A comunidade é nossa

Marcus Vinícius Faustini, coordenador do projeto Agência de Redes para a Juventude - Rio de Encontros, novembro de 2011

Uma edição extra para um projeto que propõe ações concretas. O Rio de Encontros abriu as portas e formou plateia para que os jovens da Agência de Redes para a Juventude apresentassem planos e propostas para seis comunidades com UPP no Rio de Janeiro. Foram 900 inscritos no início do ano, 300 escolhidos. Depois de muitas provas, seis foram selecionados. Cada um vai receber R$ 10 mil. É o começo.

O coordenador da meninada, Marcus Vinícius Faustini, falou das motivações, discorreu sobre a metodologia, e chamou, um a um, os grupos que se formaram desde abril de 2011. Providência, Borel, Cantagalo-Pavão-Pavãozinho, Cidade de Deus, Batan e Babilônia/Chapéu Mangueira, pelo visto, ainda vão ouvir muito falar dessa turma. Que ninguém duvide.

Nos últimos 20 anos, Faustini se dedicou a pensar a cultura no Rio de Janeiro, sobre o que é viver e existir na cidade e em como ela pode ser mais democrática, um lugar de encontro e não de medo. A conclusão foi de que o discurso é insuficiente. É preciso criar ações concretas para que os espaços de encontro existam. “A Agência é uma síntese, uma experiência de tentar, a partir da estética, criar um espaço-tempo que gere oportunidades para o jovem, um forma de garantir que ele tenha sua expressividade reconhecida na cidade”, disse o coordenador, logo na abertura do Rio de Encontros.

A Agência segue o princípio da radicalização da democracia como possibilidade de qualquer um poder fazer a diferença. “A arte tem uma enorme contribuição nesse processo. Esse é um projeto de arte. É sobretudo um projeto de experimentação estética. Favela não é só tiroteio”, ressaltou Faustini. Cheio de entusiasmo.

Gente de favela tem cara?

O objetivo da Agência de Redes para a Juventude é estimular a criatividade, a responsabilidade e a ação a partir de uma ideia própria. Para isso, os jovens passam por um ciclo de estímulos, discutem ideias e projetos, enfrentam várias bancas, aprendem a negociar e a defender o que pensam.

Edição extra do Rio de Encontros sobre os projetos da Agência Redes para a Juventude, os projetos selecionados

Os meninos e meninas que se apresentaram na Casa do Saber se entregaram à viagem da Agência e chegaram ao meio do caminho. “Por que dar R$ 10 mil nas mãos desses meninos? Tem quem não acredite mas tem quem aposte. É uma ruptura. Nossa ruptura é apostar no jovem como protagonista, um parceiro e não um aluno. Tem projeto de vanguarda. Tem projeto que identifica uma série de potências da comunidade. Estamos inventando uma nova geração, uma geração de jovens realizadores. O território permite a experimentação.
Uma cidade democrática é uma cidade que permite o fluxo de sujeitos e não apenas de capital. Se a gente não privilegiar o carioca, se não fizer um corte, não radicaliza”, ressaltou Faustini.

Em 2012, a Agência continua nos territórios e os planos são garantir mais profundidade. Os projetos que estão ganhando agora R$ 10 mil reais vão concorrer a R$ 30 mil para ganhar escala. “Nós vamos para Santa Teresa, que tem 17 comunidades e aparece como bairro de artista. Nosso novo modelo é juntar jovens da cidade inteira para pensar ideias para a cidade física. E o começo será por Santa Teresa. A arte tem de ser pensada como elemento transformador do território, uma estratégia de interferir na vida e não representá-la apenas”, anunciou Faustini.

Ideias em ação, os projetos que ganharam palmas

Jovens que participam da Agência Redes para a Juventude apresentam seus projetos no Rio de Encontros

Oi Galera Oficina de Arte – oficina de músicas e instrumentos de percussão
“Esse projeto pretende usar a música em oficinas de corda e percussão. O projeto vai ter uma bicicleta para o comércio, uma para casas religiosas e um triciclo. A ideia é trazer arte e entretenimento a partir de instrumentos de corda e de percussão”.
Cléber Gomes, que montou a sede na garagem de casa, no Batã.

