Ocupaçōes do Espaço Público, Cultura e Política na Cidade

Já estão abertas as inscrições para o sexto debate do anoterça-feira, 28, às 9h da manhã, na Casa do Saber Rio O Globo. Confirme presença pelo riodeencontros@oinstituto.org.br – Vagas limitadas.

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Que cidade queremos ser?

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Simone Vassallo, Amauri Mendes e Dudu do Morro Agudo. Foto Paula Giolito

Três nomes, três vivências profissionais e pessoais distintas e o mesmo tema. O Rio de Encontros do dia 30 de setembro reuniu o professor  de História da África e do Negro no Brasil no Instituto de Educação da UFRRJ Amauri Mendes Pereira, a antropóloga e professora do programa de pós-graduação em Sociologia do IUPERJ Simone Pondé Vassallo e o rapper e produtor Cultural do Movimento Enraizados Dudu de Morro Agudo para discutir “A cor do carioca”. Da cultura e identidade negras ao trajeto histórico da questão racial no Brasil, a pauta acomodou recortes como consciência, identidade, cosmopolitismo, colonização, preconceito, herança e afrodescendência, movimento negro e expressão política, cotas e diferenças. Em quase três horas de conversa, a tez do Rio de Janeiro foi esmiuçada sem platitudes por debatedores e plateia.

A reformulação atual da face urbana da cidade está na gênese da escolha do tema. Projetos de reforma se espalham da Zona Portuária à Zona Oeste, da Zona Sul à Zona Norte, enquanto as políticas públicas e ações da sociedade civil evidenciam uma transformação do ponto de vista social e cultural da cidade.

Para iniciar o debate, a diretora acadêmica d’O Instituto, Ilana Strozenberg, apresentou as perguntas previamente formuladas: existe uma consciência racial no Rio de Janeiro? A cultura hip hop seria a sua maior expressão? A busca por uma identidade racial contradiz o cosmopolitismo da cidade, ou não? Qual o papel das questões raciais nos conflitos relacionados às reformas urbanas na região portuária?

“A ideia de uma tradição cosmopolita do Rio de Janeiro onde todo mundo é carioca e as outras diferenças ficam apagadas por esse pertencimento, que é uma identidade para a cidade, ainda se coloca dessa forma? É possível lidar com a diferença sem apagar as diferenças? Como a gente pode discutir isso do ponto de vista étnico e racial?”, Ilana lançou os primeiros questionamentos e deu a vez aos convidados.

Do racismo velado ao hip-hop como a maior das expressões

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Dudu do Morro Agudo. Foto Paula Giolito

Com a palavra, Dudu do Morro Agudo, que optou por contar sua experiência pessoal na luta pela consciência negra por meio do movimento hip-hop. De uma família que jamais discutia a questão racial em casa, o rapper conta que foi criado aceitando o mundo como ele é. Um moleque negro alienado, como ele diz, sem conhecimento das próprias origens. “Ao descobrir o Rap, Racionais, MCs, ficou mais fácil. E assim eu comecei a entender e procurar saber mais sobre minha origem”.

Sim, o hip-hop mudou tudo, ele garante. “Minha filha nasceu no berço do hip-hop, a mãe dela faz parte do movimento negro, e tudo é discutido em casa. As bonequinhas dela eram pretas, os desenhos animados tinham personagens pretos, e ela sempre assistiu bastante à televisão”. Mesmo assim, o resultado foi um pouco diferente do que ele esperava: “Um dia ela pediu uma Barbie e eu disse tá bom, eu vou te dar uma Barbie preta e ela falou preta eu não quero, porque preto é feio. Deu uma coisa ruim no peito e me senti impotente, perguntei: sua mãe é feia? Papai é feio? Sua avó é feia? Por que preto é feio? E ela respondeu: porque preto é feio! E eu descobri que a minha mãe não fracassou na minha criação. Na verdade, a sociedade te empurra o tempo inteiro para o abismo dizendo que ser negro é ruim”, afirmou ele.

Dudu considera penoso ter que desconstruir o que a televisão constrói em relação ao negro todas as vezes que sua filha a desliga. Citando a história de um amigo que certa vez contestou a fala de uma palestrante de que todos são iguais e não se deve falar em diferença, concluiu: “diga isso para as crianças da escola da minha filha que a chamam de cabelo de Assolan, para o policial que passa por todo mundo no ônibus e me dá dura porque eu sou suspeito, para o guardinha do banco que trava a porta quando eu passo”, disse ele, em tom de desabafo.

