Rio de Encontros sobre drogas em frases e fotos

Julita Lemgruber, Christiane Sampaio e Alessandra Oberling: drogas em debate no Rio de Encontros / Foto: Paula Giolito

Julita Lemgruber, Christiane Sampaio e Alessandra Oberling: drogas em debate no Rio de Encontros / Foto: Paula Giolito

Três mulheres, o mesmo tema, uma plateia ávida por fala e um debate inflamado. O Rio de Encontros da terça-feira, 29 de abril, reuniu a socióloga Julita Lemgruber, coordenadora do Centro de estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), a psicóloga Christiane Sampaio, da Secretaria Municipal de Saúde, e a antropóloga Alessandra Oberling, da rede Pense Livre,  para uma conversa além de necessária. No centro da discussão, o tema “Drogas: respostas alternativas e políticas públicas”.

Para ver as fotos do encontro, clique aqui

Confira as frases que pontuaram as quase três horas de debate:

“Da justiça à democracia, o tema nos atravessa. Não dá para pensar as questões da cidade sem passar pelas drogas”
Ilana Strozenberg

“O resultado da guerras às drogas foi um fiasco. Nos países latinos, as consequências foram ainda mais graves. Resultou em encarceramentro de populações negras e pobres, e no fortalecimento do tráfico”
Alessandra Oberling

“O Rio está vivendo um momento tão dramático que não há como falar sobre política de droga sem discutir o que ocorre na cidade”
Julita lemgruber

“A cidade está literalmente pegando fogo. A polícia é violenta, entra e sai, troca tiro e provoca morte de pessoas. O que está acontecendo? tem algo mais que a gente não percebe?”
Julita Lemgruber

“Não vamos nos enganar. A questão não é o uso, mas o abuso dE drogas”
Julita Lemgruber

“As drogas sempre existiram e sempre vão existir”
Julita Lemgruber

“A redução de danos é um olhar que não exclui a droga. O médico e a enferemeira não dizem mais que você tem de usar drogas para ser feliz”
Christiane Sampaio

“Não inventemos outras rodas. O que se pode trazer das políticas internacionais é a forma de olhar o problema”
Christiane Sampaio

“O tabu que a proibição causou nos últimos anos levou à falta de informação das mais básicas às mais complexas”
Alessandra Oberling

“A escola expulsa (o aluno) por qualquer comportamento fora do padrão de normalidade”
Christiane Sampaio

“A gente está pronto para legalizar?”
Marcão Baixada

“O exemplo do tabaco nos mostra: esse país é esculhambado no que quer ser. O Ministério da Saúde conseguiu implantar uma política decente contra o cigarro. O governo precisa querer, mas vai querer se nós, sociedade, quisermos”
Julita Lemgruber

“A internação (dos usuários) não é a salvação. O buraco é muito mais embaixo.”
Christiane Sampaio

“Maconha não é cool”
Rhayana Gonçalves Sousa, estudante da ESPM

“O Brasil tem uma violência letal inaceitável para uma sexta economia do mundo”
Julita Lemgruber

“O que está por trás da violência é a guerra às drogas”
Julita Lemgruber

“Não há resposta para todas as questões, mas há a certeza de que o que temos não está funcionando”
Julita Lemgruber

“Já tentei levar viciado para a escola, a escola não aceitou. O estado fecha todas as portas”
Raquel, do Providenciando

“Existe interesse político por trás das comunidades terapêuticas. Algumas fazem trabalho sério, outas são puro interesse monetário”
Alessandra Oberling

“A liberdade é terapêutica”
Christiane Sampaio

“Há meia dúzia de pessoas lucrando porque a droga não é legalizada. Mas não é essa meia dúzia que vai para a cadeia”
Julita Lemgruber

 

Anúncios

Pingue pongue

Luiz Eduardo Soares não deixou pergunta sem resposta. Uma a uma, o antropólogo fez questão de opinar sobre cada intervenção da plateia. A sequência foi disputada. Confira abaixo o resultado da conversa entre palestrante e plateia.

