Rio de Encontros organiza o debate A Cor do Carioca

5O1A7073160Existe uma consciência racial no Rio de Janeiro? A cultura hip hop seria a sua maior expressão? A busca por uma identidade racial contradiz o cosmopolitismo da cidade, ou não? Qual o papel das questões raciais nos conflitos relacionados às reformas urbanas na região portuária? São as questões a serem discutidas no próximo Rio de Encontros sob o tema A Cor do Carioca, dia 30 de setembro. Guarde a data.

Debatedores:

Amauri Mendes Pereira: Doutor em Ciências Sociais e Mestre em Educação pela UERJ, especialista em História da África pelo Centro de Estudos Afro-Asiáticos (UCAM);

Dudu de Morro Agudo: Rapper & coordenador do Movimento Enraizados;

Simone Vassallo: Antropóloga e professora do programa de pós-graduação em Sociologia (IUPERJ).

Dia 30 de setembro de 2014, das 9h às 12h30, na CASA DO SABER RIO O GLOBO – Av. Epitácio Pessoa, 1.164, Lagoa. Entrada franca! Confirme sua presença pelo e-mail: riodeencontros@oinstituto.org.br

O Rio depois da Copa

"O Rio depois da Copa": quatro debatedores e a plateia, na Casa so Saber Rio O Globo / Foto Paula Giolito

“O Rio depois da Copa”: quatro debatedores e a plateia, na Casa so Saber Rio O Globo / Foto Paula Giolito

Aos olhos do mundo o Brasil fez a Copa das Copas. A hospitalidade ímpar conquistou até adversários mais sisudos e pouco cordiais. Os 30 dias de jogos e de trégua foram uma prova para o país. Para o Rio, em particular e não à toa: em dois anos, a cidade será sede também de outro evento de igual projeção, o Jogos Olímpicos. E terá de convencer a todos de que é boa para quem a visita e também para quem a habita.

As perguntas estão na ordem do dia. Que legado ficou da Copa e que legado teremos dos Jogos Olímpicos? Como fazer do esporte o caminho para a redução das desigualdades e a para a inclusão produtiva dos jovens de baixa renda? O que está sendo feito para que o evento seja realizado com a participação da sociedade? O Rio se apresentará uma cidade mais inclusiva ou mais excludente? Haverá mais reconhecimento dos seus habitantes, com promoção do esporte e da cidadania? Qual o papel das Olimpíadas nessa trajetória e o quanto os moradores vão poder usufruir dessa cidade?

No dia 12 de agosto, o Rio de Encontros reuniu convidados de duas frentes – o esporte e a organização – para discutir o “O Rio depois da Copa”: o urbanista Augusto Ivan de Freitas Pinheiro, assessor especial da presidência da Empresa Olímpica Municipal, e o jornalista Mário Andrada, diretor de comunicações para os Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016; e os atletas Isabel Salgado, ex-jogadora de vôlei, com diversos títulos em quadra e uma das pioneiras do vôlei de praia no Brasil, e o medalhista olímpico de judô Flávio Canto, um dos fundadores da organização não governamental Instituto Reação. Um quarteto capaz de atrair plateia e lotar a Casa do Saber Rio O Globo, palco habitual do ciclo de debates.

A diretora acadêmica d'O Instituto, Ilana Strozenberg, faz a abertura do encontro / Foto Paula Giolito

A diretora acadêmica d’O Instituto, Ilana Strozenberg, faz a abertura do encontro / Foto Paula Giolito

“A gente está aqui para fazer perguntas, muito mais que para expor verdades. Vamos nos questionar a nós mesmos e aos nossos convidados”, convidou Ilana Strozenberg, na abertura, anunciando também a nova logo do projeto, fruto da parceria com a ESPM, patrocinadora do Rio de Encontros em 2014.

Convidado para mediar a conversa, Pedro Strozenberg, secretário executivo do Instituto de Estudos da Religião (ISER), sintetizou o momento pós-Copa e pré-Olimpíadas que o Rio atravessa.

