Cultura, política e protagonismo jovem

Nove e meia da manhã, estão todos prontos? Vamos ao Rio de Encontros, Ilana Strozenberg, Silvia Ramos, Teresa Guilhon e Anabela Paiva avisam que muita coisa vai acontecer durante a manhã, é preciso começar na hora para dar tempo às muitas vozes que já se ouviam desde o café, servido mais cedo.

Ilana Strozenberg apresenta os convidados do Rio de Encontros: Ana Enne Júnior Perim / Foto: Marcelo de Jesus

Ilana Strozenberg apresenta os convidados do Rio de Encontros: Ana Enne Júnior Perim / Foto: Marcelo de Jesus

Novidade é a palavra da vez. “Nosso tema é ‘Cultura, política e protagonismo jovem’. Nada mais justo que dar voz aos jovens que fazem parte da turma do Rio de Encontros. Mas também terão vez os especialistas que estudam e que aprenderam na prática. Para isso, o encontro foi dividido em dois momentos. Primeiro, Ana Enne e Júnior Perim responderão às perguntas previamente estabelecidas. Em seguida, teremos o debate . E, no terceiro momento, uma mostra dos projetos que esses jovens desenvolvem em suas respectivas áreas de atuação”, Ilana Strozenberg, diretora acadêmica d’O Instituto, anunciou o esquema da penúltima edição de 2013, no dia 8 de outubro.

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Os convidados especiais do dia, a antropóloga e professora da UFF Ana Enne e o ativista social e produtor cultural Júnior Perim, foram devidamente apresentados. “Eles são diferentes, mas muito complementares. Nós nos preocupamos em dar ênfase à diversidade do público e também à diversidade de quem fala”, Ilana justificou a escolha.

Ana Enne é doutora em antropologia pelo Museu Nacional e professora do Programa de Pós-graduação em Cultura e Territorialidade da UFF, onde coordena o Laboratório de Mídia e Identidade, numa articulação de comunicação, cultura e território. Suas pesquisas abrangem temas como memória, juventude, mobilização e política, e lhe renderam informações expressivas sobre a Baixada Fluminense. “É uma profissional que leva a sério a antropologia como exercício de ouvir o outro. Tanto que seus objetos de estudo acabam se tornando parceiros, como protagonistas do conhecimento”, Ilana resumiu.

Júnior Perim mereceu o título de doutor na arte de fazer acontecer. Autor de “Panfleto”, publicado pela editora Aeroplano, é ativista social e produtor cultural. Na Escola de Samba Porto da Pedra, ele descobriu o fascínio pela arte do circo. Criador do Festival Internacional de Circo no Rio de Janeiro, é um dos fundadores do Re-Cultura e membro da Rede Iberoamericana para o Fortalecimento e Desenvolvimento das Artes Circenses. Um dos seus principais feitos, é fundador e coordenador executivo do projeto Crescer e Viver, cujos espetáculos itinerantes já circularam por quase duas dezenas de países. Concebido no início dos anos 2000, em São Gonçalo, o circo “Crescer e Viver” recebeu chancela da Unesco por sua metodologia social, em 2003. “Perim não separa a atividade de produtor da atividade política. É um equilibrista e presença constante em todos os debates sobre política pública”, disse Ilana.

Diz aí qual é

Ana Enne: Não posso fingir que a pluralidade é a mais bonita que já vi na história  / Foto: Marcelo de Jesus

Ana Enne: Não posso fingir que a pluralidade é a mais bonita que já vi na história / Foto: Marcelo de Jesus

Ana Enne com a palavra. Entusiasta, sim, mas a situação atual aponta para caminhos esquisitos: “Eu tenho uma formação ambígua, que dá problema cognitivo (risos). Sou uma pessoa que trabalha com sociologia, mas não dá para pensar que o mundo está melhor em termos sociais e políticos. Onde meus alunos vão trabalhar? A crise não é conjuntural, é estrutural. A desigualdade está num nível inédito na história. Há muito emprego, mas para quem ganha até mil reais. A ansiedade é uma grande questão. No capitalismo, ela é capital e sintoma. Hoje, quem não serve, danou-se”, Ana Enne avançou.

A ansiedade é um sintoma que adoece, Ana enfatizou. “Harry Potter, Percy Jakson e Jogos Vorazes são todos sombrios. Eu tenho alunos que dizem que vão se suicidar. Não posso fingir que a pluralidade é a mais bonita que já vi na história. A política sempre foi cultural porque ela é produção de sentido. Sou entusiasta, mas a situação aponta para caminhos muito esquisitos. Há esvaziamento de uma forma de luta política. Se o eixo de classe nos atravessa, não vamos mais falar disso? Não vamos mais falar de ideologia, com a ideologia nos cortando o tempo todo? Vamos jogar fora todo dicionário Marxista fora?”, ela questionou.

