Narrativas em disputa nas redes sociais

Plateia na segunda edição do Rio de Encontros 2016 / Foto: ESPM

Plateia na segunda edição do Rio de Encontros 2016 / Foto: ESPM

Informação é essencial. E a oferta, atualmente, parece infindável. Dos meios impressos aos digitais, tanto se multiplicaram as fontes como o volume de conteúdo. O que vislumbramos ao fácil alcance do mouse, no entanto, carrega um quê de complexidade. Em sua segunda edição de 2016, o Rio de Encontros mergulhou fundo no questionamento da pertinência do que se lê  na internet, seja no jornalismo ou nas redes sociais, com o tema “Confiabilidade e a legitimidade nas redes virtuais”.

Para iniciar a conversa no auditório da ESPM, no último dia 19 de maio, foram convidados como provocadores a coordenadora do curso de Jornalismo da UFRJ, Cristiane Costa, o midiartivista Rafucko e a jornalista e coordenadora da agência de checagem Lupa, Cristina Tardáguila. Para a tarefa de moderar a conversa que seguiria com a plateia, a também jornalista Anabela Paiva.

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De cada iniciativa veio uma contribuição sobre os impactos que os meios de comunicação provocam em nossas vidas. O encontro resultou em uma aula sobre apuração, checagem, opinião versus informação, erros e acertos da mídia brasileira e sobre onde entra o humor nessa história.

“O que há de novo a partir dos meios digitais especialmente em momento de tamanha turbulência politica?”, indagou Anabela ao assumir o posto de mediadora. “Assim como os encontros, os desencontros também se dão no ambiente virtual”, realçou ela, antes de convidar os provocadores ao debate.

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Cadê a verdade que deveria estar aqui?

Jornalista não nasce pronto, tem de ter boa formação. Notícia não vem do nada, tem de ser apurada e editada com profissionalismo e segundo critérios rigorosos. A profissão de jornalismo exige metodologia, esta é a primeira lição dada aos seus alunos pela coordenadora do curso de Jornalismo da UFRJ e pesquisadora de mídias digitais do Programa Avançado de Cultura Contemporânea – Pacc/UFRJ. E a verdade, vale o aviso aos céticos, também existe. Ou, pelo menos, é possível ficar o mais próximo do lado certo. Mas, para isso, diz ela, é preciso entender que, na guerra das narrativas, nenhuma repercussão é gratuita.

Cristiane Costa: “Jornalista não é juíz" / Foto: ESPM

Cristiane Costa: “Jornalista não é juíz” / Foto: ESPM

Ex-repórter e editora da revista Veja, do Jornal do Brasil e do Portal Literal, Cristiane aprendeu na prática com quantos caracteres e perguntas assertivas se escreve um bom texto. Já na academia, ela, além da formação de jornalistas, se debruça sobre as mudanças que as mídias sociais estão provocando no fazer profissional.

A verdade existe ou é uma construção e  tudo ficou muito relativo? Segundo Cristiane, a verdade é um ideal. E, no jornalismo, um ideal quase inatingível. “Daí talvez seja mais importante falar em busca da não mentira, porque incorrer na mentira é o pior que pode acontecer a um jornal ou um jornalista”, afirmou ela, em ampla defesa da apuração bem feita.  “Não basta dizer que o Romário tem uma conta de três milhões de dólares na Suíça. É preciso checar, achar uma fonte confiável. Mas a  checagem se faz cada vez menos, seja por falta de tempo ou outras razões.” Além disso, continua, como o mesmo fato pode ser contado de muitas maneiras, a velha regra não mudou: vale, sempre, ouvir os dois lados.

“Jornalista não é juíz, tem por função chegar o mais próximo dos fatos”, ressalta Cristiane, lembrando a boa e velha imparcialidade, tão pouco adotada atualmente. “Os fatos têm de ser narrados, ainda que sejam contra os ideais do jornalista.”

Jornalismo, por sua vez, não se limita à informação, é também opinião, outra onda que tem invadido as redações, sejam elas tradicionais ou não. “Em nome da opinião, a checagem vai para o espaço. O jornalismo moderno prega a objetividade, que tem na subjetividade como o seu contrário”, analisa.

