Isso é um Rio de Encontros

Ilana Strozenberg na abertura do Rio de Encontros 2013 Foto: Marco Sobral

Ilana Strozenberg na abertura do Rio de Encontros 2013 Foto: Marco Sobral

As boas vindas foram longas. Na abertura do quarto ano do Rio de Encontros, na terça-feira 16 de julho, a diretora d’O Instituto Ilana Strozenberg saudou a plateia, fez questão de lembrar a acolhida da Casa do Saber Rio, o patrocínio da Souza Cruz, o apoio do jornal O Globo, e de anunciar o que há de novo no projeto.

“Funcionamos durante três anos dentro de um determinado formato e, desta vez, mantemos a proposta de debater com pessoas diversas e com pontos de vista diferenciados. Mas temos uma turma de jovens convidada especialmente para participar. São formadores de opinião em espaços e territórios diversos da cidade. Todos atuam ou fazem parte de algum projeto, serão interlocutores dos nossos encontros e vão colaborar ativamente no projeto nos próximos meses”, disse.

O Rio de Encontros, que tem o debate como marca, veio diferente também para a estreia. Para marcar o início da edição 2013, a socióloga Maria Alice Rezende de Carvalho foi convidada a dar uma aula inaugural.

“A fala da Maria Alice tem a ver com a pergunta que é o mote dos nossos encontros neste ano: o que de fato está mudando em nossa cidade, para que direção e como podemos pensar a partir disso? Em vez de as pessoas começarem falando, faremos uma grande e vivíssima roda. Vamos colocar questões e as pessoas vão se posicionar acerca desses temas. No Rio de Encontros, todo mundo que está na plateia poderia estar aqui na frente”, explicou Ilana.

Silvia Ramos: retorno às origens Foto: Marco Sobral

Silvia Ramos: retorno às origens Foto: Marco Sobral

A cientista social Silvia Ramos, que também coordena o Rio de Encontros com Teresa Guilhon e Anabela Paiva, pontuou o reencontro do projeto com seu espírito original. “Um diálogo, muito mais que palestras. Sou especialista em violência e segurança pública e cidadania. Aqui, vim a debates sobre urbanismo, meio ambiente, transporte, religião, drogas e mídia. Mas éramos gente da Zona Sul e com mais de 40 anos. Que encontro é esse que só chega a Santa Teresa, no máximo? Cadê os jovens? Estão aqui“, ela apontou a plateia rejuvenescida e atenta.

“Isso é um Rio de Encontros: lugar onde se entrelaçam muitas vertentes, movimentos e instituições, como o Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec), Rio Como Vamos, Meu Rio, Fundo Carioca, Brazil Foundation, CPDOC?FGV, Instituto Light”, completou Silvia, que seguiu com a apresentação dos jovens para que todos os conhecessem.

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As novas caras do Rio de Encontros

A nova cara do Rio de Encontros: jovens atuantes em projetos de comunidade e da periferia na plateia

Jovens atuantes em projetos de comunidade e da periferia da cidade integram a plateia na edição de 2013
Foto: Marco Sobral

Gente jovem reunida dá em muitas coisas. Na edição 2013 do Rio de Encontros, iniciada com uma palestra da socióloga Maria Alice Rezende de Carvalho, representantes de movimentos e projetos desenvolvidos em comunidades do Rio de Janeiro ocupam lugar privilegiado na plateia e mostram que de luta por direitos e ocupação pacífica de territórios eles entendem bem.

Rio de Janeiro, ontem e hoje

A socióloga Maria Alice Rezende de Carvalho dá palestra sobre "Rio de janeiro, ontem e hoje" Foto: Marco Sobral

A socióloga Maria Alice Rezende de Carvalho na abertura do Rio de Encontros  Foto: Marco Sobral

A História e as histórias do Rio ela conhece como poucos. Com a palavra, a socióloga Maria Alice Rezende de Carvalho, que preparou a palestra “Rio de Janeiro, ontem e hoje”, especialmente para a abertura do Rio de Encontros.

“O Rio tem uma reflexão consolidada, já”, avisou ela, que faria uma explanação seguindo uma perspectiva bem definida. “Toda história é uma seleção. Esta é uma apresentação cheia de lacunas e isso é proposital. Indica uma construção e uma forma de ver problemas. É bom para fazer pensar, eis o meu convite à reflexão”, pontuou.

O convite começou por um tema crcial para se entender a cidade e suas formas de organização. “Somos frutos da escravidão moderna. Não foi a primeira vez que se escravizou, mas foi uma sinalização, fazia parte de um sistema composto por Brasil, África e Europa Ocidental. Aí já estavam os indícios do capitalismo. Vamos falar especificamente da escravidão urbana, muito importante na constituição da cidade”, Maria Alice discorria e ilustrava sua fala com imagens.

