Mobilização jovem: Da Passeata dos 100 Mil aos dias atuais

Ilana Strozenberg abre o Rio de Encontros sobre mobilização jovem: Da Passeata dos 100 Mil aos dias atuais / Foto Marco Sobral

Ilana Strozenberg abre o Rio de Encontros sobre mobilização jovem: Da Passeata dos 100 Mil aos dias atuais / Foto Marco Sobral

Um encontro sem protocolo e com um esquema experimental. Três convidados, três perguntas para começar a conversa. Na terça-feira, 13 de agosto, o Rio de Encontros promoveu uma roda vivíssima, definição de Ilana Strozenberg, diretora acadêmica d’O Instituto, para o evento que reuniu o jornalista Zuenir Ventura, a professora e pesquisadora do CPDOC/FVG Dulce Pandolfi, a colaboradora da Midia Ninja Daniela Fichino e uma plateia de origens variadas. Antropólogos, jornalistas, sociólogos, arquitetos, representantes de organizações não governamentais, professores e estudantes universitários e pós-graduandos lotaram a sala 2 da Casa do Saber Rio – O Globo, para ouvir e debater sobre a mobilização jovem no Brasil desde a Passeata dos 100 Mil, em 1968, até as manifestações que tomam as ruas do país desde o mês de junho.

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Ilana Strozenberg deu as tradicionais boas vindas e explicou como se desenrolaria a manhã: com perguntas, respostas, relatos e comentários de convidados e da plateia. Silvia Ramos, conselheira d’O Instituto e coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), apresentou novamente os jovens que participam do projeto Rio de Encontros de forma permanente em 2013. A jornalista Anabela Paiva, diretora executiva d’O Instituto, teceu justas loas aos convidados acomodados no palco e explicou a relação de cada um com o tema do mês.

Dono de muitas máximas e reconhecidamente um jornalista de importância impar na imprensa brasileira, Zuenir Ventura escreveu o livro 1968 – o ano que não terminou. Dulce Pandolfi foi diretora do Ibase por oito anos, é historiadora, e foi militante durante a ditadura, período sobre o qual deu depoimento expressivo para a Comissão da Verdade. “Já Daniela Fi está aqui porque está em todos os lugares e em todas as manifestações, e faz parte do núcleo do Mídia Ninja (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação)”, anunciou Anabela, antes de partir para a conversa que todos aguardavam.

Zuenir: Como foi e o que pode ser, uma visão comparativa

Zuenir Ventura: "A História não se repete ou se repete como farsa. Mas, às vezes, ela imita" / Foto Marco Sobral

Zuenir Ventura: “A História não se repete ou se repete como farsa. Mas, às vezes, ela imita” / Foto Marco Sobral

A primeira pergunta da manhã foi para Zuenir Ventura. Quais os principais pontos em comum entre os movimentos de 1968 e as manifestações atuais? E quais as diferenças?

Às diferenças, primeiro. “O país é outro, a geração é outra, até o conceito de geração é outro. O mundo mudou. A passeata dos 100 mil foi contra a Ditadura. Os movimentos de hoje têm como ponto de partida uma cidadania mal resolvida”, acentuou o jornalista.

Mas há semelhanças devidamente demarcadas. “Quando estourou 1968, se dizia que nada acontecia no país. Que a juventude não fazia nada, não reagia. Aqui no Brasil como em Paris, que teve seu Maio de 68. Curiosamente, se dizia desta geração atual que não quer saber de nada, de política, de leitura e, de repente, aconteceu aquilo, milhões de pessoas nas ruas. A mesma atitude em relação à juventude em 1968, tivemos agora em relação a essa garotada. O que se achava é que a internet era instrumento de alienação e isolamento. Para nossa surpresa, tudo aconteceu a partir da internet. Esse paralelo precisa ser levado em consideração. Claro que a História não se repete ou se repete como farsa, mas às vezes ela imita”, afirmou.

