Um olho no curto prazo, outro no futuro

Ricardo Henriques apresentou suas propostas. (Foto: Alex Forman)

–  Ricardo, a UPP já existe há um ano. Esse foco no social não está chegando tarde?

A primeira pergunta da mediadora Silvia Ramos para o secretário de Assistência Social e Direitos Humanos, Ricardo Henriques, causou reações engraçadas da plateia. “Que fogo amigo!”, disse um.  Henriques também brincou, já que Silvia foi recentemente incorporada à sua equipe. “Isso porque ela é subsecretária, imagina se não fosse”.

Mais sério, ele garantiu que o foco nos programas sociais para as UPPs vai chegar na hora certa. “Primeiro era preciso levantar o manto das armas”, observou. Ele alertou que é muito mais difícil estabelecer políticas sociais integradas em uma área onde a violência era rotina.

Algumas questões-chave abordadas no encontro:

1) O risco de tentar criar um superestado nas comunidades. Ricardo explica:

– Supor que se pode sobrecarregar os policiais com várias demandas sociais é um equívoco. Cairíamos no mesmo erro da tentação de transformar o ambiente da escola em espaço de solução de todos os problemas da comunidade. Com sobrecarga, inviabiliza-se o básico. Podemos dar saltos sem cair na tentação do superestado.

2) Juventude. Para Ricardo, os jovens devem ser um dos principais focos das políticas sociais em favelas, já que eles eram o grupo mais influenciado pela cultura ligada ao narcotráfico.

3) Especulação imobiliária: a mudança de preços e dos aluguéis nas favelas com UPP já é uma realidade. O economista Sérgio Guimarães, que vai cuidar do monitoramento das metas na secretaria, vem acompanhando as transformações na Cidade de Deus. Uma das suas preocupações é apoiar os negócios nas comunidades para que enfrentem a concorrência:

– Do contrário, vai chegar gente de fora e comprar todos os espaços disponíveis. Continuar lendo

A visão de quem é vizinho de uma UPP

Percília mostrou otimismo com a UPP (Foto: Alex Forman)

Dona Percília vive há 62 anos no Morro da Babilônia, no Leme. Há décadas, realiza um trabalho exemplar na coordenação de um espaço dedicado ao reforço escolar, que se mantém com verba da Suécia. De expressão séria e tímida, ela mostrou segurança quando pegou o microfone para contar como está encarando a vizinhança de uma UPP.

– Nós vivíamos em paz mesmo com o tráfico, eles nunca atrapalharam o trabalho comunitário. Mas a favela foi invadida e ficamos mal. Então chegou a polícia para jogar água no fogo. Com a UPP melhorou porque convivíamos com bandidos com armas. Mas na minha opinião pode melhorar muito mais.

Carlos Palo, filho de Percília, contou uma história que ilustra como negociação e entendimento, se promovidos pelas forças sociais e oficiais, podem reduzir conflitos. Após a abordagem de um policial,  foi parar na delegacia para reclamar de desvio de conduta. Graças à habilidade da delegada, a conversa foi ótima, a queixa esquecida e os dois, o policial e Palo, saíram quase abraçados.

Para Carlos, segurança não basta (Foto: Alex Forman)

O vice-presidente da Associação de Moradores da Babilônia também pediu a rápida intervenção do Estado para garantir serviços à comunidade.

–  A ausência de ação social incomoda as pessoas. Depois de um ano ainda estamos pedindo, faltou planejamento mínimo. Mas entendemos que foi uma situação emergencial – observa Carlos. –  Se o governo não estiver próximo,  vocês vão criar mil projetos e não vai dar certo. Queremos uma comunidade integrada com o asfalto, com água, coleta de lixo. Não estamos fazendo um favor, nós votamos também. Queremos política pública como a de todos, não diferente, senão criamos um novo apartheid. Nunca acreditei em Robin Hood na época do tráfico. Mas agora não adianta ficar só filosofando, senão as coisas não andam.

Quantas polícias?

Nogueira deu a visão da polícia (Foto: Alex Forman)

Foram de Aydano Motta e Vera Araújo, jornalistas de O Globo presentes na plateia, as perguntas mais duras para o Capitão Nogueira, um jovem membro da PM que representa bem o perfil de comandantes das UPPs: eles têm em média 30 anos e nove anos de corporação.