O Rio já foi diferente, mas nem tanto. O trânsito na cidade era livre, ainda que o compromisso de entrega de recursos ao proprietário não o fosse. O folguedo urbano se assemelhava ao Carnaval. “Os relatos de viajantes europeus nos quais chamam atenção para a vida a livre dos escravos brasileiros, o que era estranho para a perspectiva de um europeu. A cidade se abriu para a presença do escravo. Não era benevolência, mas assenhoramento da cidade, o que fez com que as práticas culturais se desenvolvessem com maior liberdade”, explicou.

A liberdade torna-se, assim, um componente importante. O que significa haver imaginação e produção cultural? Os escravos, de certo modo, tinham domínio da cidade, atestam os depoimentos de vários viajantes.

Havia uma presença cultural na cidade sobre a qual se deve pensar, Maria Alice seguiu a exibição das imagens representativas da vida na cidade no período da escravidão: o antigo Mercado do Peixe e a ocupação pré-reforma Pereira Passos aproximava o Rio das cidades medievais europeias. “O mercado tinha papel não apenas mercantil, mas de troca cultural, de apropriação do espaço. O contrário era o feudo. Quando vinham para a cidade, os personagens do mundo medieval se viam mais livres. As pessoas gozavam de certa apropriação de espaço sem segmentações e diferenciações”, ressaltou ela.

As cidades medievais, segundo Maria Alice, eram emblemáticas das formas múltiplas de utilização da cidade,  lugar onde se faziam muitas coisas, como trabalhar e, inclusive, morar. “Mesmo na Europa, muitas pessoas moravam nas ruas. São formas de ocupação do espaço. Às vésperas da I Guerra Mundial, Viena tinha uma população de rua enorme. A Revolução Francesa foi deflagrada por um exército de pessoas donas daquele espaço”, relembrou.

Na cidade industrial, o cenário mudou. Londres, com sua ideologia do Protestantismo, que não é a da piedade católica, representa uma passagem importante e complexa da subsistência para o trabalho assalariado.”A pobreza industrial é diferente da anterior. Já há um mercado de trabalho institucionalizado. Todas as formas de obtenção de moradia e trabalho dependem de um contrato, não existem mais formas de sobrevivência que não sejam dadas pelo mercado de trabalho. Para se alimentar, vestir ou estudar é preciso estar no mercado”, disse ela, fazendo uma comparação com realidades mais próximas e demarcando as diferenças entre a cidade e a cidade capitalista institucionalizada pelo mercado de trabalho. “Na Amazônia, por exemplo, há muita pobreza, mas existem formas alternativas de alimentação. As pessoas comem peixe e açaí, há uma possibilidade, coisa que o mercado de trabalho institucionalizado vai excluindo.”

Cada lugar reagiu e promoveu suas revoluções de modos diferentes. Paris é um exemplo. “Algumas cidades viveram o processo temporalmente de maneira muito mais dilatada que outras.”

Assim nasceram as favelas

Maria Alice rezende de Carvalho: Rio de Janeiro e as reformas urbanas Foto Marco Sobral

Maria Alice rezende de Carvalho: Rio de Janeiro e as reformas urbanas Foto Marco Sobral

A decadência dos centros foi gradativa e decisiva para a mudança das configurações das cidades. Os quiosques reuniam pessoas que estavam em busca de coisas, fosse informação, fosse trabalho. “As pessoas trocavam informações sobre movimentos, motins, sempre estava acontecendo alguma coisa. Pela legislação brasileira, um escravo que demonstrasse autonomia de morada, desde que tivesse um quarto para viver, podia pedir ao juiz que o libertasse do patrão”, Maria Alice prosseguiu.

Assim, calcados no comprovante de renda, os cortiços foram se proliferando. Ter endereço era garantia de autonomia. Em meados do Século XIX, a abolição da escravidão trouxe muitos ex-escravos e europeus, especialmente portugueses, ao Rio de Janeiro.

No contexto da República Velha, estourou a Guerra do Vintém, acirrada pela cobrança de um vintém como imposto agregado ao preço do transporte. Foi primeira guerra por transportes de que se tem notícia na cidade. “A República Velha foi um momento complexo e belicoso. Sua organização produziu eventos de guerra civil iminente”, explicou Maria Alice. Foi a época de Padre Cícero, de Canudos, dos eventos de guerra acertados em reuniões nas quais o exército organizava os governos.