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“Perguntam se eu já sofri preconceito e eu respondo que graças ao hip-hop, sim. Porque se eu não tivesse essa consciência, passaria batido” Foto Paula Giolito

Carioca tem cor, Dudu? “Para mim, existem duas respostas. Uma é a ideal, que são todas as cores e todo mundo se respeita; e a outra é a do mundo real, onde as pessoas te julgam pela sua aparência”, realçou o rapper. Ainda assim, houve avanços na conscientização negra, ele reconhece: “Um exemplo disso é ver jovens usando cabelos black power e trança nagô. Quando eu era moleque, homem era careca, mas com o nagô e o black na moda demos um avanço.”

Aos 35 anos, Dudu começa a ver a discussão racial ultrapassando as fronteiras do hip-hop, que considera a maior das expressões e atribui a ele seu engajamento. “Idealizei e coordeno uma escola de hip-hop. No entanto, a nossa escola não é para ensinar aos meninos a prática do hip-hop, mas sim os valores dele. A gente ensina valores, passa filmes, lê livros sobre a história de lideranças negras e tenta mostrar como foi a travessia do negro para o Brasil e sua trajetória aqui. Essa molecada branca, tanto da classe média quanto da molecada da comunidade, começa a ter um conhecimento que não tem na escola, e começa a olhar o diferente com mais respeito”, avaliou. O racismo já foi mais velado, segundo ele. A intolerância, por sua vez, já foi menos explícita.

A cor do racismo sem racistas

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Amauri Mendes. Foto Paula Giolito

Segundo na ordem de fala, o professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro Amauri Mendes partiu da emergência do movimento social, o que teria sido o momento que levou a sociedade brasileira a ter de enfrentar a questão racial. Se no meio acadêmico o assunto é mais um tema de estudo entre tantos, fora dele é uma questão crucial na formação e no desenvolvimento da sociedade brasileira. Encontrar um modo de lidar com a questão racial e fazê-la avançar efetivamente é uma encruzilhada.

Autor do  livreto páginas “Encruzilhadas na luta contra o racismo no Brasil”, Amaury destrincha o dilema do racismo não assumido, o que cria um imenso obstáculo para a discussão efetiva do antirracismo. “Há uma porção de gente contra, são os pós-racistas, que dizem esse negócio de raça não existe, já foi. Alguns, mais bem informados, dizem todos somos iguais. Sim, mas as contas bancárias não são, os olhares também não, mas no fundo somos todos iguais”, afirmou.

A questão racial racial é profunda e resolvê-la demanda tempo, dor e sofrimento. Até agora, enfatizou Amauri Mendes, o negro amarga e acumula prejuízos materiais e simbólicos desde a formação e desenvolvimento da sociedade brasileira. São perdas históricas.

“O racismo está presente no pensamento e nas leis desde o início do século XX, quando parlamentares já tentavam lavar a mancha negra da formação brasileira com a criação da vila de imigrantes. O que se reproduz hoje é muito semelhante àquele tempo”, disse o professor referindo-se às construções de apartamentos do projeto Minha Casa, Minha Vida em que ele destaca a ausência de colunas de sustentação e a falta de organização do entorno desses prédios.

O antirracismo é um desafio. “A pior lógica de todas é a do momento atual, em que certos movimentos sociais acolhem a visão de que agora nós temos respeito, que tudo o que foi construído duramente por um processo longo de formação desse sujeito histórico/coletivo que se revestiu de alguns valores da cultura negra será eternizado. Ao mesmo tempo, tendem a criar não a luta coletiva e capacidade de impactar cada vez mais a sociedade para discutir com seriedade a questão racial. Mas criam, sim, os supernegros, aqueles empoderados, que acham que já têm espaço, que já sabem quem são, e acham que aceitando uma pequena brecha, uma tinta na parede do barraco, está tudo bem. Toda a lógica em que foi construída a sociedade é a lógica da exclusão efetiva. Essa é a visão de raça do nosso país, que, infelizmente, ainda não foi questionada pelo movimento negro”, concluiu Amauri.

