#Um dia de Alice

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Jovens do Rio de Encontros nas gravações de #Um dia de Alice

O que aconteceria no seu dia se você perdesse seu Smartphone e a única saída fosse usar aquele aparelho antigo, cujas funções sejam apenas fazer e receber chamadas e, quem sabe, um torpedo aqui e ali? Esse é o maior problema na vida de Alice, a personagem viciada em internet do curta realizado por jovens da turma Rio de Encontros em parceria com a Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) do Rio de Janeiro.

O projeto iniciou em agosto deste ano com objetivo de criar um laboratório de vídeos colaborativos, sob a coordenação do professor Rico Cavalcanti. #Um dia de Alice é resultado de um workshop de aulas sobre cinema, linguagem audiovisual, criações de roteiro, uso de equipamentos e planejamento de produção. Depois de muita conversa os alunos escolheram o tema, organizaram as funções e partiram para a finalização do roteiro e produção.

Veja fotos das gravações AQUI

Leandro Lima, monitor do projeto, conta como essa fase ajudou a descobrir o melhor de cada um: “queríamos falar sobre como a tecnologia influencia na vida das pessoas e a turma concordou que o celular é o que mais contribui para isso, Alice é uma garota que não consegue viver sem ele e vai ter que se virar com um aparelho antigo”, conta. Leandro explica que alguns alunos realizaram mais de uma função, e até o professor e as coordenadoras do Rio de Encontros Ilana Strozenberg e Teresa Guilhon atuaram. “Foi uma oficina de aprendizado e diversão, todos mostraram algum talento”, disse Leandro.

As gravações duraram duas semanas, com equipamentos, equipe de iluminação e áudio cedidos pela ESPM. Jessica Sá, que faz Alice, definiu o projeto como um desafio diferente do que imaginava: “Hoje a linguagem visual não é mais um bicho de sete cabeças, eu tinha alguma noção de vídeo, mas aprendi muito sobre planos e enquadramento”. Jessica reflete acerca da mensagem do filme, “o roteiro parece simples, mas faz pensar em como ficamos reféns do celular e não vemos coisas acontecendo a nossa volta”, afirma.

#Um dia de Alice está na última fase de edição e será lançado no dia 25 de novembro, na Casa do Saber, no evento de encerramento do Rio de Encontros 2014.

O espaço da loucura e o ritual da rua

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Público do Rio de Encontros 28/10/2014. Foto Paula Giolito

Um arquiteto, uma professora, um psiquiatra e ator e uma plateia engajada na busca por soluções que ajudem a melhorar a cidade produziram um dos debates mais impactantes do Rio de Encontros em 2014. Realizado no dia dia 28 de outubro, na Casa do Saber, com o tema “Ocupações do espaço público, cultura e política na cidade”, e penúltima edição do projeto revelou cidadãos interessados em pensar formas de transformar a cidade em um ambiente mais acolhedor e comprometido com a cultura e as necessidades da população. Há sensibilidade visível, além de disposição para execução efetiva de projetos que tornem o espaço público mais habitável e alegre.

Foram convidados, para iniciar a conversa, a doutora em Literatura Comparada e professora da Escola de Comunicação da UFRJ Beatriz Jaguaribe; o arquiteto e diretor do Studio-X Rio Pedro Rivera; e o médico, ator, psiquiatra cultural e pesquisador Vitor Pordeus, que é também fundador do Hotel Spa da Loucura no Hospital Psiquiátrico Nise da Silveira.

Responsável pelo desenvolvimento e gerenciamento de projetos d’O Instituto, Teresa Guilhon apresentou as perguntas previamente formuladas para orientar o assunto: existe uma crise no modelo de cidade moderna? É possível dizer que estamos retomando ruas, praças e outros espaços, como os manicômios, enquanto lugar da política? Essas ações apontam caminhos para uma cidade mais democrática? Qual o papel da cultura nesse processo? Os convidados trataram de responder, cada um em seu tempo, a cada uma das questões.

O lugar do inconsciente coletivo

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Vitor Pordeus. Foto Paula Giolito

Primeiro na ordem de fala, Vitor Pordeus optou por contar sua experiência com o trabalho desenvolvido nos espaços públicos. Ele coordena o grupo de teatro composto por internos do Instituto Municipal Nise da Silveira, antigo Hospício do Engenho de Dentro, que se apresenta em vários pontos do Rio de Janeiro e do Brasil, e o bloco Loucura Suburbana, que faz parte da agenda do Carnaval carioca. O Hotel da Loucura existe há quase três anos, mas o trabalho de Pordeus, que se autodefine como ator de rua, um artista do espaço público, já dura oito anos nas ruas.