“A cidade que saiu de um PAN (2007) e de uma Copa do Mundo está acostumada a eventos mundiais. São dois eventos relativamente recentes, que ajudam a olhar para o que vai acontecer daqui a dois anos. É importante  olhar para trás, mas sobretudo pensar numa perspectiva de futuro, sobre o quanto a Olimpíada tem mudado ou contribuirá para uma mudança na cidade”, disse Strozenberg, ao anunciar os convidados para a plateia. Todos prontos para o bate-bola, o Rio de Encontros começou.

Dois olhares para o esporte

Isabel salgado: "Quando veio a notícia de que íamos sediar os Jogos Olímpicos, todos se renderam" / Foto Paula Giolito

Isabel salgado: “Quando veio a notícia de que íamos sediar os Jogos Olímpicos, todos se renderam” / Foto Paula Giolito

Isabel Salgado, a Isabel do vôlei, todo mundo conhece. Flávio Canto, o judoca medalhista, também dispensa apresentações mais alongadas. Ambos vivenciam o quanto o esporte é importante para a dinâmica da cidade, para a expressão plena da cidadania. E no discurso, além da prática, eles deixam transparecer o engajamento.

“O sentido de a gente estar aqui é enorme. A gente adora o Rio de Janeiro e quer uma cidade mais bacana, mais humana”, disse Isabel logo na entrada. Mas nem só de euforia se sustenta uma cidade, ela tratou de apontar.

“Quando veio a notícia de que íamos sediar os Jogos Olímpicos, até quem era contra mudou de ideia. Todos se renderam. Todo mundo estava na mesma onda. No entanto, faltou, e falta, a gente participar e fiscalizar. Por que estão tirando pessoas de certos lugares para construir isso ou aquilo? Por que o orçamento de dez virou um gasto de trinta? Esse tipo de debate é necessário se a gente quer uma cidade melhor. É preciso saber como a cidade vai ser gerenciada, como vai ser administrada. Um evento como esse altera a legislação, inclusive. Algumas medidas tomadas em função dos eventos, muitas vezes não são o que se quer para a cidade efetivamente”, emendou.

“Sou uma atleta, sou técnica. Meu envolvimento é como participante, mas sobretudo como alguém que quer que esse evento traga de fato alguma coisa para todo mundo. Num evento como esse, tem de se falar mais de esporte e menos de negócio, menos de obra”, opinou Isabel.

Flávio Canto: "O esporte tem sido um lugar de encontro de todo tipo de gente" / Foto Paula Giolito

Flávio Canto: “O esporte tem sido um lugar de encontro de todo tipo de gente” / Foto Paula Giolito

As opiniões do judoca Flávio Canto não destoam das de Isabel, mais especificamente sobre o que o esporte pode render de dividendos em cidadania e superação. É dele a proeza do bronze olímpico, nos Jogos de Atenas, em 2004. Além e conquistar medalhas, o pentacampeão sul-americano de judô e tetra-campeão pan-americano divide a faixa de idealizador, com outros amigos, do Instituto Reação, que ensina o judô a crianças carentes no Rio de Janeiro. Filho de pai brasileiro, mas nascido em Londres, ele aprendeu a circular pela cidade.

“De certa forma, o que eu busquei no esporte foi promover encontros. Cresci no Rio de Janeiro, uma cidade bastante dividida, como a maioria das cidades, cheia de muros invisíveis e sem misturas. Foi o esporte que me deu a possibilidade de encontro e acesso a pessoas de outras realidades, de diferentes origens e classes sociais. Não tenho competência para falar de legado mais formal, mas sobre o que o esporte pode fazer pela gente. Esse é o meu papel aqui: mostrar que o esporte tem sido um lugar de encontro de todo tipo de gente”, avisou o judoca.

Dois olhares para a cidade

O jornalista Mário Andrada e o urbanista Augusto Ivan de Freitas Pinheiro têm, em suas respectivas áreas, o olhar desafiador da gestão olímpica, definiu Pedro Strozenberg. “Que papel cada um tem? Qual o limite que se estabelece para a compreensão do que é possível e o que é necessário para a dinâmica da cidade?”, o mediador adiantava perguntas.

