresa chegando e dando. A ideia, no entanto, é construir outro tipo de relação”, ela avisa. Os primeiros resultados do Rio Cidade Sustentável serão apresentados na Rio +20.

Confiança e vanguarda

Ricardo Henriques, presidente do IPP, no Rio de Encontros sobre Empreendedorismo e Sustentabilidade (Foto: Ariel Subirá)

Ricardo Henriques seguiu o espírito da mesa. Tranquilo mas provocador. Entusiasta assumido do papel da juventude no empreendedorismo da cidade do Rio de Janeiro, deu mostras de que conhece bem as nuances dos territórios minados por onde pisa. Perguntar é mais que preciso.

Afinal, mas de início, o que é empreendeder a partir das comunidades numa sociedade patrimonialista? O que é empreender com sustentabilidade numa sociedade que, inclusive do ponto de vista da agenda privada, está tateando; do ponto de vista ambiental, ostenta um padrão de consumo que beira o vergonhoso; e, do ponto de vista social, se naturalizaram as relações de desigualdade?

“A gente está querendo fazer algumas mudanças? É obvio que o país está progredindo na questão social. Mas a matriz que organizou essa sociedade ainda opera muito fortemente sob o que eu chamo de modelo culinário de organização brasileiro, o velho ‘aumentar o bolo para depois distribuir’. Seguimos o padrão de desigualdade, em que a regra é que os médicos são filhos de médicos. Jovens negros e pobres não fazem a transição, a sua mobildade social. No caso do Rio, isso é ainda mais grave e mais evidente.”

Segundo Ricardo Henriques, a reconfiguração de um tecido social e de uma agenda que esteja vocacionada para empreender e transformar depende de relações de confiança que, por sua vez, se foram precarizando para além das questões ambiental, social e econômica.

“A questão da confiança é chave, porque é com ela que consigo projetar um futuro. A incerteza é o maior problema da economia. O que acontece numa cidade em que as relações de confiança são muito baixas?”, ele também busca respostas.

O exemplo das UPP’s conta. Para Ricardo Henriques, elas deram um passo adiante, mas do ponto de vista do perfil dos potenciais empreendedores, que são os mais jovens, se estabeleceu uma certa indiferença com o futuro. “Se compararmos as juventudes, o ânimo e a capacidade de acreditar que é possível inovar, vê-se que essa crença está muito mais na juventude das comunidades, e muito menos na classe média, que está mais apática, com um certo ar blasè.”

É aí que a educação aparece como questão-chave. “Não há nenhuma sociedade que tenha feito uma grande mudança só com 9% dos jovens na universidade”, pondera o presidente do IPP sobre os índices de acesso ao ensino superior no Brasil. Ainda que a vitalidade esteja latente, é necessário explorar a capacidade de se construir trajetórias mais produtivas.

“Dado esse histórico de desigualdade, os atores, em regra, quando se enfrentam com a possibilidade de apoiar uma agenda de empreendedorismo, passam a fazer isso de forma paternalista. Raramente percebem que há campos potenciais e acabam contendo, na origem, a potência do empreendedorismo. Por outro lado, há uma tendência, dado que se abre uma janela de oportunidade, de se acomodar no modelo vigente do que é empreender. Quem apoia tem visão paternalista e quem entra na janela, olha para o sistema do passado”, ele analisa.

O que está em xeque, segundo Henriques, é uma reconfiguração sem a qual será difícil avançar e dar consistência ao binômio sustentabilidade-empreendedorismo. Considerando que o Rio de Janeiro é uma cidade que tem a diversidade como seu valor essencial, além de um capital paisagem como raros arranjos urbanos no mundo, será possível produzir uma agenda de empreendedorismo que seja menos paternalista e menos conservadora?

“Nessa agenda, é possível disputar a vanguarda, trazer para esse debate a força de incentivar o empreendedorismo e fazer com que esses atores sejam capazes de criticar? Será que esse empreendedor entra na engrenagem de um novo modo de estar no mundo que se discute hoje? O sistema é muito forte, mas tal qual se está discutindo na Rio +20, será que é possível, simultaneamente, criar condições de incentivar o empreendedor, pegar a força criativa que há no Rio de Janeiro e já colocar isso na vanguarda?”, ele questiona. E deixa as interrogações para a plateia.

Empreendedorismo e sustentabilidade, o que a plateia quer saber

Rio de Encontros: empreendedorismo e sustentabilidade (Foto: Ariel Subirá)

No caso do projeto realizado pelo CEBDS no Chapéu Mangueira e na Babilônia, há uma pressão pelo tempo: das empresas, do governo e ao mesmo tempo é uma relação que está sendo estabelecida com a comunidade. Como se dá a questão da confiança?

