Palestra de Luiz Eduardo Soares em áudio

Na abertura do Rio de Encontros 2014, em março, o antropólogo e escritor Luiz Eduardo Soares deu uma aula sobre o tema “Rio de encontros e desencontros, como viabilizar o diálogo na cidade”. Além da cobertura em texto, disponibilizamos agora o áudio da palestra. Confira abaixo:

Como o Rio vota? Política, representação e redes sociais

Como o Rio vota? Convidados e plateia no Rio de Encontros / Foto: Paula Giolito

Como o Rio vota? Provocadores e plateia no Rio de Encontros / Foto: Paula Giolito

A política afina o espírito humano, educa os povos, desenvolve nos indivíduos atributos como a coragem e a nobreza, defendia Rui Barbosa. Fosse contemporâneo, o escritor, jurista e parlamentar bem que poderia estar entre os convidados do Rio de Encontros realizado no dia 27 de maio. A edição pré-Copa do Mundo no Brasil, que adiantou outro evento que, se não mexe igualmente com os nervos do país, afeta todas as esferas da vida cotidiana do brasileiro: as eleições de outubro.

Para o embate de ideias e opiniões com a plateia, três convidados que não medem  força, mas defendem com loquacidade suas convicções. Durante duas horas e meia, o cientista político José Eisenberg, o antropólogo e diretor do Instituto Mapear, Cláudio Gama, e o jornalista político Alexandre Rodrigues, do jornal O Globo, discorreram sobre como a mobilização da juventude hoje nas ruas vai impactar as urnas, qual será a influência das redes sociais no processo eleitoral, o papel dos partidos no cenário político do Rio e as eventuais mudanças no perfil do eleitor da cidade.

Na apresentação dos convidados para o papel de provocadores, a socióloga Silvia Ramos, representando O Instituto, justificou o tema do dia, “Como o Rio vota, política, representação e redes sociais”:

“O Rio eleitoral era um tema central dez anos atrás, mas foi se deteriorando. Hoje, há uma rejeição à política tradicional. Cada vez mais as pessoas estão desencantadas com a política. Como enfrentar esse dilema? A ideia, portanto, é discutir não somente em quem o Rio vota, mas como vota, nesse momento específico e único no Brasil”, esclareceu ela, já passando o microfone adiante para os convidados da vez.

Caiu na rede

Alexandre Rodrigues: "A imprensa é um pilar da democracia, não pode ser desmoralizada” / Foto: Paula Giolito

Alexandre Rodrigues: “A imprensa é um pilar da democracia, não pode ser desmoralizada” / Foto: Paula Giolito

O jornalista Alexandre Rodrigues abriu a conversa. Com passagens pela editoria de economia, é na política que ele investe agora, principalmente em compreender as mudanças que vêm ocorrendo no país. O dever de casa devidamente pronto, defendeu a influência das mídias sociais no processo eleitoral, alertou para a cautela necessária na disseminação das informações via internet, adargou a imprensa como fonte confiável e pilar da democracia, realçou o caráter peculiar do Rio no cenário político nacional quando se trata de exercer o direito ao voto.

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O carioca tem lá suas especificidades em relação ao voto do brasileiro em geral, mas o cenário econômico, segundo Alexandre, vem assumindo um papel central nas eleições em todo o país.

“Economia tem muito a ver com política. Cada vez mais, as eleições têm sido decididas baseadas no tema socioeconômico. O bem estar pessoal conta muito na hora de decidir o voto, especialmente para presidente, aquele governante que não está perto do seu cotidiano, de uma necessidade mais local.”

No que o Rio se distancia – ou se diferencia – é na vocação para as vias alternativas. “Aqui, o PT e o PSDB são partidos pequenos, com pouca expressão e sem grandes líderes. A história política do estado provocou essa desconexão entre dois grandes partidos no plano nacional. Há uma influência muito grande do brizolismo, o que eu chamo de ‘os filhos do Brizola’. Muitos dos líderes dos principais partidos no Rio, hoje, vieram daí: o Cesar Maia, o Garotinho, o Eduardo Paes. A origem é a mesma, embora eles tenham ou se apresentem com visões completamente antagônicas”.

