Duas polícias e um encontro

Ilana Strozenberg, diretora acadêmica d'O Instituto, faz a abertura do Rio de Encontros / Foto: Marco Sobral

Ilana Strozenberg, diretora acadêmica d’O Instituto, faz a abertura do Rio de Encontros / Foto: Marco Sobral

A última edição de 2013 do Rio de Encontros foi emocionada. Além do debate marcado sobre  “Violência, polícia e direito à cidade”, houve espaço para exibição de vídeos e entrega de diplomas aos jovens convidados especialmente para integrar o projeto ao longo das cinco edições.

“Este ano, experimentamos uma interlocução incrível com os jovens convidados para compor a nossa plateia. O Rio de Encontros é um espaço para se formular perguntas porque são elas que estimulam novas reflexões. É esse o caminho que a gente vai seguir”, disse Ilana Strozenberg, diretora acadêmica d’O Instituto na abertura.

Para discorrer sobre o tema em pauta, dois nomes emblemáticos: o coronel da Polícia Militar do Rio de Janeiro, Ibis Silva Pereira, e o delegado de Polícia Civil Orlando Zaccone D’Elia Filho, secretário-geral da LEAP Brasil (Agentes da Lei Contra a Proibição) e autor do livro “Acionistas do nada: quem são os traficantes de drogas”.

Silvia Ramos: "50 mil pessoas morrem assassinadas por ano no Brasil" / Foto: Marco Sobral

Silvia Ramos apresenta os convidados especiais da edição sobre violência, polícia e direito à cidade / Foto: Marco Sobral

“Em casa cheia de polícia, é bom que se tome cuidado com o que é dito”, brincou a cientista social Silvia Ramos, agradecendo as presenças de antropólogos, sociólogos, representantes de organizações civis, jornalistas dos jornais O Globo e Folha de São Paulo e do programa Na Moral, professores e pesquisadores.

Direto ao ponto, a coordenadora do CESeC (Centro de Estudos de Segurança e Cidadania), da Universidade Candido Mendes, expôs dados que alarmam: “Pelo menos 50 mil pessoas morrem assassinadas por ano no Brasil. É o número mais alto do mundo em termos absolutos. Somos o quinto em taxas de homicídio. Como e por que o país convive com isso?”

Resultado da pobreza e das desigualdades já foram respostas e causas tidas como certas. O cenário, no entanto, nao é mais o mesmo. “Melhoramos a pobreza e a desigualdade e os índices não diminuíram”, ponderou Silvia. As vítimas, no entanto, permanecem com o mesmo perfil: são pobres, negros, moradores de favelas em sua maioria.

“A morte é apenas a ponta do iceberg que aparece. Nós somos uma sociedade violenta. A taxa de estupro ultrapassa a taxa de homicídios. Todos os dias, cinco pessoas são mortas pela polícia no Brasil”, ela enfatizou os números.

País violento e descontente diante de sua própria face, o Brasil viu eclodirem as manifestações desde o mês de junho e as ruas viraram cenário de guerra entre manifestantes e policiais. Na intersecção desses temas, o Rio de Encontros demarcou o território da fala, explicou Silvia Ramos: “Não somos um FLAXFLU. Quisemos sair do embate entre defesa e ataque, do campo tradicional, enxergar novos ângulos. A gente não faz debate para reiterar o que já se sabe, mas para deslocar as nossas certezas”, disse ela, justificando a presença dos dois policiais. “Ibis e Zaccone estão na ativa e são também pensadores. Eles têm, cada um a seu modo, conseguido criar e produzir interlocuções a partir dos seus espaços de atuação”, explicou ela, chamando os dois ao palco: “Venham para cá e respondam às nossas perguntas.”

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Vulnerabilidade, criminalidade e violência policial

Orlando Zaccone D’Elia Filho, delegado de policia civil / Foto: Marco Sobral

Orlando Zaccone D’Elia Filho, delegado de policia civil / Foto: Marco Sobral

Três perguntas permearam o debate no Rio de Encontros: Como as forças policiais podem conciliar a garantia da ordem e da segurança com o direito à participação democrática? Por onde começar a mudar a estrutura da segurança pública no Rio de Janeiro e no Brasil?