A primeira impressão é que há uma tendência dos atores em mostrar um resultado que ainda não foi adquirido. Isso gera desconfiança. Será que isso é de fato em mão dupla? Está incluída no roteiro da Rio +20 a visitação ao Chapéu Mangueira. E parece que é para inglês ver. Temos de enfrentar essa percepção o tempo inteiro. Tem de ter resultado para aparecer, para a eleição, para a Rio+20. Essa tensão é natural que haja. A desconfiança é inerente porque as relações ainda se estão por construir. Não dá para dominar todas as intenções.
Mariana Meirelles, CEBDS

O que vocês têm feito em educação e comunicação para aumentar o nivel de confiança entre as pessoas e para qualificar as ações de um empreendedorismo local sustentável?

Desde 2002, quando comecei esse trabalho, meu pai leva texto do Bertold Brecht e, durante a leitura, a pessoa fala o que ela quer. O complicado quando você leva um texto falando de desigualdade social, de um ponto de vista mais abstrato, é que é muito dificil de as pessoas compreenderem. Elas dizem ‘Ah, o texto falou que tem muita exploração’, mas não há uma discussão mais profunda nem mais específica. As pessoas têm confiança no vizinho e na família, mas não no resto. O que se observa é que, primeiro, a educação é complicada de se fazer em nível mais abstrato, tem de se olhar a coisa mais na prática. Em segundo lugar, não há confiança, o que dificulta o empreendedorismo de um modo geral.
Emmanoel Boff, UFF

O empreendedorismo foi politizado, deixou de ser uma agenda só do capitalismo e passou a ser uma agenda do campo social. Passou a ocupar o lugar da palavra diversidade. Geralmente, a gente vê a plasticidade do capitalismo que opera coisas do campo social. Isso vai render frutos. Pode ser uma palavra que atraia novos atores para o campo da transformação social, o que pode trazer um frescor para a juventude. Me parece que o empreendedorismo depende de ambientes de encontros, de combinaçãoes, que determinam seu sucesso ou insucesso. Nesse campo de encontro de atores sociais diferentes, às vezes, quem pensa o país e o empreendedorismo, olha para esses novos atores com esse olhar de passado. Mas quem está fazendo moeda social? Quem está fazendo cultura no território? Quem está fazendo o mototáxi? É uma vanguardinha que está na classe C. Porque é tão difícil o encontro entre esses atores? Quais são as tarefas teóricas para os atores que pensam/formulam irem ao encontro desses atores sem o olhar do passado? Que tipo de tarefa tem o formulador, nesse momento do país, para entender um pouco mais essa vanguarda? Como se cria um ambiente para inventar novas categorias por parte de quem formula?

No campo do empreendedorismo e no campo dos formuladores, tem duas coisas mais complicadas. Não se pode esperar o pessoal do ProUni, mas tem de contar com ele. A academia tem pouco oxigênio. Tem pesquisadores entre os melhores do mundo, mas tem poucos insumos para sair desses patamares. A academia europeia não faz ideia do que fazer com a crise hoje. Não há respostas tão consolidadas. O que nos falta é passar de nove para 30% dos jovens na universidade. Eu queria politizar a diversidade, é a partir dela que se valoriza as diferenças e a partir daí se resolve a desigualdade. Trazer a diversidade como arma e estratégia em que se consolidam forças de diferenças. Diferença e desigualdade são a mesma coisa. É a partir da diferença que construo uma possível sociedade numa matriz que não é a que está aí. O baixo oxigênio limita mesmo dentro das variações positivas. A agenda do empreendedorismo já está dentro da OIT. A gente ainda está muito refém dessse paradigma que não vincula empreendedorismo com sustentabilidade. A experiência do mototáxi é de uma engenharia fantástica no sentido de enfrentar um problema e ter solução concreta. O problema é que o ambiente de encontro não está no nosso DNA. Não está nem mesmo no DNA dos espaços populares. É um jogo de aprendizado muito intenso.
Ricardo Henriques, IPP

A palavra é articular. Não é intervir, mas articular. Principalmente com essa nova economia, dá para ser otimista com os novos empresários. Gente que se satisfaz com consumo mínimo. Há novos tipos de relação material que apontam para sinais de uma nova possibildiade de encarar empreendedorismo e sustentabilidade. Menos destrutivos.
Emmanoel Boff, UFF

Vocês mapearam que esse seria um problema (intenções obscuras, que não são colocadas na mesa, quero que meu projeto e meu território estejam em evidência), que muitos compromissos colocados no papel não são cumpridos? Como garantir que esses projetos vão ser cumpridos? Se o o desafio da UPP Social é garantir que compromissos assumidos sejam efetivamente cumpridos, como se garante isso como política pública? Que mecanismos criaram para que os compromissos sejam cumpridos e para que isso tenha um impacto positivo nessa relação de confiança?