A confusão ideológica é certa. “No Rio, essa matriz comum do brizolismo acabou também fazendo com que a gente não reproduzisse o jogo nacional, em que o PT e o PSDB acabaram ficando hegemônicos”, disse ele, apontando para as votações expressivas de Heloisa Helena, em 2006, Fernando Gabeira, em 2008, Marina Silva, em 2010, como exemplos.

O eleitorado do Rio carrega certa rebeldia. E agora, além dessa característica, os candidatos vão ter de lidar com novos componentes, que são a mobilização de jovens, o que ganhou força com as manifestações de junho de 2013, e o uso de mídias sociais.

“De alguma forma, a campanha do Gabeira em 2008 inspirou muito a da Marina Silva em 2010, que envolveu muitos jovens. Eles participaram da campanha como voluntários, o que não se via há muito tempo. Os jovens são idealistas, inconformados com a realidade, têm vontade de mudar. E isso dá motivação genuína para participação na política”, ressaltou.

A inovação de que Alexandre Rodrigues fala não vem apenas da internet. Mas as mídias sociais, segundo ele, representam uma nova praça, o novo espaço de conversa. “As mídias sociais vão influenciar muito a eleição desse ano, pelo fato de as pessoas terem mais acesso à informação. E isso faz com que os jovens todos que estão integrados fiquem muito parecidos – mesmo os de classes sociais diferentes acabam tendo acesso ao mesmo tipo de informação – e conversem as mesmas coisas”.

Cabe aos políticos, se quiserem acertar, assumir o quão fortes essas redes podem ser. “Eles ainda não entenderam como usar esse instrumento. Hoje, os candidatos têm menos fãs no Facebook do que o Guaraná Antártica. Acho que eles precisam ser mais genuínos, confiar, conversar mais”, opinou.

Confiança é palavra-chave quando se trata de mídia social. “As pessoas confiam no amigo do facebook, há grande possibilidade de credibilidade aí. Por outro lado, há o risco da guerra suja na internet. A difusão de informações erradas, fora de contexto, mentiras, boatos, sensacionalismo, coisas que tornam-se virais. Isso vai ser um grande problema nessa campanha”.

E é no cuidado urgente sobre a origem da informação, que entra o jornalismo. “País nenhum ganha deslegitimando a imprensa. É muito importante saber quem produz e como produz a informação”, sentenciou Alexandre.

Quem forma opiniäo

O antropólogo Cláudio Gama, diretor do Instituto Mapear  / Foto: Paula Giolito

O antropólogo Cláudio Gama, diretor do Instituto Mapear / Foto: Paula Giolito

Com a deixa dada por Alexandre Rodrigues, o antropólogo Cláudio Gama, diretor do Instituto Mapear e com vasta experiência em pesquisas qualitativas e quantitativas, realçou que há uma mudança em curso. Desde que a internet virou espaço fértil para a proliferação veloz de informações, e trouxe mais transparência ao processo eleitoral, falar de eleição, para frente, nunca foi tarefa tão difícil.

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A comparação é inevitável: “Antes, você tinha uma formação de redes por telefonema. As pessoas que queriam se manifestar começavam ligando para um, depois para dois, depois para outros dois e dali se chegava a uma manifestação em determinado local sobre determinado tema ou a uma discussão sobre aquilo. Agora, é claro que a gente tem um instrumento muito mais rápido, muito mais eficaz”, avaliou ele, ponderado, e sem arriscar taxar uma opinião sobre para onde caminha o processo eleitoral.

O que se tem são tendências, Cláudio Gama pontuou, reconhecendo, no entanto, que há uma transformação drástica em curso. As classes mais altas, demonstram as pesquisas qualitativas, se distanciaram da política. A ‘classe mais baixa’, ou ‘classe não-rica’, por sua vez,  já não se comporta politicamente como antes. “A política passa a interessar, na medida em que afeta o cotidiano dessas pessoas. Esse é um movimento que muito tem a ver com o Lula, pela identificação que gerou o ‘um de nós’ no poder”, afirmou.

O perfil do formador de opinião agora é outro. “Antes, formador de opinião era morador da Zona Sul de classe mais alta. Isso mudou. Na música, na moda, na política. E as redes sociais têm um papel nesse processo”, disse.

