Rio de imagens: fotografia e narrativas da cidade

Estamos nos aproximando do final do ciclo RIO DE ENCONTROS 2015.

Se você ainda não pôde participar dos nossos debates este ano, não pode perder este, pois o tema mais uma vez promete uma boa conversa.

No dia 29 de outubro, vamos discutir a relação da fotografia na construção de narrativas sobre a cidade, com a ajuda das visões da pesquisadora Ana Mauad; do fotógrafo Maurício Hora; do escritor e curador Pedro Vasquez; e mediação da fotógrafa e cientista social Kita Pedroza.

Local e horário: AUDITÓRIO DA ESPM/RIO (Rua do Rosário, 90 – Centro), das 14h às 17h30.   

Pedimos para não esquecer de confirmar sua presença pelo email: riodeencontros@oinstituto.org.br  

Mais detalhes no convite abaixo.

Esperamos você!

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Utopias da cidade maravilhosa

Desafios e desejos para o Rio de Janeiro aquecem debate do Rio de Encontros

É possível ter utopias quando se é “a” Cidade Maravilhosa? Até onde vai o perímetro real desse lugar de imagem simbólica tão forte? Como enfrentar a realidade de contornos mais amplos? Desafiador, o tema do 4º Rio de Encontros, “Utopias da Cidade Maravilhosa”, pôs lado a lado diferentes visões sobre o papel da utopia na vida do Rio de Janeiro e seus moradores. Em três horas de conversa, no auditório da ESPM, no Centro, os provocadores e a plateia trocaram ideias sobre o tema, ampliando o debate mediado pela jornalista Anabela Paiva para tópicos como mobilidade urbana, investimento em novas centralidades, saneamento básico, história, violência… Não é fácil ser utópico – mas, às vezes, é muito necessário.

Oras discordantes, e por vezes complementares, as visões do arquiteto e urbanista Washington Fajardo, presidente do Instituto Rio de Patrimônio da Humanidade, e do sociólogo Marcelo Burgos, professor da PUC-Rio, ampliaram as discussões sobre a cidade possível e a desejável – sem todas elas desafiadoras para gestores, pensadores e moradores da cidade. As transformações por que passa o Rio foram o ponto mais sensível do debate. “Se o mundo popular não se aproveitar do mundo para ter voz, vai ter seu espaço reduzido ao Parque Madureira”, alertou Burgos, trazendo para a discussão questões sobre democratização de acesso à cidade, mobilidade, transporte de massa e outros mecanismos de circulação, menos excludentes. Burgos também criticou a pouca transparência das ações da prefeitura sobre as obras da cidade, que têm causado inúmeros transtornos ao morador, sem que se saiba ao certo todos os planos colocados em ação – bem como seus interesses. “A obra da Perimetral é de uma fúria assustadora. E é impressionante o quanto aquilo, de alguma maneira, enlouqueceu a cidade”, observou Burgos, para quem o Instituto Pereira Passos – IPP perdeu relevância na produção de dados e informações sobre a cidade. “Lutar por direito à cidade é também lutar por direito à informação”.

Leia mais sobre a participação de Marcelo Burgos

O que você chama de fúria eu chamo de vontade aguerrida. Tenho absoluta convicção de que a decisão de derrubar a Perimetral é correta e a visão da prefeitura é explícita. Todo mundo sabe que a gente tem metas e resultados. Concordo que as estruturas de planejamento estão fragilizadas, mas a gente precisa falar sobre isso. As respostas são todas embaralhadas”, opinou Fajardo, tratando também das dificuldades do município em lidar com questões metropolitanas, para além dos limites de cada prefeitura. Fajardo também apontou que na discussão sobre cidade há um “debate equivocado na dialética popular e elite, que não resolve problemas”. “Como se produz qualidade para o serviço público? Com gestão”, resumiu.

Leia mais sobre a participação de Washington Fajardo

O debate também contou com a designer e historiadora Isabella Perrotta, que há alguns anos se dedica a estudar as formas de representação da cidade.

Leia mais sobre a participação de Isabella Perrotta

Atenta, a plateia formada pela Turma Rio de Encontros, Universidade das Quebradas, alunos da ESPM e convidados incrementou o debate, apresentando questões da realidade da cidade e levantando novas utopias possíveis.