A jornalista Julia Michaels, autora do Rio Real Blog / Foto Paula Giolito

A jornalista Julia Michaels, autora do Rio Real Blog / Foto Paula Giolito

Julia Michaels, autora do Rio Real Blog – É intuitivo concluir que a violência nas ruas vem de atos praticados anteriormente. Como ter certeza de que não é uma resposta geral à violência praticada no Brasil, como sair da conclusão que muitos têm de que são violências pontuais? 

Sobre a atribuição da violência, não, não temos base. Há sempre uma multiplicidade de situações , circunstâncias e atores com motivações das mais diversas. Então, sendo mais cauteloso, me parece que, havendo bases para uma investigação empírica, aqueles que se comportam dessa forma foram vítimas. É uma hipótese que pode ser avaliada no conjunto. Nós não temos pesquisa suficiente. De toda maneira, quem já sofreu aversão pelo estado numa favela sabe quão traumático isso é. Nos EUA, se diz o suspeito até que haja definição da culpa. No Brasil, as descrições se precipitam na identificação. Não temos apenas o fato, mas a forma como é tratado o fato. Isso aprofunda esse abismo. Portanto, você tem razão, não é possível provar. Todas as situações têm de ser examinadas com cautela.

William Oliveira, da Rocinha  É fácil ocupar, mas quem fica continua armado. Tem 500 fuzis na Rocinha. O que fazer para dialogar com a cidade?

O controle de armas é uma questão chave que continua passando ao largo, entra ano, sai ano. Não pode circular arma ilegal. Quem leva para a favela a arma? É fácil controlar, se houver um míimo de rigor. Mas quantos policiais se dedicam às armas? Estamos num momento propício para que o diálogo verdadeiro aconteça.

PARA VER AS FOTOS, CLIQUE AQUI

Karen Kristen, monitora do Rio de Encontros  Nomear o crime é importante. Mas e nomear a vítima? Cláudia Ferreira e Amarildo foram exceções. É sempre a favelada, o pedreiro, mas não se diz quem é. Dar nome à vítima e a quem cometeu o crime também é importante.

Quando a vítima tem nome, endereço, biografia, ela nos emociona, provoca empatia. Stálin disse que a morte de um milhão de pessoas é acidente demográfico. Alguém morrer com nome e rosto merece respeito. Por isso Amarildo e Cláudia foram tão importantes. É preciso dar-lhes vida, rosto, biografia. Números acrescentam conhecimento, mas não sensibilizam. Eu passei do relatório para a construção do personagem, uma comunicação mediada pela emoção. Os números são eloquentes mas são genéricos.

Nathália Rodrigues, aluna da ESPM, e integrante da turma 2014 do Rio de Encontros / Foto Paula Giolito

Nathália Rodrigues, aluna da ESPM, e integrante da turma 2014 do Rio de Encontros / Foto Paula Giolito

Nathália Rodrigues, aluna de jornalismo da ESPM  Não é uma pergunta, mas fiz um link com a questão das mutilações que fazemos conosco. Sou moradora de favela, sou preta, pobre, e ainda sou cega. Assumi que tenho um problema. Fica muito mais fácil enfrentar. Era isso.

Natália, muito importante escolher não ser vítima. Há momentos de escolha. Há muitos discursos que se adequam às nossas histórias. A vítima não tem força, não tem potencial criador. O Brasil se rebelou porque melhorou muito. Alguém que é indigente, miserável, e se vê como incapaz, não pode ter ação transformadora alguma. É esvaziado de potência humana. Por isso foi tao importante o processo de redução de desigualdade, a chegada à universidade. Falamos tanto de cidadania, desde 1988. Se dizem que somos cidadãos, então vamos lá, vou agir como cidadão.

Guilherme, produtor cutural na Maré – O que as manifestações de junho trouxeram de vitória concreta? Só os garis, no Carnaval. Até onde esse protagonismo é tão forte?

Essa é uma questão muito pertinente. Mas o que se extrai dali? Acho que é uma pergunta equivocada. A forma como nos perguntamos sobre os efeitos nos condena a não identificar erros facilmente identificáveis. Temos resultados extraordinários, novas possibilidades de estar juntos, a formação de coletivos, a criação de alternativas, a reflexão crítica. Ganhos para além de ganhos materiais. Não deveríamos simplesmente perguntar a um processo histórico, mas o que sabemos dele.