E a imprensa brasileira, como faz?

Cristiane Costa expôs o que acredita que todos veem e raramente questionam: o Brasil – e isso é verdade para a grande maioria dos países hoje – possui conglomerados de comunicação controlados por poucas famílias. Os veículos que formam o mal afamado PIG (Partido da Imprensa Golpista), denominação consolidada no nosso país durante a ditadura militar, como O Globo, Folha de S. Paulo, Estadão, IstoÉ e Veja, que divergem em suas linhas editoriais de veículos como Carta Capital, Revista Forum, Brasileiros e Carta Maior. Na televisão, o embate se dá entre a TV Globo e a GloboNews, cuja perspectiva vai na contramão da EBC (Empresa Brasileira de Comunicação). Na internet, a polarização também segue aguerrida: do lado da chamada direita, estão as páginas O antagonista, MBL e Revoltados online;  do lado da esquerda estão  Mídia Ninja, Rede Brasil Atual, Tijolaço, Pragmatismo Político e Brasil 247.

Nesse contexto, onde buscar informação? Cristine sugere que se vá a sites como The Guardian, El Pais, NYT, The Intercept, e comenta “Especialmente agora, após o impeachment, as pessoas começam a buscar informações em outras fontes.” Vale também preservar o lugar do humor, que, segundo a professora, assumiu para si a imparcialidade que é seria do jornalismo. Os sites Sensacionalista e Surrealista, Porta dos fundos e piaui Herald estão aí para quem quiser conferir.

Mas é bom saber que nenhuma notícia circula gratuitamente. Independentemente da linha editorial que adotam, os dois lados mantêm robôs que atuam para aumentar a repercussão das informações que divulgam. “A rede é atualmente um espaço onde há uma guerra de narrativas. Está na hora de cobrar da imprensa que baixe o tom e volte a ser menos opinativa e mais factual”, defende Cristiane.

Check, check, check

Cristina Tardáguila: "Eu quero informação de qualidade para todo mundo” / Foto: ESPM

Cristina Tardáguila: “Eu quero informação de qualidade para todo mundo” / Foto: ESPM

Cristina Tardáguila deu uma guinada na sua carreira. Formada em jornalismo pela UFRJ e pós-graduada pela Universidad Rey Juan Carlos, escreveu o livro “A Arte do Descaso” (Intrínseca) e cursa MBA em marketing digital na FGV. Com passagens pelos jornais O Globo e Folha de S.Paulo e pela revista piauí, fundou, em novembro de 2015, a Lupa, primeira agência brasileira de fact checking. Desde então, tornou-se especialista em checar o grau de veracidade das informações que circulam pelo país. Uma empreitada num novo viés no campo do jornalismo que começou, literalmente, com uma viagem.

Tardáguila descobriu a importância e a falta que faz a checagem de informações durante uma viagem à Colômbia, em 2013. “Eu era uma jornalista do PIG, e fui conhecer o espaço do Gabriel García Marquez, que estava premiando projetos de inovação”, conta. Lá, ela conheceu a iniciativa que iria mudar alguns de seus conceitos sobre o exercício da profissão: o premiado  site argentino Chequeado.com que, como a Lupa hoje, integra um grupo internacional de fact checkers que se reúne anualmente em torno do Poynter Institute, nos EUA.

A empolgação com o trabalho dos colegas do país vizinho é tamanha, que ela fez questão de exibir o vídeo que resume bem o trabalho que a inspirou.

Do blog  Preto no Branco, criado no jornal O Globo para acompanhar as eleições presidenciais de 2014 no Brasil, ela seguiu, no ano seguinte, para o seu projeto solo. “Checar discurso político durante eleições? Os argentinos estavam fazendo isso em muitas outras áreas”, ela constatou então.  “Quantas vezes nós todos tomamos decisões com base em informações sobre as quais não temos certeza? Por que culpamos a imprensa? Por que não corremos atrás? Eu quero informação de qualidade para todo mundo”, afirma Tardáguila sobre a importância do trabalho que desenvolve e que já está articulado com mais de 80 iniciativas semelhantes em vários países.