A Passeata dos Cem Mil, realizada em 26 de junho de 1968 e considerada a manifestação popular mais importante da resistência contra a ditadura militar, foi um momento culminante do movimento estudantil. Desde a morte do estudante Edson Luís Lima Souto, baleado pela polícia no dia 28 de março, o ano seguiu turbulento e o desfecho todo mundo conhece, a promulgação do O AI-5 (Ato Institucional nº 5), no dia 13 de dezembro.

O que preocupa Zuenir sobre as manifestações de agora são os desdobramentos: “A lição de 1968 é que esse movimento atual tem de ser preservado de qualquer maneira. Mesmo que se esvazie. Como aconteceu em 68, esse movimento precisa da classe média, ou seja, precisa da opinião pública”, ele explicou. Para vencer a resistência de uma classe média que temia a violência nas manifestações, a estratégia era aproximar o discurso do alvo: você que é explorado não fique aí parado. “Tanto que uma das palavras de ordem do enterro do Edson Luís era ‘e podia ser um filho seu’. Era uma forma de trazer a consciência de que qualquer um estava vulnerável”, Zuenir descreveu.

A forma de mobilização também mudou e a internet é responsável por outra diferença acentuada. “A Passeata dos Cem Mil levou quatro dias para ser organizada. Acho que essa de agora foi mobilizada em muito menos tempo e menos trabalho de discussão”, pontuou.

Longa história entre dois junhos

Dulce Pandolfi: "Estou no fio da navalha entre a memória e a história" / Foto Marco Sobral

Dulce Pandolfi: “Estou no fio da navalha entre a memória e a história” / Foto Marco Sobral

Coube a Dulce Pandolfi comparar o papel de intelectuais, artistas e da própria imprensa nos dois junhos – de 1968 e de 2013 -, além de outros momentos de mobilização jovem, como as  Diretas Já e impeachment do presidente Collor. Só uma palhinha, brincou Anabela sobre a pauta tão ampla.

Clara e didaticamente, a professora e pesquisadora do CPDOC/FGV discorreu sobre o que a sua própria geração fez e testemunhou. “O pano de fundo dessa geração de 1968 são as certezas absolutas, essa é uma marca. A certeza no socialismo, fosse pelo caminho revolucionista ou o mais radical. A gente também queria liderança, vanguarda; e sabia também que só quando corrigisse esse mundo, as minorias alcançariam o seu lugar. O importante era a classe operária.”

Passados alguns anos, depois de vitórias e derrotas, a esquerda começou a se questionar. “O Muro de Berlim caiu, a divisão bipolar entre capitalismo e socialismo perdeu sentido. Essa é uma marca forte que abala a certeza da antiga esquerda”, avaliou.

Sem mais o paradigma como se tinha no passado, segundo ela, estão todos em busca de um modelo. Não há mais receita de bolo. “O mundo do trabalho mudou enormemente, hoje são vários sujeitos históricos, não há mais hierarquias dos movimentos sociais. Não só no Brasil, mas no mundo, os partidos estão em crise. Há uma série de questionamentos e possibilidades de novas apropriações do saber antigo.”

No fio da navalha entre a memória e a história, ela fez a comparação: “Em 68 havia o projeto contra a sociedade capitalista em prol de um novo modelo. Havia um trabalho brutal de mobilização, não existia celular nem internet. A gente passava a noite fazendo panfletos, usava mimeógrafo, percorria sala por sala, numa convocação que demorava muito tempo. O movimento estudantil era estruturado, do diretório acadêmico até a UNE. Havia reuniões por sala, depois por escola, finalmente uma assembleia geral que resultava em comício. Meus alunos não sabem o que é telegrama”, ela descontraiu.

As formas de mobilização e o período fazem toda diferença. “Era uma ditadura. Além da dificuldade de comunicação, havia a repressão. De um modo geral, as manifestações eram feitas com muito cuidado para que a repressão não soubesse antes. Os comícios eram surpresa e o clima era completamente diferente”, ela ressaltou também que havia uma pauta precisa.