A experiência do delegado Orlando Zaccone D’Elia Filho vai bem além da polícia. Mestre em Ciências Penais pela Universidade Cândido Mendes, é doutorando em Ciência Politica pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Secretário-geral da LEAP Brasil (Agentes da Lei Contra a Proibição) tem no currículo o livro o livro “Acionistas do nada: quem são os traficantes de drogas”. Na carceragem de Nova Iguaçu, ele transformou celas improvisadas e apinhadas de gente em lugar onde os presos podiam ler e fazer filmes.

A designação de delegado pensador ele carrega há tempos. “Pensar o papel da polícia na sociedade é resgatar o que a polícia sempre fez. Ser um policial pensante é um primeiro passo para mudar a experiência da relação da polícia com a sociedade no Brasil. Polícia tem de ser crítica”, ele defendeu, para começar a conversa.

A polícia civil no Brasil, Zaccone lamentou, está passando por um sucateamento, evidência de um processo político. “Não tem xerox na Academia de Polícia Civil. Uma polícia que não pensa está cada vez mais atrelada a interesses políticos e mais distante da sociedade. Nós deveríamos buscar uma parceria da polícia com a sociedade para reforçar o pensamento crítico”, conjecturou.

A letalidade do sistema penal

A letalidade é alta no Brasil e a polícia, por sua vez, também mata muito. Zaccone usou dados de pesquisa divulgada pela Anistia Internacional para confirmar o que esmiuça em sua tese de doutorado:

“A Anistia revelou que, em 2011, em todos os países que mantêm a pena de morte – são 20 dentro do marco legal –, 676 pessoas foram executadas. Nesse mesmo ano, os policiais brasileiros mataram 961 pessoas somente nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Foram cerca de 40% a mais do que todas as execuções feitas nos 20 países que mantêm a pena de morte, exceto a China, que estava fora da contagem. O Brasil não tem a pena de morte como regra”, realçou.

As mortes se dão a partir do despreparo da polícia? Zaccone diz discordar dessa tese. Segundo ele, há uma política na gestão da decisão sobre a vida e a morte.

“A mortalidade se dá a partir de uma forma jurídica. Instaurados os autos de resistência, eles são arquivados três anos depois. Essa letalidade a partir de ações policiais está à margem ou dentro do direito? A morte praticada a partir da ação policial é ou não legítima?”, ele questionou. Uma de das hipóteses que levanta é a de que as próprias instituições reforçam a letalidade. A própria imprensa tem sua cota, segundo ele. “Quem lê a manchete ‘Polícia mata traficante’, passa a enxergar isso como ação legítima. A mídia diz que polícia mata inocente, o que significa que outros podem matar”, explanou.

A questão passa a ser quem é o morto. “Todo auto de resistência é voltado a fazer uma investigação da vida do morto. É quase um inventário moral. Assim é composta a maioria dos autos de resistência”, afirmou ele, que trabalha com categorias como inimigo e vidas matáveis para tentar entender a letalidade. “Centrar na má formação policial não nos faz avançar para a compreensão do problema. A forma jurídica dos autos de resistência nos ajuda a entender a legítima defesa no Brasil. O inimigo é o traficante de drogas. Culpabilizada e desqualificada a vítima, ela passa a perder o estatuto de proteção jurídica”, Zaccone foi categórico.

Vulnerabilidade e criminalidade

O Rio de Janeiro é o estado com maior índice de mortes decorrentes da ação policial, Zaccone apresentou mais números: a mortalidade, em 2007, chegou a 1330. Foram 961, em 2011. Trata-se de uma letalidade legitimada política e juridicamente.

“As polícias civil e militar são consideradas as mais violentas do mundo, mas é preciso ampliar o olhar. Trabalho com o conceito do professor Eugenio Raul Zaffaroni (autor do livro A Palavra dos Mortos), que diz que não podemos ver essa letalidade na forma do genocídio. A questão é difícil de ser trabalhada porque esse é um conceito criado com motivação política. Crimes de guerra e políticos não são considerados genocídios. Então se criou um conceito que não concentra a totalidade. O conceito de massacre, segundo Zaffaroni, é um homicídio múltiplo, não entram aí os casos de assassinatos isolados que não sejam resultado de uma prática sistemática”, explicou.