Criada para ter contas e receitas próprias, a Lupa é uma agência cujo modelo de negócio prevê a venda de seu conteúdo para outros veículos. O investimento inicial veio do fundador da revista piauí, que é  proprietária  do portal onde está incubada a Lupa. Já acreditando que a agência cresce a passos largos, Cristina conta que  a empresa firma parcerias para consolidar seu lugar. Assim, para a cobertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, recorreu à ONG Transparência Brasil, para checar quem eram  os autores dos discursos. “Ali, interessava saber de todos os deputados e senadores que votaram pelo impeachment, quantas ocorrências judiciais cada um tinha”, explicou Tardáguila. O alcance do twitaço com essas informações,  promovido durante a votação na Câmara dos Deputados, chegou a três milhões de pessoas. Repetida a estratégia durante o embate no Senado, mais 1,7 milhão de pessoas foram atingidas.

“”As pessoas querem informação de qualidade. Querem a coluna do meio. E também  querem saber qual a propriedade de um orador. É muito fácil falar de política no Brasil, porque fala-se muito e erra-se demais”, afirmou a jornalista.

Outro bom exemplo de checagem devidamente respaldada pela equipe da Lupa foi a do tipo de critério usado para a escolha das cidades brasileiras que vão receber a tocha olímpica.

Decidimos descobrir como foram escolhidas as cidades. Nós fomos atrás. E constatamos, a partir do IDHM de cada um dos 329 municípios, que a tocha percorrerá um  Brasil muito mais desenvolvido do que o que o país realmente é”, contou Cristina Tardáguila, afirmando  que assumiu o compromisso de tornar “mais cara” a mentira, para elevar o nível  do debate.

Sorria, você vai ver o Rafucko

Rafucko tem um site. Rafucko tem um canal no youtube. Rafucko tem uma página no facebook. Rafucko tem um perfil no twiter. Rafucko é JPG, MOV, MP3, TXT.  Rafucko tem bom humor para dar de graça e para vender, porque vive de provocar, inclusive gargalhada. Com reputação ja assegurada, o jovem ostenta a veia crítica como  marca. Para quem já foi detido e teve de explicar à polícia as suas razões de trabalhar, o que vem de reação do público é lucro.

O midiartivista Rafucko: “Eu procuro muito ouvir o outro lado"

O midiartivista Rafucko: “Eu procuro muito ouvir o outro lado” / Foto: ESPM

Rafael Puetter, esse é o nome de batismo do rapaz, é roteirista, videomaker e artivista. Ganhou destaque na internet fazendo vídeos de sátira política. Em seu trabalho, trata de temas que vão desde a homofobia até as remoções involuntárias de moradores das suas casas por conta de obras para os grandes eventos. Rafucko repudia o autoritarismo da Polícia Militar e a cobertura tendenciosa da mídia. E já tem tempo que ele faz barulho na rede e também fora dela. O seu primeiro vídeo foi produzido e exibido em 2008. Mas a fama só começou a lhe mostrar sua face em 2011, com as sátiras sobre minorias, que ele produz até hoje.

“Comecei a falar de transporte, de preço de passagem, a fazer vídeos políticos, que foram tomando outro viés a partir dos protestos de 2013. Mídia e violência policial são temas centrais no meu trabalho”, ele define e completa: “Tudo que fiz na internet,  sempre foi muito transparente, não me escondo, minha produção é honesta até na tosquice. Quando fui preso, em 2013, as pessoas tomaram meu lado porque já me conheciam, antes mesmo de eu contar minha versão”. Assim, se , por um lado, o episódio rendeu infortúnio,  por um lado, lhe rendeu audiência pelo outro.

Rafucko chama a atenção e os maus bocados vêm a reboque. O primeiro foi em 2013, ano em que ele produziu nada menos que 32 vídeos de caráter essencialmente político. Foi detido durante uma manifestação.