CDD na Tela
“É um site com pequenos vídeos sobre a Cidade de Deus. São programas coltados para os jovens. Nosso objetivo é incentivar as novas produções audiovisuais. Teremos três programas: CDD Informa, CDD Esportes, e CDD e Você. Vamos na casa de algumas pessoas que se destacam de alguma forma na comunidade, fazer um debate com todos os jovens – num bar, porque na CDD tem muito bar. CDD na tela, mostrando pra você nossa favela. Nosso projeto é autossustentável, vamos divulgar entre os comerciantes, já temos uma loja e cinco lan houses.”
Lucas, Matheus, Romulo Larissa e Hugo

Conexão Cultural
“Vimos a necessidade de ter um teto para os artistas na própria Cidade de Deus. Pensamos em um lugar onde todos os artistas possam se encontrar e mostrar seus trabalhos. Vamos fazer junções de muitos artistas que nem se conhecem. Pegamos as ideias dos quatro, juntamos e pensamos no conexão cultural.”
Ricardo Fernandes, Guilherme Gonzales, Luisa Nascimento e Carolina Meireles

Providenciando Vidas
“É um projeto para gestantes de 12 a 25 anos. Uma equipe multidisciplinar criada para dar atenção especial às meninas. Muitas vão estar no meio da adolescência e elas vão encarar a maternidade nesse nosso grupo de apoio. Tem psicólogo, psicanalista, tem até uma cineasta. No final, a gente vai ter um enxoval para elas. Além do enxoval, estamos fazendo uma barriga de gesso de cada uma para fazer uma exposição. Nós georeferenciamos todas as grávidas da Providência. Além de receber os conteúdos e as conversas, elas terão um ambiente criativo, que trabalha com a dimensão da autoestima.”
Raquel e Ana Cristina

Recicriando
“Nós criamos um projeto para reduzir o lixo no Borel através de oficinas para pessoas a partir de 10 anos sem limite de idade. Já são 20 inscritos. Serão criados instrumentos musicais a partir do lixo; faremos uma horta, e teremos o dia da alface, vamos levar o pessoal das oficinas para recolher o lixo nas casas. Quem dá o lixo ganha uma alface. E no final, faremos uma feira com todos os produtos produzidos nas oficinas.”
Caio, Gabriel, Aiara e Patrick são jovens que viram o lixo como um problema muito sério no Borel

Nós com todos
“Nosso projeto visa estimular o desenvolvimento artístico dos jovens. Queremos unir o Borel e a casa Branca, eles têm de deixar de brigar. É isso. As oficinas serão sábado e domingo. Vai vir aluno do Borel também.”
Juliana Wallace

Mané Produções
“Além de identificar a falta de programação para datas comemorativas, identificamos também a falta de espaço para a juventude. Vamos contar a história da comunidade para a comunidade e para os novos moradores que não sabem nada da história. Além de homenagear e comemorar, a gente quer contar a história da comunidade. Dia das mães, dia dos pais, natal e dia das crianças já estão no calendário.”
Eduardo, do Chapéu Magueira – Babilônia, que identificou que não havia uma produtora que se beneficiasse com os eventos que todos querem levar para as favelas

Coletivo Fitando Arte
“Começa assim a apresentação… Alguém aqui tem uma sacola plástica, tem? Isso aqui é a sacola na mão dele… Essa sacola pode ir para qualquer lugar. Na mão de vocês, a sacola está assim. Dando a sacola na nossa mão, vira produto de decoração e moda. A nossa ideia não é abrir uma loja na rua, mas na comunidade, para que as pessoas possam subir e encontrar esses produtos. Mulheres de lá vão gerar renda. Vamos rodar a comunidade inteira, que já foi mapeada, e mostrar o que as sacolas provocam nas mãos de cada um e o que elas podem virar, nas nossas mãos.”
Carlos, Vanessa e Renata

Boca de Lixeira
“Vamos formar 30 jovens em educação ambiental, que serão multiplicadores. Serão realizados três mutirões para que os jovens apliquem o que aprenderam. No mutirão, vamos sortear eletrodomésticos para os moradores e para os jovens. Vamos dar blusa, lanche, acesso a cultura.
Joyce, do Cantagalo
“Eu só consigo falar com o coração. Se a realidade do lixo não mudar no mundo, não sei onde vamos parar. Se eu falar com o coração, tenho uma linguagem mais detalhada. Espero que todos se conscientizem em relação ao lixo.”
Leandro