Mário Andrada: "A iniciativa privada não faz nada de graça e essa regra é clara" / Foto Paula Giolito

Mário Andrada: “A iniciativa privada não faz nada de graça e essa regra é clara” / Foto Paula Giolito

”Os jogos são um encontro de várias tribos. Dos jogadores, dos atletas, de torcedores, de organizadores, e a minha missão é fazer com que essas tribos se entendam. Meu trabalho é tirar os muros invisiveis e fazer com que as tribos dialoguem”, Mário Andrada explicou. E a Copa, que recebeu nota 9,25 do exigente – e polêmico – presidente da Fifa, Joseph Blatter rendeu também um aprendizado que vai ser útil mais adiante. “A Copa mudou o humor do país e teve uma organização positiva, mas, ainda assim, ficou a impressão de que o torneio passou e não deu tempo fazer muita coisa que a gente queria ter feito. Vem a chance com os Jogos”, completou.

Augusto Ivan, cuja experiência na prefeitura do Rio já se estende há mais de 40 anos e inclui uma passagem como secretário de urbanismo, conhece bem os territórios por onde circula e o que é necessário em cada um, e trabalha com data fechada. A Empresa Olímpica Municipal, responsável pela organização da cidade para os Jogos Olímpicos encerra os trabalhos com o fim dos Jogos. Até lá, há muito por fazer. “Aqui, a gente vai falar é sobre legado mesmo”, anunciou. Evento de grande envergadura, segundo ele, não é novidade para o Brasil. Se retrocedermos no tempo, eles aparecerão desde séculos atrás. Bom de exemplos, Ivan rememorou a preparação da Feira de 1908, quando o Brasil comemorou os 100 Anos da Abertura dos Portos, no bairro da Urca. O Rio, capital federal e palco de transformações.  A Exposição do Centenário da Independência do Brasil, em 1922, que reuniu 14 países também é emblemática.

Augusto Ivan de Freitas Pinheiro: "Equipamentos e meios de acesso a esses equipamentos, esses são o grande legado" / Foto paula Giolito

Augusto Ivan de Freitas Pinheiro: “Equipamentos e meios de acesso a esses equipamentos, esses são o grande legado” / Foto paula Giolito

“Grande eventos e grandes obras não são novidade para nós. O Rio não é uma cidade informal, que não dá conta do seu destino. Perdemos o título do Mundial, mas o Rio e o Brasil estão bem na foto. A ideia da cordialidade volta a nos animar quando estamos recebendo visitas. Apareceu na Copa, e vai aparecer de novo nos Jogos Olímpicos”, garantiu o também professor de urbanismo.

O histórico dos Jogos Olímpicos está na memória, por conta dos estudos e pesquisas, e no dia a dia, pela prática na assessoria especial da presidência da Empresa Olímpica Municipal. Os bons casos estão aí para serem usados como referência. Roma, em 1960, logo depois da II Grande Guerra, está na lista pelo grande condomínio residencial construído para receber os atletas e servir à população da cidade quando acabassem as Olimpíadas. Mais recentemente, os Jogos cujos legados se estabeleceram de forma mais acentuada foram os de Barcelona – que tem influência também na forma como o Rio está se organizando – e Londres, um espetáculo onde tudo deu certo, porque lá não tem como dar errado, brincou Augusto Ivan.

“Só para contextualizar, nós somos capazes de organizar grandes eventos. É importante que, no mercado mundial de cidades, elas se coloquem bem, que se gerem renda, que se mostrem capazes de gerenciar processos e projetos, de abrigar eventos, produção, organização, serviços, tudo que uma cidade precisa ter para ajudar que seus milhões de habitantes vivam de maneira melhor”, afirmou ele.

Uma discussão sobre legados

Augusto Ivan de Freitas Pinheiro, Mário Andrada, Flávio Canto e Isabel Salgado / Foto Paula Giolito

Augusto Ivan de Freitas Pinheiro, Mário Andrada, Flávio Canto e Isabel Salgado / Foto Paula Giolito

Devidamente apresentados os debatedores do dia, ao debate. O moderador, Pedro Strozenberg, direcionou a Flavio Canto e Isabel Salgado a primeira delas: Quais lembranças, dos Jogos Panamericanos de 2007 e da Copa do Mundo, merecem ser guardadas? O que pode ser repetido e o que precisa ser mudado? Trocando em miúdos, ele pediu que os atletas contassem o que consideram positivo e negativo nos legados mais recentes.