O segundo episódio policial ocorreu quando Rafucko foi acusado de ter usado manequim roubado da loja Toulon para fazer uma performance artística. Um de seus vídeos, em que faz uma clara provocação à Rede Globo, foi retirado do ar. “Esse é realmente o vídeo que a Globo não quer que você veja” , diz ele. Chamado para depor a respeito, apareceu na delegacia vestido com um traje que ele define como “William Bonner sexy”, com direito a meia arrastão. “Fiz a campanha lá mesmo, com cartaz e tudo. Em um dia consegui 10% do que eu queria (de audiência) para o meu talk show”, relembra, com desdém.

Formado em radio e TV pela UFRJ, Rafucko, quem diria, também passou pelo PIG. Mas foi apenas uma experiência breve no GNT. Queria mesmo – e muito, segundo ele – criar, escrever, dirigir, atuar. Em 2013, foi listado pela revista Galileu e pelo portal youPix como umas das 25 pessoas mais influentes na internet brasileira. “Uso um pano comprado no Saara, a R$ 20 o metro. Eu mesmo faço tudo e atuo sempre.”

A forma ou o conteúdo, o que vale mais? “ Mais importante do que o que estou falando é a forma como estou fazendo meus vídeos, de forma independente, dentro do meu quarto”, enfatiza. É assim que ele define sua forma de transgressão: “Não odeie a mídia, seja a mídia. Ser a mídia é mais importante do que meramente criticar. Todos nós somos midias quando postamos um comentário. Pode ter três curtidas, mas naquele momento, você é o assunto”, prega ele.

Rafucko diz acreditar que a informação é mais confiável quando as pessoas conhecem a sua origem.  “Eu procuro muito ouvir o outro lado, para ter  certeza sobre a informação  e me  dar a oportunidade de reconhecer que eu posso estar errado. Devido à minha fragilidade, tenho que checar tudo. Se acontece de eu errar, refaço rapidamente o post. Procuro sempre checar antes. Junto com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”, afirma ele, lembrando uma frase tirada do filme “Homem Aranha”. Bem a cara dele.

Deixem que pensem e que falem

Quem tem legitimidade para falar e como encontrar informações confiáveis? “A notícia falsa é propagada porque as pessoas não se dão ao trabalho de ler. Há uma massa de informações que as pessoas divulgam baseadas no título. Temos de fazer escolhas e, quando escolhemos, estamos selecionando um viés”, ponderou Anabela Paiva, ao abrir a primeira rodada de perguntas, relatos e comentários vindos da plateia. Ativistas e  produtores, alunos e estagiários de projetos como Universidade das Quebradas, Circo Crescer e Viver, Cecip e Parceiros do RJ, a representantes de ONGs e instituições acadêmicas como UERJ, ESPM e UFRJ deram o tom da conversa a partir daí.

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Provocadores e plateia no Rio de Encontros: informação em disputa / Foto: ESPM

“Com todo respeito, eu não acredito em imparcialidade de nenhum interlocutor. É sempre parcial quem apresenta o que checa. Mas isso não é defeito. Pior é hoje defender um lado, e outro amanhã, por dinheiro”, iniciou Denise Kosta. Bruna Rios quis saber qual medida adotar para barrar o fluxo de informações que nunca sabemos se são verdade ou não verdade. Como checar mais rapidamente? Leonardo Rangel relembrou o dia em que o prefeito do Rio, Eduardo Paes, alegou chuva para pedir à população que ficasse em casa, mas houve quem dissesse que era só para evitar trânsito na rua. Lorran Portilho questionou: quem trabalha na Globo tem mesmo dificuldade para expressar suas opiniões? Luis Gustavo Soares estava interessado na crise que o jornalismo atravessa, se falta dinheiro ou referência. Leonardo Oliveira aproveitou o embalo: como identificar quem faz um jornalismo crítico, isento? Como ser parcial sem mentir? Como defender posições, sem mentir?

A palavra volta, então  aos provocadores, comentando mais diretamente algumas  perguntas específicas da plateia, respondendo a questões mais gerais ou debatendo entre si.

