Quem forma opiniäo

O antropólogo Cláudio Gama, diretor do Instituto Mapear  / Foto: Paula Giolito

O antropólogo Cláudio Gama, diretor do Instituto Mapear / Foto: Paula Giolito

Com a deixa dada por Alexandre Rodrigues, o antropólogo Cláudio Gama, diretor do Instituto Mapear e com vasta experiência em pesquisas qualitativas e quantitativas, realçou que há uma mudança em curso. Desde que a internet virou espaço fértil para a proliferação veloz de informações, e trouxe mais transparência ao processo eleitoral, falar de eleição, para frente, nunca foi tarefa tão difícil.

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A comparação é inevitável: “Antes, você tinha uma formação de redes por telefonema. As pessoas que queriam se manifestar começavam ligando para um, depois para dois, depois para outros dois e dali se chegava a uma manifestação em determinado local sobre determinado tema ou a uma discussão sobre aquilo. Agora, é claro que a gente tem um instrumento muito mais rápido, muito mais eficaz”, avaliou ele, ponderado, e sem arriscar taxar uma opinião sobre para onde caminha o processo eleitoral.

O que se tem são tendências, Cláudio Gama pontuou, reconhecendo, no entanto, que há uma transformação drástica em curso. As classes mais altas, demonstram as pesquisas qualitativas, se distanciaram da política. A ‘classe mais baixa’, ou ‘classe não-rica’, por sua vez,  já não se comporta politicamente como antes. “A política passa a interessar, na medida em que afeta o cotidiano dessas pessoas. Esse é um movimento que muito tem a ver com o Lula, pela identificação que gerou o ‘um de nós’ no poder”, afirmou.

O perfil do formador de opinião agora é outro. “Antes, formador de opinião era morador da Zona Sul de classe mais alta. Isso mudou. Na música, na moda, na política. E as redes sociais têm um papel nesse processo”, disse.

O que parece bom, como a participação mais efetiva de quem está mais embaixo na pirâmide social, gera, no entanto, alguns impasses. “Eu tenho certo receio do que a gente pode chamar de uma ‘zonasulização’ do voto”. Trocando em miúdos, significa que o morador da Zona Sul, que se autodeclara politizado e critica o voto de cabresto, também não sabe como vota.

“Pelo que percebo, as discussões nas classes médias da Zona Sul são vazias. Não se busca informação sobre o que é feito ou não. É a crítica pela crítica.”​​​

As pesquisas qualitativas demonstram ainda, independentemente dos resultados de eleições, que o eleitor tem considerado muito mais amiúde o voto nulo. “Ele pode não votar nulo, pode escolher um candidato, mas tem pensado mais sobre essa opção. Tem uma insatisfação, um cansaço desse modelo. Então, vai voltar a Zona Sul a ser formadora de opinião, pelo distanciamento? O que me preocupa é o final a que movimentos levarão. A uma despolitização? A um afastamento da política, ou apenas um afastamento desse modelo de política?”, o antropólogo deixou a questão em aberto.