Pedro Rivera: redescobrir os rios, pensar a cidade

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Foto: Raul Smith

Se dependesse de Pedro Rivera, o rio Carioca, tão importante para a identidade da cidade e seu morador, estaria descoberto, correndo à vista de todos. “É questão de modelo de cidade. Em Seul, na Coreia do Sul, resolveram renaturalizar um rio (Cheonggyecheon), que cortava a cidade e era importante. Isso reconfigurou a lógica  daquele lugar e se tornou a frente da cidade. É o caso do Rio Carioca. É claro que não é fácil, mas é uma questão de visão, de como a gente quer olhar para o amanhã e caminhar na cidade”, compara o arquiteto, diretor do Studio-X, que sediou o Rio de Encontros de julho. Um dos provocadores do debate, Pedro Rivera fez uma apresentação que instigou a plateia a refletir sobre a natureza e a presença da água na cidade através dos tempos. “Sou generalista e vou dar pinceladas em tópicos que acho importantes”, explicou.

Logo de início, Pedro Rivera apontou para a natureza da cidade, considerada uma das mais bonitas do mundo. Mas, o que é natural neste cenário? “A paisagem do Rio é muito construída”, resumiu o arquiteto, apresentando um mapa dos aterros da cidade, ao longo da história, que no Centro levaram à demolição dos morros do Castelo, Santo Antônio, Senado e São Bento. “O Passeio Público, a Praça Paris, o Aterro do Flamengo são exemplos de construções sobre aterros, numa sucessão de embates com a natureza”, listou.

Saindo do Centro da Cidade e chegando à Zona Sul, a interferência humana sobre a natureza também é notável. “A orla do Rio foi produzida por esse processo de aterros. A linha costeira do Rio de Janeiro é artificial. Como o homem é parte da natureza, então a alteração que ele produz passa a fazer parte dela também. É fundamental que a gente se coloque dentro desse campo, que é a natureza”, destacou Pedro, ressaltando o papel de Burle Marx no desenho da orla carioca. “É o projeto de um homem que conseguiu ter uma excelência tão grande como a natureza”.

O caminho do mar

A valorização da orla e a influência dela no modo de vida da cidade também é resultado de uma relação construída – e relativamente recente. “Por volta de 1870, as linhas de bonde chegam a Copacabana. Esse momento é o apogeu de uma nova visão sobre a cidade, que leva em conta as águas como valor desejável de experiência do homem no espaço urbano. E aí começa a ideia de balneário. Antes, a água era para conexão e para despejar das nossas necessidades”, lembrou.

Antes distante, Copacabana imprimiu novos hábitos ao morador da cidade e novos usos do mar. “É um entendimento novo da cidade”, lembrou Pedro, mostrando imagens do início de Copacabana, coberta de areia, e das primeiras fotos do Copacabana Palace, naquele bairro ainda pouco habitado. O caminho pelo passado do Rio de Janeiro é fundamental para a construção do futuro da cidade. E Pedro Rivera tem visto isso na prática, com as obras que estão ocorrendo em frente ao Studio X. “A gente está aqui na Praça Tiradentes há quatro anos e nesse tempo surgiu na cidade a ideia de voltar o bonde ao Centro. As obras estão acontecendo e é emocionante ver os trilhos e dormentes de madeira do bonde antigo surgirem, à medida que as obras avançam. É emocionante ver a história da cidade enterrada reaparecer na perspectiva de recuperação desse meio de transporte, que é o bonde”.

Banho mais difícil

Apontando para as obras de engenharia que permitiram o abastecimento de água no Rio – o Aqueduto da Carioca, a Elevatória do Guandu – Pedro Rivera destacou a necessidade de cuidar do Rio Paraíba do Sul, o maior responsável pelo abastecimento de água do Rio. “A gente vive uma crise hídrica, que São Paulo está só um pouco mais à frente. Mas a gente vai ter problema para tomar banho também”, prevê.