Cristiane Costa – A  grande dificuldade é separar o joio do trigo. É natural que as pessoas se identifiquem com um determinado lado. Talvez por isso seja tão difícil falar em imparcialidade. Não se busca   mais a verdade dada, que já se sabe que não existe. O grande marco foi a cobertura das Diretas Já, que levou milhões de pessoas às ruas, e foi ignorada pela  televisão. Até o momento em que não deu mais para omitir. O público hoje pode ter muito mais informações, é menos ingênuo e mais questionador. Ele perdeu a certeza, mas tem acesso a tudo e pode ouvir os dois lados. Não é mais só o jornalista que tem de ouvir os dois lados. O público também. Tem de ficar claro que o jornalismo e  a publicidade são diferentes.

Cristina Tardáguiia – Checagem tem um problema, que é a base de dados de que se dispõe. Para dizer que fulano está mentindo, tenho de ter uma base na qual a audiência acredite. Tem que ter o furo jornalístico? Não. O importante é estar certo. Eu já perdi vários furos por opção. Tem de tudo no jornal. Jornal é um monte de gente. A minha posição não é a posição do Globo, onde nunca entreguei um texto que estivesse em desacordo com o que eu penso. Nada te obriga no jornal a botar seu nome onde você não quer. A função do repórter no jornalão é dar trabalho para o editor. O cerceamento não pode ocorrer na apuração. Já na Lupa, não adianta querer fazer só que você sabe ou quer, tem que ser gestor. Eu tenho de saber quanto custa uma assessoria jurídica porque é óbvio que vou ser alvo de processo. Esse lado gestor dá trabalho. Assim como seguir toda a metodologia do checking também dá trabalho. O texto é extremamente hiperlinkado. A imparcialidade deveria existir e eu tento conseguir  isso loucamente: faço uma busca real para dar o mesmo número de porradas no governo e na oposição. E o humor? ocupa um espaço bacana, mas não resolve. Não se pode falar de impeachment só fazendo graça. Torna leve, mas a reflexão é efêmera. Se  precisa de dados, de declarações. Viva o humor, mas não se pode parar nele, não.

Rafucko – O papel do humor é o papel da arte, criar um absurdo para chamar a atenção para o absurdo da realidade. Você constrói e desconstrói. Tem a ver com a tomada de consciência. As mudanças não acontecem aí, mas  a partir daí. E acho que pode ser parcial, desde que fique claro o lado que você está defendendo. O William Bonner só muda a cor da gravata, é todo certinho para passar neutralidade, isenção, lisura. Por isso eu exploro a sexualidade dele usando meia arrastão e  vinte gravatas. A gente tem de desconstruir a imagem para dizer onde está a parcialidade. A caso do Santiago Andrade, cinegrafista que morreu atingido por um rojão na cabeça em janeiro de 2014, durante um protesto no Centro do Rio de Janeiro, é um exemplo: o video mostra que foi acidente,  os manifestantes não mataram um membro da imprensa da forma como foi noticiado. Ele (Santiago) estava numa zona de conflito, e a empresa deveria ter sido processada. A empresa era a responsável pelo lugar onde ele estava. Mas a notícia não foi dada como deveria.

Ninguém é ‘isentão’

Estudantes e jovens de projetos de origem popular disputam falas na plateia do Rio de Encontros / Foto: ESPM

Estudantes e jovens de projetos de origem popular disputam falas na plateia do Rio de Encontros / Foto: ESPM

Informação aliada ao humor seria outra tendência? É possível que o jornalismo volte a ser mais equilibrado é possível?, questionou Teresa Guilhon. “Eu nunca publiquei nada que eu não quisesse, isso é mesmo verdade? Como a gente não se corrompe? Sou jovem e estou iniciando, como resistir?”, disparou Camille Rodrigues. Já  Kamila Santos uniu  edição de conteúdo, legitimidade e maior alcance de público para questionar por que a favela não é notícia na grande mídia. Pedro Cruz foi assertivo e garante que faz parte de uma geração que a grande mídia ainda não conseguiu resolver como retratar. Elizabeth Toledo quis saber como ser imparcial num mundo em que você tem de  ter opinião sobre tudo? Leonardo Oliveira pôs o dedo na ferida: os grandes veículos não alcançam a favela. E atenção, todos, há no mundo digital espaço para a mídia impressa?