Entre os temas, muito se discutiu sobre mobilidade urbana, especialmente as obras do VLT, que vão atender parte da cidade, retomando uma malha já percorrida pelos bondes que, no passado, conectavam o Rio de Janeiro de forma muito mais eficiente. “O VLT é um modelo de transporte que para ser feito tirou milhares de pessoas de suas casas, e leva daqui para ali”, questionou Igor Soares, sobre o novo meio de transporte na cidade, que de alguma forma retoma o caminho do bonde, que, como lembrou Fajardo, em 1966 tinha, ligava Madureira ao Jardim Botânico, através de 400 km de trilhos. “A gente abandonou esse tipo de mobilidade, porque a gente depreciou o que tinha”, pontuou Fajardo, que, em sua fala, insistiu em valorizar o que funciona na cidade, em vez de buscar soluções ideais, e nem sempre eficientes.

Leia algumas frases do debate aqui

O próximo encontro será dia 24 de setembro, a partir de 14h, no auditório da ESPM, com o tema “A favela no imaginário carioca”. Uma iniciativa d’O Instituto, com patrocínio da ESPM, o Rio de Encontros é realizado em parceria com CeSEC e Universidade das Quebradas, e apoio da Agência de Redes para a Juventude, site Vozerio e Casa Fluminense.

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Em busca da cidade que já existe

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WASHINGTON FAJARDO destaca o papel das ciências urbanísticas na construção da cidade mais real e menor utópica “Queria trazer para vocês a perspectiva de alguém que trabalha a cidade sob o ponto de vista de seu valor histórico”, pontuou Fajardo, logo no início de apresentação, em que fez uma crítica à ideia de utopia, jogando luz sobre a ciência urbanística, que, para ele, “ainda está na sua forma inicial”, fazendo uma analogia aos primeiros experimentos de colocar a imagem em movimento, feitos no início do século passado pelo fotógrafo inglês Eadweard Muybridge. “A forma desenvolvida e mais bem acabada do planejamento urbano ainda está para acontecer porque a gente ainda está conhecendo e entendendo a cidade e seus movimentos”, comparou o arquiteto e urbanista, presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, órgão da Prefeitura do Rio para o patrimônio cultural do município. Com os pés fincados na realidade, Fajardo recorreu a dados diversos e concretos para falar sobre a complexidade de problemas e soluções para uma cidade como o Rio de Janeiro, de escala metropolitana. E concentrou sua análise na região central da cidade, teoricamente tida como região consolidada, segundo o Plano Diretor, mas que guarda vários desafios para a administração municipal, que poderiam ser mais bem avaliados, monitorados e resolvidos se houvesse, por exemplo, mais pessoas morando no Centro, em seus sobrados bem conservados e subutilizados para este fim. Fajardo fez uma ponte entre o passado da cidade o momento de transformação pelo qual o Rio e seus moradores estão passando neste momento, com as mudanças urbanísticas profundas na região central, com a derrubada da Perimetral, por exemplo. “A gente vai ter uma mobilidade nova no Centro do Rio com o VLT, que vai circular por essa nova frente marítima, podendo aumentar a coesão entre os espaços culturais do Centro. É uma oportunidade boa para a cidade, e traz uma perspectiva nova para nossa relação com a cidade”, defendeu Fajardo, lembrando que a ideia do Rio como cidade de praia surgiu no século 20, com a ocupação da região litorânea. “Até então, era uma cidade de porto, dedicada à Baía de Guanabara, à sua vida histórica e cultural”.

Mais ciência e menos utopia para lidar com a cidade conectada a outras cidades e com fluxo de informação contínuo, manejar uma cidade da dimensão do Rio de Janeiro exige esforço. “O ato de atravessar uma rua envolve o esforço coordenado de 18 órgãos diferentes: o que pinta a faixa de pedestre, o que pavimenta a calçada, o que faz o calçamento da rua, o que planta a árvore, o que poda, o que faz a iluminação pública, o que planeja os sinais, o que controla o trânsito, o que cuida da segurança… E por aí vai. As cidades funcionam dessa maneira, há bastante tempo no mundo. É preciso aumentar o conhecimento sobre como isso é gerenciado”, disse Fajardo, que insistiu bastante na necessidade de criar mecanismos de gerenciamento e monitoramento do planejamento urbano da cidade – uma questão complexa, e nada utópica. Para ele, as tecnologias de informação têm papel fundamental para o conhecimento maior da cidade e sua gestão – e, segundo ele, o uso de todo o potencial desses recursos tem sido muito maior no campo, em áreas rurais, onde drones controlam maquinário e as tecnologias de geo-referenciamento são muito mais avançados que no espaço urbano. “A cidade produz na gente uma soberba sobre conhecimento e nossa onipotência, e isso é falso”, disse Fajardo.