“Abaixo a ditadura” e “O povo no poder” eram os motes. “Hoje, as questões de exploração econômica quase não aparecem. A pauta é em cima da cidadania, do direito à cidade e por aí vai. A pauta torna os movimentos divergentes. A Passeata dos Cem Mil de 2013 foi o acúmulo de uma série de outras manifestações de que não se ouvia falar”, afirmou. Para além dessas diferenças, não há lideranças. “Em 2013, há uma diversidade de atores”,

Sobre meninos, meninas e as ruas

Daniela Fi, advogada e colaboradora da Mídia Ninja: "Comparar é sempre oneroso" / Foto Marco Sobral

Daniela Fi, advogada e colaboradora da Mídia Ninja: “Comparar é sempre oneroso” / Foto Marco Sobral

Daniela Fi, como as manifestações estão se articulando? Qual o papel da mídia Ninja nesse movimento? “Não sou porta-voz de nada, está todo mundo misturado nesse processo”, adiantou a advogada que já chegou a fazer plantão para defender manifestantes presos no Rio de Janeiro.

“No início, eu era procurada para indicar pessoas. Perguntavam poxa, quem está puxando a plenária do IFCS, o Ocupa Cabral? Era sempre espinhoso. Não tem ninguém puxando especificamente”, disse.

A pauta e as lideranças são duas características muito marcantes dos movimentos atuais e sobre os quais todos têm alguma pergunta a fazer. “Está mudando tudo intensamente. O tempo ajuda a pensar e a estruturar. Pensar no calor dos acontecimentos é muito difícil”, Daniela emendou que dada a diversidade dos temas postos em debate, melhor seria não fechar uma questão única.

“Talvez a pauta aqui fosse muito mais fortemente a polícia, se a nossa conversa fosse após o episódio da Maré. Durante a JMJ, a polícia saiu do foco. Hoje estamos preocupados em discutir as mudanças estratégicas do governador e do prefeito, a imagem que eles querem vender. A gente poderia falar do papel da mídia. Dado o panorama contrastivo, comparar é sempre espinhoso e oneroso”, tangenciou ela.

Ok, fizemos nossa Passeata dos 100 Mil

Bruno F. Duarte: "Ok, nós fizemos nossa Passeata dos 100 Mil. Somos politizados" / Foto Marco Sobral

Bruno F. Duarte: “Ok, nós fizemos nossa Passeata dos 100 Mil. Somos politizados” / Foto Marco Sobral

E assim o microfone passou a circular pela plateia para a primeira rodada de perguntas, comentários e relatos de experiências. Em um ir e vir, os temas foram se alternando e ganhando abrangência.

“Em Belo Horizonte, houve uma manifestação em triângulo, em três praças importantes. A passeata parou no hospital e fez silêncio. Curiosíssimo, vamos combinar. Todos aqui falaram em ausência de liderança, mas são muitas coisas ao mesmo tempo. Há uma outra forma de organização social surgindo, não?”, questionou Teresa Carvalho, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF).

O arquiteto Claudius Ceccon mirou em Daniela Fichino: “Desde o princípio das manifestações até hoje, parece que há um princípio de respeito e uma mudança tática de estratégia por parte da mídia tradicional. O que vai acontecer com essa Mídia Ninja?”

Davi Marcos, fotógrafo do Observatório de Favelas, contou o episódio do massacre da Maré. “A gente ficou preso no Observatório. Quando eles (os policiais militares) deram uma pausa, a gente saiu, o Bope entrou. Num dado momento, depois que aquilo se propagou no facebook, me ligaram de São Paulo, da mídia Ninja, e pediram que eu filmasse alguma coisa em tempo real e enviasse para eles. Falei que se eu saísse ali, ia levar um tiro. Isso quer dizer que as informações têm de se cruzar mais”, ele defendeu um melhor entendimento das realidades de cada território. Na Maré, que a turma da mídia Ninja saiba, o perigo é iminente. “Tem de ter essa troca, também”, resumiu.

Bruno F. Duarte, da Agência de Redes para a Juventude, fez questão de lembrar que no dia 17 de junho, no Rio, a juventude pagou sua dívida com a geração de 1968. “Quando a mídia disse que havia 100 mil – claro que a gente achava que tinha mais, bem mais -. a gente pensou OK, fizemos a nossa Passeata dos 100 mil. Pagamos nossa dívida, somos politizados. A gente sabia que tinha muito mais gente ali, mas ok”, ele provocou risos na plateia.