Flávio Canto tomou a palavra, com uma análise, como ele disse, subjetiva: “Os Jogos de 2007 foram um pouco como foi  a Copa. A gente viveu um período de como poderíamos ser. Não sei o que acontece, se há algum  relação com comandos, que ajuste é feito, se é que existe, mas a gente passa um período de paz, que parece improvável. E assim que acabou o evento, já houve a morte da Tintim (sócia do restaurante Guimas, na Gávea), e a gente pensou ‘caramba, acabou a Copa do Mundo’. Já era outra realidade. Grandes eventos mostram a força que a gente tem e o que poderíamos ser.”

O Brasil deu provas vivas, segundo Flávio, de que é capaz de realizar. De preocupante, há as obras superfaturadas e não aproveitadas após os jogos. Mas, arena adentro, o cenário é promissor: “O Brasil vem crescendo como potência olímpica. A expectativa é que fiquemos pelo menos entre os dez em quadro de medalhas, em 2016. É uma evolução significativa, pautada em resultados de mundiais recentes. Esse é um prognóstico vivo”, afirmou. Entre a expectativa e a esperança, Canto usa Londres como bom exemplo. “Quem viveu as Olimpíadas de Londres viu que eles usaram o evento para mudar a cidade. E acho que é isso que está acontecendo no Rio. As obras caóticas fazem parte desse trabalho de construir um legado para a cidade.”

Isabel Salgado corrobora a lista de vitórias demarcadas pelo Pan e a Copa. “Para o atleta, é incrível participar de um panamericano, das olimpíadas, e isso tem desdobramento na vida esportiva da comunidade. E ficou da Copa que a gente pode ter a cara bacana, limpiinha, legal. Que a gente pode viver dentro do Brasil uma coisa que não achei que era possível. A imagem do Brasil foi muito positiva, como recebemos bem, até os argentinos não tiveram do que reclamar, acamparam em nossa praias, deixaram os carros aí”, ela apontou, com bom humor.

Mas a atual treinadora não ameniza na fala o que considera problema. “Eu torci muito para o Rio sediar os Jogos, mas acho que a gente carece de tirar mais proveito desses grandes eventos. A gente tem o hábito de não ter a dimensão do que a gente pode ser. Uma coisa que me marcou muito, na Copa,  foi o número de mortes de operários nas obras. E em alguns lugares, ninguém morreu, em Londres, não morreu ninguém. Tudo isso serve de experiência. Quando você tem uma sociedade que participa mais do andamento, ela só contribui. Tem o legado bacana e o legado que eu quero entender um pouco mais, como no que deu o Mané Garrincha,  Amazônia, falta saber essas coisas”, ponderou.

O Rio, a Copa e as Olimpíadas: rodada de perguntas aberta para a plateia / Foto Paula Giolito

O Rio, a Copa e as Olimpíadas: rodada de perguntas aberta para a plateia / Foto Paula Giolito

Na sequência, Pedro Strozenberg passou a Mário Andrada e Augusto Ivan a tarefa de responder sobre o que é papel do poder público e e que lugar tem a iniciativa privada na organização das Olimpíadas do Rio, e como essas duas esferas se relacionam. Mais ainda, como estabelecer a transparência nas ações.

“A ligação público-privada está presente em vários momentos da construção dos equipamentos olímpicos. São pouco mais de 40 equipamentos de responsabilidade da prefeitura. Os governos estadual e federal repassaram para a prefeitura, com os seus devidos recursos, a responsabilidade por pouco mais de 40 equipamentos. A prefeitura tem sob sua tutela a mobilidade urbana, o vai-e-vem do trânsito, a ligação entre os parques da cidade, que são distantes um do outro. São projetos já previstos, mas que as Olimpíadas adiantaram. Essa experiência é boa para a cidade porque vai diminuir o tempo dos deslocamentos entre os lugares. Equipamentos e meios de acesso a esses equipamentos, esses são o grande legado”, realçou Augusto Ivan de Freitas Pinheiro.