Ainda com os dados em mãos, Zaccone citou que, em 2012, foram registrados 465 autos de resistência no estado do Rio. O número caiu 70% em relação a 1997. Mas permanece nas alturas e não justificado.

“Essa redução drástica é tida como resultado da pacificação implementada pelo governo do estado com as UPPS. Correto? Questiono. Nós estamos tentando voltar para os marcos históricos. Em 1993, pouco mais de 150 pessoas foram mortas pela polícia. Em 1996, foram 390. A partir de 2000 começa uma curva ascendente. Justamente quando se instalam as polícias cidadãs. E isso é um problema. Desde que o governo federal passou a ter um olhar para os espaços segregados e entramos no tema da vulnerabilidade, o olhar é criminalizante”, ele avaliou.

O que se tem é resultado direto, de acordo com Zaccone, da vinculação entre criminalidade e vulnerabilidade. “A violência policial nesses espaços aumentou a partir desses links. Pobre é potencialmente criminoso, é isso que significa dizer que nessas áreas a violência é mais possível.

Matriz violenta

No próprio ambiente social, diz o delegado, se constrói a ideia de que algumas pessoas são desprovidas de cidadania. “Criminoso identificado como inimigo perde o direito à cidadania, o que gera ambiente de matabilidade”, afirmou.

A questão violência, polícia e direito à cidade, portanto, não deve envolver somente a polícia, Zaccone reiterou que o Brasil é uma sociedade punitiva cuja origem estaria na escravatura. “É diferente no Uruguai e na Argentina. Nós voltamos pouco à escravidão. O Holocausto tem importância histórica na Alemanha, por exemplo. A escravidão é uma marca no Brasil que pode caracterizar a nossa matriz violenta. Não é só a polícia. Nós precisamos olhar para essa questão e aprofundar o debate”, defendeu.

O homem e a cidade

Ibis Silva Pereira, coronel da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro / Foto: Marco Sobral

Ibis Silva Pereira, coronel da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro / Foto: Marco Sobral

O coronel da Polícia Militar do Rio de Janeiro Ibis Silva Pereira carrega o livro “Cidades rebeldes”, obra do geógrafo, urbanista e antropólogo David Harvey debaixo do braço. E tem, quase na ponta da língua, a frase do sociólogo americano Robert Park sobre o que é a cidade:

“A tentativa mais consistente do homem e a mais bem-sucedida como um todo para refazer o mundo em que vive o mais próximo de seu desejo íntimo. Mas, se a cidade é o mundo que o homem criou, é o mundo no qual ele está doravante condenado a viver. Assim, indiretamente, e sem qualquer clareza da natureza de sua tarefa, ao fazer a cidade o homem refez a si mesmo.”

A cidade, o homem e a forma como a habita e se relaciona estão na essência do trabalho que o coronel desenvolveu à frente da Academia de Polícia Militar.

“O número 50 mil (citado por Silvia Ramos) não sai da minha cabeça. Que tipo de humanidade produz essas cifras? São homicídios dolosos. Os de trânsito são mais 40 mil. Os estupros são outros 50 mil. Meu Deus, que tipo de humanidade produz isso?  E o que isso faz com a nossa humanidade?”, o coronel questionou e recorreu ao que viu no cinema, durante uma sessão do filme “Tropa de elite” para exemplificar o quão carente de sensibilidade estaria a sociedade:

“Ouvi aplausos em cenas de tortura. Nós banalizamos os dados, conseguimos dormir e 50 mil mortes não nos tiram o sono. Os dados são divulgados e 15 dias depois já estão em nosso passado. Ano que vem teremos os 50 mil mortos ou até mais”, vaticinou.

Afetos, paixões e sensibilidade

Em comum com o delegado Orlando Zaccone, Ibis aponta a escravidão como leitura indispensável para se entender o Brasil. Assim como a militarização da política de segurança pública e a hierarquização da sociedade tal ela se apresenta.

