A conversa esquentou

Iniciadores e plateia assumiram a sensação de impotência e incompetência diante do problema das drogas. (Foto: Kita Pedroza)

As falas dos três debatedores suscitaram muitas perguntas da plateia, composta por policiais, líderes comunitários e empresários, entre outros. Muitos dos que pediram a palavra se mostravam reticentes em relação a uma possível legalização num país que não tem estrutura ainda para tratar a droga como problema de saúde pública. Um médico e uma pedagoga, por exemplo, deram depoimentos parecidos sobre como se sentem despreparados para lidar com as questões nos hospitais, em projetos sociais ou dentro da escola.

Duas dessas falas chamaram atenção. Foram de William da Rocinha e Zé Mário, da associação de moradores do morro Santa Marta. Ambos se mostraram veementes contra a legalização, preocupados com a falta de controle que isso poderia causar.

Aí o debate esquentou. Beto concordou com eles: “Não somos a Holanda, a Dinamarca, que têm estrutura para cuidar dos viciados de outra forma”. Renato rebateu: “Não entendo essa comparação com o primeiro mundo. Acho que é por isso mesmo que precisamos legalizar urgentemente! Acham que se liberar vamos sair do controle. Mas a verdade é que liberadas as drogas já estão”. Julita, que pensa como Renato, citou o exemplo de Portugal, que está tratando seus consumidores de drogas. Para ela, os R$1.500,00 mensais que o preso brasileiro custa ao Estado deviam ser gastos em tratamento médico e psicológico.

Ao final, Silvia Ramos, uma das organizadoras do Rio de Encontros, concluiu o debate dizendo que já existe uma parcela da população, principalmente de classe média, que defende a legalização. Aliás, o filme Quebrando o tabu, em que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso mostra como essa tendência está em voga em várias partes do mundo, foi citado algumas vezes na conversa (veja o trailer abaixo).

Mas Silvia observou: “Foi interessante perceber que as pessoas que se colocaram contra a legalização neste debate são as que estão mais próximas do problema: policiais e líderes comunitários. Acho que isso quer dizer alguma coisa, e precisamos conversar mais para entender isso”.

Números estarrecedores

Julita Lemgruber mostrou dados sobre sistema prisional. (Foto: Kita Pedroza)

A apresentação de Julita Lemgruber foi repleta de dados estarrecedores. Alguns deles: a população prisional triplicou em 15 anos. A que responde por tráfico de drogas triplicou em cinco anos. De cada 10 mulheres presas no Brasil neste mesmo tempo, sete foram por tráfico. Entre os condenados por este crime, a maioria é réu primário e apenas 14% estavam com arma. Incisiva como sempre, Julita deu logo sua opinião: “Ou descriminalizamos o uso ou vamos continuar tendo essa explosão de pessoas presas”.

Para completar, o artigo 28 da lei do tráfico é vago, em sua opinião. “Quem acaba como traficante, e não como usuário, é o menino negro e pobre que não tem recurso para pagar advogado”.

Julita lamentou as campanhas antidrogas. “Não entendo como nosso país, que fez uma campanha brilhante de prevenção a AIDS, faça publicidade tão hipócrita contra substâncias tóxicas”. Ela citou ainda os EUA, segundo ela “o melhor mau exemplo que podemos ter”. “A guerra contra drogas lá tem 40 anos. Gastam 40 bilhões de dólares por ano com isso. O país tem 5% da população mundial e 25% da população carcerária do mundo, mais da metade condenada por tráfico de drogas. O percentual de pessoas que consome drogas no EUA continua o mesmo. Não vamos nos iludir, não é com postura repressiva que vamos resolver nosso problema”.

Veja um pequeno trecho da fala de Julita:

Os estranhamentos de um policial

Apresentador de TV e policial, Beto é contra a legalização, por enquanto. (Foto: Kita Pedroza)

Beto Chaves é um sopro de sensibilidade na polícia carioca. Talvez por isso, ele amplia sua atuação para além do uniforme e se dedica ao diálogo tanto no programa de TV Papo de Polícia (Multishow), em que dialoga com egressos do sistema prisional, e no projeto Papo de Responsa, que vai a escolas para debater questões de segurança.

Há oito anos servindo como policial civil, Beto já enterrou três colegas que entraram com ele na corporação. Viveu muita coisa em operações e favelas e diz que vê os companheiros demonstrarem orgulho ou indiferença quando matam alguém, “porque na polícia a filosofia é de dever cumprido e de bravura”. Ele, por outro lado, nunca deixa de sentir estranhamento. “Estranho reunimos milhares de pessoas para ver o Ronaldinho chegar e não para manifestar por saúde. Estranho um policial trabalhar de uma forma da Zona Sul e de forma diferente da Baixada”, exemplificou. “Não consigo ver quem são os vencedores: a polícia não é, a sociedade não é, nem esses meninos empunhando armas. Mas há quem esteja ganhando, e é preciso que a gente questione quem é”.