Luis Gustavo, Parceiros do RJ – A polícia que pacifica, mata. Como dialogar?

O vocabulário, a linguagem e as práticas vão se sobrepondo.  Paz e proximidade ou guerra e abalroamento? Não estão claras as palavras e os significados. Todas são justificáveis. Não há nenhuma clareza para identificarmos quais são as linhas do projeto. É complicado atribuir à policia outras qualidades sem que ela se transforme de fato.

 André Luiz Dametto – Como dialogar com o cínico?

Por definição, somos cínicos. Nós somos cínicos em algum momento. Mas as pessoas mudam.  Os cínicos não serão cínicos todo o tempo, não é possível. O  problema é o cínico fashion. Aí é terrível, porque você educa as pessoas para o cinismo. O eles casa com o cínico. Nenhum de nós é nem dialógico nem cínico todo tempo.

Anabela Paiva – Quem seriam eles no caso reverso, das forças de segurança? Quem é o eles para o policial?

Sem dúvida, é precisso pensar. O (site) “depois de junho” traz entrevistas na contramão da velocidade da internet. Permite que as ideiais fluam, é valorização da conversa. Numa entrevista, o coronel Ibis fala sobre isso, e pensamos num encontro de Black blocs e policiais, todos desarmados. Temos certeza de que eles descobririam que são irmãos. Black blocs e policiais são provenientes das mesmas áreas sociais, não faz sentido  o enfrentamento.

Igor Souza Soares, do JOCUM Brasil e integrante da turma Rio de Encontros desde 2013 / Foto Paula Giolito

Igor Souza Soares, do JOCUM Brasil e integrante da turma Rio de Encontros desde 2013 / Foto Paula Giolito

Igor de Souza Soares, do JOCUM Brasil  Foi preciso implantar a UPP para que a cidade continuasse a sua vida?

As decisões políticas têm esse tipo de motivação. Mas isso não esgota toda a realidade, porque é demanda das comunidades algum tipo de cuidado, ação, intervenção, para que esse abandono não se perpetue. O estado não reage apenas às pressões da classe média. O estado depende também do voto das periferias. Há uma politica complexa que não é só bandido e mocinho. O clientelismo envolve todos os lados. Mas aqueles que são mais pobres, quando lhes aparece uma oportunidade, é legítimo compreender que eles se apropriam dela. A bica d’água merece todo nosso respeito porque faz diferença para as condições de vida imediatas. Feitas as ressalvas, volto ao clientelismo, o fisiologismo e as cooptações. Todos somos cúmplices do processo que tem degradado a representação e bloqueado a participação.

Igor de Souza Soares, do JOCUM Brasil  E a PEC 51?

É uma proposta que define que não é possível promover nenhuma mudança sem alterar a constituição. As limitações são muito fortes. Entre as propostas está a desmilitarização da polícia. Independentemente de ideologias, há uma estrutura que atribui o papel de gestor local da segurança pública ao policial que está na ponta. O policial bem treinado promove, ao lado dos agentes, a intervenção preventiva. Essa pessoa tem de ser respeitada e exercer práticas que suscitem respeito. O orgulho que advém do respeito alheio dá amor próprio que você não troca. Essa pessoa precisa d eum celular mais do que de uma arma. e de conhecimento que não é militar nem de direito, mas de experiências. A estrutura militar não atribui autonomia , eles estão lá para cumprir ordens. A PM é estrutura que deve se organizar à semelhança do Exército. Faz sentido para o Exército, mas não para Polícia. Os confrontos são menos de 1% das atividades policiais no Brasil. Nós negligenciamos a questão policial como se ela estivesse resolvida ou fosse irrelevante.

Alvíssaras

A plateia e o antropólogo e escritor Luiz Eduardo Soares  / Foto Paula Giolito

A plateia e o antropólogo e escritor Luiz Eduardo Soares / Foto Paula Giolito

Marisa Vassimon, do Canal Futura – Se as manchetes dos jornais dissessem que o exército vai ocupar a Lagoa, o Jardim Botânico, o que aconteceria? Quem precisa entrar na conversa para efetivar de fato a pacificação? A Maré, por exemplo, tem incontáveis atores que buscam o processo de pacificação, mas não são ouvidos. Quem tem de entrar junto com a polícia e o exército?