Ao retomar a palavra, Zuenir Ventura revelou ter muito mais perguntas que respostas. “Tenho inveja das certezas. Comungo do interesse do Claudius (Ceccon) em relação ao depoimento da Daniela. Eu quero muito mais ouvir”, disse e acrescentou que a falta de liderança nas manifestações a que todos se referem tem a ver com a crise de representatividade de que os brasileiros padecem atualmente. “Isso é terrível para o país. Você é esmagado por uma avalanche de maus feitos e não acredita em mais nada. E isso tem poder de contágio. Tem a ver com não confiar, não querer entregar a sua representatividade a alguém. Essa é uma das coisas mais sérias, a meu ver, que está acontecendo”, opinou.

Quem faz jornalismo, afinal

Anabela Paiva: "A mídia Ninja se vê como jornalismo" / Foto Marco Sobral

Anabela Paiva: “A mídia Ninja se vê como jornalismo” / Foto Marco Sobral

As formas de produção e circulação de notícia entraram na roda. Para Zuenir Ventura, a mídia Ninja sacudiu o jornalismo assim como os movimentos e manifestações fizeram com os partidos. “É da maior importância, mas me incomoda um pouco uma certa presunção. Tenho a sensação de que eles (a mídia Ninja) acham que estão inventando a imprensa. E essa prática não é de hoje, é uma reatualização de práticas do velho jornalismo”, disse.

Não basta um celular na mão. Ao contrapor imprensa tradicional e mídia Ninja, Zuenir fez questão de acentuar que a apuração é o princípio básico do jornalismo. “A internet criou um campo maravilhoso para a opinião, mas não para a informação. Tem muita coisa para ser repensada no jornalismo. Há uma petulância na exposição da plataforma dessa mídia Ninja. Ouvi dizer que é o pós jornalismo e que o papel da mídia é ativar os desejos. Pois, olha, como diz meu amigo Ancelmo, o que ativa desejo eu não preciso falar”, brincou.

Daniela Fichino ganhou tempo e fez questão de demarcar o seu lugar de fala. “Não sou orgânica do Fora do Eixo. Colaboro desde a final da Copa das Confederações. Isso para que não pareça que estou dando um tipo de resposta que tenha um valor maior que o que tem”, e contestou Zuenir: “O que tenho acompanhado não vai muito nessa direção. Há vários momentos emblemáticos, como os editorias da Folha e do Estadão que passaram a condenar a polícia”, disse. Sobre a apuração e a narrativa, ela também fez uma defesa: “Primeiro, a mídia Ninja não está inaugurando nada, todo mundo está envolvido na produção e conteúdo de forma livre e independente nos seus núcleos. A gente tem essa produção e a mídia Ninja tomou essa dimensão porque estava em condições de capilaridade, de estrutura em diversas regiões do país, tinha condições de cumprir pautas de modo descentralizado. Mas não inaugurou nem linguagem nem modo de fazer”, ela alongou a resposta.

A mídia Ninja se vê como jornalismo?Anabela Paiva perguntou a Daniela, que deu uma resposta segura.

“Sim. Existe uma disputa sobre o quanto se pode mexer na base do jornalismo a partir dessas formas de narrar. Zuenir (Ventura) é dogmático ao dizer que a grande imprensa está fazendo apuração. Desse modo, a gente toma o todo pela parte. Tenho lido coisas estarrecedoras sobre o Fora do Eixo e o que acontece nas manifestações. Eu realmente me pergunto por que os relatos da Globonews podem ser chamados de apuração e o que nós fazemos na rua não é considerado apuração bruta?”, questionou.

Mas a imprensa está em crise, Zuenir abrandou. “Ontem (em um outro debate), critiquei que as mídias se complementam e deveria haver ponto de convergência. O cinema não acabou com fotografia e a televisão não acabou com teatro. Não parta para a coisa antagônica. São convergentes”, assegurou ele.