 

Porto Maravilha e a cor da memória

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Simone Vassallo, imagens das escavações no Cais do Valongo. Foto Paula Giolito

A antropóloga Simone Vassallo estuda o processo de patrimonialização da cultura afro-brasileira na Zona Portuária do Rio de Janeiro. Resumidamente, realiza sua pesquisa no âmbito do projeto Porto Maravilha, operação urbana que está reestruturando a região e pode ser considerado um dos projetos mais caros e mais emblemáticos realizados na última década. O objetivo é modernizar e transformar a Praça Mauá em novo símbolo da cidade, aberta para o turismo assim o Corcovado e o Pão de Açúcar.

Mas o trabalho não tem sido assim tão simples. Os embates entre agentes da prefeitura diretamente envolvidos e militantes do movimento negro acontecem desde o início do projeto. Tudo começou bem antes, em 1996, quando um casal de moradores encontrou o que é hoje chamado Cemitério dos Pretos Novos, uma espécie de vala comum contendo as ossadas dos africanos que morreram próximo ao local do desembarque e foram enterrados ali entre 1770 e 1830. Simone explicou que, como chegavam muitos corpos, as ossadas eram trituradas e queimadas para haver mais espaço. O local fica na Gamboa, antigo bairro Saúde, onde em 2005 foi criado o Instituto dos Pretos Novos.

Para bom entendedor, a preservação da memória afrodescendente não constava no escopo inicial do projeto. Segundo a antropóloga, a memória da estiva, do samba, da capoeira e uma serie de questões emergem hoje a reboque da presença dos agentes culturais daquela localidade. “Definitivamente, não foi isso que o prefeito pensou quando idealizou o projeto. Essas negociações nos mostram uma série de relações de poder que estão ocorrendo ali, enquanto a questão afrodescendente entra em pauta”, contou ela.

O Cais do Valongo, considerado o principal símbolo de desembarque de africanos no Brasil, está no centro do imbróglio. No local, teriam desembarcado pelo menos 500 mil cativos africanos até 1831, quando foi desativado por conta do fim do tráfico transatlântico. em 1843, foi transformado no Cais da Imperatriz, para receber Teresa Cristina, que se casaria com Dom Pedro II.

O Cais do Valongo seria o equivalente às nossas ruínas romanas, anunciou o prefeito do Rio, Eduardo Paes, diante da descoberta. Na mesma época, a arqueóloga Tania Andrade Lima, professora do Departamento de Antropologia do Museu Nacional/UFRJ e responsável pelo monitoramento arqueológico do projeto Porto Maravilha, deu uma declaração completamente diferente. Segundo ela, os escravos foram esquecidos e, mais que isso, foram deliberadamente apagados, ao se construir o Cais da Imperatriz sobre o Cais do Valongo, em um processo de superposição e de oposição fortemente simbólicos.

“Ela queria trabalhar com a história do Cais do Valongo e não com o Cais da Imperatriz, por isso chamou militantes do movimento negro, contou a história, mostrou o que já havia sido encontrado. A partir daí, algumas lideranças se interessaram e começaram a lutar para que a memória do cais entrasse no projeto do Porto Maravilha. O lugar foi considerado de ancestralidade, de origem não só biológica, mas também cultural e religiosa. Por ali teriam desembarcado as culturas africanas que deram origem à cultura afro-brasileira”, explicou Simone. Mais adiante, foi criado o Decreto Municipal que determina a criação do circuito arqueológico da celebração da herança africana e instituiu um grupo de trabalho composto por técnicos da prefeitura e lideranças do movimento negro.

Em novembro de 2013, o Cais do Valongo e o Cemitério dos Pretos Novos foram declarados patrimônios carioca e nacional. Em 2015, o Cais do Valongo pode vir a ser reconhecido como patrimônio cultural da humanidade pela Unesco.

A cor do carioca segundo a plateia

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Simone, Amauri, Dudu e Ilana. Foto Paula Giolito

Dez minutos para cada debatedor, tempo suficiente para que a plateia, já fervorosa, se manifestasse. Lugar de fala, essencialmente, o Rio de Encontros seguiu com duas rodadas de debate.

Adany Lima, Projeto Movimentos – Foi falado aqui, que o negro está na moda. O branco está usando o negro para se promover nesse processo, ou isso faz parte dessa nova sociedade, do novo antirracismo? Sobre o Cais do Valongo, acho que o prefeito se aproveitou daquela situação sobre a construção para promover sua imagem e atrair mais eleitores.