H2BK
“O objetivo é a formação de um grupo de pessoas do Cantagalo para que possam seguir a vida profissional. Eu danço, e antes de dançar o hip hop eu dançava funk. Eu quero que a minha comunidade viva a experiência de saber tudo que a cultura hip hop engloba. Em oficinas, eles vão ter acesso ao contexto histórico do hip hop. A primeira fase serão intervenções nos locais mais frequentados pelos jovens da comunidade. A segunda etapa serão os workshops, que vão ser feitos durante um mês, com 80 pessoas, que passarão por uma banca formada por professores que vão selecionar e julgar as pessoas que vão fazer parte do grupo. Após a seleção e o aprimoramento, eles serão preparados para a prova do sindicato de dança. O objetivo maior é profissionalizar as pessoas.”
Ronaldo, do Cantagalo

Perguntas e respostas sobre os jovens em rede

Rio de Encontros, perguntas sobre os projetos da Agência de Redes para a Juventude, novembro de 2011

Depois da apresentação dos jovens, a plateia ganhou a vez de participar. Além de comentários e estímulos tanto aos jovens quanto ao próprio trabalho desenvolvido pela Agência de Redes para a Juventude, houve muitas perguntas. Abaixo, um resumo do debate final do Rio de Encontros especial.

Como funciona a sustentabilidade financeira? Acabou o dinheiro o projeto acaba?

Há uma monetarização excessiva da produção cultural. O produto é um dos elementos do projeto. O que a gente quer é propor uma economia viva, uma economia de saberes. Nós podemos exportar tecnologia social. O projeto não precisa existir apenas enquanto não gastou os 10 mil.

Existe alguma atividade específica ou proposta para estimular a rede entre os projetos? Vai ter continuidade?

A gente não queria que eles pensassem sob a lógica da qualidade que cada um tinha. Cada um compõe um elemento da rede. O realizador, o questionador, o feliz. A gente trabalha muito com a ideia de arte contemporânea no material pedagógico. A favela como lugar do contemporâneo. A ideia de rede existe. Rede é ação. Não é um bando de pontinhos interligados. São colchas que vão se sobrepondo, pontos que se ligam. A ideia de rede é sobretudo gráfica, imagética, é ação que gera um fluxo sempre.

O desafio, este ano, foi estabelecer a metodologia e reposicionar o ator social para esses jovens. São várias teias, a metodologia, a convivência, enfim. Faz parte da metodologia aprofundar os projetos de 2011, abrir novos círculos de estímulo e disputar o território de Santa Teresa e misturar jovens de camadas sociais diferentes. A gente vai testar misturar os jovens de Zona Sul com jovem de favela.

Vocês pretendem radicalizar a democracia. Mas isso é suficiente? Que futuro a gente espera para esses jovens com um projeto como esse? Se estamos numa sociedade capitalista que existe e está aí. Parece que a gente quer construir uma nova sociedade. Qual é o objetivo? Se se radicaliza a democracia e os valores continuam estruturados da mesma forma?

Minha preocupação não é o futuro é o presente. Pude passar por algumas duras porque era branco. Somos atores sociais que transformam realidades. É bacana a cidade ter gente dessa origem fazendo esse tipo de coisa. Vai ser bom pra todo mundo. o presente é uma oportiunidade, é uma cidade em disputa. Meu problema não é o futuro. A cidade é a cidade do medo. A gente pode inventar lugar. Acho que o problema é do presente, que não está resolvido. O que a gente identificou é que existem outras formas de nos relacionarmos com os jovens.

Esses jovens estão rompendo com uma situação imposta a toda a comunidade. Eles tiveram a coragem de propor uma ruptura. A pergunta é se conversaram com o pessoal que mora na casa branca, isso é um anseio particular? Como funciona?

A gente tem redes, sim entre as comunidades. O Leme vai invadir a Providência e, dessa vez, não vai ser por facção, vai ser para fazer oficina, disse a Vanessa, do Chapéu Mangueira . Já rolou churrasco, já rolou praia e até apalpinho entre algumas pessoas do Borel e da Casa Branca. Nós queremos mostrar que nós podemos nos dar bem.