Leia outras frases do debate

E, uma vez mais, fez uma viagem no tempo para comparar soluções adotadas no passado que poderiam ser adaptadas aos tempos atuais. “Desde 1842 o Rio sofria com a falta d’água por conta do desflorestamento para plantar café. E começou a faltar água na cidade. Por volta de 1860, começou o reflorestamento da Floresta, que durou 30 anos, feito pelo Major Archer e seis escravos, segundo os registros históricos. Se foi possível recuperar a floresta naquela época, protegendo as nascentes, se a gente conseguiu fazer isso na segunda metade do século 19, não tem argumento de que não se possa fazer isso hoje. As dificuldades são maiores, mas os recursos também para fazer isso hoje. Basta vontade política e gestão competente”, acredita.

Ver para cuidar

Além disso, Pedro Rivera também destacou a importância da participação do cidadão na vida – e na melhoria – da cidade. “A nossa opção é esconder, eliminar dos nossos olhos. A gente precisa descobrir todos os rios novamente. A gente precisa ver. O melhor fiscalizador é o cidadão”. Nessa perspectiva, uma boa forma de manter essa proximidade é a utilização de rios para o transporte da população. “O mau tratamento dos nossos corpos de água e o pouco uso da Baía de Guanabara estão ligados”, acredita.

Pedro Rivera ainda chamou atenção para o papel da arquitetura e da engenharia civil brasileiras, que já tiveram dias mais promissores. “Já fomos líderes no mundo em construção e projeto. Hoje em dia, ninguém faz mais nada direito. Do dono ao pedreiro, quem tem orgulho de fazer uma obra direito?”, disse, quase num apelo à revisão de “processos contaminados”. “Os presidentes de várias empreiteiras estão presos. Isso quer dizer alguma coisa… Se a gente não discute os procedimentos que as coisas acontecem, não vamos falar de universalização do acesso à água, por exemplo. É preciso rever os processos estão contaminados”. E, uma vez mais, o olho do cidadão e sua participação são fundamentais. “É muito fácil ficar remoendo as mazelas. Mas a gente tem que olhar pra frente e se engajar, produzindo novas visões, sem ter medo. Acho que falta coragem e engajamento nas coisas. Prefiro uma ambição que erra do que a covardia que não vai a lugar nenhum”.

Paulo Canedo: saneamento, uma questão básica

Foto: Raul Smith

Foto: Raul Smith

Uma aula sobre abastecimento de água, construção de hidrelétrica, preservação de rios, saneamento básico, além de um passeio sobre a história do Rio de Janeiro. Este é um resumo possível da participação de Paulo Canedo, engenheiro civil e especialista em hidrologia, no Rio de Encontros de julho, que teve como tema “Rio de Janeiro: a cidade e suas águas”. Autor de vários livros, sendo o mais recente “O Rio que é Azul”, escrito com Regina Mamede e editado pela Bang Filmes, o professor da Coppe/UFRJ retrocedeu aos primeiros tempos da cidade para apontar as questões do presente e os desafios para o futuro. E insistiu bastante no tópico saneamento. “Faço uma convocação para que fiquemos indignados, para que a gente reclame e não aceite esse índice de saneamento que temos”, disse, referindo-se aos números que apresentou sobre o percentual de casas brasileiras que possuem tratamento de esgoto: 48,9%. “Nenhum país minimamente decente tem esse número menor que 95%”.

Para começar a falar da presença da água, Paulo Canedo fez um histórico sobre a ocupação do Rio de Janeiro, onde a população se estabeleceu no sopé dos morros, próxima das fontes de água. A expansão da cidade e o aumento do número de habitantes foram tornando maiores os desafios de se obter água para todos, uma vez que as fontes não cresciam na mesma proporção. “Eram vários filetes de água pequenos, com grande variedade sazonal”, explicou Paulo, ressaltando as temporadas de chuvas, responsáveis pela maior ou menor quantidade de água disponível nos rios.