No rol de equipamentos que terão aproveitamento pós-Oimpíadas, o urbanista citou o Centro Olímpico de Treinamento de Atletas de Alto Rendimento, que o governo federal deverá administrar; a construção de quatro escolas municipais no entorno do Parque Olímpico; o parque que resultará do Parque Olímpico; o campo de golfe, que faz parte da APA de Marapendi. “Há várias PPPs em andamento. O município, para atrair o setor privado, mexeu nos padrões urbanísticos da cidade. A iniciativa privada dá dinheiro, e ganha terra, ganha pavimento. Não é dinheiro público que está financiando as obras. O dinheiro está sendo fabricado com o que a própria cidade e suas legislações podem fornecer. Os famosos elefantes brancos  não vão existir. No Rio, ou se desmancha ou vai ser aproveitado”, garantiu.

O jornalista Mário Andrada foi taxativo sobre o legado e a distribuição e origem dos recursos que financiam as obras. “A iniciativa privada tem uma característica diferente, não faz nada de graça e essa regra é clara. Ela financia os Jogos com patrocínio, e se beneficia disso. Os jogos do Rio têm aspecto revolucionário na parte de construção e instalação. Praticamente 60% dos recursos são de origem privada, o que reduz o custo total dos jogos. O legado se dá de várias formas e nem todas são republicanas, nem sempre houve um diálogo prévio sobre o que seria construído, sobre determinado equipamento”, afirmou.

A mobilidade urbana, por sua vez, é um consenso, entra como ganho na contabilidade e na rotina dos moradores. “O Rio se transporta buscando a orla. Agora, haverá muitas conexões que vão integrar a cidade de forma diferente. O sonho do metrô na Barra caminha para acontecer. O que falta, do ponto de vista físico, é que esse legado se sustente. E precisa ter diálogo de aproveitamento. O Brasil precisa de atletas de alto rendimento, mas precisa deixar que várias pessoas tenham acesso ao esporte para depois definir quem tem alto rendimento. As cartas não estão totalmente marcadas e há espaço para diálogo.”

O que está em xeque, segundo Andrada, é afinar o legado, definir o que é necessário e quais oportunidades merecem atenção. Mais uma vez, Londres foi citada como referência em dever de casa bem feito. “O esporte é a esssência, é o que inspira. As pessoas se inspiram ao ver um esportista superar os seus limites. Foram os elementos humanos que resolveram os jogos de Londres. Os voluntários e os atletas fizeram a diferença. Londres não é uma cidade fácil de se viver, não é como era durante os jogos. Se os atletas não aparecem, a gente não inspira uma nova geração”, avaliou.

Isabel também acompanhou a façanha londrina. “A Inglaterra fez um projeto olímpico voltado para performance. Houve um planejamento de como fazer o esporte acontecer de forma efetiva. Eles queriam trazer o barato da vitória, da conquista para a população. Conseguiram”, afirmou ela.

Tratou-se de um contrato claro com a sociedade, completou Mário Andrada. “O contrato de Londres com a sociedade estava muito claro. Havia uma motivação de  inspirar uma geração e revitalizar uma parte de cidade. Eles revitalizaram a região do Parque Olímpico e eles inspiraram uma geração. Esse é o contrato que precisa ser feito no Brasil. O diálogo vem agora, para fazermos esse contrato.”

Como será o Rio e as perguntas da plateia

Obras, incentivo ao esporte, os problemas  da cidade em xeque / Foto Paula Giolito

Obras, incentivo ao esporte, os problemas da cidade em xeque / Foto Paula Giolito

Anabela Paiva, jornalista – Augusto, a gente ouve muito sobre o privilégio dado à Barra para sediar equipamentos olímpicos. Teria sido melhor colocar equipamentos em áreas mais degradas da cidade, nos subúrbios, ponderam alguns. O que motivou essa decisão?