– O capítulo da UPP é mais reconfortante que o do Caveirão. Mas esmola demais o santo desconfia. Parece que estão criando uma segunda polícia, que é a que queremos, totalmente diferente da que confunde uma furadeira com metralhadora. Como se juntam essas duas polícias? – indagou Aydano.

Nogueira foi enfático:

– Somos uma polícia, a Polícia Militar. Vivemos um boom de polícia de UPP, a PM abraça a ideia. O que acontece é que pessoas que têm mais aptidão são designadas para a especialidade comunitária. O veículo blindado é opressivo, mas protege muito a vida dos policiais. Continuar lendo

As UPPs estão aí. E agora?

A plateia fala: conversa aberta (Foto: Alex Forman)

O modus operandi do Rio de Encontros, série de debates promovida por O Instituto e pelo CESeC, com o apoio do Globo Universidade, espelha o que se espera do diálogo gerado nas favelas pelas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs): todo mundo tem voz, estando no palco ou na plateia, sendo autoridade ou morador, num papo informal e sincero – mas nem por isso menos objetivo. O segundo encontro, realizado na manhã de segunda-feira 14 de junho, tratou do Rio de Janeiro pós-UPP. Para isso, convocou um time equilibrado de personagens que representam essa experiência inédita na vida da cidade: Ricardo Henriques, recém-empossado secretário estadual de Ação Social; dona Percília da Silva Pereira, líder comunitária do Morro da Babilônia; Carlos “Palo” Pereira, presidente da associação de moradores da mesma comunidade; Leonardo Nogueira, capitão responsável pela UPP de Pavão Pavãozinho e Cantagalo, e o economista Sérgio Guimarães.

Como no primeiro encontro, eles foram apenas os incentivadores da conversa, responsáveis pelas falas iniciais, que deram muito pano para a manga. Na plateia, muita gente que tinha marcado presença na experiência anterior participou, como a apresentadora de TV Regina Casé, o diretor Estevão Ciavatta, o líder comunitário da Rocinha Willian Oliveira, o arquiteto Manoel Ribeiro, o diretor do Observatório de Favelas Jailson Sousa e Silva, hoje secretário executivo da pasta de Ricardo Henriques, e o ex-secretário de cultura de Nova Iguaçu Marcus Vinicius Faustini. Também assistiram ao debate outros membros da equipe da Assistência Social, como José Marcelo Zacchi e Pedro Strozenberg (motivando a piada de que aquilo estava parecendo uma reunião ampliada da secretaria), o deputado Alessandro Molon e especialistas na área de segurança, como Barbara Soares e Julita Lemgruber. Continuar lendo

Rio de Janeiro pós-UPP

Como será o Rio de Janeiro após a ampliação e a consolidação das UPPs?  O que está mudando nas comunidades onde foram instaladas as Polícias Pacificadoras?  Como assegurar que o programa não se resuma a ocupação de territórios por uma nova força armada – a policial –  mas represente uma oportunidade de redefinir o pacto democrático nestes espaços?

Estes serão as questões discutidas no segundo evento da série Rio de encontros – novas perguntas e percepções sobre a cidade do Rio de Janeiro,   promovido pelo Instituto e o Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), dia 14 de junho, segunda-feira, às 9h, na Casa do Saber Rio, na Lagoa.

O tema deste debate  será “Polícia, controle social e cidadania na metrópole conflagrada”. A conversa reunirá os convidados Rodrigo Pimentel, ex-capitão do Bope, escritor e roteirista, atualmente comentarista do RJ TV; Ricardo Henriques, economista, secretário de Assistência Social e Direitos Humanos do Estado do Rio de Janeiro e responsável pela implantação de programas sociais, culturais e ambientais nas UPPs; o Capitão Leonardo Nogueira, Comandante da Unidade da Polícia Pacificadora  do Cantagalo e Pavão/Pavãozinho; o economista Sérgio Guimarães, especialista em segurança pública e os líderes comunitários do Morro da Babilónia, Percília Pereira e Carlos Palo. A mediação será da pesquisadora Silvia Ramos,  subsecretária de Integração dos Programas Sociais do Estado.