O que parece bom, como a participação mais efetiva de quem está mais embaixo na pirâmide social, gera, no entanto, alguns impasses. “Eu tenho certo receio do que a gente pode chamar de uma ‘zonasulização’ do voto”. Trocando em miúdos, significa que o morador da Zona Sul, que se autodeclara politizado e critica o voto de cabresto, também não sabe como vota.

“Pelo que percebo, as discussões nas classes médias da Zona Sul são vazias. Não se busca informação sobre o que é feito ou não. É a crítica pela crítica.”​​​

As pesquisas qualitativas demonstram ainda, independentemente dos resultados de eleições, que o eleitor tem considerado muito mais amiúde o voto nulo. “Ele pode não votar nulo, pode escolher um candidato, mas tem pensado mais sobre essa opção. Tem uma insatisfação, um cansaço desse modelo. Então, vai voltar a Zona Sul a ser formadora de opinião, pelo distanciamento? O que me preocupa é o final a que movimentos levarão. A uma despolitização? A um afastamento da política, ou apenas um afastamento desse modelo de política?”, o antropólogo deixou a questão em aberto.

Juventude em encruzilhada

José Eisenberg: "O Rio odeia partidos" / Foto: Paula Giolito

José Eisenberg: “O Rio odeia partidos” / Foto: Paula Giolito

Crise de mobilidade social, explosão demográfica da juventude e uma cidade que se vê como expressão e representação do país. O cientista social José Eisenberg partiu dessas três premissas para engrenar uma explicação e arriscar respostas para cada uma das perguntas sugeridas pelo Rio de Encontros.

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As manifestações de junho de 2013, cuja demografia era marcadamente jovem e universitária, foram o estopim que garantiria o merecido protagonismo dessa faixa etária também na pesquisa sociológica no Brasil. “Nós começamos a pensar: será que tínhamos ali um indicador de alguma coisa que estava apontando para um certo tipo de interesse que as juventudes presentes nas redes sociais brasileiras já manifestavam por um tema que era divergente, no sentido de distante, não próximo, mas cuja semântica aludia a afetos, símbolos, desejos e anseios, que eram convergentes?”, Eisenberg dividiu o questionamento com a plateia.

A observação apontou para a encruzilhada em que se encontram esses jovens. “Por sugestão e financiamento dos pais e do Estado, eles adiaram o ingresso no mercado de trabalho para estudar mais. Hoje, entretanto, esse diploma não parece capaz de assegurar salário digno. O prêmio salarial vem caindo com o aumento da escolaridade. Particularmente com diploma de ensino superior, que cada vez mais é uma estratégia de ganhos decrescentes para o diálogo entre a geração que estuda e aquela que financia os estudos. De um lado, uma expectativa frustrada de oferecer aos filhos vida melhor do que a própria e, de outro, uma expectativa crescente de que quatro anos fora do mercado de trabalho pudessem se traduzir em maior empregabilidade.”

As promessas foram muitas e os investimentos, altos. “Construiu-se uma nova base demográfica do que é o jovem universitário hoje no Brasil. Em que classe colocamos essas pessoas que estão vivendo essa mobilidade, essa crise de mobilidade o tempo inteiro?”, prosseguiu.

Somado a esses dois pontos está um Rio que transborda recalque. “O Rio é uma cidade recalcada. E isso ocorre porque, como cidade, ela vive a síndrome da capital abandonada, não se compreende como região. O Rio de Janeiro não se compreende como endógeno de um lugar com tradições regionais, fragmentadas, parte da nação. O Rio de Janeiro se entende como expressão da nação. O político carioca, quando fala da política do Rio, não fala como se falasse da política de sua cidade. Ele fala como se falasse de algo que, na pior das hipóteses, é uma representação suficiente da nação”, disse ele, sem meias palavras.

Para fechar a primeira fala, José Eisenberg reservou respostas diretas sobre os temas que pontuaram o Rio de Encontros:

Como a mobilização da juventude vai impactar nas urnas?