Augusto Ivan – A Barra não recebeu mais equipamentos, ficou com 16 modalidades de disputa. Deodoro, com 15, e os demais estão espalhados por Copacabana, Marina da Glória. A Barra concentra Maria Lenka, HSBC e Riocentro. O terreno não era privado, tinha uma propriedade municipal, estadual e federal. A justificativa era a proximidade do Riocentro, da Vila dos Atletas. Do ponto de vista estratégico da cidade, Deodoro é um grande exemplo do que vai ficar numa região mais pobre.

Cláudia Antunes, repórter da revista Piauí – O modelo de cidade da Barra é anacrônico, não tem vida de cidade, os espaços são privados. Qual o lugar do projeto do Porto, no projeto olímpico? Por que as construtoras não têm interesse em construir lá? O projeto era área mista de moradia e comercial, onde a prefeitura ordenaria de modo a propiciar outro tipo de convivência urbana. Qual é o problema agora? Não é falta de demanda de comprador, mas de empresa que construa.

Augusto Ivan –  Muitos anos atrás, a cidade estava crescendo, os polos econômicos crescendo, as empresas não querendo ir para a Barra, o Centro com espaços já ocupados. O investimento vai para o Porto, não vai para a Barra, porque as empresas estão no Centro, já que a Petrobras está lá. Então, estão indo para o Porto.  Há legislações de incentivo à moradia, mas o mercado de terra tem uma vontade própria, também. Não há como obrigar.

Juliana – O Maracanã foi reformado para ao Pan, foi reformado para a Copa, e vai passar por uma nova reforma para atender ao padrão olímpico? Por que a obra já não foi feita pensando nisso?

Mario Andrada – Não está prevista reforma no Maracanã, mas ajustes, nada muito grande.

Pedro Strozenberg na mediação entre os debatedores e a plateia / Foto Paula Giolito

Pedro Strozenberg na mediação entre os debatedores e a plateia / Foto Paula Giolito

Pedro Strozenberg – Quais os desafios e incentivos para quem se prepara para disputar as Olimpíadas?

Isabel – A relação de um atleta com os Jogos, quando é brasileiro, é diferente de todos os outros países. Eu estava em Berlim, no início da Copa, e a relação da população com o evento é totalmente diferente, a vida das pessoas não para, nem por isso eles deixam de torcer. O esporte ainda tem um ranço, um peso para os atletas de jogar no próprio país. Para o atleta, jogar uma olimpíada no Brasil vai ser sensacional, mas é preciso ter frieza para não confundir a emoção, e fazer aquilo jogar a favor, não contra. Para o esporte, a Olimpíada é legal, mas não é tão fundamental. Eu torço pelo maior número de medalhas, mas também pra que a gente tenha uma outra visão do esporte, que ajude a construir uma sociedade mais justa.

Flávio Canto – A demagogia do sistema que envolve o esporte é um grande problema.  Exageros à parte, a Alemanha fez um planejamento muito coerente e criou uma metodologia do futebol. No final, os grandes atletas iam treinando e estudando. Isso faz difença. O planejamento foi tão ferrenho, que até o marketing é forte. É genuíno, mas é planejado. Foi a vitória da civilização sobre o improviso e o imediatismo. Lá, os dirigentes não se perpetuam  nos cargos das federações de esporte.

Luis Gustavo, ESPM – Antes de qualquer evento desses, primeiro vem a onda de pessimismo. Foi assim com a Copa, que todo mundo saiu amando. A preocupação é com legado ou com a imagem da cidade? A Baía de Guanabara, por exemplo, o legado é para o carioca ou é para o mundo?

Mario Andrada – A Baía de Guanabara é maior legado ambiental dos Jogos. Todo o esgoto jogado in natura está sendo resolvido, construído um cinturão no entorno da Baía, uma opção para a população jogar o lixo em outro lugar, a discussão em torno da baía é monumental, mas tem uma evolução. Nos Jogos, vai estar bem mais limpa.

Anabela Paiva – Mario, a Copa surpreende – todo mundo esperava um momento de muito confronto –, graças também ao aparato de segurança que foi criado. Em 2015, a previsão é de ano duro economicamente. Como combater uma eventual hashtag ‘#Não vai ter Olimpíada?’