Amauri Mendes – Sobre o branco usar o negro para se promover é exatamente o que o prefeito está fazendo no Valongo. Quando se descobriu o cais, se tentou encontrar um modo de faturar em cima desse fato. Mas não dá para segurar a história da cultura, eles pensam que vão segurar, mas não conseguirão. Há um esforço de segregação, sim, mas nunca conseguirão nos deter. O Brasil foi o último país a eliminar o comércio da escravidão. Mais da metade da população negra mundial foi transportada para cá, esse é o país que recebeu o maior número de escravos e é o único em que a luta contra ela foi travada em todo o seu território. Nesse sentido, somos diferentes de qualquer outro lugar.

Simone Vassalo – Só quero enfatizar alguns pontos para engrossar esse caldo. Respondendo ao Adany, concordo: acho que tem uma perspectiva eleitoral que é central. Inclusive, a atitude do prefeito em relação a toda essa memória afrodescendente mudou antes e depois da eleição. Foi um divisor de águas. A gente tem que pensar mais sobre essa questão da etnia e da cor. Por exemplo, o que mais está sendo valorizado no Valongo? As práticas afro como o samba são, de certa maneira, valorizadas pela prefeitura, mas é somente o negro do passado que está sendo cultuado, não o do presente. Por exemplo, uma liderança negra do Morro da Providência se queixa do próprio movimento negro dizendo: “enquanto a gente está aqui sendo removido, com inúmeras casas marcadas para remoção, o movimento negro está lá embaixo lutando pelo Cais do Valongo”.

Nathália Leal, ESPM- Dudu, são iniciativas como a sua que fazem a gente ter orgulho de ser negro. Na Penha e no Complexo do Alemão, todos os terreiros e religiões afrodescendentes estão sendo excluídos por traficantes. O que você sente diante desse paradoxo: por um lado o orgulho de ser negro, por outro, o fato da gente não poder se expressar com as religiões afrodescendentes?

Dudu do Morro Agudo – Em algumas comunidades do Rio de Janeiro, os traficantes se converteram ao Evangelho, ficaram intolerantes e começaram a fechar os terreiros e a expulsar os pais e mãe de santo. Temos vivido um momento em que as religiões africanas são demonizadas pela sociedade. A prefeitura de Nova Iguaçu fez uma pesquisa para saber quantos jovens faziam parte das religiões de matrizes africanas e constatou que a grande maioria dos jovens que pertenciam a elas não revelavam esse fato, por medo de serem discriminados. Minha avó é evangélica, minha tia é candomblecista, minha é sogra kardecista, meu pai era ateu, mas, depois de uma doença braba, virou religioso e todo mundo se respeita. Isso é o que falta à sociedade. O marco zero é o respeito por tudo.

Amauri Mendes – Os terreiros são a lógica da vida, e os traficantes são a lógica da morte. É evidente que esses últimos vão bater de frente e expulsar os primeiros, e eles não terão mais espaço. Porque onde há consumismo e individualismo até mesmo os supernegros e supernegras da favela olharão de modo torto para eles.

Fernando Cock, Agência de Redes para Juventude – Complementando a pergunta do Adany, o que você acha dos brancos se apoderarem da musicalidade negra para enriquecer? Um exemplo é a cantora Anitta.

Dudu do Morro Agudo – Existem coisas que não têm jeito, se você prega a igualdade vai ensinar a música e querer que o máximo de pessoas participem. O mercado é outra coisa. O samba passou por isso, quem fazia samba era considerado bandido e, hoje em dia, quem não nasceu no morro também faz samba. Isso é o mercado e a Anitta é um produto dele, assim como vários outros artistas. Do meu ponto de vista isso faz parte de um processo e eu consigo separar: faço música e hip-hop, que é muito mais que música, é uma vivência diária. Mas tem muitos caras dentro do hip-hop tocando no rádio que não fazem ideia do que seja o hip-hop.

Gilmara Moreira, Rio de Encontros – Dudu e Amauri, eu sou a primeira pessoa da minha família a chegar à Universidade. Como vocês encaram a questão das cotas? Como compensação ou como algo que pode ser excludente?

