O espaço da loucura e o ritual da rua

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Público do Rio de Encontros 28/10/2014. Foto Paula Giolito

Um arquiteto, uma professora, um psiquiatra e ator e uma plateia engajada na busca por soluções que ajudem a melhorar a cidade produziram um dos debates mais impactantes do Rio de Encontros em 2014. Realizado no dia dia 28 de outubro, na Casa do Saber, com o tema “Ocupações do espaço público, cultura e política na cidade”, e penúltima edição do projeto revelou cidadãos interessados em pensar formas de transformar a cidade em um ambiente mais acolhedor e comprometido com a cultura e as necessidades da população. Há sensibilidade visível, além de disposição para execução efetiva de projetos que tornem o espaço público mais habitável e alegre.

Foram convidados, para iniciar a conversa, a doutora em Literatura Comparada e professora da Escola de Comunicação da UFRJ Beatriz Jaguaribe; o arquiteto e diretor do Studio-X Rio Pedro Rivera; e o médico, ator, psiquiatra cultural e pesquisador Vitor Pordeus, que é também fundador do Hotel Spa da Loucura no Hospital Psiquiátrico Nise da Silveira.

Responsável pelo desenvolvimento e gerenciamento de projetos d’O Instituto, Teresa Guilhon apresentou as perguntas previamente formuladas para orientar o assunto: existe uma crise no modelo de cidade moderna? É possível dizer que estamos retomando ruas, praças e outros espaços, como os manicômios, enquanto lugar da política? Essas ações apontam caminhos para uma cidade mais democrática? Qual o papel da cultura nesse processo? Os convidados trataram de responder, cada um em seu tempo, a cada uma das questões.

A cidade ideal

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Pedro Rivera. Foto Paula Giolito

Do inconsciente para o espaço concreto. Segundo a dialogar com a plateia, o arquiteto Pedro Rivera partiu do adensamento populacional das metrópoles nas últimas décadas para demonstrar a vultosa capacidade de agregação das cidades e apontar, por sua vez, a necessidade de transformar suas estruturas complexas, difíceis e incontroladas com seriedade. Segundo ele, há uma forte e inconteste crise gerada pelo desconforto, a violência e o descontrole.

“Tenho pensado intensamente na dimensão do espaço que a cidade global ocupa e no que se transformou nos últimos anos. O que chamam de cidade moderna está em crise, porque para que fosse escalada a uma rede de cidade global passou-se por cima de uma série de especificidades, produziram uma certa pasteurização, uma homogeneização de diversos códigos para que todo mundo pudesse conversar. E o resultado foi a crise”, disse.

A cidade ideal, pontuou Rivera, existe, ainda que no campo das ideias. É aquela capaz de produzir um sentimento de domesticidade, de acolhimento, de pertencimento ao território, de proteção.

“Para pensar o futuro da cidade é importante considerar aonde a gente quer chegar e que tipo de transformação queremos. Todos nós sabemos como o espaço vem sendo cerceado, mesmo os mais jovens (apontando para a plateia) aqui experimentaram ao longo da sua vida uma diminuição da possibilidade do uso do espaço público. A cidade se tornou mais violenta e mais fortificada. Muitas barreiras, sejam mentais, sejam físicas, foram construídas e ela está cada vez mais subdividida”, afirmou ele. O grande desafio, de acordo com o arquiteto, é ultrapassar as barreiras interpostas para produzir outros modelos de convívio.

Um Rio mais gentil

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Beatriz Jaguaribe, Pedro Rivera, Vitor Pordeus. Foto Paula Giolito

O Rio de Janeiro não foge à regra, mas carrega sua particularidade. Por conta do seu território ímpar, há uma superposição do que é considerado centro e o que é periferia, assegura Pedro Rivera. Contextualizar e dar conceitos, portanto, é importante:

“Em termos estritamente urbanísticos, o centro da cidade é onde ela está fundada e se desenvolve, e a periferia é tudo aquilo que se produziu depois, orbitando em volta desse centro”, explicou.