Com a Reforma Pereira Passos, a cidade já densamente povoada ganha uma rua que segue para o infinito, a avenida Rio Branco. É o tempo do despovoamento provocado pela reforma urbana. “Há a reformulação do centro da cidade, que deslocou a geografia do prestígio”, explicou Maria Alice. Na mesma época, muda também a configuração da imprensa. Os jornais são aplicados à dinâmica da cidade e deixam de ser literários para abranger as discussões sobre o Rio de Janeiro. 

A velha cidade tinha inconvenientes sanitários, mas favorecia o encontro entre a população. Reforma urbana bem-sucedida, para a socióloga, deve ser feita a partir de parâmetros que respeitem formas de sociabilidade e reprodução de determinadas maneiras de lidar com o espaço, que privilegiem a preservação de espaços culturais. Essencialmente, deve ser uma reforma que não implique em liquidar o espaço e a cultura anteriores. “Pereira Passos higienizou socialmente a sociedade, tirou a pobreza da visão dos estrangeiros e viajantes”, resumiu Maria Alice.

Rio, cidade esquecida

Maria Alice Rezende de Carvalho: Rio, cidade de insurreições populares Foto: Marco Sobral

Maria Alice Rezende de Carvalho: Rio, cidade de insurreições populares Foto: Marco Sobral

O Rio era a capital federal e potencialmente um caldeirão de revoltas e quebra-quebra. “Em 1879, na briga pelo vintém, a cidade toda vai para o evento, quebra o bonde, esfaqueia as mulas. Era tudo só no grito, as pessoas estavam face a face.”

Dono do terceiro maior porto das Américas, por onde desciam mercadorias, imigrantes, escritores, pintores, havia uma dinâmica de integração ao mundo, o Rio disputava com Buenos Aires o posto de capital da América do Sul. Uma dinâmica de inscrição no sistema mundo, que dava ao Brasil um lugar de destaque.

“A reforma urbana de Pereira Passos indicou o caminho de crescimento a cimento. Criou um eixo e o projetou para o mar, para onde a cidade cresceria. Essa tem sido a tônica até hoje”, ressaltou a socióloga.

O Brasil havia instituído, pela Constituição de 1891, preceitos ordenadores da vida urbana: não à corrupção, não ao voto descoberto, organização civil e sindical. Temas inscritos na Carta Magna, no entanto, não eram sinônimo de tempos tranquilos. “No estado de sítio na República Velha, os movimentos eclodiram com punições, prisões, desterros. O liberalismo da Constituição não conseguiu se fixar”, ressaltou.

A política efervescia. No passeio em fotos pelo Rio de Janeiro da primeira metade do século XX, Maria Alice mapeou a Revolta da Vacina, o Movimento Tenentista e a Revolta do Forte de Copacabana, a Revolução de 1930, Getúlio Vargas no Palácio do Catete, chegou a Juscelino Kubitschek, o portador da nova cidade onde os projetos nacionais de desenvolvimento ganhariam expressão.

Enquanto JK, em Brasília, erguia a nova capital e sonho de futuro, o Rio de Janeiro foi perdendo lugar para a conjugação das quatro loucuras, segundo Otto Lara Resende: de Juscelino, Niemeyer, Lúcio Costa e Israel Pinheiro. E, ao contrário de Brasília, não resguardou suas plantas ou suas memorias. “O que caracteriza Brasília é a organização espacial. É a única cidade que amarrou de maneira absoluta a vivência do urbanismo à sua planta, que virou a marca do desenvolvimento induzido dos anos 1960. O Rio de Janeiro não tem uma planta, tem um pouco de todas as cidades, tem camadas”, ponderou ela ao mostrar imagens do Planetário da Gávea, do estacionamento da Puc, do Pedregulho, da estação Central do Brasil, símbolo de um tempo em que o sistema ferroviário funcionava na cidade. “A cidade tornou-se rodoviária sem que o sistema ferroviário fosse mantido. O desmantelo do sistema ferroviário tem a ver com o fato de a Zona Norte estar hoje, de certo modo, em estado de abandono”, afirmou.

Maria Alice também exibiu imagens da Passeata dos Cem Mil (1968) e citou o centro da cidade como marca da experiência citadina, o lugar de pertencimento de todos. Durante o Golpe Militar, no entanto, o que havia de organização popular foi tolhida, cancelada e perseguida. “Não é verdade que não houvesse nucleamento, mas a Ditadura constitui canais de favorecimento de moradores de favelas através de água, luz e postos, essas foram suas políticas. A autonomia do Rio de Janeiro foi sendo destruída não apenas pela repressão, mas pela cooptação das lideranças, que consolidaram vínculos com alguns políticos”, afirmou ela.