Desde “Tropa de elite” o grande debate passou a ser polícia. A agenda incorporou esse elemento. Agora (2010, invasão do Complexo do Alemão), volta a ser polícia contra bandido. Esse é o recurso mais simples da política: quando a situação é delicada e você precisa de coesão,  você inventa uma guerra, inventa o inimigo. A dimensão política é prioritária, quem conhece os personagens sabe disso. Não pensem que qualquer outra consideração se impôs à política. Não há outra hipótese. De novo, vamos tentar o feito espetacular do Alemão  (com a ocupação do Complexo da Maré). A mídia a postos. Para quem está melancolicamente em ruínas do ponto de vista político, essa é a boia de salvação. Essa é a primeira questão. É pra pensar um pouco mais. Depois vamos pensar a problemática das favelas. Sobre a Maré, sabemos que nenhuma comunidade esteve tão preparada para dialogar com as instituições policiais e com o governo como a Maré. E tudo isso deu em quê? Ao invés de o governo entender isso como um qualificador, temos uma comunidade organizada, não, tá muito complicado, e o governo diz vamos fazer como nós sabemos fazer. De que manneira se pode fazer isso? Trazendo um novo ator.

Vanessa, jornalista da Rede Globo –  Por que tem ganhado tanto espaço a figura do justiceiro? Por que o pensamento reacionário, o clamor público por repressão e justiça com as próprias mãos?

Proponho uma relação, que é uma hipótese interpretativa: acho que os linchamentos que emergiram por aí são respostas globais da sociedade brasileira conservadora aos rolezinhos. O que caracterizou o processo brasileiro nos últimos anos? Os pobres avançando, chegando aos aeroportos, os negros à universidades, ao consumo, ao shopping. Cada um está em seu lugar em nossa sociedade e o racismo assim se reproduz. O nosso racismo é distinto do racismo dos EUA, mas é brutal. Os rolezinhos são diversos, são múltiplos, são provocadores, basicamente representam, no imaginario coletivo, a migração sociológica, uma desestabilização, um desarranjo que provoca medo no velho racismo brasileiro. Paulo, era esse o nome do rapaz que foi acorrentado, foi amarrado pelo pescoço ao poste. O corpo exposto como posta de carne e desprovido de vestes, ele está entregue à sua corporeidade, desnudo. Uma performance brutal com uma instalação com o ser humano. Estamos num momento de grandes tensões, que não estão elaboradas.

André, estudante da ESPM – Existe uma ditadura disfarçada no Rio, é isso?

Nós que vivemos a ditadura sabemos que não. Ditadura não é um adjeivo. Tem um significado muito preciso, não é compatível com o estado democrático de direito. Identificamos no Brasil democrático práticas brutais que continuam a ser tão bárbaras quanto aquelas praticadas pelo estado na ditadura.

Mayra Jucá, jornalista – De onde você tira elementos para uma visão otimista desse diálogo no plano institucional?

Precisamos de instituições intermediárias, instituições políticas, além de renovação do associativismo. Essa criação fecunda e inspiradora de coletivos, em certo sentido, se dá no vácuo do  PT, que perdeu as ruas e se divorciou dos movimentos sociais, do colapso dos partidos tradicionais, e do descrédito do associativismo. Temos como alternativa a emergência de novos exercícios de sociabilidade e de organização coletiva. Nós precisamos de mediações políticas, também. É como se a democracia representativa estivesse trocando a pele. Precisamos de imaginação institucional para renovar. Esse diálogo vai requerer, para além da utopia coletiva, um redesenho das instituições. E eu vejo essa renovação em curso com otimismo.

Manoel Ribeiro, urbanista – O tráfico tem superestrutura. Tem plano de cargos e salários, bolsa viúva, e tem dois departamentos: departamento comercial e o departamento de segurança. Agora, entre a UPP e o tráfico, a população não sabe a quem recorrer. Fica a desordem, a sociedade, com medo, reage com linchamento. O que fazer com os desempregados do tráfico?