Fajardo fez um histórico sobre viver nas cidades, um processo iniciado há seis mil anos, que envolveu um aprendizado sobre controle de território, infraestrutura, recursos hídricos, que encontrou seu momento de explosão no final do século 19, com a industrialização. É o momento de crescimento absurdo das cidades e da consequente necessidade de ordenar o espaço, em função do adensamento demográfico, quando surgem as ciências urbanísticas, para equacionar os problemas que iam surgindo. “A ideia de embelezamento, do território belo, surge a partir daí”, diz. Barcelona, Paris e Viena são exemplos de soluções de cidade que surgem e influenciam o mundo inteiro – inclusive o Rio de Janeiro. O desenvolvimento amplia a vida da cidade: com a luz elétrica, a cidade passa a poder existir 24 horas por dia. “Outros valores vão surgindo, como o conforto, a mobilidade, as questões sociais, até a gente começar a tratar a cidade como um conteúdo próprio”, historiou Fajardo, apontando para uma semelhança cada vez maior entre as cidades, num futuro bem próximo. “As cidades do planeta serão muito mais parecidas em 2030 com as latino-americanas, africanas e asiáticas”, disse, mostrando as projeções sobre crescimento populacional mundial. “Os nossos desafios serão os desafios do mundo”, acredita o convidado, para quem o Rio de Janeiro tem qualidades e, por isso pode ter um papel interessante para responder a esses desafios, “de maneira não utópica”. “Isso atrapalhou muito a gente na nossa história”, sentenciou. “A melhor cidade que existe é a cidade que existe”, diz, rejeitando a ideia de que “a melhor cidade está num plano utópico”. “A cidade que a gente já tem hoje é plena de soluções para as questões econômicas, sociais e culturais”, acredita. “A gente não valoriza a cidade que temos, porque acreditamos que a que vamos fazer é melhor”, critica.

Velocidade e amplitude: o carro na origem do plano da cidade “O plano que mais influenciou as cidades no século 20 tinha na sua origem a ideia de dar espaço para o carro e nenhuma outra cidade como a nossa acreditou de uma maneira tão intensa nisso”, disse Fajardo, referindo às propostas de reforma de Paris, feitas em 1923 pelo arquiteto franco-suíço Le Corbusier, no chamado Plano Voisin, apontado como fundador do pensamento urbanístico no século 20. Amigos de Santos Dumont, os irmãos Voisin, empresários industriais, faziam… carros. “A gente fez nossa cidade dessa maneira e trouxe dois valores territoriais importantes: a ideia de velocidade e a de amplitude”, citou. “São valores presentes até hoje e a gente acha isso bom, e isso vira capital político. Quero questionar essas duas ideias”.

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Para demonstrar o que dizia, Fajardo apresentou o plano criado por Reidy para a Esplanada de Santo Antônio, onde fica a Avenida Chile, com edifícios de autarquias da então capital da República. Fajardo aponta problemas de gestão urbana daquela região. “Da Escola de Música da UFRJ até a Rua da Carioca são 930 metros sem fachada. Como você gere um lugar que não tem fachada, que não tem pessoas?”, pontua. É preciso questionar conceitos para discutir a cidade com suas questões contemporâneas. Sendo assim, Fajardo, em vez de falar sobre transporte público prefere adotar a expressão mobilidade sustentável, que inclui a ideia de diferentes tipos de transporte para o deslocamento pela cidade. “Do ponto de vista econômico, a gente também fala no plano utópico: a gente acredita no pré-sal de maneira absoluta para resolver todos os nossos problemas, o que não vai acontecer. Há uma trama de negócios urbanos que duram 100 anos, como pequenos bares e restaurantes, e a gente não presta atenção neles”, comparou, lembrando que a prefeitura desenvolveu com o Sebrae uma série de iniciativas voltadas para esse tipo de pequeno comércio tradicional, que resiste no tempo.

