Como o Rio vota? Política, representação e redes sociais

Como o Rio vota? Convidados e plateia no Rio de Encontros / Foto: Paula Giolito

Como o Rio vota? Provocadores e plateia no Rio de Encontros / Foto: Paula Giolito

A política afina o espírito humano, educa os povos, desenvolve nos indivíduos atributos como a coragem e a nobreza, defendia Rui Barbosa. Fosse contemporâneo, o escritor, jurista e parlamentar bem que poderia estar entre os convidados do Rio de Encontros realizado no dia 27 de maio. A edição pré-Copa do Mundo no Brasil, que adiantou outro evento que, se não mexe igualmente com os nervos do país, afeta todas as esferas da vida cotidiana do brasileiro: as eleições de outubro.

Para o embate de ideias e opiniões com a plateia, três convidados que não medem  força, mas defendem com loquacidade suas convicções. Durante duas horas e meia, o cientista político José Eisenberg, o antropólogo e diretor do Instituto Mapear, Cláudio Gama, e o jornalista político Alexandre Rodrigues, do jornal O Globo, discorreram sobre como a mobilização da juventude hoje nas ruas vai impactar as urnas, qual será a influência das redes sociais no processo eleitoral, o papel dos partidos no cenário político do Rio e as eventuais mudanças no perfil do eleitor da cidade.

Na apresentação dos convidados para o papel de provocadores, a socióloga Silvia Ramos, representando O Instituto, justificou o tema do dia, “Como o Rio vota, política, representação e redes sociais”:

“O Rio eleitoral era um tema central dez anos atrás, mas foi se deteriorando. Hoje, há uma rejeição à política tradicional. Cada vez mais as pessoas estão desencantadas com a política. Como enfrentar esse dilema? A ideia, portanto, é discutir não somente em quem o Rio vota, mas como vota, nesse momento específico e único no Brasil”, esclareceu ela, já passando o microfone adiante para os convidados da vez.

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Caiu na rede

Alexandre Rodrigues: "A imprensa é um pilar da democracia, não pode ser desmoralizada” / Foto: Paula Giolito

Alexandre Rodrigues: “A imprensa é um pilar da democracia, não pode ser desmoralizada” / Foto: Paula Giolito

O jornalista Alexandre Rodrigues abriu a conversa. Com passagens pela editoria de economia, é na política que ele investe agora, principalmente em compreender as mudanças que vêm ocorrendo no país. O dever de casa devidamente pronto, defendeu a influência das mídias sociais no processo eleitoral, alertou para a cautela necessária na disseminação das informações via internet, adargou a imprensa como fonte confiável e pilar da democracia, realçou o caráter peculiar do Rio no cenário político nacional quando se trata de exercer o direito ao voto.

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O carioca tem lá suas especificidades em relação ao voto do brasileiro em geral, mas o cenário econômico, segundo Alexandre, vem assumindo um papel central nas eleições em todo o país.

“Economia tem muito a ver com política. Cada vez mais, as eleições têm sido decididas baseadas no tema socioeconômico. O bem estar pessoal conta muito na hora de decidir o voto, especialmente para presidente, aquele governante que não está perto do seu cotidiano, de uma necessidade mais local.”

No que o Rio se distancia – ou se diferencia – é na vocação para as vias alternativas. “Aqui, o PT e o PSDB são partidos pequenos, com pouca expressão e sem grandes líderes. A história política do estado provocou essa desconexão entre dois grandes partidos no plano nacional. Há uma influência muito grande do brizolismo, o que eu chamo de ‘os filhos do Brizola’. Muitos dos líderes dos principais partidos no Rio, hoje, vieram daí: o Cesar Maia, o Garotinho, o Eduardo Paes. A origem é a mesma, embora eles tenham ou se apresentem com visões completamente antagônicas”.

A confusão ideológica é certa. “No Rio, essa matriz comum do brizolismo acabou também fazendo com que a gente não reproduzisse o jogo nacional, em que o PT e o PSDB acabaram ficando hegemônicos”, disse ele, apontando para as votações expressivas de Heloisa Helena, em 2006, Fernando Gabeira, em 2008, Marina Silva, em 2010, como exemplos.