Políticas públicas para a educação na cidade do Rio de Janeiro

Uma conversa informal e dados concretos. No Rio de Encontros de novembro,  Cláudia Costin, secretária de educação do município do Rio de Janeiro, Eliana Sousa e Silva, diretora da organização Redes de Desenvolvimento da Maré e coordenadora do Curso de Especialização em Segurança Pública, Cultura e Cidadania da UFRJ,  e Aristeo Leite Filho, professor  do curso de especialização em Educação Infantil  da PUC/Rio e diretor da Escola Oga Mitá, mediados por Claudius Ceccon, diretor do CECIP e Conselheiro d’O Instituto,  moveram uma plateia atenta e disposta a fazer muitas perguntas. Em discussão, as políticas públicas para a educação no município do Rio de Janeiro.

Cláudia Costin mostra números e resultados de sua gestão. Foto: Ingrid Cristina Pereira/Observatório das Favelas

“Sorriso de criança não quer dizer necessariamente que a educação foi boa. Da mesma maneira que se precisa saber qual é o índice de mortalidade por dengue hemorrágica, precisamos também medir para saber como está a educação.” Cláudia Costin

“Um projeto pode ser bonito, pode ser uma fala exemplar, mas esse pojeto precisa se trasformar numa política.”
Eliana Sousa e Silva

“É preciso pensar a cidade considerando que aqui existe uma multiplicidade de pessoas, de faixas etárias e culturas. A escola não vai mudar essa realidade. Medir nem sempre é tarefa de educador.”
Aristeo Leite Filho

“No Império, a creche era um direito da mulher trabalhadora e honesta. Puta e mãe solteira estavam fora. Hoje, é direito social da mãe e da criança. Mas nós não temos creches no Rio de Janeiro.”
Aristeo Leite Filho

Para onde caminha a educação no município do Rio de Janeiro? Plateia no Rio de Encontros de novembro. Foto: Ingrid Cristina Guimarães/Observatório das Favelas

“A creche comunitária se tornou uma política e único meio de garantir acesso das crianças à educação infantil. Mas é um espaço que não pode ser permanente. O estado tem de assumir essa responsabilidade.”
Eliana Sousa e Silva

“Desculpem os pessimistas. Acho o espaço da crítica essencial, mas o meu olhar será sempre para frente. É muito fácil resolver a situação de uma escola ou fazer projeto piloto. A questão é como é que se resolve a gestão de uma rede.”
Cláudia Costin

Da intenção à prática

No que a experiência da organização Redes de Desenvolvimento da Maré pode contribuir? A pergunta foi da própria Eliana Sousa e Silva, diante da plateia no Rio de Encontros sobre políticas públicas para a educação no município do Rio de Janeiro.

Eliana Sousa e Silva, no Rio de Encontros sobre Políticas Públicas para a Educação no Município do Rio de Janeiro. Foto: Ingrid Cristina Pereira/Observatório das Favelas

O caso da Maré é muito específico, esclareceu ela logo de início. “A educação é um direito básico e, para que ele aconteça plenamente, sempre tivemos de fazer uma mobilização. Na Maré, o trabalho que a gente faz, diferente do governo, é justamente mobilizar para conquistar esse direito. A gente sabe que há uma distância muito grande entre a intenção e uma política maior”, ressaltou Eliana, após ouvir a secretária de educação do município Cláudia Costin.

O caso não é apenas específico como traduz uma mobilização histórica dos moradores da região. Até a década de 1980, a Maré tinha seis favelas. O número pulou para 16, na década seguinte. Uma população, em 2000, de 132 mil pessoas. O que fazer com tanta gente? Alguém precisava responder com ação. As primeiras lutas, das quais Eliana não somente participou como guardou bem, foram pelo acesso à escola. O salto foi de quatro para as atuais 16 escolas que existem no complexo da Maré.

“A ideia que sempre tivemos é que todas as crianças têm de ter acesso à escola. Qualquer trabalho da sociedade civil tem de ter a perspectiva de que o estado tem o dever de garantir educação para todos. O nosso trabalho tem de exercer um controle, mas mais do que se contrapor ao estado, a gente tem de trabalhar para que as políticas aconteçam. A sociedade como um todo tem um papel central nesse processo”, ponderou Eliana.

Que escola é essa?