Planejamento ou agenciamento urbano: novas abordagens sobre a cidade “Esse raciocínio utópico e funcionalista da cidade não é só dos urbanistas: a sociedade brasileira aderiu a ele, desejamos isso para nossa cidade. Esse valor organiza a lógica de planejamento urbano. Arquitetos e urbanistas, historicamente, ainda reptem que é isso que vai resolver as cidades. Planejamento urbano é o meio pelo qual a gente pode chegar a gente pode chegar a algum resultado. Então a gente precisa falar do resultado, que é produzir uma boa cidade. E o que é uma boa cidade? Na hora que a gente desloca o foco do debate sobre planejamento urbano e não está discutindo a boa cidade, a gente não sabe onde quer chegar, ou chega nesses momentos funcionalistas que acho equivocados e que têm influenciado ainda nossa lógica urbana. Nós estamos ainda bebendo na fonte da utopia sobre as cidades e acho isso muito perigoso, porque a gente não olha para a cidade boa que a gente já tem”.

Para Fajardo, partindo do princípio que a cidade já tem qualidades, a questão é como fazer para cuidar dela, de seus diversos pequenos problemas, num “manejo de sistema complexo”. Citou, por exemplo, a possível destinação de sobrados do Centro do Rio para moradia, o que poderia melhorar a vida da região, onde imóveis em bom estado de conservação são subutilizados, mantidos vazios pelos proprietários. Moradias no Centro poderiam ajudar a melhorar os cuidados com o Centro. “A gente precisa ter uma visão sistêmica sobre a realidade da cidade”, diz, explicando o que define como “agenciamento urbano”, que é a criação de metodologias para lidar com a cidade que existe.

O urbanista insistiu nas medidas práticas para solução de problemas complexos da cidade, no lugar das ideias mais teóricas – e utópicas. “Uma rua organizada é uma rua boa para todo mundo”, resumiu. “Entendo que a gente afasta esse tipo de valor se pensa na cidade apenas na lógica do planejamento urbano e não do agenciamento urbano”, disse. Outro valor importante citado por Fajardo é do que ele chama de “andabilidade”. “A gente fala pouco disso, que é o valor de andar na cidade, e ainda não trata a calçada como uma infraestrutura necessária”, disse, ressaltando que as calçadas são lugares de encontro importante para a vida da cidade.

São problemas práticos cuja discussão é necessária para a construção de uma cidade melhor. “Por causa do pensamento utópico, a gente esquece rápido. E lembrar é importante”, disse, referindo-se às soluções adotadas na região portuária, que passa por intensa transformação, e onde foi feito um esforço para garantir naquela área espaço também para moradia. Citou também outras iniciativas no Centro que foram tomadas para atrair e aumentar a circulação de pessoas, como a retirada das grades da Praça Tiradentes, e a retirada da Perimetral. “Esse é um trabalho muito importante. Nossa relação com a Baía de Guanabara era muito cômoda: a gente passava de carro, dentro do ar condicionado, ouvindo música, e olhava distante para ela, sem relação com esse meio natural, que a gente tem quando anda do lado. Antes, a gente só tinha contato com a Baía por pouco mais de 200 metros, na área do Cais Pharoux (na Praça 15). Agora, isso vai aumentar para cerca de 3km, e isso é muito. Da mesma maneira, do ponto de vista econômico, a gente começou a reconhecer negócios tradicionais, como pequenos bares e restaurantes tradicionais, como patrimônio importante”, contou Fajardo, que encerrou a apresentação citando uma frase famosa de Shakespeare, na tragédia Coriolano: “O que é a cidade senão as pessoas?”

Rio de Janeiro: a cidade e suas águas

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“O Brasil tem 56,5 milhões de casas. 85% delas têm cano de água potável chegando. Dessas, 48,9% têm cano de esgoto saindo. Em nenhum país minimamente decente tem esse número menor que 95%. Peru, Paraguai, Argentina, Colômbia, todos os países da América do Sul são melhores que o Brasil, que é mais rico. Ou seja: isso não é falta de riqueza, mas de vergonha”. A afirmação do engenheiro civil Paulo Canedo, professor da Coppe/UFRJ, especialista em hidrologia, foi feita no terceiro Rio de Encontros do ano, que teve como tema “Rio de Janeiro: a cidade e suas águas”.

Os índices apresentados por Paulo Canedo, que fez um histórico sobre o abastecimento de água na cidade, traduziram em números os problemas que muitos conhecem na prática. “No Borel, todos os canos passam por valas e valões. Não preciso ser sanitarista ou engenheiro para entender que isso é um absurdo. Já teve caso de hepatite por causa de água misturada com esgoto”, disse Igor de Souza Soares, integrante da Turma Rio de Encontros, no debate que se seguiu à apresentação de Paulo Canedo e do arquiteto Pedro Rivera, os dois provocadores desta edição.