O eleitorado do Rio carrega certa rebeldia. E agora, além dessa característica, os candidatos vão ter de lidar com novos componentes, que são a mobilização de jovens, o que ganhou força com as manifestações de junho de 2013, e o uso de mídias sociais.

“De alguma forma, a campanha do Gabeira em 2008 inspirou muito a da Marina Silva em 2010, que envolveu muitos jovens. Eles participaram da campanha como voluntários, o que não se via há muito tempo. Os jovens são idealistas, inconformados com a realidade, têm vontade de mudar. E isso dá motivação genuína para participação na política”, ressaltou.

A inovação de que Alexandre Rodrigues fala não vem apenas da internet. Mas as mídias sociais, segundo ele, representam uma nova praça, o novo espaço de conversa. “As mídias sociais vão influenciar muito a eleição desse ano, pelo fato de as pessoas terem mais acesso à informação. E isso faz com que os jovens todos que estão integrados fiquem muito parecidos – mesmo os de classes sociais diferentes acabam tendo acesso ao mesmo tipo de informação – e conversem as mesmas coisas”.

Cabe aos políticos, se quiserem acertar, assumir o quão fortes essas redes podem ser. “Eles ainda não entenderam como usar esse instrumento. Hoje, os candidatos têm menos fãs no Facebook do que o Guaraná Antártica. Acho que eles precisam ser mais genuínos, confiar, conversar mais”, opinou.

Confiança é palavra-chave quando se trata de mídia social. “As pessoas confiam no amigo do facebook, há grande possibilidade de credibilidade aí. Por outro lado, há o risco da guerra suja na internet. A difusão de informações erradas, fora de contexto, mentiras, boatos, sensacionalismo, coisas que tornam-se virais. Isso vai ser um grande problema nessa campanha”.

E é no cuidado urgente sobre a origem da informação, que entra o jornalismo. “País nenhum ganha deslegitimando a imprensa. É muito importante saber quem produz e como produz a informação”, sentenciou Alexandre.

Juventude em encruzilhada

José Eisenberg: "O Rio odeia partidos" / Foto: Paula Giolito

José Eisenberg: “O Rio odeia partidos” / Foto: Paula Giolito

Crise de mobilidade social, explosão demográfica da juventude e uma cidade que se vê como expressão e representação do país. O cientista social José Eisenberg partiu dessas três premissas para engrenar uma explicação e arriscar respostas para cada uma das perguntas sugeridas pelo Rio de Encontros.

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As manifestações de junho de 2013, cuja demografia era marcadamente jovem e universitária, foram o estopim que garantiria o merecido protagonismo dessa faixa etária também na pesquisa sociológica no Brasil. “Nós começamos a pensar: será que tínhamos ali um indicador de alguma coisa que estava apontando para um certo tipo de interesse que as juventudes presentes nas redes sociais brasileiras já manifestavam por um tema que era divergente, no sentido de distante, não próximo, mas cuja semântica aludia a afetos, símbolos, desejos e anseios, que eram convergentes?”, Eisenberg dividiu o questionamento com a plateia.

A observação apontou para a encruzilhada em que se encontram esses jovens. “Por sugestão e financiamento dos pais e do Estado, eles adiaram o ingresso no mercado de trabalho para estudar mais. Hoje, entretanto, esse diploma não parece capaz de assegurar salário digno. O prêmio salarial vem caindo com o aumento da escolaridade. Particularmente com diploma de ensino superior, que cada vez mais é uma estratégia de ganhos decrescentes para o diálogo entre a geração que estuda e aquela que financia os estudos. De um lado, uma expectativa frustrada de oferecer aos filhos vida melhor do que a própria e, de outro, uma expectativa crescente de que quatro anos fora do mercado de trabalho pudessem se traduzir em maior empregabilidade.”