Vinte minutos, avisou o mediador Claudius Ceccon. Só vinte? Aristeo Leite Filho não esticou o tempo mas adiantou a fala para dar conta do queria dizer sobre sua área de atuação, a educação infantil, no Rio de Encontros sobre políticas públicas para a educação no Rio de Janeiro. Professor da PUC e da UERJ e diretor da escola Oga Mitá, Aristeo foi um dos primeiros homens a trabalhar em berçário.

O especialista em educação infantil Aristeo Leite Filho, no Rio de Encontros sobre educação. Foto: Ingrid Cristina Pereira/Observatório das Favelas

Para saber se a educação vai bem ou vai mal, na opinião de Aristeo, é preciso ir até o final do post. Mas, para começar a conversa, ele avisou que muita coisa mudou. A lei é uma delas.

“Poucas sociedades no mundo têm um estatuto como o ECA, que assegure de forma tão veemente os direitos e a proteção das crianças.”

Mas se política educasse, a situação seria outra, provocou Aristeo, que nem esperou que perguntassem sobre o que o município do Rio de Janeiro precisa para transformar a educação.

“Meu viés é a pedagogia do maior educador, Paulo Freire. A primeira pedagogia que se precisa para pensar na cidade do Rio de Janeiro, é a pedagogia do oprimido. Depois, a pedagogia da autonomia. Em seguida, a da liberdade e, por fim, a pedagogia da esperança.”

Trocando em miúdos? “A relação adulto-criança é uma relação de opressão. E a cidade não é uma cidade para criança, ou seja, não se faz a cidade pensando nas crianças, muito embora hoje se discuta a relação das crianças com o consumo”, explicou.

É preciso, portanto, pensar nas relações adulto-criança e cidade-criança, defendeu ele, que lembrou dois momentos como emblemáticos das mudanças no modo de se tratar – e reconhecer – a criança: o ano de 1979, declarado pela Unesco como o Ano Internacional da Criança, e a Declaração Universal dos Direitos das Criança, em 1989.

“O que se começou, do final do século XX para cá, foi a aceitar a ideia de que criança é gente. Mas a educação infantil tem sido, historicamente, um desastre. A creche, por exemplo, tem sido pensada para resolver um problema que não é dela.”

O que está acontecendo no Brasil e na cidade do Rio de Janeiro, segundo Aristeo, é que se está cuidando do cérebro das crianças, em vez de se pensar a cidade considerando a multiplicidade de pessoas, de faixas etárias e culturas.

Nos anos 70, nos estágios em escolas públicas, Aristeo viu a ênfase dada ao fracasso em vez do sucesso escolar. “A correlação entre pobreza e fracasso escolar é alta. Mas pais alfabetizados não significa que os filhos serão bons na escola. Isso não é matemática. Faltam variáveis da vida, da sociedade. Educar crianças pequeas não é ensinar habilidades. Eu diria que é melhor ler para as crianças e deixá-las brincarem.”

O limão vira limonada

Primeiro, um projeto integrado de intervenção para melhorar  a qualidade do ensino oferecido às crianças. Em seguida, criar formas de reduzir as desigualdades no desempenho entre escolas de áreas mais desenvolvidas e outras de escolas conflagradas ou vulneráveis. Estas foram as primeiras estratégias traçadas para a educação no município do Rio de Janeiro, na gestão de Cláudia Costin.

Rio de Encontros sobre políticas públicas para a educação no município do Rio de Janeiro. Foto: Ingrid Cristina Pereira

Se a criança não aprende ou não aprende o quanto deveria, o histórico familiar pode ter lá sua importância no diagnóstico. Segundo Costin, 68% do sucesso escolar de uma criança depende do nível de escolaridade dos seus pais. Fato constatado, foi criado o programa Parceiros da Educação Carioca. “Para que se cobrasse o que os pais não estavam preparados para cobrar”, esclareceu a secretária.

Se dentro de casa as coisas podem ir melhor, na escola o trabalho é longo. A estratégia para o ensino fundamental inclui o currículo municipal único, organizado por bimestres. O sistema foi testado por um ano e tem revisão prevista a cada três anos.

A progressão continuada acabou e criança que repete precisa de reforço escolar. “O segredo da Finlândia é o reforço escolar. Como fazer com a criança que está defasada?”, questionou a própria secretária, que ressaltou a ênfase dada à realfabetização dos analfabetos funcionais.