Ilana Strozenberg, diretora acadêmica d’O Instituto, apontou outra questão central: vamos acabar com o jornal já que todos somos jornalistas? “Hoje em dia não ser a favor do jornal empresa parece ser  um valor. Se o jornal pode influir sobre a sociedade, a sociedade também pode influir sobre o jornal. Não penso que  exista uma concentração de más intenções no jornalismo ou nos jornalistas”, ressalvou.

Segundo ela, evidenciar o modo de produção da informação pode ser a chave da imparcialidade. “A imprensa empresarial omite muito mais do que a imprensa tradicional, que era porta-voz assumido de posições políticas e ideológicas. A narrativa será sempre parcial. Receio que comecemos, sem perceber, a ficarmos  numa dicotomia, que vê a mentira como existindo de um só lado. Isso é perigoso para a democracia”, completou.

Aos provocadores e suas ponderações

Rafucko – Práticas jornalisticas todos nós temos de ter. Sobre os robôs, é uma questão que merece um debate, porque é grave. Robôs são perfis falsos. Em relação à busca da representatividade, os sites de comunicação alternativa, que falam de dentro são importantíssimos. Você tem de ver quem são os jornalistas que estão na redação do Globo, quantos deles são da favela. Ter opinião? Não tem de ter. Recebo muitos pedidos de opinião e me permito não ter opinião sobre muitas coisas. A gente tem de dar uns passos para trás e ter um tempo para pensar. A gente tem de se permitir não entrar no fluxo de loucura, de compartilhamento de absurdos, uma corrente que dá muita chance de errar. Permita-se não ter opinião. Limite para o humor? O humor não tem limite, mas tem um momento em que ele não provoca o riso. Você pode fazer piada de tudo, desde que não ofenda, não agrida.

Cristina Tardáguila – O diálogo na rede social funciona à base de algoritmo. A informação da timeline de cada um é diferente, você recebe apenas 2% de tudo o que os seus amigos postam. Todos estão repercutindo a mesma notícia? Não. A sua banca de jornal que é o seu facebook tem uma interação que você não controla. Existe o link patrocinado, que impulsiona a informação, ou seja, você bota dinheiro para influenciar o algoritmo. O problema é quando isso é feito de forma escusa. Se você tiver um milhão de dólares para pagar, a sua noticia será a primeira, seja verdadeira ou falsa. Ah, apaguei rápido para ninguém ver? Ô, não deleta, diz aí, acusa o golpe. Reconhecer o erro é legal e é bonito.  Sobre o jornalismo dentro de um redação, se você ceder uma vez será obrigado a ceder sempre. E sobre representatividade, todo mundo briga contra o PIG, mas todo mundo quer ser PIG. A revolta, portanto, tem de ser canalizada para uma ação. Quando não confio, dou mais de uma fonte oficial. Sou isentão, não posso não ser. Não compartilhe. Ser checador exige ser isentão ao extremo. Tanto que não aceitamos publicidade oficial do Estado. Eu podia abraçar o diabo e fazer checagem para partido político, mas, não, não. Ah, mídia impressa? Morreu.

Cristiane Costa (em pé) discorre sobre jornalismo em tempos de redes sociais / Foto: ESPM

Cristiane Costa (em pé) discorre sobre jornalismo em tempos de redes sociais / Foto: ESPM

Cristiane Costa – Leiam o livro A Hora da Geracao Digital (de Don Tapscott, AGIR), sobre essa geração que não paga por informação e para quem o dia seguinte é longe demais. É por isso a gente não lê mais. O desafio? O grande tema, o Santo Graal é contagem. Epidemia, viralização e contágio são os termos da vez. E, nessa guerra de narrativas, robôs falsos são programados obter engajamento. O jornalismo perdeu seu papel de legitimador do discurso, mas a publicidade também. A gente quer saber o que as outras pessoas acham. Dois anos atrás, o facebook revelou um teste de notícias positivas e negativas, com o qual os psicólogos poderiam perder seus registros, porque existe uma ética para estudos com humanos. O poder aí é muito maior que o da imprensa. Se tem uma coisa que é o futuro é a cartografia de controvérsias e a ideia de contágio.

