A comunidade é nossa

Marcus Vinícius Faustini, coordenador do projeto Agência de Redes para a Juventude – Rio de Encontros, novembro de 2011

Uma edição extra para um projeto que propõe ações concretas. O Rio de Encontros abriu as portas e formou plateia para que os jovens da Agência de Redes para a Juventude apresentassem planos e propostas para seis comunidades com UPP no Rio de Janeiro. Foram 900 inscritos no início do ano, 300 escolhidos. Depois de muitas provas, seis foram selecionados. Cada um vai receber R$ 10 mil. É o começo.

O coordenador da meninada, Marcus Vinícius Faustini, falou das motivações, discorreu sobre a metodologia, e chamou, um a um, os grupos que se formaram desde abril de 2011. Providência, Borel, Cantagalo-Pavão-Pavãozinho, Cidade de Deus, Batan e Babilônia/Chapéu Mangueira, pelo visto, ainda vão ouvir muito falar dessa turma. Que ninguém duvide.

Nos últimos 20 anos, Faustini se dedicou a pensar a cultura no Rio de Janeiro, sobre o que é viver e existir na cidade e em como ela pode ser mais democrática, um lugar de encontro e não de medo. A conclusão foi de que o discurso é insuficiente. É preciso criar ações concretas para que os espaços de encontro existam. “A Agência é uma síntese, uma experiência de tentar, a partir da estética, criar um espaço-tempo que gere oportunidades para o jovem, um forma de garantir que ele tenha sua expressividade reconhecida na cidade”, disse o coordenador, logo na abertura do Rio de Encontros.

A Agência segue o princípio da radicalização da democracia como possibilidade de qualquer um poder fazer a diferença. “A arte tem uma enorme contribuição nesse processo. Esse é um projeto de arte. É sobretudo um projeto de experimentação estética. Favela não é só tiroteio”, ressaltou Faustini. Cheio de entusiasmo.

Gente de favela tem cara?

O objetivo da Agência de Redes para a Juventude é estimular a criatividade, a responsabilidade e a ação a partir de uma ideia própria. Para isso, os jovens passam por um ciclo de estímulos, discutem ideias e projetos, enfrentam várias bancas, aprendem a negociar e a defender o que pensam.

Edição extra do Rio de Encontros sobre os projetos da Agência Redes para a Juventude, os projetos selecionados

Os meninos e meninas que se apresentaram na Casa do Saber se entregaram à viagem da Agência e chegaram ao meio do caminho. “Por que dar R$ 10 mil nas mãos desses meninos? Tem quem não acredite mas tem quem aposte. É uma ruptura. Nossa ruptura é apostar no jovem como protagonista, um parceiro e não um aluno. Tem projeto de vanguarda. Tem projeto que identifica uma série de potências da comunidade. Estamos inventando uma nova geração, uma geração de jovens realizadores. O território permite a experimentação.
Uma cidade democrática é uma cidade que permite o fluxo de sujeitos e não apenas de capital. Se a gente não privilegiar o carioca, se não fizer um corte, não radicaliza”, ressaltou Faustini.

Em 2012, a Agência continua nos territórios e os planos são garantir mais profundidade. Os projetos que estão ganhando agora R$ 10 mil reais vão concorrer a R$ 30 mil para ganhar escala. “Nós vamos para Santa Teresa, que tem 17 comunidades e aparece como bairro de artista. Nosso novo modelo é juntar jovens da cidade inteira para pensar ideias para a cidade física. E o começo será por Santa Teresa. A arte tem de ser pensada como elemento transformador do território, uma estratégia de interferir na vida e não representá-la apenas”, anunciou Faustini.

Ideias em ação, os projetos que ganharam palmas

Jovens que participam da Agência Redes para a Juventude apresentam seus projetos no Rio de Encontros

Oi Galera Oficina de Arte – oficina de músicas e instrumentos de percussão
“Esse projeto pretende usar a música em oficinas de corda e percussão. O projeto vai ter uma bicicleta para o comércio, uma para casas religiosas e um triciclo. A ideia é trazer arte e entretenimento a partir de instrumentos de corda e de percussão”.
Cléber Gomes, que montou a sede na garagem de casa, no Batã.