Usando como referência o arquiteto e teórico Rem Koolhaas, mais especificamente o texto Cidade Genérica, Pedro Rivera esmiuçou as consequências da constante valorização dos centros em detrimento das periferias:

“No momento em que as cidades explodem de tamanho, as periferias não são mais conectadas aos centros. E a gente continua advogando a ideia de centralidade. É preciso repensar essa relação. Mas no Rio de Janeiro, em particular, existem esses dois territórios sobrepostos em um território único, e essa é a condição particular de onde surge a nossa cultura”, disse ele, acentuando que a potência urbana do Rio existe a partir dessa sobreposição entre centro e periferia.

Trata-se de uma sobreposição perversa, uma vez que produz a desigualdade social, mas construtiva, já que também produz uma proximidade rica no aspecto cultural.

“Estar no espaço público significa estar perante os demais, significa necessidade de negociar com as outras pessoas permanentemente. Temos uma legislação celebrada e muito moderna no Brasil chamada O Estatuto da Cidade, que basicamente defende a função social da propriedade urbana, o que significa que todo o território, não importando se pertence à dimensão pública ou privada, tem o dever de servir ao coletivo da cidade”, ressaltou.

Além da dimensão política, é preciso considerar um aspecto mais sutil, mas igualmente importante: o nosso corpo no espaço, o que o arquiteto fez questão de enfatizar como prioridade:

“Estou falando de uma dimensão sensorial da cidade, da textura, do cheiro, da temperatura. Como o nosso corpo se relaciona com esse espaço? A aspereza e a sensação tátil do espaço. Devíamos ter a ambição de produzir uma cidade onde fosse possível caminhar descalço, uma cidade gentil e generosa”, finalizou.

Por uma cidade imaginada

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Beatriz Jaguaribe. Foto Paula Giolito

A professora e pesquisadora nas áreas de nação, memória e cidades midiáticas Beatriz Jaguaribe tem interesse particular na imaginação artística sobre a cidade. Com uma produção acadêmica centrada também na cultura urbana, ela fez questão de iniciar a conversa com a plateia do Rio de Encontros respondendo à primeira pergunta formulada para o debate: existe crise no modelo de cidade moderna?

A cidade é como o céu e o inferno, Beatriz invocou a obra “A Divina Comédia” de Dante para dar conta da resposta:

“Todo mundo sabe que inferno é horrível, mas na hora de imaginar o que é o paraíso a nossa mente fica em branco, porque o paraíso de um é o inferno do outro. Acontece o mesmo com a cidade. Há utopias urbanas que se transformaram em modelos extremamente disfuncionais: a ideia modernista da cidade como abolição da rua invadida pelo automóvel, sem integração entre classes, sabores, pessoas, áreas de lazer e áreas de comércio, deixando tudo compartimentalizado. Não é que esse seja um modelo totalmente fracassado, mas está sendo altamente questionado”, ressaltou ela.

Há uma crise de imaginários possíveis para a cidade, adiantou Beatriz. Já não mais planejada considerando o cotidiano das pessoas, não é possível  enxergar a relação de afetividade e pertencimento do homem ao seu ambiente. Homogeneizadas, as cidades foram transformadas em não lugares.

Cidade, memória e coletividade

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Beatriz Jaguaribe, Pedro Rivera e Vitor Pordeus. Foto Paula Giolito

A importância da relação entre os repertórios pessoais, as tradições e o passado é consensual. A memória, segundo Beatriz Jaguaribe, pode reconectar as pessoas. Um bom exemplo foi a descoberta do Cais do Valongo durante a reforma do Porto Maravilha:

“De repente, dessa escavação emergiram objetos, ossos e do próprio solo veio a memória muito contundente do que foi a criação e negociação da cidade”, analisou ela. “O que é importante para ter cidade vital é não só a cultura do presente, mas o diálogo com o passado, com as representações anteriores da cidade, e não ser totalmente dominado pela cultura audiovisual. É preciso deixar os poetas falarem e deixar outros tipos de imaginação surgirem”, realçou.