As promessas foram muitas e os investimentos, altos. “Construiu-se uma nova base demográfica do que é o jovem universitário hoje no Brasil. Em que classe colocamos essas pessoas que estão vivendo essa mobilidade, essa crise de mobilidade o tempo inteiro?”, prosseguiu.

Somado a esses dois pontos está um Rio que transborda recalque. “O Rio é uma cidade recalcada. E isso ocorre porque, como cidade, ela vive a síndrome da capital abandonada, não se compreende como região. O Rio de Janeiro não se compreende como endógeno de um lugar com tradições regionais, fragmentadas, parte da nação. O Rio de Janeiro se entende como expressão da nação. O político carioca, quando fala da política do Rio, não fala como se falasse da política de sua cidade. Ele fala como se falasse de algo que, na pior das hipóteses, é uma representação suficiente da nação”, disse ele, sem meias palavras.

Para fechar a primeira fala, José Eisenberg reservou respostas diretas sobre os temas que pontuaram o Rio de Encontros:

Como a mobilização da juventude vai impactar nas urnas?

A resposta, óbvio, eu não sei. Agora, nós não estamos aqui pra brincar de não sei, estamos aqui pra jogar pôquer. Nem que seja pra perder. Eu acho que não vai ter impacto nenhum. Vai ter vinte mil militares na rua, em junho, no Rio de Janeiro. As greves, os movimentos sociais aos quais nós estamos assistindo agora são todos clássicos sindicais, associados a pleitos, reivindicações que estão ligadas a movimentos de conflitos entre duas centrais sindicais e aos movimentos específicos de pleitos daqueles setores estratégicos capazes de chantagear o governo num momento como esse. Aquelas características etnograficamente visíveis das manifestações ano passado, a diluição de pauta, coisas que as pessoas tratavam como negativas, mas que eram suas próprias virtudes dentro da medida, estão ausentes hoje daquilo que nós encontramos como mobilização de rua. Quem está lá são os rodoviários, os professores, são os servidores da cultura. É gente com pauta sindical.

Mobilização ou mobilidade?

Há uma relação curiosa entre a ideia de mobilização e mobilidade. E quando eu falo de crise de mobilidade social, é quase inconcebível pensar que a ideia de mobilidade, da possibilidade de se mexer ao longo da escala da riqueza, não tem algum vínculo à ideia daquilo que nós chamamos de mobilização. É engraçado. Mobilização é quando as pessoas param em algum lugar – elas se tornam imóveis. É imobilização, né? Mas não, nós chamamos de mobilização porque as pessoas se dispõem a sair de um lugar para ir a outro. Elas se mobilizam, elas se movem para aquele lugar. Na medida em que haja, e sejamos obrigados a reter, pelo menos no plano simbólico, essa relação semântica entre a ideia de mobilização e mobilidade, nós estamos jogando pôquer com essa brincadeira. Porque a qualquer momento sai uma faísca, matam alguém no Pavão Pavãozinho que é de um programa televisivo da Regina Casé e tudo muda. É um mundo que vive um pouco essa expectativa do imprevisto, do imprevisível. Mas sobre isso não se fala, apenas se teme, sobre isso apenas se especula.

Quanto vale o voto?

Nós não podemos esquecer que o voto é barato. A gente tende a achar que todo mundo coloca um enorme investimento na decisão do voto – o voto racional, o voto afetivo, o voto carismático – mas é sempre a ideia do voto investido, de intenção, de adesão. Hoje, na sociedade capitalista contemporânea, aqui e alhures, o voto é uma coisa que, independentemente da sua geração, gera pouca adesão. Eu acho que essa nova geração, inclusive, que vive essa crise de mobilidade, tem para si o voto mais barato ainda e, portanto, vai decidir em quem vai votar duas horas antes de chegar à urna. E tanto faz, tanto fez. Que diferença vai fazer?

As nossas eleições só têm altos índices porque o voto é obrigatório. Agora, achar que o voto é esse momento de investimento quase que religioso com uma convicção é perder a dimensão rebaixada que esse ato tem no contexto da sociedade de massa.