As populações, por sua vez, ficaram vulneráveis e a cidade não resistiu à entrada do tráfico e da contravenção. “Nessa época, a organização autônoma cria mecanismos de autogestão e organização da vida coletiva, o que dificulta o trabalho dos estrangeiros que querem se instalar ali. Além dos processos de favelização do que antes era bairro estruturado, a ditadura representou isolamento urbanístico e cultural das classes populares”, ressaltou.

Today the jiripoca will pew-pew

Os jovens nas ruas:  “Esse movimento foi por autonomia, por voz, por fala” Foto: Marco Sobral

Os jovens nas ruas: “Esse movimento foi por autonomia, por voz, por fala” Foto: Marco Sobral

E hoje? Maria Alice Rezende de Carvalho adiantou a pergunta. Tirado dos cartazes das manifestações que tomaram conta da cidade e do país nas últimas semanas, o título ‘Today the jiripoca will pew-pew”, segundo ela, é mais que sugestivo em essência: abrange o máximo de local e o máximo de global.

“De um modo geral, os temas da sociologia não respondem muito bem aos problemas que estamos vivendo”, disse ela, em clara referência às manifestações que levaram, principalmente, jovens para as ruas. “Esse movimento foi por autonomia, por voz, por fala, mas não foi isolado no Rio de Janeiro”, analisou.

Os protestos, por sua vez, têm conexão com outros movimentos. “O maior legado do Século XX foi presença do movimento feminista e de suas conquistas. Foi uma revolução surda que alterou a maneira como o mundo se estrutura, uma conquista libertadora”, afirmou.

O movimento dos jovens tem tudo a ver com isso, segundo ela. Trata-se de um outro ator e não está localizado geograficamente em um único ponto, não se restringe ao Rio.

“Ampliar república significa incorporar novas demandas e direitos. A democracia é um processo, sempre haverá os direitos dos que ainda virão. Cidade e juventude é um binômio novo, interessante e normal. Nós nos amotinamos por problemas que são específicos, mas a democracia e a cidade como bem público são uma luta global”, disse ela, ao lembrar de movimentos em outras cidades pelo mundo.

No Rio, como em Paris ou Londres, a conversa está apenas começando.

A plateia se manifesta

 

Jovens na plateia do Rio de Encontros: participação ativa e permanente  Foto: Marco Sobral

Jovens na plateia do Rio de Encontros: participação ativa e permanente Foto: Marco Sobral

Cobri os protestos pela Mídia Ninja e comecei a pensar de acordo com o que fotografei. Com relação ao estilo e aos grupos que existem dentro do protesto, como cada um pode contribuir? Além de ser algo de direitos coletivos, temos de pensar algo que possa atravessar os diversos grupos, que possa resolver em parte as desigualdades espacial, social e econômica que temos. A rua é lugar principal de encontro.”
Hanier Ferrer 

“É pra gente continuar falando do transporte público como direito. É o que talvez nos leve de novo ao centro da cidade. Como a gente pode pensar, agora que se juntou não só pelos 20 centavos? Como a gente pode continuar pensando nisso?”
Manaíra Carneiro

Sou morador da Baixada, moro hoje na Zona Norte, sou ator de teatro de rua, onde essa discussão bomba. A gente começou a pensar um conceito de arte pública. A rua virou ponto a ser tomado e grande lugar de diálogo e de transformação. Praça, laje, esquina, beco… De que forma a gente vai mudar o olhar para esses espaços públicos?
Jorge Veiga

“Existe uma outra classe universitária, uma outra geração que opera códigos que, a princípio, opera como classe média, mas tem origem popular. A gente precisa formar um bloco de unidade em que a pauta das favelas não esteja dispersa nessas manifestações. Para isso, reunimos todos os coletivos. Sobre o centro como lugar de todos e de pertencimento, isso já mudou. A Rocinha desceu, todo mundo desceu e só vão parar quando aparecerem na mídia. A periferia já se mobilizou.”
Bruno F. Duarte

“O encontro e a diversidade é o que constitui a cidade como ela é. Essa coisa de ter habitação de renda variável é sensacional para o desenvolvimento da cidade. É preciso criar atrativo, ambiência, criar a cidade, dar acesso à cidade naquele espaço. Mas tem de preservar o direito individual.”
Manuel Thedim, economista