Quem vive na cidade necessita estar em contato com o outro e fazer parte do que Beatriz define como coletividade dionisíaca, o desejo de participar e estar na multidão a despeito do encapsulamento cibernético gerado pelo mundo virtual. O carnaval revitalizado nas ruas é um bom exemplo, segundo ela, assim como a retomada das ruas pelas passeatas em junho de 2013, quando as pessoas puderam manifestar fisicamente sua ideia de frustração:

“Temos ali cidadãos que não querem ser domesticados, querem chocolate, pão transporte e todas essas coisas juntas. É importante pensar que a cidade que é imaginada na telenovela, que é conectada no mundo virtual se transforma no espaço físico. A palavra se transforma em carne. Precisamos pensar uma cidade vivenciada, midiática, imaginada e imaterial, juntar tudo num só lugar”, sentenciou ela.

A função da cultura e em que momento ela ficou equiparada à ideia de consumo ou não são aspectos também importantes nesse processo, pontuou Jaguaribe. “A cultura e o papel que ela representa tem escolha. Você escolhe o que quer ler, o que quer ouvir e ver. Bens institucionais culturais estão circulando. Se você tem acesso, tem poder de escolha. E não é só uma escolha de consumo, é uma escolha de construção de imaginários urbanos com os quais você vai interagir e vai fazer parte”, finalizou.

A cultura e o espaço público na voz da plateia

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Público do Rio de Encontros. Foto Paula Giolito

Tradicionalmente, o formato do Rio de Encontros prioriza a fala dos convidados e também da plateia. Mais que perguntas e respostas, o que seguiu foi uma troca de ideias e experiências entre quem vive na cidade, pensa sobre o espaço e trabalha para que o território seja democrático e humano. Cotidianamente.

Rita Fernandes (Bloco Sebastiana e Coluna Pelas Ruas) – Escrevo “Pelas Ruas”, uma coluna publicada pelo jornal O Dia, porque eu me dei conta de que a cultura vai muito além do que a gente pensa e do que a mídia mostra. O nosso leitor quer o coletivo de Realengo, quer saber quem está fazendo cultura fora desse eixo da Zona Sul, porque falar dos teatros e artistas que a gente conhece é muito fácil, o difícil é abrir nossos horizontes para falar daquilo que está sendo feito além das fronteiras. Eu preciso pertencer a alguma coisa que vá além da minha fronteira, senão fico muito aprisionado por aquilo que me cerceia. Não há lugar melhor para a cultura de rua que o Rio de Janeiro, o Rio é rua.

Victor Rodrigues (Honório Gurgel Coletivo) – Pedro e Beatriz, qual é a responsabilidade da arquitetura para o modelo de sociedade que a gente tem hoje? Em Honório Gurgel, a gente utiliza botequim para fazer sarau e uma série de coisas. Essa cultura local também precisa ser reconhecida.

Pedro Rivera – Eu acredito que as cidades são a maior invenção do homem. São, inclusive, a nossa maior invenção cultural, porque dentro da cidade está tudo. Todas as nossas expressões cabem e são suportadas pela cidade e houve um momento em que a arquitetura soube, de certa forma, se dedicar de uma maneira muito potente a imaginar o homem e seu espaço. Mas ela caiu na armadilha de achar que poderia produzir um novo homem. Essa foi a grande crise da arquitetura da qual não saiu até hoje, não conseguiu se colocar direito em nenhum campo. É uma loucura achar que a arquitetura tem a capacidade de repensar de uma maneira tão profunda as instituições culturais, as tradições etc. Por outro lado, ela é inerte e completamente incapaz de se impor dentro de um cenário político. Um exemplo: nas políticas do Ministério da Cultura não existe uma linha dedicada à arquitetura, a não ser que seja patrimônio histórico, porque aí não se pensa nela como arquitetura e sim como patrimônio. A gente não considera a importância da dimensão cultural que a arquitetura pode produzir enquanto urbanismo, em espaço mais generoso e mais aberto. Isso é completamente condicionado pelas determinantes do mercado.

Teresa Guilhon – Estamos falando muito sobre a cidade moderna, o Hospital Psiquiátrico Nise da Silveira é um notável equipamento modernista. É um espaço imenso, imponente e faz parte desse paradigma.