“Joaquim Nabuco dizia que tão importante quanto acabar com a escravidão é acabar com a obra da escravidão. A categoria matável tem muito que ver com isso”, afirmou ele, apontando ainda outro ponto em comum: a questão da segurança pública ultrapassa a polícia e não pode ser reduzida ao emprego das forças policiais.

Seria preciso superar a dificuldade de se pensar políticas da prevenção e não apenas do enfrentamento e do combate ao criminoso.

“O assunto ultrapassa, e muito, a polícia, mas chegou o momento de discutirmos também a polícia. Comandei durante 22 meses a academia que forma o policial militar. A desmilitarização é um tema que precisamos enfrentar. Penso que é interessante problematizar a pertinência em nosso sistema de segurança pública de uma polícia estruturada no modelo militar”, argumentou o comandante.

O currículo de formação do policial, explicou Ibis, lida com medo da morte. Estatisticamente, os policiais têm três vezes mais chance de serem vítimas de homicídio do que o cidadão comum.

“O medo está presente o tempo inteiro na formação do policial. Mas temos de prepara-lo para a possibilidade da morte, que é a paixão mais básica do ser humano, sem que ele perca sua racionalidade. A primeira ocorrência em que me deparei com a morte, o colega levou um tiro na testa e caiu aos meus pés. Precisamos estar preparados para manter a nossa racionalidade mesmo diante de uma cena como essas”, ponderou.

Segundo ele, do medo decorre o embrutecimento que acaba tomando conta das formações. Daí a necessidade de recorrer a atenuantes. “Nós temos muitos psicólogos militares em nossa corporação. Mas são militares. Um soldado precisa trabalhar com os afetos e questões internamente. A desmilitarização da polícia poderia contribuir para que pudéssemos trabalhar os afetos e as paixões tristes de forma mais eficaz.”

Ibis defende um caminhar na direção de um modelo de polícia diferente do que está posto e que, segundo ele, sobretudo fragmentado. “Uma é ostensiva e não apura, a outra não polícia, ajudaria se trabalhássemos com um ciclo completo”, sugeriu.

Perguntas e respostas, a plateia com a fala

Igor de Sousa Soares, da Agência de Redes para a Juventude / Foto: Marco Sobral

Igor de Sousa Soares, da Agência de Redes para a Juventude / Foto: Marco Sobral

Aberta a primeira rodada de perguntas da plateia, Igor de Sousa Soares, da Agência de Redes para a Juventude, mirou em muitas direções:

“A polícia sempre esteve sucateada, tanto psicológica como estruturalmente. A ação deles dentro da favela remete à formação que eles tiveram. Na favela, ou você mata ou você morre, o ideal é que você mate. Quem mora na favela sabe muito bem como funciona e como atua a polícia lá dentro. As ações são diferentes na favela e no asfalto, não vejo certas atitudes truculentas vindas de policiais em Ipanema. Que instituição de segurança é essa? A UPP é apenas mais uma estrutura dentro da favela que não viabiliza nada, não contribui para que as políticas públicas cheguem. O governo do estado comprou 750 fuzis para policiais. Para onde vão esses fuzis? Para as favelas. A UPP trouxe alguns avanços, mas muitos retrocessos. Os policiais do BOPE entram na favela, para atirar. Que formação e polícia é essa?”

Orlando Zaconne foi enfático ao responder. É preciso olhar criticamente para o link estabelecido entre vulnerabilidade e criminalidade, ou seja, para a ideia construída de que áreas pobres são propensas ao crime:

Orlando Zaccone D’Elia Filho é secretário-geral da LEAP Brasil (Agentes da Lei Contra a Proibição) / Foto: Marco Sobral

Orlando Zaccone D’Elia Filho é secretário-geral da LEAP Brasil (Agentes da Lei Contra a Proibição) / Foto: Marco Sobral

“Não posso concordar que a polícia vai ser canal de viabilizar política pública em lugar algum do mundo. Não podemos ter o fetiche de que a polícia vai ser porta de entrada para política pública na favela. É preciso um olhar menos segregador. A vulnerabilidade é padrão internacional, a militarização é transnacional. O exército brasileiro, em missão humanitária no Haiti, está, na verdade, treinando militares para atuar em regiões pobres. Não está no Haiti em missão voluntária. O (urbanista) Mike Davis observou que metade da população brasileira vive em guetos. A única forma de se fazer controle dessa população perigosa é através da ocupação militar. O avião que joga as bombas é o mesmo que leva os remédios. A UPP entra e a prefeitura vai depois? Já entrou lá no Borel? Não. O comandante militar passa a ser o prefeito do território”, disse o delegado.