O projeto se baseou num diagnóstico em que consultamos a população. Isso foi feito, de fato. Mas a percepção a partir desses processos de escuta é que ainda não estamos com os ouvidos abertos para escutar. Os atores escutam com o filtro das suas intenções. É um processo de amadurecimento que a sociedade ainda não conseguiu superar. É um processo, a democracia nossa é recente, é preciso azeitar melhor as relações. Tem arrogância, sim, mas a sociedade esta capacitada para dialogar. Tem a arrogância dos atores que intervêm e a aposta que se faz no acirramento de um processo de escuta. A prerrogativa é dada pelo interventor, no campo em que ele atua. Vejo com otimismo, acho que há um amadurecimento recíproco. Claro que há segmentos mais sensíveis e outros menos. As empresas se diferem, umas escutam melhor. Mas acredito nesse processo democrático, acho que estamos no caminho certo. Eu respondo com a humildade de quem acredita que está no caminho certo. A aposta que eu faço é que quando a sociedade compra e acredita num projeto, ela exerce um controle social. É difícil, é preciso sentar, inclusive com o governo.
Mariana Meirelles, CEBDS

A vanguarda passa pela escuta e diálogo e por um novo conhecimento do que nos levou à situação em que estamos?

Escuta com diálogo é estar na vanguarda? Imagino que sim. Do ponto de vista das políticas públicas, um dos pilares da UPP Social é criar mecanismos e caminhos para reconfigurar relações de confiança, estar o tempo inteiro atento a como se desconfiguraram as relações de confiança. A ambição é criar, a partir da escuta forte, mecanismos que retroalimentem a escuta pública. A cultura de diálogo. De parte a parte. Há resistência estrutural de uma máquina que em momento algum se dispõe a reconfigurar seus processos. A vanguarda é uma vanguarda que nesse momento processe métodos que, com a prática, a gente consiga dar conta de que se exercite modos de quebrar a armadura da máquina pública. Quebrar essa coisa de que não se estabelece diálogo. Esse é um exercício que precisa ser feito para que no tempo se recomponha essa relação de confiança e o que se estabelece como relação de compromisso seja efetivado. Isso implicará para a máquina pública sair da armadilha do pré-moldado. Sentar no gabinete e definir o que fazer, ir lá e fazer. É evidente que é melhor do que não fazer. No entanto, o fazer uma coisa bem feita não contribui para a vanguarda. Muda para melhor o que acontece. Mas não cria um novo arranjo. O modo de fazer é tão importante quanto o fazer. Fazer bem feito é melhor do que não fazer, mas não produz condições de mudança para essa vanguarda. Isso também não pode ser um ato de vontade do gestor público. É um aprendizado de parte a parte. A máquina pública não sabe fazer isso e a sociedade brasileira também não. Em algum momento do nosso arranjo civilizatório, passamos por esse modo de produção coletiva. A maquina precisa apanhar para reagir de modo consequente. Mesmo a máquina vetorizada, se não sofre tensões, tende à inércia. Isso tudo é legal, é um barato. Na UPP, estamos trazendo o território como ator, há orientação política que pode criar acordos de gestão para dar conta dos compromissos. É fundamental dizer o que não vai se fazer. Construir compromissos e realizar esses compromissos. É como se constroem a confiança do ponto de vista das relações institucionais e as confianças interpessoais.
Ricardo Henriques, IPP

Empreendedorismo e sustentabilidade: segurança, cultura e educação pela plateia

Rio de Encontros: empreendedorismo e sustentabilidade (Foto: Ariel Subirá)

Como foi a performance dessas marcas (empresas) no morro do Chapéu Mangueira? A população não tinha um padrão de renda para que a marca se relacionasse com ela. Agora, tem. As marcas foram lá oferecendo os mesmos serviços de sempre ou houve inovação de modelo de negócio, não houve inovação de fomento? Se fez mais do mesmo e a relação ainda é uma relação de busca de consumidor? A favela é laboratório para produtos e relações de mercado? Vou usar uma ação de mercado para melhorar a minha reputação, é isso que as empresas pensam?

O banco estava ofertando aqueles produtos a partir da demanda e das perspectivas. Ocorreu melhor do que se esperava e do que o possível, no entanto, não chegamos a um nível ideal ainda.
Mariana Meirelles, CEBDS

A Mané Produções tem uma questão objetiva, que é reativar o baile funk. De uma forma geral, as relações entre as marcas e os territórios são uma relação de subordinação. Sobre a discussão do baile funk, a gente não já passou pelo mesmo no caso do samba?