Eu dizia lá atrás, quando a primeira UPP foi criada no Dona Marta, que o tráfico já era. Como assim? Eu falava sociologicamente: A UPP vai ajudar o tráfico a se modernizar, vai impulsionar um processo imperativo da racionalização econômica. Esse modelo do dominio territorial é ultrapassado, regressivo economicamente. Imagina o custo. Para vender droga, e ter lucro, você precisa dominar territórios, enfrentar o confronto com os grupos rivais, montar um pequeno exército, treinar para a luta, convencer seus membros de que vale a pena perder a vida aos 25 anos, investir em arma, manter a polícia no bolso. Não existe tráfico sem associação com a polícia. Economicamente, esse modelo não faz sentido. É desnecessário e irracional. Você pode fazer como qualquer cidade desenvolvida no mundo, ter um modelo varejista nômade, não o territorializado. Agora, esses atores não estão preparados para isso. Exige mais qualificação tecnológica, precisa de inteligência, não da força. Se você tivesse uma abordagem holística, não haveria invasão miltar, mas segurança como elemento.

Claudius Ceccon, arquiteto – Falta utopia, sonho coletivo. Como vamos construir uma utopia pela mudança?

Eu fico dividido e me pergunto se nós não estaríamos sendo nostálgicos de um mundo que não pode voltar a existir. Utopia exige um desenho de mundo ideal. Eu não sei se vamos ter de adotar ou inventar, para podermos, ao invés de um kit ideal, uma mochila que nos acompanhe num horizonte de tempo tangível. utopias coletivas também são um problema, há preços a pagar. Não sou cético pelo fato de não termos utopias coletivas, desde que tenhamos referências, valores de fundo, justiça, igualdade de liberdade.

Estética de game

O poster que explica a metodologia da Agência (Foto: Clayton Leite)

Havia 300 vagas para a Agência, mas apareceram 858 interessados em participar. A saída foi fazer uma seleção por entrevista, em que o critério era a motivação pessoal. Durante as conversas, surgiu a percepção de alguns dos muitos dos desafios que devem ser encarados nessas comunidades nos próximos anos. Maria Antonia Goulart, que conduziu o processo, identificou que 60% dos alunos têm internet em casa, mas há disparidades: “Tem muita menina que parou de estudar porque engravidou. As políticas públicas vão ter que abrir espaço para essas questões, pensar os problemas em conjunto”.

O número de “excluídos” do projeto e o número reduzido de comunidades contempladas gerou alguma inquietação, como se pôde observar nas falas da plateia. Willian da Rocinha, por exemplo, lamentou que o projeto não chegue a comunidades não-pacificadas, onde “criança cuida de criança”. Barnabé, da Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu, foi além: “É preciso pensar nos 600 que não foram contemplados e naqueles que nem se inscreveram. Mas o que mais me preocupa é como fazer os jovens que não vão ter os projetos financiados não desistirem de realizá-los. Senão é estética BBB, viver aquilo mas querer o milhão”, disse, referindo-se ao programa Big Brother Brasil.

Na resposta, Faustini falou não ter medo da tal “estética BBB”, pois acredita que a estrutura de game vai motivar os participantes. “Não vamos conseguir dar conta de todos os jovens da cidade. Mas a idéia é experimentar essa metodologia para aumentar essa rede, para que vire, quem sabe, política pública”, afirmou ele.

Mediação com carteira assinada

Joabe, do Batan, dá seu depoimento (Foto: Clayton Leite)

Os quatro mediadores do projeto que subiram ao pequeno palco com Faustini também falaram bastante de suas expectativas. Todos eles têm função-chave para que a agência funcione em suas comunidades e foram contratados com carteira assinada (“senão a mãe ainda diz para ele ir procurar um emprego de verdade, alimenta o estigma da cultura”, explicou Faustini). Na plateia, muitos outros participantes (alguns deles egressos da Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu) interagiram na conversa.

Artur, do Babilônia/Chapéu Mangueira, é coordenador de audiovisual do ponto de cultura Ary Barroso, onde funciona um cineclube. Marcio, da Cidade de Deus, trabalha com crianças e adolescentes numa ONG. Diego, do Borel, é jornalista e trabalha no projeto Correspondentes da Paz, do Iser. E Joabe, do Batan, trabalha no Transfusão Noise Records, que grava bandas da Baixada. O seu depoimento foi o mais incisivo, apontando os desafios que aquela comunidade enfrenta. “Lá não tem cineclube ou exposições, não há acesso direto à arte”, resumiu.