A resposta, óbvio, eu não sei. Agora, nós não estamos aqui pra brincar de não sei, estamos aqui pra jogar pôquer. Nem que seja pra perder. Eu acho que não vai ter impacto nenhum. Vai ter vinte mil militares na rua, em junho, no Rio de Janeiro. As greves, os movimentos sociais aos quais nós estamos assistindo agora são todos clássicos sindicais, associados a pleitos, reivindicações que estão ligadas a movimentos de conflitos entre duas centrais sindicais e aos movimentos específicos de pleitos daqueles setores estratégicos capazes de chantagear o governo num momento como esse. Aquelas características etnograficamente visíveis das manifestações ano passado, a diluição de pauta, coisas que as pessoas tratavam como negativas, mas que eram suas próprias virtudes dentro da medida, estão ausentes hoje daquilo que nós encontramos como mobilização de rua. Quem está lá são os rodoviários, os professores, são os servidores da cultura. É gente com pauta sindical.

Mobilização ou mobilidade?

Há uma relação curiosa entre a ideia de mobilização e mobilidade. E quando eu falo de crise de mobilidade social, é quase inconcebível pensar que a ideia de mobilidade, da possibilidade de se mexer ao longo da escala da riqueza, não tem algum vínculo à ideia daquilo que nós chamamos de mobilização. É engraçado. Mobilização é quando as pessoas param em algum lugar – elas se tornam imóveis. É imobilização, né? Mas não, nós chamamos de mobilização porque as pessoas se dispõem a sair de um lugar para ir a outro. Elas se mobilizam, elas se movem para aquele lugar. Na medida em que haja, e sejamos obrigados a reter, pelo menos no plano simbólico, essa relação semântica entre a ideia de mobilização e mobilidade, nós estamos jogando pôquer com essa brincadeira. Porque a qualquer momento sai uma faísca, matam alguém no Pavão Pavãozinho que é de um programa televisivo da Regina Casé e tudo muda. É um mundo que vive um pouco essa expectativa do imprevisto, do imprevisível. Mas sobre isso não se fala, apenas se teme, sobre isso apenas se especula.

Quanto vale o voto?

Nós não podemos esquecer que o voto é barato. A gente tende a achar que todo mundo coloca um enorme investimento na decisão do voto – o voto racional, o voto afetivo, o voto carismático – mas é sempre a ideia do voto investido, de intenção, de adesão. Hoje, na sociedade capitalista contemporânea, aqui e alhures, o voto é uma coisa que, independentemente da sua geração, gera pouca adesão. Eu acho que essa nova geração, inclusive, que vive essa crise de mobilidade, tem para si o voto mais barato ainda e, portanto, vai decidir em quem vai votar duas horas antes de chegar à urna. E tanto faz, tanto fez. Que diferença vai fazer?

As nossas eleições só têm altos índices porque o voto é obrigatório. Agora, achar que o voto é esse momento de investimento quase que religioso com uma convicção é perder a dimensão rebaixada que esse ato tem no contexto da sociedade de massa.

Rio de perguntas, primeira parte

Alexandre Rodrigues, José Eisenberg e Cláudio Gama / Foto: Paula Giolito

Alexandre Rodrigues, José Eisenberg e Cláudio Gama / Foto: Paula Giolito

Rio de Encontros – Qual será a influência das redes sociais no processo eleitoral?

José Eisenberg – Eu brinco com isso da rede social desde que a gente brincava de ICQ (I seek you), em 2000. E confesso que o desenvolvimento das coisas foi muito mais rápido que eu esperava. Agora, qual é a diferença entre uma rede social de amigos e a rede social do Facebook? Eu sei que tem diferenças. Tem diferenças quantitativas – devo ter dezenas de amigos de relações face a face, que eu posso contar – e tenho certamente milhares de amigos no Facebook. As diferenças são qualitativas, eu tenho relações mais verticais, mais profundas, com tratamentos mais longos, sobre temas mais reflexivos, muitas vezes mais íntimos, nas minhas relações interpessoais face a face. E no Facebook, por exemplo, as relações são mais horizontais, mais superficiais.

Anabela Paiva – As redes sociais não vão ter impacto (nas eleições)? Mas o processo de difusão é tão dinâmico que a informação chega às pessoas mesmo que elas não queiram. O grave é que a informação que circula é forte e não é comprometida com fatos, tem potencial incendiário.