“Estar na rua tem sido uma experiência muito forte e profunda. Existem forças inconscientes que se manifestam e criam um ritual ali: moradores de rua, uma série de entidades e doentes mentais graves com quem lidamos todo tempo. Foi assim que fui chegando à ideia de que o espaço público é o inconsciente coletivo. Quando você entra nele e se depara com a energia de outras pessoas, aquele espaço se torna canal de diálogo onde o morador de rua que vai cantar, vai dançar e vai falar coisas que nos farão identificar as evoluções e manifestações”, relatou o médico.

Para Vitor Pordeus, é no espaço público que a comunidade se manifesta. E se essas manifestações têm sido cada vez mais violentas a razão está em forças sóbrias existentes no lugar. O exemplo do que ele fala está nas comunidades ocupadas por milícias, traficantes, polícia e exército, lugares onde a violência é banalizada e executada como forma de combate.

“Quando nós saímos às ruas para fazer arte pública, a chamada arte de todos os tempos, que os gregos, Shakespeare, Molière, Garcia Lorca e todos os grandes homens do teatro na história faziam, manifestamos as forças da comunidade, vemos o que está ali, quais são os fantasmas, quais são os demônios, quais são as histórias. Nós, no papel de executores desse trabalho de ritualidade cultural e humana, somos capazes de modular essas forças”, afirmou ele, considerando que essa é a boa notícia.

Para todo mal, a poesia

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Beatriz Jaguaribe, Pedro Rivera e Vitor Pordeus. Foto Paula Giolito

Nas ruas, a equipe do psiquiatra e ator Vitor Pordeus, assume a tarefa de promover a restauração do espaço público como espaço de cultura, de identidade e de memória da comunidade, o que ele descreve como forças que traduzem a nossa natureza mais profunda, a nossa ancestralidade.

“Essa é a cura. O espaço público não é para ser ocupado pelos milicianos, nem pela polícia e nem pelo exército. É para ser ocupado pela cura, pela ideia de que estamos aqui nos trabalhando para melhorar nossa saúde, para melhorar nossa existência na Terra, para tornar nossa existência menos cansativa”, ressaltou ele.

A poesia, segundo ele, pode ser emblemática. Tanto que ele aproveitou a oportunidade e a fala para declamar – com emoção –, o poema de Carlos Drummond de Andrade, “Elegia 1938”. “Estamos numa fase histórica, num momento de transição e uma nova era está entrando, a era do presente, da vida”, disse ele, em seguida. Drummond, por sua vez, tem o que pode ser considerado o contraponto do primeiro poema. Está no terno “Mãos Dadas”.

“Essa poesia ajuda a mediar o diálogo. Nós somos capazes de transformar o mundo e transformar a nós mesmos, desde que sejamos capazes de nos apropriarmos das nossas tradições, do saber daqueles que viveram antes de nós. Nós somos uma multidão. Nós somos um espaço coletivo, nunca fomos indivíduos. Nascemos juntos, crescemos juntos, adoecemos e nos curamos juntos. Todos os fenômenos importantes são fenômenos do espaço público, do espaço comum, do diálogo e da cooperação”, finalizou.

A cidade ideal

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Pedro Rivera. Foto Paula Giolito

Do inconsciente para o espaço concreto. Segundo a dialogar com a plateia, o arquiteto Pedro Rivera partiu do adensamento populacional das metrópoles nas últimas décadas para demonstrar a vultosa capacidade de agregação das cidades e apontar, por sua vez, a necessidade de transformar suas estruturas complexas, difíceis e incontroladas com seriedade. Segundo ele, há uma forte e inconteste crise gerada pelo desconforto, a violência e o descontrole.

“Tenho pensado intensamente na dimensão do espaço que a cidade global ocupa e no que se transformou nos últimos anos. O que chamam de cidade moderna está em crise, porque para que fosse escalada a uma rede de cidade global passou-se por cima de uma série de especificidades, produziram uma certa pasteurização, uma homogeneização de diversos códigos para que todo mundo pudesse conversar. E o resultado foi a crise”, disse.

A cidade ideal, pontuou Rivera, existe, ainda que no campo das ideias. É aquela capaz de produzir um sentimento de domesticidade, de acolhimento, de pertencimento ao território, de proteção.