Água e luz: problemas crônicos

Das primeiras soluções de abastecimento de água – a maior foi a do Aqueduto da Carioca, no século 18, que trazia água do Rio Carioca para o Largo da Carioca –passando pela distribuição de água através das bicas espalhadas por vários lugares, a cidade sempre enfrentou o problema crônico da falta de água e de luz. “Os mais velhos lembram as marchinhas que diziam que no Rio de Janeiro, ‘de dia falta água e de noite falta luz’. E faltava água porque não havia água, e não porque o prefeito era péssimo e o governador não prestava”, lembrou. O cenário mudou, lembrou Paulo, com as obras de desvio do rio Paraíba do Sul, da construção da hidrelétrica do Paraibuna, da criação da CEDAG, da utilização do rio Guandu para abastecer a cidade. “O governador Carlos Lacerda criou a CEDAG – Companhia de Águas da Guanabara e a elevatória do Guandu, que tinha tanta água que o slogan era ‘Água até o ano 2000’, que era o ano inatingível. O slogan significava que haveria água para sempre”.

 Dando um salto no tempo, chegamos à época da crise hídrica e da constatação de que ‘água para sempre’ é uma utopia. A então maior estação de tratamento de água do mundo – o Guandu – já não dá conta do fornecimento de água para todo o estado do Rio e o que se tem no Rio de Janeiro é uma grande dependência do rio Paraíba do Sul. “Nós bebemos água de uma torneira só e nossa estabilidade hídrica depende do rio Guandu”, resume Paulo Canedo, apontando para o mapa. “O Paraíba do Sul é o único rio de grande porte da redondeza. Mais da metade do Estado do Rio de Janeiro está dentro da bacia do Paraíba do Sul. A capital não água. E o Paraíba do Sul não é capaz de atender todos os demandantes”.

O nível dos reservatórios

Hoje, a quantidade de água disponível para a região é medida através da soma do volume de água existente em cada um dos quatro reservatórios – Funil (o único no Rio de Janeiro), Paraibuna, Jaguari e Santa Branca (localizados em São Paulo). “Vale a pena visitar. São obras belíssimas”, elogia Paulo. “O reservatório serve para guardar água da chuva e compensar a variação de água que existe. A mesma coisa que faz a caixa d’água na nossa casa. Ele é feito para sanfonar: não pode transbordar, porque inunda as cidades, e não pode chegar abaixo porque significa seca. Protocolo internacional diz que o reservatório não pode baixar a 10% do volume”, explicou.

O alarme, que já tinha ameaçado tocar em 2003, voltou a soar em 2013. Paulo Canedo explicou: “O Rio Paraíba do Sul ia morrer no dia dos mortos em 2003. São Pedro, sabendo disso, fez uma salvação e mandou chuva forte lá pelo dia 20 de outubro. O rio não baixou. Até que em 2013 começou o segundo problema da história: no rio Paraíba do Sul tinha pouca água e a meteorologia tinha previsão de que o ano seguinte seria pouco chuvoso. Quem tem o mínimo de prudência deveria avisar todo mundo e começar um racionamento. São Paulo não procedeu assim. Pelo contrário. Negou. E não deu certo. O Rio fez seu dever de casa. E não teve corte”, comparou.

A crise em São Paulo e no Rio

Como a previsão da meteorologia era de 2015 seria ainda mais seco, a situação de abastecimento ainda é complicada. “São Paulo se afundou na crise. O Rio, que estava precavido, esteve quase por sofrer. A não ser que haja algo catastrófico, não devemos sofrer corte de água”, acredita Paulo, apontando para o nível do reservatório de água em julho, em torno de 14%.