“Parece novidade, mas nós já estamos nas ruas. Atores, artistas, ambulantes, trabalhadores que voltam para casa todos os dias. Nesse momento, essa voz teve eco, mas sempre esteve aí. Há muitas pautas e, apesar de parecerem de grupos individuais, não são. São casos que nos atravessam. Vim de origem humilde, estou me formando com bolsa, não faço parte do grupo restrito que a mídia apresenta. Mas sou desses grupo que estão na rua com pautas que nos atravessam diariamente.”
Karen Kristen

“São muitas as amarras do setor público. A gente sempre olha pelo que ainda falta, mas nunca olha pelo que já foi conseguido. E muito já se conseguiu. A gente precisa de parcerias público-privadas com o Terceiro Setor. Não pode ser vocês contra o governo. Tem de ser junto. Tem de ter o canal do ‘imagina na Copa’, mas tem de ter um canal de articulação. Alguém sempre vai ter de pagar a conta. Eles, os jovens, não querem a cidade partida, querem a cidade integrada. Ambos têm muito de aprender de parte a parte. É difícil ser eficiente, conseguir recursos. Precisamos de uma cidade com redistribuição de oportunidades. O que vocês querem do ponto de vista de ideologia política? A UPP Social contrata jovens da comunidade porque quer conhecimento profundo e específico. É preciso construir uma grande rede para avançar para uma cidade mais sustentável.”
Eduarda La Rocque, do Instituto Pereira Passos (IPP)

Para quem quiser se aprofundar na questão, o Armazêm de Dados, portal criado em criado em 2001, reúne informações geográficas e estatísticas da cidade do Rio de Janeiro. Estão lá levantamentos e registros administrativos, estudos, pesquisas e mapas.  São 17 aplicativos de acesso livre, 157 mapas, 1074 tabelas e 285 estudos e análises que abrangem temas como território e meio ambiente; população; economia; educação; cultura; turismo; esporte; lazer; infraestrutura; transporte; saúde; uso do solo e dinâmica imobiliária; desenvolvimento social; habitação e segurança pública.

“O Centro é o lugar mais coletivo que tem, ainda é um encontro de todos os movimentos juntos. A classe média está presente e isso não ruim, porque ela fica tão à margem e mais à margem, talvez até mais que a classe baixa. A classe alta paga caro pela escola. A classe média fica num vácuo, tem acesso a pior cultura, vai para o Kinoplex ver filmes americanos. A classe baixa está socialmente muito abaixo, mas está muito melhor culturalmente.
Gabriela Faccioli

“Jovem não é questão de idade cronológica. O que quer a juventude nas ruas? Participar efetivamente nas decisões que são fundamentais para a vida de todo mundo. Fazer parte do que foi dito aqui. Essa concepção de habitação não é ter uma casa e morar. Tem a ver com o lugar onde se está e tem a ver com cartografia afetiva. Você mora e tem ligações afetivas com o lugar. A questão da rua e o lugar onde você mora, quando se fala em manter a pessoa no lugar onde ela vive, se está falando sobretudo de experiências em que se manteve as pessoas morando no lugar onde elas moravam, onde não houve gentrificação. Todo o plano é feito para que as pessoas possam permanecer ali. Renovam-se os centros, mas mantêm-se a padaria, o açougue, o sapateiro. Bologna é um exemplo incrível.”
Claudius Ceccon (Cecip)

“Você tem a sua afetividade local. Falando da Maré, onde eu moro, é uma realidade que a gente tem de transformar. O cara da favela ir ao CCBB, a pessoa de classe média ir à favela. O que eu não conheço, eu temo. São várias realidade que não conhecemos e que, na medida em que se conhece, também se perde o medo. O espaço da rua é claramente um espaço público que se consegue alterar. É muito simbólico o choque na Lapa. O movimento é pelo direito de se locomover. O Passe Livre já pegou porrada na rua há muito tempo. As realidades se cruzam de forma mais objetiva e focada. É uma massa enorme querendo uma única coisa, quero meus direitos.”
Davi Marcos

“Classe média também sofre. Esse é um momento propício para a gente que é da favela reivindicar direitos básicos. Remoções vieram com as ocupações do IPP. Os projetos que tem favela são para garçom. Sou preto e favelado e tenho de ser garçom? Tenho um estado que não me assegura os meus direitos, pelo contrário, me viola.”
Igor de Souza Soares

“Nós falamos o tempo todo de democracia. E essa cidade é a que, historicamente, menos tem tradição democrática. Essa cidade têm ânsia. As associações de moradores não têm democracia interna. Como aproveitar essa força jovem para fazer democracia de verdade? Não há direito de ir e vir nessa cidade porque as pessoas não têm dinheiro para pagar o preço extorsivo da passagem.”
Aspásia Camargo