A jornalista Cláudia Antunes retomou a relação entre a operação Paz Armada e o caso Amarildo, apontado por suposto envolvimento com o tráfico. “O que não justifica que ele fosse torturado e morto. Ou o cara é sempre o coitadinho, ou um bandidaço que merece morrer, faltam nuances. A pessoa deve ser simplesmente punida pelo eventual crime que ela cometeu”, ponderou.

A explicação para o caso Amarildo estava pronta. “Quanto mais se vinculasse o Amarildo ao tráfico, mais suspeita ficava a polícia. Mas, em algum momento, se ele fosse identificado como traficante, sua morte passaria a não ter importância. O traficante, no ambiente policial, é chamado ganso. O Amarildo é um marco da necessidade de desqualificação da vítima. Não ser cidadão legitima qualquer ação”, disse Zaccone. A operação Paz Armada, por sua vez, tinha de ser desvinculada do desaparecimento do ajudante de pedreiro. “A operação estava dentro da legalidade, mas não tinha mandado de busca e apreensão. A condução do Amarildo não tinha relação nenhuma com a operação, isso foi uma construção. Foi uma operação dentro do marco da legalidade, com 25 mandados de prisão, sem um tiro. No outro dia, a condução irregular do Amarildo ocorreu sem que houvesse nenhuma participação da polícia civil. A imprensa falou muito da vinculação com a Paz Armada, mas foi decisão exclusiva da UPP”, garantiu o delegado.

Zeca Borges: "Por que a polícia mata?" / Foto:  Marco Sobral

Zeca Borges, coordenador do Disque Denúncia: “Por que a polícia mata?” / Foto: Marco Sobral

Afinal, por que a polícia mata? “50 mil mortos são o que se conseguiu matar? Se mais pudéssemos, mais seriam mortos?” indagou Zeca Borges, coordenador do Disque Denúncia.

No ambiente social, a polícia tem autorização para matar, declarou Zaconne. “Nas favelas, o que as famílias fazem para provar que seus filhos foram executados? Elas têm de provar que eles não eram traficantes. O ambiente social constrói a figura do inimigo matável. Traficante tem direito e precisa ter defesa. Mas quem vai levantar para dizer isso? O papa Francisco diz que traficantes de drogas são mercadores da morte. Mas não diz isso do presidente da AMBEV”, provocou.

Zeca Borges, na direção do comandante Íbis, prolongou a dúvida: o cinismo policial que enfrentamos seria uma defesa? “No Chile, qualquer disque-denúncia funciona. A polícia civil tem 89% de prestígio lá. A desmilitarização é um problema. Mas é com esse sistema judiciário, com esses políticos e governantes e com essas polícias, é com isso aí que temos de dar um jeito de levar esse país”, adiantou.

Anabela Paiva: "A formação estimula a atitude violenta?" / Foto: Marco Sobral

Anabela Paiva: “A formação estimula a atitude violenta?” / Foto: Marco Sobral

A jornalista Anabela Paiva pediu a Ibis que discorresse sobre o medo e a preparação para a morte na formação do policial. “A formação estimula a atitude violenta? Não é condição necessária para que não se perca a cabeça e fique mais violento ainda? Como foi a experiência de dirigir a academia na prática? Como foi esse momento?”

A resposta vem da filosofia, já devidamente incorporada aos cursos de formação dos policiais militares. Platão problematiza os afetos na formação do guardião da cidade, anunciou o comandante, ao retomar a palavra.