A crise de abastecimento fez vir à tona a utilização de água do Paraíba do Sul para abastecer o estado de São Paulo – uma polêmica, lembrada por um dos participantes da plateia do Rio de Encontros. “A água do Paraíba do Sul é do brasileiro. Deus fez o rio para o mundo. Todo brasileiro tem direito”, ponderou Paulo, levantando outras questões relativas ao abastecimento de água e luz, cujos sistemas têm diferenças enormes e fundamentais. “Aquela obra da hidrelétrica dos anos 1940 que gerou a CEDAG (depois transformada em CEDAE), era importante para aquela época. Não tem importância nenhuma em 2015. Hoje, essa lâmpada aqui pode estar sendo acesa com luz produzida no Sul ou na Amazônia. A energia brasileira é nacional, e não mais local. O bacana do sistema interligado é isso. O Brasil é um sistema interligado que é um dos nossos orgulhos.”

O homem e a natureza

Paulo Canedo também tratou das questões ambientais, levantadas pela plateia. “Hoje é moda ser contra as barragens. Se a gente fosse contra a mudança de natureza, o Rio de Janeiro não existiria”, pontuou, lembrando as profundas alterações na paisagem da cidade, incluindo lugares que hoje são cartões postais valorizados, como o entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas. “Quem morava na Gávea, descia com lencinho no nariz por causa do fedor da Lagoa. Lá, só existia a hípica e terrenos vazios”, lembrou. “Nós temos que aceitar algum impacto que nos permita viver em harmonia com a natureza”.

Leia outras frases do debate

Os problemas de saneamento no Rio de Janeiro também são enorme desafio – e não ficaram de fora das perguntas feitas pela plateia. Paulo Canedo lembrou que o índice de casas com tratamento de esgoto no Rio segue a média nacional: 60% das casas têm coleta de esgoto e destes só 30% é tratado. “Qualquer coisa é considerada como tratamento, até benzedura”, ironizou o engenheiro, citando as diferenças entre os sistemas de tratamento mais utilizados e, principalmente, a diferença em relação às políticas de universalização do acesso à luz elétrica e ao saneamento. “Quando se olha para o sistema de eletricidade, no site da Eletrobrás, o principal programa-se chama-se Luz para Todos e o índice de atendimento da população é de 98,7%. E continuam a investir. O povo da eletricidade e o do saneamento é o mesmo. Por que um sistema ainda precisa ser melhorado (o da luz) e o outro (o do saneamento) fica como está?”, comparou.

O papel da população

Apesar da crítica às políticas de governo, Paulo Canedo também chamou atenção para a responsabilidade da população em relação à discrepância dos níveis de investimento. “É falta de vergonha dos governantes e nossa, porque não cobramos. E não há dúvida nenhuma que isso não está na cabeça do brasileiro, que não quer pagar para tratar o esgoto”, sentenciou. Paulo apresentou outros dados preocupantes sobre o tratamento de esgoto na cidade. “A maior estação de tratamento do Rio é a do Fundão, que coleta o esgoto do Centro. Mas os canos não chegam até lá. Vai despejando pelo meio do caminho. Por isso, a Baía de Guanabara é o que é e nossos corpos hídricos são o que são”. Indo fundo no tema do saneamento, Paulo Canedo explicou o sistema que leva (ou deveria levar) o esgoto caseiro até o as estações de tratamento coletivas, sem se incomodar com a reação habitual: é comum que se torça o nariz sempre que um assunto do gênero é tratado em público. “Devemos tratar o esgoto humano que vai para o emissário? Meu voto é não. É um luxo que não está na nossa conta. O nosso cocô ir até lá não faz mal a ninguém, porque os peixes se alimentam disso. O peixe gosta, e é feito para isso”.

A seguir, confira outros trechos importantes da participação de Paulo Canedo: 

“A eficiência no abastecimento de água também é uma questão importante. “Um exemplo numérico: oficialmente, a CEDAE perde 32% da água que produz. Imagina alguma empresa privada fazendo isso!”.