José Eisenberg – Pegando aqui alguns ganchos do Alexandre Rodrigues, entre o tipo de opinião, formação de opinião, detrollagem e coisas do tipo, ao qual o Facebook se presta como ambiente de convivência social, e o tipo de construção do escândalo, do furo jornalístico, vazamento e coisas afins, ao qual o Twitter tende a se prestar mais? E o flagrante fotográfico, como é que vai operar num contexto como o Instagram? A paródia do YouTube – que tipo de humor o Porta dos Fundos vai fazer com as eleições? Aparecerão veículos dedicados a isso, a fazer o jornalismo de eleição na internet? Não sei. Nós estamos aprendendo muito ainda sobre essa brincadeira. Eu acho que as pessoas que estão utilizando aquilo que nós chamamos de redes sociais, que eu prefiro pensar simplesmente que são plataformas de interação social eletrônica, muito poucas delas estão interessadas em realmente utilizar a plataforma para fazer e discutir política.

Eu quero ver qualquer político atingir os dois milhões de amigos ou curtidas que a galinha pintadinha tem no Facebook. Não vai. No entanto, quando o criador da galinha pintadinha coloca lá “bom dia, mamães”, em dois minutos mais de duzentos curtiram. Um bom dia! Não tem nem um desenho novo, nada. O lugar do frugal é bem mais predominante no contexto dessas relações que se estabelecem no nosso mundo eletrônico que as reflexivas. Ou seja, eleição e rede social é casamento infeliz. O noivo é velho, cheio de hábito e cacoete e a noiva é nova, está experimentando, charmosa. Não vai rolar. Essa é minha aposta.

Igor Souza – Como dar credibilidade à imprensa?

Alexandre Rodrigues – Existe hoje um senso comum de que a imprensa é um grande mal. Mas a imprensa é um pilar da democracia, não pode ser desmoralizada.

Claudius Ceccon – A vocação nacional do Rio não deve ser vista como um defeito. Na eleição municipal, se discute o país. A questão é que nós necessitamos de reforma política real. Os partidos não valem em lugar nenhum. Nossa tragédia é que no Brasil os partidos não têm uma proposta.

José Eisenberg – O Rio odeia partidos. O Rio gosta de linhagem, é aristocrático, como a velha capital da República. O Rio tem lideranças, mas o perfil dessas lideranças está mudando. As duas sensações políticas são o Jean Wyllys e o Marcelo Freixo. As antigas estão se desdobrando, com sucesso. A renovação entre as lideranças tradicionais está acontecendo. A mobilidade social em crise já tem representante. Carioca não tem partido, a ele interessam legados. O PT do Rio não tem cara. O Rio e uma cidade ressentida.

Rio de perguntas, segunda parte

O arquiteto Claudius Ceccon, conselheiro d'O Instituto / Foto: Paula Giolito

O arquiteto Claudius Ceccon, conselheiro d’O Instituto / Foto: Paula Giolito

Willian Oliveira – O que vocês acham da ditadura das milícias nas favelas? Que tipo de garantia e segurança as eleitores terão para exercer essa democracia, considerando as milícias?

José Eisenberg – As comunidades que tiveram algum nível de institucionalização foram as que apresentaram maior resistência às milícias, que foram se instalar na Zona Oeste porque não ali não há nenhum amparo.

Alexandre – As milicias surgiram como fenômeno organizado para se apropriar da política. A cada eleição, vai ficando mais fácil aplicar a Lei da Ficha Limpa.

Igor Souza – Há manipulação das pesquisas de intenção de voto?

Cláudio Gama – Entre os grandes institutos, é muito difícil haver manipulação. É preciso considerar que os cenários eleitorais mudam muito. Os institutos se tornaram conhecidos pela pesquisas eleitorais e são testados eleição após eleição.

José Eisenberg – Não existe pesquisa cretina. Pesquisa de opinião erra porque os pesquisadores são ruins e porque o que eu declaro e o que eu voto são coisas diferentes, por um ​conjunto de variáveis.

Hugo Rodrigues – O cara que estava na manifestação estava lá porque a galera dele estava indo. O que espero é que por mais que isso tenha sido moda, respingue em outubro. Tenho 26 anos e nunca tive uma aula de política na escola, não deveria ter essa preocupação na escola?