CDD na Tela
“É um site com pequenos vídeos sobre a Cidade de Deus. São programas coltados para os jovens. Nosso objetivo é incentivar as novas produções audiovisuais. Teremos três programas: CDD Informa, CDD Esportes, e CDD e Você. Vamos na casa de algumas pessoas que se destacam de alguma forma na comunidade, fazer um debate com todos os jovens – num bar, porque na CDD tem muito bar. CDD na tela, mostrando pra você nossa favela. Nosso projeto é autossustentável, vamos divulgar entre os comerciantes, já temos uma loja e cinco lan houses.”
Lucas, Matheus, Romulo Larissa e Hugo

Conexão Cultural
“Vimos a necessidade de ter um teto para os artistas na própria Cidade de Deus. Pensamos em um lugar onde todos os artistas possam se encontrar e mostrar seus trabalhos. Vamos fazer junções de muitos artistas que nem se conhecem. Pegamos as ideias dos quatro, juntamos e pensamos no conexão cultural.”
Ricardo Fernandes, Guilherme Gonzales, Luisa Nascimento e Carolina Meireles

Providenciando Vidas
“É um projeto para gestantes de 12 a 25 anos. Uma equipe multidisciplinar criada para dar atenção especial às meninas. Muitas vão estar no meio da adolescência e elas vão encarar a maternidade nesse nosso grupo de apoio. Tem psicólogo, psicanalista, tem até uma cineasta. No final, a gente vai ter um enxoval para elas. Além do enxoval, estamos fazendo uma barriga de gesso de cada uma para fazer uma exposição. Nós georeferenciamos todas as grávidas da Providência. Além de receber os conteúdos e as conversas, elas terão um ambiente criativo, que trabalha com a dimensão da autoestima.”
Raquel e Ana Cristina

Recicriando
“Nós criamos um projeto para reduzir o lixo no Borel através de oficinas para pessoas a partir de 10 anos sem limite de idade. Já são 20 inscritos. Serão criados instrumentos musicais a partir do lixo; faremos uma horta, e teremos o dia da alface, vamos levar o pessoal das oficinas para recolher o lixo nas casas. Quem dá o lixo ganha uma alface. E no final, faremos uma feira com todos os produtos produzidos nas oficinas.”
Caio, Gabriel, Aiara e Patrick são jovens que viram o lixo como um problema muito sério no Borel

Nós com todos
“Nosso projeto visa estimular o desenvolvimento artístico dos jovens. Queremos unir o Borel e a casa Branca, eles têm de deixar de brigar. É isso. As oficinas serão sábado e domingo. Vai vir aluno do Borel também.”
Juliana Wallace

Mané Produções
“Além de identificar a falta de programação para datas comemorativas, identificamos também a falta de espaço para a juventude. Vamos contar a história da comunidade para a comunidade e para os novos moradores que não sabem nada da história. Além de homenagear e comemorar, a gente quer contar a história da comunidade. Dia das mães, dia dos pais, natal e dia das crianças já estão no calendário.”
Eduardo, do Chapéu Magueira – Babilônia, que identificou que não havia uma produtora que se beneficiasse com os eventos que todos querem levar para as favelas

Coletivo Fitando Arte
“Começa assim a apresentação… Alguém aqui tem uma sacola plástica, tem? Isso aqui é a sacola na mão dele… Essa sacola pode ir para qualquer lugar. Na mão de vocês, a sacola está assim. Dando a sacola na nossa mão, vira produto de decoração e moda. A nossa ideia não é abrir uma loja na rua, mas na comunidade, para que as pessoas possam subir e encontrar esses produtos. Mulheres de lá vão gerar renda. Vamos rodar a comunidade inteira, que já foi mapeada, e mostrar o que as sacolas provocam nas mãos de cada um e o que elas podem virar, nas nossas mãos.”
Carlos, Vanessa e Renata

Boca de Lixeira
“Vamos formar 30 jovens em educação ambiental, que serão multiplicadores. Serão realizados três mutirões para que os jovens apliquem o que aprenderam. No mutirão, vamos sortear eletrodomésticos para os moradores e para os jovens. Vamos dar blusa, lanche, acesso a cultura.
Joyce, do Cantagalo
“Eu só consigo falar com o coração. Se a realidade do lixo não mudar no mundo, não sei onde vamos parar. Se eu falar com o coração, tenho uma linguagem mais detalhada. Espero que todos se conscientizem em relação ao lixo.”
Leandro