Foram realfabetizados 21 mil dos 28 mil detectados em 2009. Como? Com um recado direto aos professores: a rede tem de alfabetizar no primeiro ano. “Os próprios professores foram capacitados para assumir a realfabetização. Se é desafiador alfabetizar no primeiro ano, vai se tornando tarefa muito mais árdua, depois. Temos uma avaliação a cada fim de primeiro ano para saber se a criança está saindo alfabetizada. O índice hoje é de 80%. Não é realização, é investimeto em capacitação”, pontuou.

Costin definiu ainda, entre as estratégias, o foco em aprendizagem para ajudar os alunos a desenvolver competências como leitura e interpretação de textos,
raciocínio matemático e mente investigativa. Numa atuação direta com as comunidades, e considerando as particularidades de cada escola, foi criado o projeto Crianças do Amanhã. E para o segundo segmento do ensino fundamental, uma revisita ao antigo ginásio. Menos por nostalgia e mais por necessidade.

“Esse é um gargalo em todo o Brasil. Avançamos do primeiro ao quinto aúncio. Por que está ruim a educação no ensino médio? O desastre começa no sexto ano. Em todas as redes, o desempenho do quinto para o sexto ano sofre uma queda brutal. O menino de sexto ano tem defasagem de série. Boa parte dos problemas de disciplina e violência nas escolas decorre dessa diferença.”

Próximo passos

Persistência e estratégia, estratégia e persistência. A ênfase no reforço escolar permanece e a educação infantil está sendo tratada como fase decisiva na educação. Para ajudar no processo e envolver mais gente, será criada a Cartilha dos pais, com um material para cada fase.

Os planos incluem ainda aulas de Inglês desde o primeiro ano e o Projeto de Vida, a partir do sexto ano. “ A ideia é formar jovens autônomos, capazes de se enxergar como senhores de suas vidas, solidários e competentes. Aumentar os anos de escolaridade, resgatar o valor da escola pública, envolver toda a sociedade na trasformação da educação. Só vamos vencer a guerra na educação quando cada um perceber que é preciso. Queremos crianças que possam construir o seu futuro.”

Sem educação não se elimina pobreza

Se educação não é tema fácil de discutir, obter resultados, menos ainda. Mas, segundo os números que a secretária de educação do município do Rio de Janeiro, Cláudia Costin, apresentou no Rio de Encontros do dia 1 de novembro, as mudanças são evidentes. Dentro e fora das salas de aula.

Cláudia Costin, secretária de educação do município do Rio de Janeiro, no Rio de Encontros de 1 de novembro. Foto: Ingrid Cristina Pereira

Com um currículo que inclui cargos como os de ministra da Administração e Reforma do Estado, secretária-adjunta de Previdência Complementar, secretária da Cultura do Estado de São Paulo e Gerente de Políticas Públicas do Banco Mundial, Cláudia Costin fez questão de explicar as razões que a levaram a aceitar o desafio de gerir uma área tão estratégica e delicada. “Trabalho com políticas públicas voltadas ao combate à pobreza. Lá pelo ano 2000, pensei que não se resolve a pobreza sem educação. É muito fácil resolver a situação de uma escola. Ou fazer  projeto piloto. A questão é como é que se resolve a gestão de uma rede.”

A secretária expôs números de um Brasil que ainda sofre as consequências de uma universalização tardia da educação. Em 1930, apenas 21,5% das crianças brasileiras estavam na escola. Enquanto a Europa e os EUA já tinham universalizado a educação, o Brasil foi o último país do continente a fazer o dever de casa. “Política pública é um construto social histórico”, ela ressaltou.

O preâmbulo serviu para entrar na específica questão do Rio de Janeiro, dono de uma marca de 28 mil analfabetos funcionais. ”Quando assumi, encontrei uma série de fatores favoráveis. O IDEB era bom para níveis do Brasil. O que não estava bom era o aprendizado dos alunos. O IDEB é um índice composto por taxa de aprovação e nota da Prova Brasil. Foi feita uma grande avaliação, em março, e foi aí que chegamos aos 28 mil analfabetos funcionas. Em Alagoas, esse índice é de 60%”, comparou ela.

Depois de passar os meninos por uma revisão, nova prova.  o resultado mostrou que 40% deles tinham dificuldade em matemática e um índice de 5,1% de evasão escolar nas áreas conflagradas. Foi constatado ainda que faltavam vagas em creches e uma proposta clara para a educação infantil.