Mário Andrada  – a solução para ‘#não vai ter Olimpíada’ é o diálogo.

O Rio pós-Copa e pré-Olimpíadas

Flávio Canto e Isabel Salgado, na rodada de perguntas da plateia / Foto Paula Giolito

Flávio Canto e Isabel Salgado, na rodada de perguntas da plateia / Foto Paula Giolito

Pedro Strozenberg resumiu os muitos questionamentos que circularam pela plateia: de um lado, a questão dos atletas, e os investimentos necessários no esporte; do outro, a organização os jogos, quem faz, os riscos de as obras não serem concluídas, que tipo de cidade está sendo construída. O Rio acolhe ou segrega seus habitantes?

Augusto Ivan – Não há indícios de que as obras ficarão inconclusas. Deodoro está atrasado, mas estávamos contando com esse atraso. Todas as obras estão licitadas, em muitas delas as construções já estão surgindo. Os projetos estão aprovados, então, não vejo esse como um problema real. A não ser que haja um cataclismo.

Isabel – A relação de um atleta com os Jogos, quando é brasileiro, é diferente de todos os outros países. Para o atleta, jogar uma olimpíada no Brasil vai ser sensacional, mas é preciso ter frieza para não confundir a emoção, e fazer aquilo jogar a favor, não contra. Para o esporte, a Olimpíada é legal, mas não é tão fundamental. Eu torço pelo maior número de medalhas, mas também pra que a gente tenha uma outra visão do esporte, que ajude a construir uma sociedade mais justa.

Flávio Canto – A demagogia do sistema que envolve o esporte é um grande problema.  A Alemanha, por exemplo, fez um planejamento muito coerente e criou uma metodologia do futebol. Isso faz diferença. O planejamento foi tão ferrenho, que até o marketing é forte. É genuíno, mas é planejado. Foi a vitória da civilização sobre o improviso e o imediatismo. Lá, os dirigentes não se perpetuam  nos cargos das federações de esporte.

Marcão Baixada, rapper – Contestando o clima de paz da Copa, vale lembrar que houve inúmeras operações policiais pela cidade. Que impacto as Olimpíadas vão ter na Baixada Fluminense? As obras estão paradas, as vilas olímpicas sucateadas, vai ficar do jeito que está? Qual o interesse do estado em investir no esporte nesses lugares, de investir na base, em categorias infantil e juvenil?

Augusto Ivan – Esse assunto (Jogos Olímpicos) não pode dar conta dos problemas todos da região metropolitana. No plano de candidatura do Rio, não havia nenhuma proposta para aquela região. É outra administração, são outras cidades, outro nível de governo.

Mario Andrada – A Baixada ficará mais acessível. O impacto de médio prazo é o crescimento do emprego e da capacitação (para os voluntários). Não é impacto direto. O projeto de educação é ensinar valores olímpicos de excelência e jogo limpo, que fazem falta na educação de vários adultos.

Depois da Copa e antes das Olimpíadas, o debate no Rio de Encontros / Foto Paula Giolito

Depois da Copa e antes das Olimpíadas, o debate no Rio de Encontros / Foto Paula Giolito

Ana Carolina, aluna da ESPM – As obras nunca vão estar prontas, e sempre tem uma reforma de valor exorbitante.

Augusto Ivan – Sobre corrupção, é preciso especificar quais são os fatos. Quem está corrompendo quem, em que obra, de onde saiu a informação? Para responder tem de haver precisão. Corrupção é um discurso brasileiro, mas é preciso que as coisas sejam nomeadas, não tenho conhecimento de corrupção nas obras olímpicas. É preciso ser honesto nas acusações, também, ou as cosias ficam vagando no ar e a gente fica repetindo clichês.

Graciela Hopstein, Instituto Rio – Não é uma pergunta, mas uma provocação. Ouvi de vocês coisas difusas sobre legados. Sinto falta de uma política mais sistêmica, que coloque o legado no âmbito dos direitos, no acesso à democratização da cidade. Para pensar nesse legado, tem de se pensar numa política mais orgânica, uma política de esporte, assim como há uma política de cultura.