H2BK
“O objetivo é a formação de um grupo de pessoas do Cantagalo para que possam seguir a vida profissional. Eu danço, e antes de dançar o hip hop eu dançava funk. Eu quero que a minha comunidade viva a experiência de saber tudo que a cultura hip hop engloba. Em oficinas, eles vão ter acesso ao contexto histórico do hip hop. A primeira fase serão intervenções nos locais mais frequentados pelos jovens da comunidade. A segunda etapa serão os workshops, que vão ser feitos durante um mês, com 80 pessoas, que passarão por uma banca formada por professores que vão selecionar e julgar as pessoas que vão fazer parte do grupo. Após a seleção e o aprimoramento, eles serão preparados para a prova do sindicato de dança. O objetivo maior é profissionalizar as pessoas.”
Ronaldo, do Cantagalo

Perguntas e respostas sobre os jovens em rede

Rio de Encontros, perguntas sobre os projetos da Agência de Redes para a Juventude, novembro de 2011

Depois da apresentação dos jovens, a plateia ganhou a vez de participar. Além de comentários e estímulos tanto aos jovens quanto ao próprio trabalho desenvolvido pela Agência de Redes para a Juventude, houve muitas perguntas. Abaixo, um resumo do debate final do Rio de Encontros especial.

Como funciona a sustentabilidade financeira? Acabou o dinheiro o projeto acaba?

Há uma monetarização excessiva da produção cultural. O produto é um dos elementos do projeto. O que a gente quer é propor uma economia viva, uma economia de saberes. Nós podemos exportar tecnologia social. O projeto não precisa existir apenas enquanto não gastou os 10 mil.

Existe alguma atividade específica ou proposta para estimular a rede entre os projetos? Vai ter continuidade?

A gente não queria que eles pensassem sob a lógica da qualidade que cada um tinha. Cada um compõe um elemento da rede. O realizador, o questionador, o feliz. A gente trabalha muito com a ideia de arte contemporânea no material pedagógico. A favela como lugar do contemporâneo. A ideia de rede existe. Rede é ação. Não é um bando de pontinhos interligados. São colchas que vão se sobrepondo, pontos que se ligam. A ideia de rede é sobretudo gráfica, imagética, é ação que gera um fluxo sempre.

O desafio, este ano, foi estabelecer a metodologia e reposicionar o ator social para esses jovens. São várias teias, a metodologia, a convivência, enfim. Faz parte da metodologia aprofundar os projetos de 2011, abrir novos círculos de estímulo e disputar o território de Santa Teresa e misturar jovens de camadas sociais diferentes. A gente vai testar misturar os jovens de Zona Sul com jovem de favela.

Vocês pretendem radicalizar a democracia. Mas isso é suficiente? Que futuro a gente espera para esses jovens com um projeto como esse? Se estamos numa sociedade capitalista que existe e está aí. Parece que a gente quer construir uma nova sociedade. Qual é o objetivo? Se se radicaliza a democracia e os valores continuam estruturados da mesma forma?

Minha preocupação não é o futuro é o presente. Pude passar por algumas duras porque era branco. Somos atores sociais que transformam realidades. É bacana a cidade ter gente dessa origem fazendo esse tipo de coisa. Vai ser bom pra todo mundo. o presente é uma oportiunidade, é uma cidade em disputa. Meu problema não é o futuro. A cidade é a cidade do medo. A gente pode inventar lugar. Acho que o problema é do presente, que não está resolvido. O que a gente identificou é que existem outras formas de nos relacionarmos com os jovens.

Esses jovens estão rompendo com uma situação imposta a toda a comunidade. Eles tiveram a coragem de propor uma ruptura. A pergunta é se conversaram com o pessoal que mora na casa branca, isso é um anseio particular? Como funciona?

A gente tem redes, sim entre as comunidades. O Leme vai invadir a Providência e, dessa vez, não vai ser por facção, vai ser para fazer oficina, disse a Vanessa, do Chapéu Mangueira . Já rolou churrasco, já rolou praia e até apalpinho entre algumas pessoas do Borel e da Casa Branca. Nós queremos mostrar que nós podemos nos dar bem.