Pedro Rivera – É engraçado, mas existe uma distância muito grande entre o que se produziu na arquitetura e no urbanismo moderno. A intenção dos conceituadores da arquitetura do mundo moderno era a intenção do homem generoso, em Brasília as quadras eram para todas as classes sociais viverem juntas, mas esse modelo era tão fora da realidade que não se conseguiu implantar.

Edmar Junior de Oliveira (Hotel Spa da Loucura) – Acho que os lugares têm que ser apropriados, não dá mais para ter essa padronização estética que gera preconceito, indiferença e discriminação. A cultura tem que ser um espaço de direito que gera autonomia, um espaço que gera entendimento do outro. Temos que assumir nosso lugar de direito, não só no Hotel da Loucura, mas em todos os lugares.

Beatriz Jaguaribe – A gente demoniza muito Brasília, a cidade que não tem esquina e possui toda aquela monumentalidade, mas, ao mesmo tempo, aquela foi uma grande utopia. A ideia do superbloco era exatamente uma ideia de igualitarismo. A ironia é que esse superbloco veio a se repetir em todas as cidades brasileiras, mas não de uma forma aberta, comunitária e igualitária. Ele veio a se repetir como condomínio fechado. A Barra da Tijuca é um lote de superbloco de condomínio fechado, uma arquitetura de medo. Então, não é o desenho que vai trazer o uso social adequado. Perdemos a capacidade projetiva de imaginar a cidade com um certo sentido, porque não temos mais uma boa capacidade de leitura.

Marcão Baixada (Rapper) – Hoje em dia acontece uma coisa interessante, que é o Estado se apropriar das iniciativas da rua. Existe um cineclube em Nova Iguaçu, o Buraco do Getúlio, que sempre buscou apoio da Secretaria de Cultura, mas encontrava barreiras. Agora a Casa de Cultura de Nova Iguaçu criou um espaço onde o Cineclube Buraco do Getúlio era realizado nas gestões de cultura anteriores à atual.

Beatriz Jaguaribe – A cultura está sendo inventada de uma forma vital em muitos lugares e claro que existe a força de apropriação do Estado. Eu gosto muito do livro Guia Afetivo da Periferia, do Marcus Vinicius Faustini, porque ele tem uma ideia de invenção cultural própria ao mesmo tempo em que vai caminhar pela cidade e vai se apropriar do que dá vontade. O teu lugar de pertencimento tem que ser sua força e sua base, mas você tem que falar de tudo, tem que ter direito à cidade e caminhar por tudo.

Juventude em encruzilhada

José Eisenberg: "O Rio odeia partidos" / Foto: Paula Giolito

José Eisenberg: “O Rio odeia partidos” / Foto: Paula Giolito

Crise de mobilidade social, explosão demográfica da juventude e uma cidade que se vê como expressão e representação do país. O cientista social José Eisenberg partiu dessas três premissas para engrenar uma explicação e arriscar respostas para cada uma das perguntas sugeridas pelo Rio de Encontros.

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As manifestações de junho de 2013, cuja demografia era marcadamente jovem e universitária, foram o estopim que garantiria o merecido protagonismo dessa faixa etária também na pesquisa sociológica no Brasil. “Nós começamos a pensar: será que tínhamos ali um indicador de alguma coisa que estava apontando para um certo tipo de interesse que as juventudes presentes nas redes sociais brasileiras já manifestavam por um tema que era divergente, no sentido de distante, não próximo, mas cuja semântica aludia a afetos, símbolos, desejos e anseios, que eram convergentes?”, Eisenberg dividiu o questionamento com a plateia.

A observação apontou para a encruzilhada em que se encontram esses jovens. “Por sugestão e financiamento dos pais e do Estado, eles adiaram o ingresso no mercado de trabalho para estudar mais. Hoje, entretanto, esse diploma não parece capaz de assegurar salário digno. O prêmio salarial vem caindo com o aumento da escolaridade. Particularmente com diploma de ensino superior, que cada vez mais é uma estratégia de ganhos decrescentes para o diálogo entre a geração que estuda e aquela que financia os estudos. De um lado, uma expectativa frustrada de oferecer aos filhos vida melhor do que a própria e, de outro, uma expectativa crescente de que quatro anos fora do mercado de trabalho pudessem se traduzir em maior empregabilidade.”