“Para recuperar a Bacia do Paraíba do Sul, que está degradada, são necessárias algumas medidas. Reflorestar é uma delas. Mas este não é remédio para todas as doenças. É uma das coisas a fazer. Ainda assim, não estaremos livres das intempéries. O reflorestamento do Paraíba do Sul é uma das medidas. É preciso também fazer o aumento das quatro barragens que existem, diminuir a produção de esgoto em toda a região. Há um rol de coisas a ser feitas”.

“É claro que a Baía de Guanabara deve ser utilizada para transporte. Em São Gonçalo, por exemplo, o rio Alcântara é mal para a região, porque alaga tudo quando enche. A gente sabe que o metrô ali não vai acontecer e o BRT não é capaz de atender a população. Os barcos são capazes e atenderia a população do Jardim Catarina, o maior bairro da América Latina. Mas ainda não conseguimos sensibilizar governos e empreendedores que queiram fazer comércio nessa lógica”.

“Cabe ao poder público entregar espaços urbanizados com infraestrutura já feita. Uma região tem que ser dada à população com infraestrutura pronta. Depois que o governo faz isso é que os empreiteiros constroem, as pessoas compram e se mudam. Aqui estamos acostumados ao contrário. Ter água e esgoto é uma obrigação do governo, infraestrutura construída com dinheiro de impostos de todos os habitantes. Temos que ter processo mais inteligente de cobrar que isso ocorra”.

“A causa mortis maior no Brasil é diarreia, consequência de várias doenças, quase sempre originadas por falta de saneamento. Houve um momento em que 58 das doenças brasileiras eram devidas à veiculação hídrica. Construir mais hospital não é ruim. Mas se tivéssemos mais saneamento, já estaríamos dobrando a capacidade de atendimento nos hospitais que existem. Saneamento não é só questão de decência. É de saúde pública. E é questão econômica também”.

“Em 1990, a Baixada Fluminense teve inundação e cinco mil mortes por enchente. Por um motivo ou por outro, a vida me colocou em Belford Roxo e mudei minha vida profissional. Notei que em toda aquela região a problemática era a mesma: a população vivia um problema de empobrecimento crônico. A família conseguia fazer um mínimo de poupança anual, mas perdia tudo nas enchentes e usava toda a reserva que tinha economizado. Não existe nada mais degradante do que a falta de perspectiva. Quando um povo percebe que ano que vem irremediavelmente será pior isso é um inferno. Aos poucos, com as obras dos rios da Baixada, as coisas foram mudando e chamei o IPEA para criar um indicador de prosperidade, medido por tijolinhos vermelhos, que iam aparecendo, indicando que as pessoas estavam conseguindo melhorar as casas. O tijolinho vermelho virou um bom indicador de prosperidade”.

“100% dos projetos dos rios Botas, Sarapuí, Pavuna, São João de Meriti são meus.Projeto Iguaçu, do INEA, é meu, com muito orgulho. Desde os anos 80 faço isso. A Baixada dos anos 80 é infinitamente pior que a de 2015. Ainda não está bem. Mas é muitíssimo melhor. O controle de cheias da Baixada Fluminense é infinitamente melhor. Hoje, há enchentes localizadas, algumas ruas que enchem, e não mais aquelas macro enchentes, que arrasavam bairros. Foram investidos R$ 700 milhões nos últimos nove anos na Baixada Fluminense”.

 “O reuso de água é um troço inteligente. Mas há um excesso dos ambientalistas que, querendo fazer bem, fazem mal. Protegem de tal forma, que não dá para fazer nada. Reuso é bom para lavar banheiro, carro, plantas. Poderia ser para vaso sanitário, mas oConama obriga que se clore a água antes de jogar no vaso sanitário. Com isso, acaba que um dos grandes inimigos do reuso é o governo com o Conama”.