Dudu do Morro Agudo – Vamos supor que no Brasil, metade do povo é preto e metade é branco. Quantos médicos pretos você conhece? Se demorar mais de três segundos para responder, tem que ter cota. (aplausos)

Amauri Mendes – Tudo tem cotas nesse país, sempre teve. Os imigrantes tiveram cotas de favorecimento. A filha do Ernesto Geisel, Amália Luci Geisel, escreveu um livro contando a história da família, no qual mostra que eles tiveram esse tipo de cota. Eles receberam dois troncos de árvores e outras vantagens, como sementes, ferramentas e um pedaço de terra quando se instalaram no Sul. Mas para que negros e seus descendentes ascendessem não teve cota. Aliás, teve cota ao contrário. Tudo foi impedido e enterrado.Todas as suas lutas e sua vida no início do século XX foram enterradas.

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Representantes da Agência Rede de Jovens para Juventude. Foto Paula Giolito

Igor Oliveira, JOCUM – Os movimentos negros estão abandonando sua essência?

Amauri Mendes – O movimento não tem mesmo uma essência, felizmente. O movimento negro deu certo porque tinha um centro gerador. O Instituto de Pesquisa das Culturas Negras (IPCN) foi uma instituição a que todos recorriam, foi a única instituição que conseguiu uma sede própria nos anos 1970. Ficava no Centro da Cidade e o pau comia  ali. Tudo o que foi feito pelo movimento negro ao longo de trinta e tantos anos foi feito coletivamente. Por isso era forte.

Simone Vassallo – Um colega italiano que faz uma pesquisa muito parecida com a minha na Região Portuária percebeu que a maioria dos terreiros que existiam ali eram de umbanda, não de candomblé. Como é que, agora, o que a gente tem no processo de valorização do circuito de herança africana são essas Ialorixás ligadas à religião africana no sentido mais tradicional, que incorporam mais profundamente a religião? É claro que a gente sabe como a questão da pureza do candomblé vai se construindo historicamente no Brasil, mas, na prática, eu não consegui responder detalhadamente o porquê da questão da umbanda ter se tornado invisível.

Cleissa Martins, Agência de Redes para Juventude – Dudu, qual a visão que o hip-hop tem dessa coisa de o negro estar na moda? Amauri, ainda não é fácil usar o black, como podemos levar a nossa cor mesmo que usemos cabelo alisado?

Dudu do Morro Agudo – A esposa de um amigo meu reclamou do preconceito que sofria por ter dreads no cabelo e ele respondeu: “alisa o seu cabelo e se enquadra, o seu problema será resolvido”. Se você escolheu ser do hip-hop, tem de enfrentar os olhares diferentes, é uma postura que se assume.

Amauri Mendes – Prejuízos simbólicos são possíveis de negociar, porque a nossa lógica é a do consumismo e do individualismo. Está tudo bem se eu posso usar esse cabelão, mas não resolve. Esse processo de construção de identidade é fundamental, mas é pouco, e tudo hoje é muito veloz. Tudo é muito pouco.

Simone Vassallo – São questões muito complexas que perpassam todo o debate sobre a Região Portuária. Outro grupo muito discriminado e invisibilizado naquela região são os nordestinos. Ali é um lugar de imigração nordestina muito forte nas últimas décadas, e essa herança não é valorizada no movimento de evidenciação das histórias do local. Ainda faltam projetos relacionados ao funk e hip-hop.

Atitude dread

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Jovens parceiros do Rio de Encontros. Foto Paula Giolito

A última rodada do debate sobre A Cor do Carioca adquiriu um tom mais reflexivo do que interrogador. Sob o efeito da fala dos provocadores Amauri Mendes, Simone Vassallo e Dudu do Morro Agudo, os ouvintes fizeram muitos comentários sobre a atitude e o comportamento do negro e sua autoconsciência.

Ana Lucia Costa, Rádio Katana– A questão do negro na televisão é aquela história do “bem bolado”, tem um negro bem e outro, bolado. Eu acho que negro é mais uma questão de atitude do que de simbolismo. Se o negro quer usar prancha não tem problema, desde que ele tome a atitude certa quando necessário.

Anabela Paiva, O Instituto – Todos estão refletindo muito sobre a questão do visual: roupa, cabelo e cor. O negro está mesmo na moda, você vai a restaurantes chiques e quem está ali para te receber são jovens negros bonitos com atitude bem black. Mas dentro do restaurante só tem branco. Acho que a estratégia de incorporar uma personagem, como as roupas características do malandro, é algo que beneficia quem tem uma maneira de se posicionar no mundo.