Mas quando a instituição ‘fecha sentido’? “A instituição ‘fecha sentido’ no sentido de (Pierre) Bordieu, de criar uma lógica identitária que separe você do outro. Há um certo momento em que o mosaico se institucionaliza e passa a ser entendido como O Afroreggae, a Cufa, o Cineclube. Mesmo que não tenha sede ou CNPJ, há um rito de separação.”

“Gostei do lugar do cara que fecha sentidos. Eu ocupei esse lugar”, Júnior Perim retomou a fala e adiantou respostas:

“Existe criminalização sobretudo no campo das artes, que traz muita dificuldade para quem vem de classe popular. A cena artística e cultural sempre foi dominada pelas camadas médias. E essa é uma luta que a gente não realizou. A precariedade de até mil reais, no campo da cultura, é gigantesca até mesmo para gente que já dominava a cena. E sou brizolista roxo. Acho que Getúlio inventou a República, que CLT é uma conquista importantíssima. Mexer nela é como mexer no Código Florestal. Por isso fundei o Re-Cultura. Como a gente constrói uma alternativa de relação com o estado? O estado pode contratar empreiteira, mas está proibido de fazer relações com ONGs que operam no campo do esporte e da cultura. Quem mais do que a sociedade civil para saber o que é preciso? No final dos anos 1980, o projeto dos CIEPS foi criminalizado pelas elites e pelas camadas médias. Chico Alençar disse que CIEP era legal mas era muito caro. A história está lá atrás, também. Eu moro na aldeia e conheço os caboclos todos”, ele garantiu.

Experiências bem-sucedidas não faltam, segundo ele. Falta potencializar as ações. “A Agencia de Redes para a Juventude, por exemplo, é um dos projetos mais incríveis já inventados no Rio de Janeiro nos últimos tempos. Vocês têm de se preparar para potencializar essa experiência para o país inteiro. Que a máquina pública seja discutida, para que o Norte Comum seja patrocinado. Não há nenhum setor que evoluiu sem a mão do estado. Que modelo de desenvolvimento a gente vai perseguir? Celso furtado falava disso 35 anos atrás. O modismo da economia criativa parece, mas não é novidade. Essa é a disputa da molecada. Tem de mudar tudo. As pessoas dão porrada no (José) Júnior, do Afroreggae, e o que me preocupa não é quando a elite bate, mas é quando outros sujeitos estão, dez anos depois, construindo a mesma coisa que nós fizemos. Não dá para considerar que o Celso Athayde, que morou na rua, é um escroto. Não dá para dizer que o Jailson (de Souza e Silva) é mediador de interesses econômicos da favela. O país deve ao Jailson a produção de capital intelectual sobre favela. Nova galera, quer construir uma nova terra?”, diz aí qual é, ele provocou.

Mais uma vez a plateia

Da plateia: Como qualificar grupos para acessarem recursos públicos? / Foto: Marcelo de Jesus

Da plateia: Como qualificar grupos para acessarem recursos públicos? / Foto: Marcelo de Jesus

“Vocês se lembram dos ‘nem, nem, nem’? Não tem política pública para esses ‘nens’. Eles não estão fazendo nada que não seja precário. Não têm apoio, nem legitimação. O estado não está preparado e eles ficam num lugar que é lugar nenhum”, Ilana Strozenberg iniciou a segunda rodada de perguntas da plateia.

Hanier Ferrer, tutor na Agência de Redes para a  Juventude, foi o primeiro da fila: “O Júnior falou de utopia e eu vejo como tudo que se discute atravessa o campo da democracia. Pergunto se, dentro da utopia, não seria mais interessante pensar em meios de promover novos arranjos de produção e compartilhamento de saberes, finanças e métodos e, através de um ponto da rede, conseguir espalhar? Não seria mais interessante pensar em fusões, hibridismos, em uma juventude mais atuante?”

Dinah Protasio, do CECIP (Centro de Criação de Imagem Popular) partiu de uma experiência bem-sucedida para perguntar sobre uma dificuldade comum: “O Oi Kabum, há quatro anos, trabalha com formação de jovens no Rio e em outros estados. Existe a produção e deveria haver qualificação para os grupos se institucionalizarem. Há fontes e fundos do governo, mas os grupos não conseguem a qualificação para concorrer aos recursos públicos. Os jovens estão trabalhando, se tornando microempreendedores, mas como qualificar os grupos para acessarem recursos públicos?”