Por que sim ou por que não

A Educopédia funciona? Qual o espaço da creche comunitária? Conselho Tutelar interfere muito? E o Rio de Encontros, que começou com questões como que caminhos trilhar para transformar o quadro de precariedade da educação e como pensar o papel das instituições, dos profissionais de educação e das organizações da sociedade civil, ganhou contornos não mais particulares, mas também filosóficos. Afinal, qual é a  escola que se que se quer?

Claudius Ceccon, Eliana Sousa e Silva, Aristeo Leite Filho e André Ramos. Foto: Ingrid Cristina Pereira

Mediados por Claudius Ceccon, Aristeo Leite Filho, Eliana Sousa e  Silva e André Ramos, assessor de Cláudia Costin na secretaria de educação do  município do Rio de Janeiro, além de falar, também ouviram o que a plateia  levou para a discussão. E responderam.

A Educopédia funciona? Não haveria outro programa que dê
mais autonomia às crianças?

A gente procura ter ações macro e eficazes que é o envolvimento do professor na aprendizagem. A Educopédia, idealizada por Rafael Parente, especialista em novas tecnologias pedagógicas, propõe uma linguagem diferente. Vem para atender  a uma demanda que é tornar as aulas mais interessantes. Há zonas de sombra na cidade do Rio de Janeiro. A educopédia dá mais tempo para que o professor possa planejar melhor a sua aula. Se uma criança troca de uma escola para outra, mantém a estrutura do ensino. Há uma série de atividades realizadas nas escolas em que a própria criança se torna autora, consumidora e produtora de conteúdos.
André Ramos

Por que apesar de todos os esforços e investimentos no CIEP Presidente João Goulart, em Ipanema, os resultados foram aquém do
esperado?

Ao longo do tempo, algumas questões relacionadas às condições dos
professores está muito quém do que podia acontecer. A escola do Cantagalo é um exemplo de uma escola que tem investimento que não se traduz em melhoria de desempenho dos alunos nem dos professores.
Eliana Sousa e Silva

André Ramos, assessor de Cláudia Costin na secretaria de educação do município do Rio de Janeiro. Foto: Ingrid Cristina Guimarães

A verba da educação não vai para educação. Há avanços consideráveis, mas a realidade é outra. Em março, faltavam 132 professores nas escolas da Maré, com um alto índice de licenças
médicas, falta de plano de carreira. Todas as escolas não deveriam oferecer horário integral?

De fato, faltam professores nas escolas da Maré. Muitos professores entram de licença e tentado superar o argumento de que é difícil contratar professores por causa da violência. Muitas vezes, os projetos existem, mas a viabilidade deles dentro dessas áreas depende de articulações como a que foi feita, certa vez, quando era preciso encontrar professores de inglês que trabalhassem nas escolas da Maré.
Eliana Sousa e Silva

Conseguimos lotar todos os professores. Eles se envolvem e tentam recuperar aquele gap, a defasagem. A grande dificuldade de dar aula num ambiente hostil, em que eles não se sentem seguros e as crianças não se sentem seguras. Em relação ao CIEP, tínhamos algumas ações que não estavam ainda contribuindo para a melhoria. Fizemos uma mudança de direção, trocamos o diretor adjunto e diretor da unidade, estamos fazendo um programa de integração de todos os
parceiros. Alunos, professores e os parceiros que atuam nas escolas. É uma
história que sofre resquícios de violência, embora seja uma unidade pacificada. Acreditamos que as notas vão melhorar.
André Ramos

Muitas vezes, a gente esquece que existe uma cultura na escola. Seja uma prova que o próprio professor faça, seja o IDEB, seja uma prova nacional. As avaliações têm de estar a serviço da melhoria da escola. A escola tem de estar compromissada com a aprendizagem e não com o ensino. A gente fica muito preso a números que o IDEB não mede. Deve ter havido coisas que o IDEB não leu.
Aristeo Leite Filho

Por que querem tratar as creches de comunidades como Rocinha como se fossem Copacabana e Ipanema? Qual o espaço da creche na comunidade?