Na identificação das sete linhas de ação do Rio Cidade Sustentável, há uma para cultura. O projeto tem um ciclo, termina no final do ano. Tem um ciclo de monitoramento e avaliação, bastante crítico. A ideia é que o projeto seja replicável em outras áreas. Para tanto, tem de tocar nas feridas, corrigir as falhas de concepção e de implementação. Empresas atuam individualmente, mas um conjunto de empresas atuando em parceria com o estado, isso é muito novo. A gente pretende expor todas as dificuldades, oportunidades e melhorias.
Mariana Meirelles, CEBDS

Nessa agenda é que se deve pensar a questão do baile funk. Como  a gente consegue descriminalizar? A questão é que, de forma absurda e alegórica, se confundiu uma estética da juventude com o crime. Isso talvez seja uma grande virada. A gente vai e volta. O funk não é a quinta maravilha, há monopólios ali. E não dá para comparar o funk com o samba. O funk tem uma agenda mais difícil de ser enfrentada. Por isso é o maior barato ver vocês organizando isso. Essa agenda que vocês estão montando, essa rede de atores, tem um efeito de demonstração e repercussão. A rede transborda as comunidades. Tem mais vitalidade, criação e inquietação transformadoras dentro dos espaços populares do que fora deles. A cidade formal está rateando. Não está dropando.
Ricardo Henriques, IPP

É evidente a migração da classe média das escolas públicas para as escolas particulares. A escola pública é ruim, desde a década de 80, é essa a mensagem que se veicula. Colocar a escola pública mais na agenda, não seria esse o caminho?

O desafio da escola pública é um problema que em alguma hora a gente vai ter de enfrentar. Qualquer coisa que se pense sem considerar a educação é inviável.
Ricardo Henriques, IPP

Para a polícia ficar ruim tem de melhorar Muito. Mas a sociedade também precisa melhorar. Perdemos a capacidade de dialogar, de conversar. A polícia não precisa ser vista de outra maneira?

O maior sintoma desse desafio que se tem pela frente é que o policial militar seja um funcionário que não tenha qualquer relação com qualquer outra agenda, que ele seja um servidor público, assim como a diretora da escola.
Ricardo Henriques, IPP

Na sua fala transparece que a população pobre não está preparada para aproveitar as ideias do setor empresarial. E percebe-se que as propostas foram feitas sem ouvir a comunidade. Como ensinar a humildade da escuta a quem está habituado a se considerar com a razão? A arrogância não será o primeiro sintoma a ser tratado – clinicamente, psicanaliticamente, por assim dizer?

O lance interessante é que esse é um processo de solução integrada. As empresas envolvidas discutem junto com o CEBDS tanto a solução como as ações. Nesse momento de construção, você já quebra certos padrões. É um modelo que tem que rodar muitas vezes e tem de avançar a partir daquele acordo coletivo que se espera.
Mariana Meirelles, CEBDS

O tráfico não entrou para substituir o estado, mas a sua saída alterou a configuração das favelas.  Como é o trabalho da UPP Social com a polícia pacificadora e o que vocês pensam da questão ambiental. Na favela, por exemplo, o gasto de água é muito grande. Não adianta falar se empreendedorismo e sustentabilidade se não se fala de educação ambiental. Vocês têm alguma ideia do que vai acontecer depois que esses projetos forem finalizados? O que querem depois que as empresas forem embora?

O que o tráfico produziu foram relações de subordinação, de controle e domínio. O fato de serem eficientes fazendo a festa, dando a cesta básica, é tão eficiente quanto a política clientelista que provê serviços. Não tem nada a ver com política pública que não nada a ver com governo ou com qualquer outra coisa.
Ricardo Henriques, IPP

Empreendedorismo e sustentabilidade: notas do Rio de Encontros

“A primeira ideia que a gente tem quando fala de empreendedorismo e sustentabilidade é de contradição. Mas é possível aumentar o PIB e não necessariamente destruir o meio ambiente.”
Emmanoel Boff, UFF

“Gestão integrada é importante, parceria é importante, mas tem a dificuldade do tempo político de cada parte envolvida. Há uma demanda reprimida de uma comunidade que quer ações mais efetivas porque está esperando há muito tempo.”
Mariana Meirelles, CBDES

“A regra é que os médicos são filhos de médicos. Jovens negros e pobres não fazem a transição, a sua mobilidade social. No caso do Rio isso é ainda mais grave e evidente. E não há nenhuma sociedade que tenha feito uma grande mudança só com 9% dos jovens na universidade.”
Ricardo Henriques, IPP

“Quem está fazendo moeda social? Quem está fazendo cultura no território? Quem está fazendo o mototáxi? É uma vanguardinha que está na classe C.”
Marcus Vinícius Faustini, Agência de Redes para a Juventude

“Na favela, o gasto de água é muito grande. Não adianta falar se empreendedorismo e sustentabilidade de não se fala de educação ambiental.”
Landa Araújo, Viva Favela 

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