“Segundo Platão, o encarregado pela nossa segurança deveria ter doçura e violência. É um cão. Nós usamos a música e a filosofia como elementos que deveriam ser incorporados a essa formação exatamente para que o policial dê conta dos afetos”, explicou.

A preocupação tem razão de ser. “A violência é altamente sedutora. Destruir exerce fascínio e propicia o gozo. Durante todo o século XIX convivemos com uma constituição liberal, mas que admitia a escravidão. Em nenhum lugar dela a palavra escravidão aparece. Sobre essa base nós construímos a nossa república. Eu me dei conta, quando assumi o comando da corporação, que não se pode formar o policial fazendo com que ele goste da força. Ele tem de usar a força sem se apaixonar por ela. Ele deve aprender a usar o fuzil, mas o seu olho não pode brilhar quando ele está com esse fuzil”, Ibis prosseguiu.

Ibis Silva Pereira atuou como subdiretor de ensino da PM e comandante da Academia de Polícia Militar D. João VI / Foto: Marco Sobral

Ibis Silva Pereira atuou como subdiretor de ensino da PM e comandante da Academia de Polícia Militar D. João VI / Foto: Marco Sobral

Se a violência corrompe a alma de quem a usa, a escravatura tem sua participação  na formação da sociedade brasileira como é, hoje. “O que a escravidão fez com as nossas almas? Não tenho dúvidas de que ela nos corrompeu”, afirmou o coronel, relembrando um episódio emblemático: a tomada do Complexo do Alemão pela UPP.

“Os traficantes que fugiam também foram alvejados pelos helicópteros. Foi execução transmitida ao vivo e em cores para 200 milhões de pessoas. Nós assistimos a isso domingo, sentados nos sofás das nossas salas. Reconheço o embrutecimento na maneira como lidamos com o afeto triste. Spinoza diz que só o afeto alegre pode vencer o afeto triste. E é difícil trabalhar com afetos alegres num ambiente militar. Platão diz que temos de preparar o jovem para que ele não tenha medo de atuar quando sua vida estiver em perigo. É preciso trabalhar em nossas escolas de formação com os afetos alegres. Eu incorporei as famílias ao processo, para que a formação não despersonalizasse esses jovens. A formação não pode afastar os jovens das suas paixões alegres, dos seus amores. Eles não podem ser desconectados dos seus laços de afeto. Estabelecendo um ambiente mais humano, fraterno e amoroso, a gente pode impedir a brutalização que esse processo social permite. O medo engendra ódio”, afirmou.

Violência, exclusão, jeitinho e poesia

Letícia Freitas, do Observatório de / Foto: Marco Sobral

Letícia Freitas, do Observatório de / Foto: Marco Sobral

A formação da polícia, a violência nas favelas, a discriminação contra os negros e pobres continuaram em pauta, o preparo policial no momento da apuração dos autos de resistência, como são tratadas as mortes provocadas por policiais. Entre relatos e perguntas da plateia, o Rio de Encontros seguiu com a intensidade que o tema provoca.

A professora Paula Poncioni, da UERJ, chamou a atenção para a participação da sociedade civil no processo de formação do profissional e da própria polícia. “É uma questão que não entra na agenda pública. A sociedade civil, quando participa, é com pouca possibilidade de mudança. A polícia é impermeável mas também a sociedade é impermeável a essa discussão. Vocês não são cruzadores morais. Quando os 50 mil mortos passarem a ser um problema aí conseguiremos discutir. Segurança pública não é polícia. É a gente, também”, ressaltou.

Thainã de Medeiros, da Agência de Redes para a Juventude, quis saber se a violência não seria inerente a quem expressa o desejo de entrar para iuma corporação. E contou o que ele próprio já experimentou como morador de favela. “As pessoas que conheço, quando entraram, já gostavam de um outro tipo de música, faziam apologia à violência. Isso não estaria neles? Dia desses, passando pela Vila Cruzeiro, fui parado, nunca vi tanto fuzil na minha vida. Um jovem negro tem quatro vezes mais chance de morrer. Basta nascer e ser negro. No mesmo dia em que fui abordado por policiais eu voltava de um enterro de um irmão de um amigo. Ele entrou para o tráfico aos 16 anos e nunca foi preso. Ele não era negro”, pontuou ele, seguido de uma incisiva pergunta de Letícia Freitas, do Observatório de Favelas: “Por que matam-se mais negros que brancos? Isso não é um genocídio?”