Alexandre Rodrigues – O interesse pela política passa pela escola, sim, mas não numa aula sobre o que é política e sim no fato de estudar. Quem estuda começa a pensar, né? E começa a pensar sobre o que está acontecendo à sua volta, até que ponto a gente é que paga o que o governo gasta. A educação, naturalmente, faz as pessoas mais abertas, mais alertas à questão da política. Nesse sentido, acho que também entre os jovens que têm feito manifestações está faltando essa pauta. Eu vejo “ah, quero escola padrão FIFA” e tal, e só. A gente vê que em outros países o movimento é muito em busca de educação. No Chile, por exemplo, a pauta dos estudantes é essa. Acho que aqui no Brasil os jovens não estão muito ligados nisso.

José Eisenberg – Quero a Educação Moral e Cívica e OSPB (Organização Social e Política do Brasil), que ensinavam valores e virtudes de uma vida cívica e um sistema político republicano​, de volta. ​Mas sem o caráter autoritário da época da ditadura, claro. ​Sem isso, a educação não funciona.

Anabela Paiva – Como ter sentido de partido se os próprios partidos não têm?

José Eisenberg – Crise de representação e legitimidade é um problema do mundo inteiro, não é só nosso. O tema da participação é antiquado. Temos de conceber um sistema que permita que as pessoas que querem votar, votem; e as que querem ir para casa se sintam representadas mesmo assim. Experimentar é algo que a classe politica tem muito receio de fazer.

Alexandre Rodrigues – É preciso criar algum canal maior de contato com as pessoas, com mais interatividade e transparência. Hoje, o governo gasta como quer muitos recursos e não explica. Transparência é uma tendência mundial das democracias, é inevitável. O novo modelo de representatividade tem de passar pela transparência durante o mandato. Se as coisas não estão funcionando, o cara que está no poder tem de mudar ali. Os governos tem que aprender a fazer isso.

Silvia Ramos – Quem vai ganhar a eleição?

Alexandre – Eu acho que as pessoas decidem de acordo com um pragmatismo muito grande. Na eleição estadual, que é mais perto da vida delas, pensam se vai ter obra perto da casa delas. Tem muitos interesses individuais envolvidos. E quando há um partido que tem uma máquina administrativa forte, como é o caso do PMDB do Rio hoje, isso pode fazer muita diferença. O Lindbergh Farias fala com os jovens, tem um passado mais próximo do momento de reivindicação que está acontecendo hoje. O Garotinho está à frente nas pesquisas porque as pessoas não estão pensando em eleição ainda, então ele tem ali um terço do eleitorado que gosta e vai votar nele. Mas acho que a rejeição dele é muito alta. Por fim, na eleição presidencial, por um lado há a lógica de que é muito difícil tirar uma pessoa do poder. Mas, por outro lado, a Dilma tem problemas graves na gestão dela . Existe um mal estar muito grande hoje na sociedade, as pessoas sabem que a vida melhorou no governo do PT porque elas têm mais emprego e tudo, mas falta mobilidade, falta essa cidade para todo mundo. Existe um mal-estar para fora de casa. Acho que as pessoas vão colocar isso em dúvida. Não sei se vai ser o suficiente pra ela perder a eleição, mas acho que vai ser bem difícil pra ela se reeleger.

Cláudio Gama – O que pesa nas pesquisas é a popularidade. O Pezão ainda tem contra ele o desconhecimento do nome, enquanto o Garotinho é mais conhecido. Voto no Garotinho ainda é voto no patrimônio do nome. Na eleição estadual, temos o Lindbergh com carisma incrível e Pezão com falta de carisma. Meu chute é Pezão, no cenário com muitos candidatos. O que deve se reproduzir no âmbito federal: Dilma leva, também, em cenário com muitos candidatos.

José Eisenberg – Não desprezem o Garotinho, que acaba de recolocar-se como como politico que conversa com o movimento sindical. Os sindicatos que ele controla têm o aparato que o tornam diferente daquele candidato de 1990. Essa eleição é fluminense. O velho modelo Chaguista que o Pezão quer usar vai sair pela culatra.