Major Eliezer fala dos desafios do Batan (Foto: Clayton Leite)

Foi a deixa para a cientista social Silvia Ramos pedir a palavra, lembrando que uma pesquisa etnográfica feita no Batan mostrou que não existiam praticamente projetos sociais por lá. Distante da área central da cidade e sacrificada pela ação da milícia, a comunidade vê com esperança a chegada da UPP, que começa, lentamente, a mudar o cenário local, como contou Joabe: “Lá tem muita gente desmotivada. Mas já tem gente que me para na rua para saber o que vai acontecer no próximo sábado”.

Faustini comentou ainda que houve um incidente no estúdio da Cidade de Deus no último sábado. Um policial interrompeu uma dinâmica para abordar um rapaz que seria egresso do tráfico, mas não estava em medida sócio-educativa e, portanto, não devia nada ao Estado. Os policiais presentes logo afirmaram que o colega não agiu corretamente. “Isso não deveria acontecer, vamos chamar atenção para haver mais cuidado”, garantiu o capitão Nogueira.

Uma metodologia para bagunçar vícios

Faustini e mediadores da agência (Foto: Clayton Leite)

Com uma linguagem informal e pessoal, bem de acordo com o espírito do Rio de Encontros, Faustini explicou suas motivações para construir o projeto Agência Redes para a Juventude, que tem patrocínio da Petrobras. “Devíamos pensar imediatamente em novas lideranças na cidade. Estava cansado da minha cara, da do Junior Perim, da do Celso Athayde, a gente estava aparecendo demais. Isso tinha a ver com o fato de os projetos existentes tratarem os jovens como objetos dos programas, formar para o mercado de trabalho… Ou então era induzido a falar de si em clima de superação, melodramático. Era quase jesuítico!”

Além de “rede”, outra palavra passou a ocupar a cabeça de Faustini: metodologia. Era preciso criar uma nova metodologia para trabalhar com os jovens das UPPs, desde os que já participaram de outros projetos sociais até os egressos do tráfico. Os objetivos seriam: fazer o jovem pensar no seu território e se tornar uma liderança por meio de uma estratégia focada em educação e cultura. Assim, desenhou-se a proposta: selecionaram 300 jovens, 50 de cada comunidade (Chapéu Mangueira/Babilônia, Batan, Cantagalo, Cidade de Deus, Borel e Providência) para participar do processo. Cada um recebe bolsa de R$ 100 para participar dos “estúdios”, conjunto de atividades que vão ocupar os sábados do primeiro semestre.

Os encontros semanais focam em três pontos: o projeto de vida (pois aqueles jovens teriam dificuldade de transformar seus sonhos em projetos pragmáticos), a promoção de redes (segundo Faustini, em muitos casos garotos recém-formados não conseguiam entrar no mercado de trabalho por não participarem das redes necessárias), e a ação no território (para reduzir o que ele chama de “estigma do pagodeiro”: o cara que diz que a comunidade não tem nada, ganha dinheiro e sai para comprar uma Ferrari). A cada sábado, os participantes vão participando de um programa de pontos, tal como um game, a partir das atividades de cultura e educação propostas. Continuar lendo

Quantas polícias?

Nogueira deu a visão da polícia (Foto: Alex Forman)

Foram de Aydano Motta e Vera Araújo, jornalistas de O Globo presentes na plateia, as perguntas mais duras para o Capitão Nogueira, um jovem membro da PM que representa bem o perfil de comandantes das UPPs: eles têm em média 30 anos e nove anos de corporação.

– O capítulo da UPP é mais reconfortante que o do Caveirão. Mas esmola demais o santo desconfia. Parece que estão criando uma segunda polícia, que é a que queremos, totalmente diferente da que confunde uma furadeira com metralhadora. Como se juntam essas duas polícias? – indagou Aydano.

Nogueira foi enfático:

– Somos uma polícia, a Polícia Militar. Vivemos um boom de polícia de UPP, a PM abraça a ideia. O que acontece é que pessoas que têm mais aptidão são designadas para a especialidade comunitária. O veículo blindado é opressivo, mas protege muito a vida dos policiais. Continuar lendo