As promessas foram muitas e os investimentos, altos. “Construiu-se uma nova base demográfica do que é o jovem universitário hoje no Brasil. Em que classe colocamos essas pessoas que estão vivendo essa mobilidade, essa crise de mobilidade o tempo inteiro?”, prosseguiu.

Somado a esses dois pontos está um Rio que transborda recalque. “O Rio é uma cidade recalcada. E isso ocorre porque, como cidade, ela vive a síndrome da capital abandonada, não se compreende como região. O Rio de Janeiro não se compreende como endógeno de um lugar com tradições regionais, fragmentadas, parte da nação. O Rio de Janeiro se entende como expressão da nação. O político carioca, quando fala da política do Rio, não fala como se falasse da política de sua cidade. Ele fala como se falasse de algo que, na pior das hipóteses, é uma representação suficiente da nação”, disse ele, sem meias palavras.

Para fechar a primeira fala, José Eisenberg reservou respostas diretas sobre os temas que pontuaram o Rio de Encontros:

Como a mobilização da juventude vai impactar nas urnas?

A resposta, óbvio, eu não sei. Agora, nós não estamos aqui pra brincar de não sei, estamos aqui pra jogar pôquer. Nem que seja pra perder. Eu acho que não vai ter impacto nenhum. Vai ter vinte mil militares na rua, em junho, no Rio de Janeiro. As greves, os movimentos sociais aos quais nós estamos assistindo agora são todos clássicos sindicais, associados a pleitos, reivindicações que estão ligadas a movimentos de conflitos entre duas centrais sindicais e aos movimentos específicos de pleitos daqueles setores estratégicos capazes de chantagear o governo num momento como esse. Aquelas características etnograficamente visíveis das manifestações ano passado, a diluição de pauta, coisas que as pessoas tratavam como negativas, mas que eram suas próprias virtudes dentro da medida, estão ausentes hoje daquilo que nós encontramos como mobilização de rua. Quem está lá são os rodoviários, os professores, são os servidores da cultura. É gente com pauta sindical.

Mobilização ou mobilidade?

Há uma relação curiosa entre a ideia de mobilização e mobilidade. E quando eu falo de crise de mobilidade social, é quase inconcebível pensar que a ideia de mobilidade, da possibilidade de se mexer ao longo da escala da riqueza, não tem algum vínculo à ideia daquilo que nós chamamos de mobilização. É engraçado. Mobilização é quando as pessoas param em algum lugar – elas se tornam imóveis. É imobilização, né? Mas não, nós chamamos de mobilização porque as pessoas se dispõem a sair de um lugar para ir a outro. Elas se mobilizam, elas se movem para aquele lugar. Na medida em que haja, e sejamos obrigados a reter, pelo menos no plano simbólico, essa relação semântica entre a ideia de mobilização e mobilidade, nós estamos jogando pôquer com essa brincadeira. Porque a qualquer momento sai uma faísca, matam alguém no Pavão Pavãozinho que é de um programa televisivo da Regina Casé e tudo muda. É um mundo que vive um pouco essa expectativa do imprevisto, do imprevisível. Mas sobre isso não se fala, apenas se teme, sobre isso apenas se especula.

Quanto vale o voto?

Nós não podemos esquecer que o voto é barato. A gente tende a achar que todo mundo coloca um enorme investimento na decisão do voto – o voto racional, o voto afetivo, o voto carismático – mas é sempre a ideia do voto investido, de intenção, de adesão. Hoje, na sociedade capitalista contemporânea, aqui e alhures, o voto é uma coisa que, independentemente da sua geração, gera pouca adesão. Eu acho que essa nova geração, inclusive, que vive essa crise de mobilidade, tem para si o voto mais barato ainda e, portanto, vai decidir em quem vai votar duas horas antes de chegar à urna. E tanto faz, tanto fez. Que diferença vai fazer?

As nossas eleições só têm altos índices porque o voto é obrigatório. Agora, achar que o voto é esse momento de investimento quase que religioso com uma convicção é perder a dimensão rebaixada que esse ato tem no contexto da sociedade de massa.