Informações em disputa: Rio de Encontros em frases e fotos

O espaço virtual virou um campo de batalha de versões e narrativas. Que há muita informação em circulação nas redes sociais, ninguém tem dúvidas. Resta saber qual o grau de confiabilidade e legitimidade que esse arsenal de notícias, opiniões e relatos detêm. Esse foi o ponto de partida do segundo Rio de Encontros de 2016, realizado no dia 19 de maio, no auditório da ESPM.

Rio de Encontros: Informações em disputa: confiabilidade e legitimidade nas redes virtuais / Foto: Teresa Guilhon

Rio de Encontros: Informações em disputa: confiabilidade e legitimidade nas redes virtuais / Foto: Teresa Guilhon

Para discutir o “Informações em disputa: confiabilidade e legitimidade nas redes virtuais”, foram convidados como provocadores a coordenadora do curso de Jornalismo da UFRJ, Cristiane Costa, o midiativista Rafucko e a jornalista e coordenadora da agência de checagem Lupa, Cristina Tardáguila. Na moderação, a também jornalista Anabela Paiva.

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Confira algumas das falas mais marcantes do debate, que envolveu uma plateia diversa em origens geográficas e heterogênea em atividades: ativistas da Anistia Internacional, produtores de TV, alunos e estagiários de projetos como Universidade das Quebradas, Circo Crescer e Viver, Cecip, Parceiros do RJ e Casa Fluminense, e de instituições como UERJ e UFRJ.

“A verdade é quase um ideal. E, no jornalismo, um ideal quase inatingível. Daí talvez seja importante falar em busca da não mentira.” Cristiane Costa

“Está na hora de cobrar a imprensa que baixe o tom e volte a ser menos opinativa e mais factual.” Cristiane Costa

“É muito fácil falar de política no Brasil, porque fala-se muito e erra-se demais”.
Cristina Tardáguila

“Mais importante do que o que estou falando é a forma como estou fazendo MEUS VIDEOS, de forma independente, dentro do meu quarto.” Rafucko

“Com todo respeito, eu não acredito em imparcialidade de nenhum interlocutor. É sempre parcial quem apresenta o que checa. Mas isso não é defeito.” Denise Kosta

“Fico impressionada como as pessoas bem formadas compartilham coisas tão evidentemente falsas.” Silvia Ramos

“A notícia falsa é propagada porque as pessoas não se dão ao trabalho de ler. Há uma massa de informações que as pessoas divulgam baseadas no título.” Anabela Paiva

“Humor tem de ter como objetivo desmontar, desmistificar, desvelar o que está escondido atrás. Não vai mudar a realidade, mas ajuda as pessoas a perceberem o que está por trás da realidade.” Claudius Ceccon

“Ocupar é importante, sim, pertencer a algum lugar e lutar por ele, é muito importante.” Bruna Rios

“Não é mais só o jornalista que tem de ouvir os dois lados. O público também. Os algorítimos fazem com que você não veja mais o que o outro lado está dizendo.” Cristiane Costa

“Para dizer que fulano está mentindo, tenho de ter uma base na qual a audiência acredite.” Cristina Tardáguila

“O papel do humor é o papel da arte, criar um absurdo para chamar a atenção para o absurdo da realidade.” Rafucko

“Como ser imparcial num mundo em que você tem de ter opinião sobre tudo? Tem de saber, opinar ou será execrado.” Elizabeth Toledo

“A narrativa será sempre parcial. Receio que comecemos, sem perceber, a ver a mentira só de um lado. Isso é perigoso para a democracia.” Ilana Strozenberg