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Nathália Leal. Foto Paula Giolito

Luis Gustavo Soares, ESPM – Quero deixar claro que o racismo existe na nossa sociedade. Estava no táxi outro dia com meu pai e minha namorada, que são brancos – eu saí pardo porque minha mãe é negra – e um policial nos parou numa blitz. Ele logo perguntou ao meu pais “esse moço que está aí atrás é namorado da sua filha?”

Aline Marinho, ESPM – Eu me questiono muito sobre a vitimização do negro, acho que a escola, como espaço de formação do sujeito, tem que fazer sua parte. Na minha primeira aula na universidade, a professora perguntou qual é a minha cor. Respondi que depende de onde eu esteja: no asfalto sou negra, na favela sou parda. Por isso acho que a questão vai muito além da cor. Tudo depende de como você se comporta e interage no seu ambiente.

Dudu do Morro Agudo – Quando prego igualdade, prego para todo mundo. É o meu sonho de mundo ideal. Só que o mundo real é diferente. O negro tende a se vitimizar porque aceita a condição que a sociedade impõe a ele.

Amauri Mendes – Não há mordaça e bloqueios em todo lugar. Não há também uma malícia de criar o racismo a todo o momento. Mas o racismo tem uma margem de manobra muito ampla. As chaves do racismo, dos valores, do consumismo e do individualismo andam juntas para formatar o mundo em que vivemos e nos fazer achar que só pode ser assim. Mas pode ser diferente. Como ajudar a modificar? Começando por nós mesmos.

O Instituto e ESPM, parceria com cara de prêmio

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Plateia do Rio de Encontros “A cor do carioca”. Foto Paula Giolito

Como projeto realizado pelo O Instituto há cinco anos, o Rio de Encontros tem cumprido a meta de discutir temas da cidade de uma forma especial. É o lugar onde assuntos polêmicos são colocados em pauta para uma plateia de opiniões fortes, com objetivo de trazer à tona diálogos que ainda não foram falados. Como novo parceiro da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) em 2014, pode alcançar espaços ainda não explorados.

Além dos cinco eventos já realizados neste ano, desde agosto jovens parceiros do Rio de Encontros e alunos da ESPM têm participado de uma oficina de audiovisual, cujo produto será um filme sobre o comportamento dos jovens da era digital. E foram essas atividades patrocinadas pela ESPM que inspiraram Flávia Flamínio, diretora geral da unidade carioca, a inscrever o projeto de apoio ao O Instituto/Rio de Encontros no Prêmio Marketing Best 2014.

Criada há 62 anos em São Paulo para atender às necessidades do mercado publicitário brasileiro, a ESPM fundou sua unidade no Rio de Janeiro há exatos 40 anos. Flávia aproveitou o Rio de Encontros do mês de setembro sob o tema “A cor do Carioca” para explicar que essa foi uma história vitoriosa, por conta do momento difícil que a cidade passou nos últimos 15 anos com a saída das principais agências, da bolsa de valores e de várias empresas: “como a ESPM é uma instituição sem fins lucrativos, tudo o que recebe aplica no seu próprio negócio, ela se manteve firme e forte aqui e eu acho isso um ponto de muito orgulho para todos nós. Continuamos investindo na cidade, e eu acredito que contribuímos com uma pequena parte de sua recuperação”, afirmou Flávia, que para comemorar esse aniversário decidiu, ao invés da realização de uma festa, investir no projeto Rio de Encontros.

Flávia Flamínio. Foto Paula Giolito

“Eu quero contar para vocês que o patrocínio ao projeto Rio de Encontros é a principal parte da comemoração dos 40 anos da unidade da ESPM aqui no Rio de Janeiro. Eu achei que fazer uma festa seria uma coisa muito provinciana, está cheio de festa por aí, é aquele momento e acabou. Acredito que a verba destinada à comemoração dos 40 anos deveria ser aplicada num projeto alinhado com as causas que nós abraçamos. Apoiamos prioritariamente dez causas sociais, como mobilidade urbana entre outras, e uma delas em especial é a inclusão de jovens em situação de risco e o projeto do O Instituto no Rio de Encontros era perfeito”, disse Flávia.

O Marketing Best vai premiar os melhores cases de marketing do ano. A possível vitória da ESPM Rio daria visibilidade nacional no âmbito empresarial aos projetos do O Instituto. O resultado sai em dezembro.