Leia mais sobre a participação de Paulo Canedo

Rio_de_Encontros-5Traço marcante do Rio, a paisagem também não ficou de fora da conversa, mediada por Ilana Strozenberg. “Nossa cidade é construída em cima das águas, como se vê no mapa sobre a evolução dos aterros. A geografia do Rio é muito produzida numa história de embates do homem com a natureza”, pontuou Pedro Rivera, historiando a sucessão de desmontes de morros e aterros, que alteraram enormemente a conformação da cidade. “Quando a gente vê o mapa dos morros, lagoas e aterros do Rio, é muito fácil entender porque a gente sofre dos males que sofre”, analisou Pedro, enquanto apresentava imagens dos séculos 18, 19 e 20, em que é possível observar as alterações na paisagem e no modo de vida da cidade, até chegar ao que conhecemos hoje. “Para mim, o arquiteto mais importante da cidade é um paisagista, o Burle Marx, que desenhou nossa orla, projeto de um homem que conseguiu ter uma excelência tão grande como a natureza”, destacou.

Leia mais sobre a participação de Pedro Rivera

Realizado excepcionalmente no Studio X – este ano, as edições estão sediadas na
ESPM, no Centro – o encontro lotou o auditório, com participantes que integram a Turma Rio de Encontros, alunos da ESPM, da Universidade das Quebradas, e público em geral, interessado no assunto. Como sempre, a plateia mostrou-se afiada, curiosa, bem informada e disposta para o debate.

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De onde vem a água que o morador da região metropolitana bebe? E quando se aperta a descarga do vaso sanitário, para onde vai aquela água? Por que os rios são tão pouco utilizados para navegação e transporte entre os municípios e a capital? É possível reutilizar água da chuva? Caixas d’água só existem no Brasil? Esses são exemplos de alguns tópicos discutidos entre provocadores e plateia – veja mais frases do debate aqui.

O próximo Rio de Encontros será dia 27 de agosto, a partir de 14h, no auditório da ESPM, com o tema “Utopias da “Cidade Maravilhosa”: urbanismo e patrimônio natural”. Acompanhe as novidades pelo blog e nossa página no Facebook.

Binho Cultura: das raízes às novas histórias da Zona Oeste

“Dom Pedro foi a Santa Cruz a cavalo muito mais do que qualquer outro governante de helicóptero”. Esta foi uma das muitas frases inspiradas que marcaram a participação de Binho Cultura, poeta, cientista social e criador da Flizo – Festa Literária da Zona Oeste, um dos debatedores convidados para o Rio de Encontros sobre “Subúrbios cariocas, ontem e hoje”, no auditório da ESPM. Dizendo que foi um choque quando descobriu que não era considerado suburbano, porque morava numa área tida como rural, Binho, criado na Vila Aliança, em Bangu, afirmou categórico: “quem desconhece a Zona Oeste está desconhecendo uma parte linda da história do país”.

Conhecer seu lugar de origem e escrever sua história são como mantras na fala de Binho Cultura, criador do Centro Cultural A História que eu Conto, título de seu livro lançado pela Aeroplano Editora, em 2013. Durante o Rio de Encontros, Binho apresentou também seus livros infantis – “Aninha, a Peixinha Bailarina”, “Não Existe Bicho Papão” e “O Menino que Lia”, lançados em conjunto, na Coleção Amigoteca. “É importante a gente ir às escolas e projetos sociais da nossa comunidade para as crianças verem que um cara preto e com cabelo duro como elas pode escrever. Para as crianças, o escritor é branco, velho e é morto”.

Lidar com estigmas: uma tarefa constante

Cabelo grande enrolado em dreadlocks estilosas, colar de contas grandes no pescoço, o evangélico Binho Cultura chama atenção pelo que diz e a forma como se apresenta – e sabe que seu estilo pode ter o poder de influenciar e inspirar outras pessoas, especialmente os mais jovens. “Meu cabelo é aceito hoje, mas muitas vezes já me mandaram cortar”, lembrou ele, citando alguns dos enfrentamentos pelos quais passou (e continua passando). “Quando você fala de onde é, as oportunidades acabam se afunilando. Quando falo que moro em Bangu, associam ao presidio. Há pessoas que pensam que Campo Grande é na Baixada. Tem gente q me pergunta: você vem pro Rio hoje? Como assim? Investigar e contrapor tudo isso foi um grande desafio para mim e continua sendo”, diz.