Claudius Ceccon, do Criou o  Centro de Criação de Imagem Popular – CECIP / Foto: Marco Sobral

Claudius Ceccon, do Criou o Centro de Criação de Imagem Popular – CECIP / Foto: Marco Sobral

O arquiteto Claudius Ceccon, assumidamente impressionado com o que ouvira, retomou as perguntas iniciais sobre o direito à cidade e a extrema violência. “A cidade está sendo apropriada por forças debaixo dos nossos narizes sem que a gente consiga evitar os assaltos. O que estamos vendo faz parecer que somos completamente impotentes. Como ir mais fundo e mudar o sistema que consegue eleger os vereadores que são ligados a milícia? Como combater a corrupção das empreiteiras?”, questionou.

A engenharia da cidade e a forma que lhe é dada são um problema, retomou Ibis. “Tem se proliferado um certo tipo de arquitetura fascista que tem o propósito de afastar as populações de miseráveis de determinadas áreas. É uma engenharia que está ganhando a cidade e aponta para uma insensibilidade sobre as dores do outro, que talvez explique as invisibilidades de que Euclides da Cunha falava em Canudos. A gente precisa de uma educação sentimental. Isso é um trabalho para todos nós. A engenharia se multiplica diante dos nossos olhos e não nos incomoda, não nos estremece. Como a gente lida com tanta facilidade com isso é preocupante”, disse.

Ilana Srozenberg lembrou que, além da cultura do medo, há o Brasil também padece da cultura do “jeitinho”. “Como se dá essa coisa de forjar flagrante?. Isso não deve ser parte de uma formação, mas parece fazer parte de uma cultura. Nas favelas ou fora delas isso parece uma prática”, ressaltou.

Ibis Silva Pereira e Orlando Zaccone D’Elia Filho / Foto: Marco Sobral

Ibis Silva Pereira e Orlando Zaccone D’Elia Filho / Foto: Marco Sobral

“Talvez isso tenha a ver com o jeitinho, que também tem a ver com o fazimento da nossa identidade. O Darcy (Ribeiro) já dizia sobre as ninguendades que resultaram em nós. Tem algo aí de ‘como eu me faço sozinho, como eu não tenho nada a ver com os outros’. Quando você parte desses atomismos, que tipo de cidade a gente engendra?”, Ibis devolveu uma questão como resposta.

E foi exatamente por esse ângulo, ou seja, na aposta em mais humanidade, que o comandante decidiu agir na academia. “O último poeta que levei foi o Ivan Junqueira. A beleza pode tocar recantos da alma que o discurso racional não é capaz de tocar. Tentei criar um ambiente em que a poesia pudesse atravessar a alma das pessoas.”

A antropóloga Sthefanie Savell pediu então que o comandante desse um exemplo emblemático do de como o medo influenciou o comportamento de uma pessoa. “Dei aula durante muitos anos em um pré-vestibular para negros e pobres. Tinha uma aluna que ia sempre com a mãe. Num dia, aniversário de Shakespeare, eu li uma passagem do Othelo, quando ele explica por que Desdêmona se apaixona por alguém tão fora dos padrões. Eu li isso para a turma e, essa senhora, que nunca tinha ouvido Shakespeare, chorou. Eu acredito na poesia. A gente precisa disso no país como um todo para dar conta desse nosso humanismo que talvez se precise reconstruir”, contou.

Frases e fotos do Rio de Encontros

 

Encerramento do Rio de Encontros 2013 / Foto: Marco Sobral

Encerramento do Rio de Encontros 2013 / Foto: Marco Sobral

Como as forças policiais podem conciliar a garantia da ordem e da segurança com o direito à participação democrática? Por onde começar a mudar a estrutura da segurança pública no Rio de Janeiro e no Brasil? No Rio de Encontros sobre “Violência, polícia e direito à cidade”, realizado na terça-feira, 12 de novembro, as opinões e embates foram muito além do papel da polícia.