“Para pensar o futuro da cidade é importante considerar aonde a gente quer chegar e que tipo de transformação queremos. Todos nós sabemos como o espaço vem sendo cerceado, mesmo os mais jovens (apontando para a plateia) aqui experimentaram ao longo da sua vida uma diminuição da possibilidade do uso do espaço público. A cidade se tornou mais violenta e mais fortificada. Muitas barreiras, sejam mentais, sejam físicas, foram construídas e ela está cada vez mais subdividida”, afirmou ele. O grande desafio, de acordo com o arquiteto, é ultrapassar as barreiras interpostas para produzir outros modelos de convívio.

Um Rio mais gentil

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Beatriz Jaguaribe, Pedro Rivera, Vitor Pordeus. Foto Paula Giolito

O Rio de Janeiro não foge à regra, mas carrega sua particularidade. Por conta do seu território ímpar, há uma superposição do que é considerado centro e o que é periferia, assegura Pedro Rivera. Contextualizar e dar conceitos, portanto, é importante:

“Em termos estritamente urbanísticos, o centro da cidade é onde ela está fundada e se desenvolve, e a periferia é tudo aquilo que se produziu depois, orbitando em volta desse centro”, explicou.

Usando como referência o arquiteto e teórico Rem Koolhaas, mais especificamente o texto Cidade Genérica, Pedro Rivera esmiuçou as consequências da constante valorização dos centros em detrimento das periferias:

“No momento em que as cidades explodem de tamanho, as periferias não são mais conectadas aos centros. E a gente continua advogando a ideia de centralidade. É preciso repensar essa relação. Mas no Rio de Janeiro, em particular, existem esses dois territórios sobrepostos em um território único, e essa é a condição particular de onde surge a nossa cultura”, disse ele, acentuando que a potência urbana do Rio existe a partir dessa sobreposição entre centro e periferia.

Trata-se de uma sobreposição perversa, uma vez que produz a desigualdade social, mas construtiva, já que também produz uma proximidade rica no aspecto cultural.

“Estar no espaço público significa estar perante os demais, significa necessidade de negociar com as outras pessoas permanentemente. Temos uma legislação celebrada e muito moderna no Brasil chamada O Estatuto da Cidade, que basicamente defende a função social da propriedade urbana, o que significa que todo o território, não importando se pertence à dimensão pública ou privada, tem o dever de servir ao coletivo da cidade”, ressaltou.

Além da dimensão política, é preciso considerar um aspecto mais sutil, mas igualmente importante: o nosso corpo no espaço, o que o arquiteto fez questão de enfatizar como prioridade:

“Estou falando de uma dimensão sensorial da cidade, da textura, do cheiro, da temperatura. Como o nosso corpo se relaciona com esse espaço? A aspereza e a sensação tátil do espaço. Devíamos ter a ambição de produzir uma cidade onde fosse possível caminhar descalço, uma cidade gentil e generosa”, finalizou.

Por uma cidade imaginada

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Beatriz Jaguaribe. Foto Paula Giolito

A professora e pesquisadora nas áreas de nação, memória e cidades midiáticas Beatriz Jaguaribe tem interesse particular na imaginação artística sobre a cidade. Com uma produção acadêmica centrada também na cultura urbana, ela fez questão de iniciar a conversa com a plateia do Rio de Encontros respondendo à primeira pergunta formulada para o debate: existe crise no modelo de cidade moderna?

A cidade é como o céu e o inferno, Beatriz invocou a obra “A Divina Comédia” de Dante para dar conta da resposta:

“Todo mundo sabe que inferno é horrível, mas na hora de imaginar o que é o paraíso a nossa mente fica em branco, porque o paraíso de um é o inferno do outro. Acontece o mesmo com a cidade. Há utopias urbanas que se transformaram em modelos extremamente disfuncionais: a ideia modernista da cidade como abolição da rua invadida pelo automóvel, sem integração entre classes, sabores, pessoas, áreas de lazer e áreas de comércio, deixando tudo compartimentalizado. Não é que esse seja um modelo totalmente fracassado, mas está sendo altamente questionado”, ressaltou ela.

Há uma crise de imaginários possíveis para a cidade, adiantou Beatriz. Já não mais planejada considerando o cotidiano das pessoas, não é possível  enxergar a relação de afetividade e pertencimento do homem ao seu ambiente. Homogeneizadas, as cidades foram transformadas em não lugares.