Super articulado, Binho reforçou para a plateia a importância de se fazer redes de colaboração entre produtores, articuladores e agentes culturais da cidade. “Não acredito em cultura para todos se a gente não compartilha conhecimento. Vocês não são meus concorrentes. Precisamos fazer redes, compartilhar conhecimento, convidar e comparecer ao evento do outro”, disse ele, revelando ainda que a estratégia que adota é a do “efeito bumerangue”: “fui lançado de lá da Zona Oeste, venho aqui, acerto o alvo e volto. E chamo as pessoas para irem lá também. Desse jeito a gente começou a realizar o contrafluxo”.

Êxodo cultural: uma questão nas periferias

Binho se empolgou tanto durante o encontro que depois da primeira rodada das falas iniciais, responder de pé às perguntas da plateia do Rio de Encontros, que, entre outras, apresentou várias questões a respeito da produção cultural nas zonas Norte e Oeste da cidade.

Classificando como “êxodo cultural” o fenômeno que observa na região em que mora, Binho não teve dúvidas ao afirmar que “a favela e a periferia é lugar de quem está tentando. Quem consegue, se muda”. Criar condições para que esse êxodo diminua (ou deixe de existir) e seja possível ao produtor cultural se manter em seus lugares de origem é um dos desafios a enfrentar. Não só este: circular pela cidade também é uma tarefa que exige grandes esforços.

“Hoje o meu trabalho é reconhecido, mas o sacrifício é muito grande. Vou aos lugares, mas voltar para a Zona Oeste, dependendo do horário, é complicado. A extensão do horário de funcionamento do trem, que para às 21h/22h, já seria muito bom. Se parasse de circular meia-noite, ajudaria até para o cara que sai da faculdade parar até no barzinho antes de voltar para casa”, disse ele.

O papel central da cultura na política pública

Ativista político, Binho Cultura tratou de temas delicados com a plateia, como as dificuldades que ele sabe que surgem quando muitos moradores dizem o lugar em que vivem, o preconceito que sentiu por conta do penteado e dos adereços que usa, da religião que professa, do lugar em que mora. Para tudo isso, ele tem uma estratégia de combate: conhecer a própria história e reescrevê-la. “A gente precisa conhecer a história, nossas raízes. Pertencimento é reconhecer sua origem, e valorizar sua história. Se índios, negros e negras tivessem oportunidade de escrever a nossa historia, ela seria diferente da que a gente está aprendendo na escola”.

Para Binho, é fundamental e determinante o papel que os produtores e agentes culturais desempenham hoje no Rio de Janeiro: “Se não fôssemos nós, a violência estaria muito pior nessa cidade”, afirmou, aplaudido pela plateia. E foi além, colocando a área da cultura como indispensável no debate político atual: “Não tem como fazer política pública sem a gente. Não existe pacificação sem nós”, disse.

Links que podem interessar:

Flizo – Festa Literária da Zona Oeste: http://flizo.org/

Perfil de Binho Cultura: http://oglobo.globo.com/cultura/binho-cultura-pai-da-festa-literaria-da-zona-oeste-10995693

Dia 25/06: Subúrbios ontem e hoje

O tema do próximo debate do Rio de encontros é SUBÚRBIOS CARIOCAS ONTEM E HOJE. Neste encontro teremos como provocadores o jornalista, escritor e pesquisador Vagner Fernandes, atual gestor da Arena Fernando Torres – em Madureira; do historiador Antonio Edmilson Martins Rodrigues, professor da PUC – Rio e UERJ; e do cientista social e produtor cultural Binho Cultura, idealizador da Flizo – Festa Literária da Zona Oeste.

Essas feras vão nos mostrar muitas coisas sobre os subúrbios cariocas, juntos debaterão com a nossa plateia participativa: (1) se existe uma cultura suburbana no Rio de janeiro; (2) como ela dialoga e se articula com os diferentes espaços da cidade; (3) se podemos falar em decadência do subúrbio carioca; (4) em que medida a cultura pode ser um motor para o seu desenvolvimento.  Essas e muitas outras questões serão atendidas no próximo dia 25. Venha colaborar com o debate!

Não esqueça: dia 25 de Junho, quinta-feira, das 14:00h às 17h30, no Auditório da ESPM RIO (Rua do Rosário, 90 Centro).

CONVITE