VEJA AS FOTOS DO ENCONTRO

Confira algumas das frases que pontuaram a manhã na Casa do Saber Rio – O Globo, no evento que contou com a participação do coronel da Polícia Militar do Rio de Janeiro, Ibis Silva Pereira, e do delegado de polícia civil Orlando Zaccone D’Elia Filho, secretário-geral da LEAP Brasil (Agentes da Lei Contra a Proibição) e autor do livro “Acionistas do nada: quem são os traficantes de drogas”.

“Pelo menos 50 mil pessoas morrem assassinadas por ano no Brasil. É o número mais alto do mundo em termos absolutos. O quinto em taxas de homicídio. Como e por que o país convive com isso?”
Silvia Ramos

Todos os dias, cinco pessoas são mortas pela polícia no Brasil”
Silvia Ramos

Ser um policial pensante é um primeiro passo para mudar a experiência da relação da polícia com a sociedade no Brasil
Orlando Zaccone D’Elia Filho

“Uma polícia que não pensa está cada vez mais atrelada a interesses políticos e mais distante da sociedade”
Orlando Zaccone D’Elia Filho

Discordo dessa tese. Defendo que existe uma política na gestão da decisão sobre a vida e a morte”
Orlando Zaccone D’Elia Filho

Pobre é potencialmente criminoso, é isso que significa dizer que nessas áreas a violência é mais possível”
Orlando Zaccone D’Elia Filho

“A escravidão é uma marca no Brasil que pode caracterizar a nossa matriz violenta. Não é só a polícia. Nós precisamos olhar para essa questão e aprofundar o debate”
Orlando Zaccone D’Elia Filho

“O número 50 mil não sai da minha cabeça. Que tipo de humanidade produz essas cifras? São homicídios dolosos. Os de trânsito são mais 40 mil. Os estupros são 50 mil. Meu Deus, que tipo de humanidade produz isso?  E o que isso faz com a nossa humanidade?”
Ibis Silva Pereira

“Precisamos desmilitarizar nossa lógica de enfrentamento do crime e pensar segurança do ponto de vista da prevenção”
Ibis Silva Pereira

Na favela, ou você mata ou você morre, o ideal é que você mate”
Igor de Sousa Soares

Será que 50 mil mortos é o que se conseguiu matar? Se mais pudéssemos, mais seriam mortos?”
Zeca Borges

Não posso concordar que a polícia vai ser canal de viabilizar política pública em lugar algum do mundo. Não podemos ter o fetiche de que a polícia vai ser porta de entrada para política pública na favela”
Orlando Zaccone D’Elia Filho

O Amarildo é um marco da necessidade de desqualificação da vítima. Não ser cidadão legitima qualquer ação”
Orlando Zaccone D’Elia Filho

Policiais e negros vêm do mesmo extrato dos traficantes. Não à toa que todos são vidas matáveis”
Orlando Zaccone D’Elia Filho

Durante todo o século XIX convivemos com uma constituição liberal, mas que admitia a escravidão. Em nenhum lugar dela a palavra escravidão aparece. Sobre essa base nós construímos a nossa república”
Ibis Silva Pereira

“O policial deve aprender a usar o fuzil, mas o olho dele não pode brilhar quando ele está com esse fuzil. A violência corrompe a alma de quem a usa. O que a escravidão fez com as nossas almas? Não tenho dúvidas de que ela nos corrompeu”
Ibis Silva Pereira

Por que matam-se mais negros que brancos? Isso não é um genocídio?”
Letícia de Freitas

O policial permanece na comunidade e passa a ser corrupto. Ele entra como segurança e sai como traficante”
Paulo César Valério

Estou parada na fala de que quando entramos na onda dos direitos humanos aumentou a letalidade”
Teresa Guilhon

Eu acredito na poesia. A gente precisa disso no país como um todo para dar conta desse nosso humanismo que talvez se precise reconstruir”
Ibis Silva Pereira

É em pró da vida que se realizam os maiores holocaustos e genocídios da história”
Orlando Zaccone D’Elia Filho