Davi Marcos, fotógrafo do Observatório de Favelas, contou sua própria experiência: “Estudei num CIEP, tinha aula de artes e atividades complementares. Isso funcionava muito bem e eu passei a achar que era natural ter acesso a uma série de coisas. Depois, migrei para uma escola comum, onde o ensino era uma bosta. Mais adiante, fui buscar formação numa ONG, na favela. Coisas que tinham lá no começo no CIEP, fui encontrar ali. As ONGs fazendo o trabalho que era feito pelo governo. E diziam ‘Ah, isso é uma porcaria, é desvio de dinheiro’, sempre há as críticas. Mas para onde se encaminha a educação formal do pobre?”

Karen Kristien, produtora de artes cênicas da Cia do Gesto, quis saber como se posicionar: “A Anna falou sobre capital de fala e o jovem contemporâneo. A gente tem de provocar o estado ou ele tem de ter uma escuta qualificada? Como vocês veem a questão do posicionamento?”

Rossana Giesteira, gestora do projeto Ar, realçou que a produção é latente, mas falta visibilidade: “Vejo que a dificuldade para fazer projetos em que se trabalha o subjetivo é a busca da instituição. Você tem de se empoderar, tem de ter esforço, mas vale a pena.”

Sujeitos pensantes

Júnior Perim: Fui educado para pedir dinheiro porque eu nasci pobre / Foto: Marcelo de Jesus

Júnior Perim: Fui educado para pedir dinheiro porque eu nasci pobre / Foto: Marcelo de Jesus

Produtora da Agência de Redes para Juventude desde 2011, Veruska Delfino foi categórica: “O desafio da nossa geração é legitimar o que a gente faz. Não levar para enquadramento num sistema já engessado. Que tal chamar o estado e parceiros para transformar a forma de fazer e legitimar o que a gente já está fazendo?”

“Não há outra forma senão essa, Veruska”, Júnior Perim assentiu. “O Norte Comum é uma forma de se organizar para produzir cultura e capital simbólico. Desde quando começaram as manifestações, fala-se em crise de representação de modelo político. A gente precisa se organizar para dar conta de um determinado desejo. Não acredito em abolir o estado. Os grupos sentaram pau no (Eduardo) Paes, que resolveu ouvir o que eles queriam. Os caras não conseguem verbalizar e saem demonizando. Eu estava na conversa. Quando acabou eu perguntei ‘gente, vocês não pediram dinheiro?’ Eu fui educado para pedir dinheiro porque eu nasci pobre”, disse ele, inflamado.

Não basta fazer arte, é preciso viver dela. O Crescer e Viver é uma prova. “A gente é uma escola. Agora, cada vez mais a gente impulsiona para que o resultado dessa criação estética vire empreendimento. Tem companhias já gerenciando recursos, que se constituíram como empresas. Por que não reconhecer a experiência do Norte Comum? Eu tenho medo de ver uma experiência como a do Fora do Eixo ser criminalizada. Quem são nossos inimigos são os que promovem a desigualdade da representação política. Eu furei o bloqueio, Faustini, Capilé. E nenhum de nós aceitou o lugar de ser sujeito extraordinário. A gente quer dar conta do mundo ordinário, que tem mais gente além de nós”, completou ele.

Não sou contra institucionalização não, tá? Ao contrário, Ana Enne fez questão de pontuar. “Sou fã do Cecip desde a TV Maxambomba. O sistema de classificação é sempre aleatório, maluco, mas eu trabalho com corte em cima das falas dos meninos que atuam nos projetos. Trabalhei com instituições de confinamento na Baixada e outras que atuavam com jovens. Quando explicavam o projeto, era uma coisa. Quando fui lá conhecer os meninos, era outra. Quando você junta disposição de trabalhar cultura, o corte político não desaparece”, explicou ela.

O desafio, continuou Ana, é como contemplar diversidade, trabalhar com linguagem, fazer aporte com reflexão política. “Ganhar dinheiro, sim. Mas cada lugar responde de uma maneira. Ter essa virada, uma preocupação com o pensar político, produz sujeitos empoderados de forma diferente. A pessoa passa a se preocupar com necessidade de compreender o mundo. Só pra fechar, não é institucionalizar que é o problema, mas a forma de lidar.”