Antonio Edmilson: um passeio pela história dos subúrbios do Rio

Professor de História da PUC-Rio e da UERJ, o historiador Antonio Edmilson Martins – um dos provocadores do Rio de Encontros sobre os “Subúrbios cariocas ontem e hoje” – fez um passeio pelo Rio de Janeiro dos tempos imperiais aos dias atuais, tendo como eixo o subúrbio da cidade, que se deslocou ao longo da história. “No século 19, Copacabana já foi subúrbio”, disse, relembrando a época em que o Rio era dividido pelas freguesias urbanas e rurais, e, no meio, havia o subúrbio. “No Rio, tudo é por dentro”, disse, falando sobre a dificuldade de definição que cerca a categoria subúrbio, especialmente no Rio de Janeiro, ao comparar o uso do termo com a definição americana de subúrbio. “Parto do pressuposto da singularidade do Rio de Janeiro”, esclareceu.

Dentro dessas singularidades, Antonio Edmilson prefere trabalhar com a ideia de “sentido simbólico de pertencimento”, utilizando conceitos do teórico marroquino Hassan Zaoual. “Vamos incorporar a cidade pela diversidade e não pela unidade”, sugere. De acordo com o professor, “sítio simbólico de pertencimento é algo construído, e não uma coisa dada”. Daí a importância de os moradores contarem suas histórias da e na cidade. “A história pode ser contada de vários modos, a partir dos bairros”, instigou.

Autor de livros sobre o Rio de Janeiro, como “João do Rio – a Cidade e o Poeta”, Antonio Edmilson chamou atenção para as características da cidade e seu morador, que não podem ser esquecidas no debate atual. “O Rio de Janeiro é uma cidade das ruas. A recuperação do espaço da rua é fundamental. O carnaval de rua recupera a cidade, por exemplo”, pontuou. Para compreender o subúrbio carioca, é importante revisitar a história da cidade. “A partir dos anos 30, a ideia de subúrbio aparece como oposição às áreas urbanas. A partir dos anos 80, a noção de periferia resignifica e requalifica a ideia de subúrbio”.

O Centro e a Cidade

São muitas as singularidades do Rio de Janeiro: “aqui é um dos poucos lugares em que as pessoas, quando vão ao Centro, dizem ‘vou à Cidade’”, ressaltou. Outra: “O Rio é uma das poucas cidades do mundo que tem duas fundações: a francesa e a portuguesa. Essa mistura acontece no Rio de todas as maneiras possíveis. E não podemos abdicar disso”. E arrematou: “ser carioca é vagabundear com inteligência”.

Editor do número atual da revista Acervo, do Arquivo Nacional, toda em torno do Rio de Janeiro (e disponível online), e profundo conhecedor da cidade, Antonio Edmilson também abordou as transformações urbanas pelas quais o Rio de Janeiro está passando, em várias regiões. “A nova centralidade no Rio é a da Barra, da Zona Sul e da Zona Portuária, onde o projeto se estende da Glória até a Maré”, afirmou.

O importante, para ele, é manter o fluxo da cidade para todos os lados, através da circulação dos moradores – coisa cada vez mais complexa. “O MAM parece que fica em Marrakesh. O Riocentro, na Austrália! É uma loucura a gente pensar numa cidade com essa mobilidade”, comparou.

Sobre os subúrbios, acredita que, à luz da interpretação dos sítios simbólicos de pertencimento, é possível repensar o papel da região na cidade. “Há duas percepções sobre o subúrbio: a do lugar humilde, pequeno, sem espaço, ou aquela mais expandida, que leva em conta o conceito de cidade diversificada, com fluxos constantes de um lado para o outro. Acho essa mais interessante”.

Links que podem interessar:

Acesse a edição atual, coordenada pelo professor Antonio Edmilson, da revista ACERVO, do Arquivo Nacional, cujo tema é o Rio de Janeiro: http://www.revistaacervo.an.gov.br/seer/index.php/info/issue/view/49

Novos encontros em 2015

Voltamos! Na próxima quinta (28) estaremos de volta com novo endereço e horário, mas com o mesmo entusiasmo em pensar a cidade do Rio de Janeiro, sempre coletivamente.