A cor do carioca em frases e fotos

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A cor do carioca. Provocadores e plateia. Foto Paula Giolito

A questão racial no Brasil está na ordem do dia. E nada mais instigante do que um bate-papo com jovens ávidos por compartilhar suas experiências de racismo e levantar questionamentos sobre a cultura e a identidade negra. Foi assim no Rio de Encontros da última terça-feira de setembro, sob o tema A Cor do Carioca. Mas a conversa não ficou restrita aos problemas raciais no Rio de Janeiro e englobou a sociedade brasileira em muitos momentos.

O evento reuniu em seu time de debatedores Amauri Mendes Pereira, Doutor em Ciências Sociais e Mestre em Educação pela UERJ, especialista em História da África pelo Centro de Estudos Afro-Asiáticos (UCAM); Dudu de Morro Agudo, Rapper & coordenador do Movimento Enraizados e Simone Vassallo, Antropóloga e professora do programa de pós-graduação em Sociologia (IUPERJ), que fez uma rápida explanação sobre a história do Cais do Valongo, declarado patrimônio nacional em novembro passado.

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Confira algumas das falas mais marcantes do debate:

“A discussão é relativamente recente, do ponto de vista da história do Brasil” Ilana

“O rap me fez pensar que ser negro é legal. Foi quando eu comecei a buscar a minha origem” Dudu

“Por que preto é feio? A sociedade te empurra para um abismo dizendo que ser negro é ruim” Dudu

“A questão racial é muito mais que um tema. É crucial para o desenvolvimento da sociedade brasileira. Como lidar com isso? Essa é a encruzilhada” Amauri

“O grande desafio é colocar a discussão da questão na ordem do dia. Mas não é só discutir. Trata-se de ver como uma questão orienta nossos valores, as políticas públicas de saúde, educação e moradia” Amauri

“Os brancos estão se apoderando e tendo mais oportunidades que nós na nossa cultura. Anitta (a cantora) nunca pisou numa favela, mas não representa o funk” Fernando

“Sou a primeira pessoa da minha família a achegar à Universidade. A cota é uma compensação ou é uma forma de excluir?” Gilmara

“No Brasil, quantos médicos pretos você conhece? Se você levar mais de três segundos para pensar, tem de ter cota” Dudu

“Tudo tem cota nesse país, sempre teve. Os imigrantes tiveram cota. Para que os negros ascendessem, aí foi cota ao contrário, tudo foi soterrado” Amauri

“Se descobrir negro é muito difícil, porque você vê que está numa sociedade em que seus direitos são completamente violados e que o sistema que impera na sociedade é excludente. É muito fácil falar porque sou negro, negro, negro e uso uma chapinha no meu cabelo todos os dias porque preciso trabalhar” Igor

“Eu não deixei de ser preta porque aliso o cabelo” Carla

“Tenho pai ateu, mãe católica, avó umbandista. Na minha família, todos se respeitam. Isso é o que falta à sociedade” Dudu

“O negro está na moda e está sendo usado pelo branco. É exatamente como o prefeito está fazendo no Cais do Valongo. Quando se descobriu e não teve jeito, se tenta arrumar um modo de faturar em cima daquilo” Amauri

“Este é o país onde se teve luta contra a escravidão em todo o território nacional. Foi um dos primeiros a começar e o último a abolir” Amauri

“É o negro do passado que está sendo cultuado, não o do presente. O que o movimento negro está fazendo? Ali (Cais do Valongo) é o lugar também de imigração nordestina e isso não é valorizado” Simone

“Sobre o negro estar na moda, incorporar o personagem também é uma estratégia, uma maneira de se posicionar no mundo. Eles estão se beneficiando também” Anabela

“Tem uma frase do Celso Athayde, fundador da CUFA, que me faz refletir: se o homem branco vai à lua, a gente diz que o Homem vai à lua. Mas se fosse um homem negro a ir à lua, a gente ia dizer que foi um negro que chegou à lua” Luís Gustavo

“No asfalto, sou negra; na favela, sou parda. A questão da cor está muito além da cor” Aline

“A gente também é racista. Está na nossa cabeça. Eu não sou vítima. Está muito no que a gente faz e no que as pessoas dizem” Nathália

“Vamos perguntar mais do que responder. Nem que pergunte só pra você. Se não, o bicho pega. Pensar é voar! O movimento negro é plural e essa é a sua vantagem” Amauri