Claudius Ceccon ressaltou que os tempos apontam para o fim do monopólio de atribuição do valor ao que acontece. “A grande mídia perdeu o monopólio de dizer o que é certo e o que é errado”, afirmou ele, e Daniela aproveitou a deixa: “O que está em disputa é quebrar com esses monopólios. Não são linguagens excludentes, mas é preciso pensar os diferentes papeis que esses mecanismos podem cumprir. Não são excludentes como linguagem, mas o que arejou foi a democratização da mídia”, disse ela.

Os estranhamentos na discussão sobre a mídia são importantes e, sim, é preciso quebrar os monopólios, ponderou Marisa Vassimon: “A gente não pode perder o acúmulo da produção de narrativas de incontáveis movimentos.”

A pauta é ainda mais extensa, defendeu José Marcelo Zacchi: “Acho que se está discutindo muito a mídia Ninja, mas a mídia Ninja é a internet, a banda larga e os aparelhos que se usam. O debate preciso não é a mídia Ninja em si, mas o efeito da universalização das tecnologias e o que isso nos traz. A mídia Ninja foi quem melhor materializou o uso dessas possibilidades, mas o debate é mais sobre essas potencialidades dessas tecnologias do que sobre o grupo em si.”

Manifestação tem causa

Dulce Pandolfi: "O gigante não estava dormindo. O gigante não estava dormindo. A própria Mídia Ninja existe há dez anos" / Foto Marco Sobral

Dulce Pandolfi: “O gigante não estava dormindo. A própria Mídia Ninja existe há dez anos” / Foto Marco Sobral

Dulce Pandolfi tratou de juntar contrapontos: a democracia política é fato, mas o déficit de cidadania no Brasil é monumental. “Os diretos civis são relegados a segundo plano. A policia que deveria nos proteger, age como age, a justiça não funciona, a sociedade banaliza os direitos sociais”, pontuou. Segundo ela, as manifestações têm a ver com a precariedade da cidadania em que se vive. “É uma sub cidadania, tanto do ponto de vista dos direitos sociais como dos civis e esse é um ponto crucial”, afirmou.

Não há gigante acordando porque não havia sono tranquilo. Perplexos estamos todos, mas não há grande novidade. “Esses movimentos estavam se organizando há muito tempo. De modo esfacelado, mas havia uma articulação de incontáveis movimentos de luta que formavam um tecido associativo. O gigante não estava dormindo. A própria mídia Ninja existe há dez anos”, ressaltou a pesquisadora.

A sociedade brasileira mudou, e muito, nos últimos anos. “O número de jovens nas universidades dobrou, houve uma grande passagem da classe D para a C, mas, ao mesmo tempo, as frustrações são tamanhas”, Dulce diz de quem conseguiu a almejada inserção, mas não atingiu seus objetivos como cidadão. “As cidades brasileiras são lamentáveis. Aqui, público é sinônimo de popular e de coisa ruim, não é antônimo de privado”, afirmou ela.

Pedro Strozenberg, do ISER, apontou em outra direção: o uso da violência como expressão da manifestação. “Se nas duas primeiras manifestações, a polícia foi provocadora; no Leblon, foi acusada de ser facilitadora do cenário de violência. Uma manifestação de seis horas em que em algum momento explode alguma coisa e o confronto se instala. O ato só termina quando há o confronto. Saí de lá dividido se sou favorável ou contra o uso da violência. Como tratar esse personagem, o vândalo?”, questionou ele.

Tem um lado bom e um lado ruim, ponderou Dulce Pandolfi. “Parte da juventude ‘não violenta’ que criticou a Rede Globo se polarizou em dois grupos, ou seja, há os vândalos e bons moços, mas a violência é mais complexa. Já achei que a luta armada ia provocar adesões. Hoje, sou temerosa com a coisa da violência. Sei que tem muitos perfis ali, mas tem o pessoal que quer se manifestar em uma resposta contra uma violência do estado muito maior em vários níveis”, afirmou. Para Daniela Fichino, a violência tem surgido como linguagem para dizer alguma coisa: “É uma mensagem que está sendo dada.”