Você é nosso convidado!
Dia 28 de maio, das 14 ás 17h no auditório da ESPM-Rio
rua do Rosário 90/11 andar – centro

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O espaço da loucura e o ritual da rua

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Público do Rio de Encontros 28/10/2014. Foto Paula Giolito

Um arquiteto, uma professora, um psiquiatra e ator e uma plateia engajada na busca por soluções que ajudem a melhorar a cidade produziram um dos debates mais impactantes do Rio de Encontros em 2014. Realizado no dia dia 28 de outubro, na Casa do Saber, com o tema “Ocupações do espaço público, cultura e política na cidade”, e penúltima edição do projeto revelou cidadãos interessados em pensar formas de transformar a cidade em um ambiente mais acolhedor e comprometido com a cultura e as necessidades da população. Há sensibilidade visível, além de disposição para execução efetiva de projetos que tornem o espaço público mais habitável e alegre.

Foram convidados, para iniciar a conversa, a doutora em Literatura Comparada e professora da Escola de Comunicação da UFRJ Beatriz Jaguaribe; o arquiteto e diretor do Studio-X Rio Pedro Rivera; e o médico, ator, psiquiatra cultural e pesquisador Vitor Pordeus, que é também fundador do Hotel Spa da Loucura no Hospital Psiquiátrico Nise da Silveira.

Responsável pelo desenvolvimento e gerenciamento de projetos d’O Instituto, Teresa Guilhon apresentou as perguntas previamente formuladas para orientar o assunto: existe uma crise no modelo de cidade moderna? É possível dizer que estamos retomando ruas, praças e outros espaços, como os manicômios, enquanto lugar da política? Essas ações apontam caminhos para uma cidade mais democrática? Qual o papel da cultura nesse processo? Os convidados trataram de responder, cada um em seu tempo, a cada uma das questões.

O lugar do inconsciente coletivo

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Vitor Pordeus. Foto Paula Giolito

Primeiro na ordem de fala, Vitor Pordeus optou por contar sua experiência com o trabalho desenvolvido nos espaços públicos. Ele coordena o grupo de teatro composto por internos do Instituto Municipal Nise da Silveira, antigo Hospício do Engenho de Dentro, que se apresenta em vários pontos do Rio de Janeiro e do Brasil, e o bloco Loucura Suburbana, que faz parte da agenda do Carnaval carioca. O Hotel da Loucura existe há quase três anos, mas o trabalho de Pordeus, que se autodefine como ator de rua, um artista do espaço público, já dura oito anos nas ruas.

“Estar na rua tem sido uma experiência muito forte e profunda. Existem forças inconscientes que se manifestam e criam um ritual ali: moradores de rua, uma série de entidades e doentes mentais graves com quem lidamos todo tempo. Foi assim que fui chegando à ideia de que o espaço público é o inconsciente coletivo. Quando você entra nele e se depara com a energia de outras pessoas, aquele espaço se torna canal de diálogo onde o morador de rua que vai cantar, vai dançar e vai falar coisas que nos farão identificar as evoluções e manifestações”, relatou o médico.

Para Vitor Pordeus, é no espaço público que a comunidade se manifesta. E se essas manifestações têm sido cada vez mais violentas a razão está em forças sóbrias existentes no lugar. O exemplo do que ele fala está nas comunidades ocupadas por milícias, traficantes, polícia e exército, lugares onde a violência é banalizada e executada como forma de combate.

“Quando nós saímos às ruas para fazer arte pública, a chamada arte de todos os tempos, que os gregos, Shakespeare, Molière, Garcia Lorca e todos os grandes homens do teatro na história faziam, manifestamos as forças da comunidade, vemos o que está ali, quais são os fantasmas, quais são os demônios, quais são as histórias. Nós, no papel de executores desse trabalho de ritualidade cultural e humana, somos capazes de modular essas forças”, afirmou ele, considerando que essa é a boa notícia.