A creche comunitária é um espaço que não pode ser permanente, o estado tem de assumir essa responsabilidade. Ela foi pensada no sentido de luta e resistência e se tornou uma política e único meio de garantir acesso das
crianças à educação infantil. A creche na Rocinha não pode ser diferente da
creche do Leblon. É preciso que todas sejam incorporadas ao município. Estamos na luta para que as creches da Maré deixem de ser comunitárias.
Eliana Sousa e Silva

O estado moderno, não necessariamente o brasileiro, se faz de morto sempre que pode. As creches comunitárias são um movimento da sociedade civil que só o estado brasileiro não reconhece. E foi uma luta de mulheres pobres. As creches têm de ser iguais. A escola tem de deixar de ser espaço e virar lugar. O lugar é marcado sobretudo pelo sentido. A gente precisa construir um mínimo comum, mas um mínimo que é muito alto. Nas creches públicas não há professor. São salas com 25 crianças e 4 auxiliares de creche.
Aristeo Leite Filho

Falou-se muito de identidade e relação entre pobreza e fracasso escolar. Como o espaço pode ser mais acolhedor? As crianças passam mais tempo na escola, como esse espaço pode ser mediador também?

É importante entender que a escola vai adquirindo uma importância como
espaço mediador. O desafio do horário integral, em que você tem atividades que
são acrescidas de fora, experiências de outros espaços que podem dialogar com
as atividades nas escolas. As atividades são incorporadas a um currículo que pensa no aluno com outra perspectiva de sociedade, de ser autonomo, criativo. É
fundamental pensar como a escola se torna também espaço de mediação de
conflitos, de experimentação, transformar num outro sentido o que está sendo
feito. A gente está muito tomado pela questão da tecnologia, mas está deixando
de trabalhar coisas muito mais simples, mais do ponto de vista das relações
humanas.
Eliana Sousa e Silva

Temos trabalhos que vão ajudar as escolas a descobrirem seu espaço mediador, como elas conseguem tornar o ambiente escolar mais favorável ao aprendizado e a formação.
André Ramos

A prefeitura gasta R$ 160 por aluno/mês nas creches. É menos que em São Paulo e Belo Horizonte. As creches estão desistindo dos convênios. As exigências são muitas que a prefeitura faz. Por que?

Estamos recalculando o valor repassado por aluno. É um desafio, queremos ter cada vez mais creches e de qualidade, independentemente da área onde elas estejam.
André Ramos

Alguns pais reclamam que o Conselho Tutelar, às vezes, interfere demais. Qual a relação do Conselho Tutelar com a educação infantil?

O Conselho Tutelar é outra grande questão. Eles se tornaram espaço de lutas políticas. O conselho, de fato, não cumpre sua missão de garantir a proteção à criança. Acho que é um espaço que deveria dialogar muito mais com a escola. A sociedade não entendeu a função do conselho tutelar. E é um espaço contraditório.
Eliana Sousa e Silva

A gente não pode se iludir muito. A escola não deu conta, é um projeto falido. O Conselho Tutelar também é fruto dessa instituição falida. Quando pensa em inglês e esquece da arte, está tentando inventar uma nova instituição. Quando acabou o Império, 85% da população brasileira era analfabeta. É preciso repensar. O que está na lei está bom, a LDB é um espetáculo. Não precisa discutir, precisa fazer.
Aristeo Leite Filho

A cultura ainda está colocada na educação apenas para a representação de conteúdos. A estética do estado é escala. A estética da sociedade civil são pequenas experiências. Como garantir a presença mais profunda da cultura dentro das escolas em vez de
ser apenas uma alegoria?

A cultura existe, sim. A arte é importate, a cultura é importante. Nós temos de trabalhar a  questão da arte e da cultura junto com as escolas, para saber se as atividades que estão sendo propostas se integram ao projeto político pedagógico não se encerre em si mesmo.
André Ramos

A cultura tem a ver com a discussão mais geral sobre a educação que se quer. E arte ser inserida aí não como apêndice. Seria um outro projeto, bem diferente do que a gente tem hoje.
Eliana Sousa e Silva

A educação brasileira tem três princípios: éticos, estéticos e políticos. Escola quer dizer prazer de aprender. Alegria. Mas a escola quer transformar criança em aluno. Aluno é personagem da escola. A tecnologia não pode vir antes de se dar conta do aprendiz.
Aristeo Leite Filho

São visões distintas e diferentes. Se uma visão é mais hegemônica, não significa que não deva haver um diálogo, que não se deva escutar, disse Claudius Ceccon, ao encerrar o debate. Que está apenas no início.