Ele estranha também o nível do debate sobre as drogas. “Discutimos de forma incipiente sobre isso. É muito na base do gosto/não gosto. Mas há muitas questões complexas em jogo. Por exemplo, a ambiental. A Colômbia tem 68 mil hectares de plantação só de folha de coca”, afirmou, deixando claro que é contra a legalização, por enquanto, sobretudo porque acha que isso poderia gerar uma falta de controle ainda maior da situação (veremos no post “A conversa esquentou” como essa questão foi rebatida pelos outros participantes).

Substâncias sob controle

Renato Cinco fala sobre a Marcha da Maconha, observado pelo mediador Pedro Strozenberg. (Foto: Kita Pedroza)

“Controle de qualidade e rótulo na embalagem da cocaína seriam suficientes para reduzir as taxas de overdose”. Não foi fácil a vida de Renato Cinco no debate. Frases como essa que abre o post pareciam dar frio na espinha de algumas pessoas da plateia. Muitas provocações foram feitas a ele, sobretudo por parte de Beto. Mas o militante do movimento Legalização da maconha – um dos que organizam a marcha – seguiu firme. Fez um pequeno histórico sobre as drogas no mundo. Explicou o processo de criminalização da maconha no Brasil. E contou a trajetória da marcha, que passou por várias fases – e já o levou a ser preso duas vezes – até chegar a ser autorizada em decisão do Supremo Tribunal Federal, este ano.

“Entendemos que a proibição da maconha, e acho que das drogas em geral, não é eficaz, não conseguiu impedir que o número de usuários crescesse, que as drogas se diversificassem”, disse ele. “Essa proibição provoca corrupção no mundo inteiro, mesmo nos presídios mais seguros. E tira da sociedade a possibilidade de regular esse mercado e ter as substâncias sob controle.”

Renato contou ainda que os organizadores da marcha muitas vezes são vistos como repressores, por não deixarem as manifestações virarem terreno de apologia pelos adeptos da “cultura canábica”. “É um movimento político”, define, recomendando a visita aos sites da ONG Psicotropicus e do grupo Growroom, que também tratam da questão com seriedade. Apesar disso, a marcha às vezes gera certa incompreensão de quem acompanha de longe. Ilana Strozemberg comentou, por exemplo, que na sua opinião há um erro de estratégia no grupo, pois o discurso sério e embasado como aquele que estava ouvindo não aparece nas passeatas.

Veja um trecho da fala de Renato:

“Debate em que todo mundo pensa igual não é debate”

Pedagogos, policiais, médicos, empresários e líderes comunitários participaram do debate. (Foto: Kita Pedroza)

Um policial, um militante da legalização das drogas e uma especialista em segurança pública. Beto Chaves trabalha na Polícia Civil, apresenta o programa de TV Papo de Polícia (Multishow) e percorre escolas com o projeto Papo de Responsa. Renato Cinco é um dos organizadores da Marcha da Maconha no Brasil. E Julita Lemgruber tem vasta experiência no sistema prisional do país. Os três convivem com o impacto das drogas na sociedade todos os dias. E tem visões diferentes sobre possíveis soluções, como deixaram claro na edição do Rio de Encontros que tratou da questão, no dia 13 de setembro.

Deu gosto de participar da conversa. Gente que pensa diferente, mas mantém a elegância e o ouvido atento no diálogo. Beto, que questiona a proposta de legalização, estava feliz com a oportunidade de conhecer e conversar com Renato Cinco. Como ele disse, “debate em que todo mundo pensa igual não é debate”. Mas havia algo em comum entre os três e muita gente na plateia. A sensação de incompetência/impotência para lidar com o drama social das drogas. As palavras ajudam a mostrar a complexidade da questão. Como é sempre o objetivo do Rio de Encontros, todos saíram com mais dúvidas do que entraram. Dúvidas mais qualificadas, com certeza. Como dizem por aí, o bagulho é doido.

Próximo Rio de Encontros: Drogas, violência e exclusão social no Rio de Janeiro

Problema econômico, moral, de saúde ou de polícia: como entender e combater o surgimento e expansão do mercado de novas drogas? Como as instituições públicas e as organizações da sociedade civil lidam com a proposta da descriminalização e seus impasses?

13 de setembro de 2011

Os iniciadores do debate serão Julita Lemgruber (socióloga e diretora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania), Renato Cinco (sociólogo e militante da Marcha da Maconha) e Beto Chaves (policial civil e coordenador do projeto Papo de Responsa, do Afro Reggae, e do programa Papo de Polícia, no Multishow). Mediação de Pedro Strozenberg, secretário-executivo do Instituto de Estudos da Religião (ISER). Leia mais sobre os participantes na Programação.

Confirme presença pelo email riodeencontros@riodeencontros.org.br.