Mario Andrada – O que o poder público tem de fazer é gerenciar e aplicar a lei para questões clássicas de corrupção. Quanto mais o governo dialogar, melhor. O esporte é direito privado pela Constituição. A sociedade que cobre dos governos e dos clubes a aplicação da lei.  O legado é uma obrigação e está sendo feito, falta comunicar que esse legado existe. É preciso que seja claro para todos onde estão e quais são.

Isabel – Esses grandes eventos têm desdobramentos em todos os setores da sociedade.  Na Olimpíada de Moscou, eu entendi que eles esvaziaram a cidade, a população local não estava toda lá. Quando começava a juntar um grupinho, vinha um policial e dispersava. Acredito que isso aconteceu aqui. Até onde a gente vai para ter uma Olimpíada, uma Copa, até onde a gente pode ceder? A gente não tem resposta que satisfaça. Acho que os diálogos deveriam acontecer mais. Seria bacana se a gente falasse e pudesse dialogar com o Comitê Olímpico, com a  prefeitura.

Flávio Canto  – A gente incorpora clichês, como o de que o atleta brasileiro é um herói. O Reação Olímpica tem 200 atletas. Hoje, a confederação de judô é muito rica, tem financiado viagens para todos os atletas, desde a base, e vem crescendo a cada olimpíada, a cada mundial. E o objetivo é aumentar o número de medalhas, foram quatro nas últimas olimpíadas. Hoje, um atleta da seleção tem os patrocínios privados e tem o salário. Dependendo da colocação dele, essa remuneração pode chegar a R$ 15 mil. O atleta de ponta tem acompanhamento muito especial. O COB faz mapeamento de todos os atletas com potencial de medalha e faz o acompanhamento desse atleta, inclusive em ajuda de custo.

João Vitor, ESPM – Até quando os morros vão ficar pacificados? Acabou a Copa e, na Tijuca, só se ouve ‘pega ladrão, pega ladrão’. O que aconteceu foi um show. A cidade foi pacificada e depois voltou ao que era antes.

Flávio Canto – A indignação faz parte, mas acredito na força que a gente tem, e subestima, que é juntar um grupo de amigos e fazer as cosias que têm de ser feitas. E não somente esperar. A gente precisa formar campeões porque precisa de exemplos para os mais novos. Hoje, o discurso é muito mais alcançável. Via Reação, temos 50 atletas que recebem bolsa, 40 funcionários, polos espalhados. A maior parte dos projetos é de temporada, mas o surgimento de atletas oriundos de projetos sociais é um movimento visível.

Ana Carolina, aluna da ESPM – E o voluntariado? Funcionou em Londres, mas comparamos com Primeiro Mundo. Por que não formamos os voluntários?

Mario Andrada – Os voluntários têm de ser de primeiro mundo em qualquer lugar. A gente precisa tanto de médicos quanto de almoxarifes. Fazer parte dos jogos e daquele momento da cidade é um projeto para todos.  Os organizadores têm de dar condições para que todos possam ser voluntários. O pré-requisito é se inscrever.

Isabel – O esporte tem um vôlei hoje muito forte, mas têm modalidades que ainda não têm eco na imprensa. A gente mudou, e isso se traduz quando você diz em casa que quer ser atleta e vê a reação da família. A gente hoje tem uma cara que antes não tinha, se orgulha. Todos sabem que aquilo tem possibilidade de subsistência, tem dignidade.

Uma pergunta puxa outra, mas era preciso encerrar o evento. Nas palavras do mediador, Pedro Strozenberg, a preocupação é menos o durante o evento. “O desafio é o pré, e o desejo é o pós. A gente tem dois anos para dar a virada. O sentimento majoritário é de que Olimpíada vai acontecer em nossa cidade e a gente é convidado para ela. Mas ela precisa ganhar uma identidade que seja carioca. Que pareça Londres, por seus bons resultados, mas que tenha alma e a marca do Rio de Janeiro”, disse ele, deixando o convite aberto para uma nova rodada.