A cor do carioca segundo a plateia

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Simone, Amauri, Dudu e Ilana. Foto Paula Giolito

Dez minutos para cada debatedor, tempo suficiente para que a plateia, já fervorosa, se manifestasse. Lugar de fala, essencialmente, o Rio de Encontros seguiu com duas rodadas de debate.

Adany Lima, Projeto Movimentos – Foi falado aqui, que o negro está na moda. O branco está usando o negro para se promover nesse processo, ou isso faz parte dessa nova sociedade, do novo antirracismo? Sobre o Cais do Valongo, acho que o prefeito se aproveitou daquela situação sobre a construção para promover sua imagem e atrair mais eleitores.

Amauri Mendes – Sobre o branco usar o negro para se promover é exatamente o que o prefeito está fazendo no Valongo. Quando se descobriu o cais, se tentou encontrar um modo de faturar em cima desse fato. Mas não dá para segurar a história da cultura, eles pensam que vão segurar, mas não conseguirão. Há um esforço de segregação, sim, mas nunca conseguirão nos deter. O Brasil foi o último país a eliminar o comércio da escravidão. Mais da metade da população negra mundial foi transportada para cá, esse é o país que recebeu o maior número de escravos e é o único em que a luta contra ela foi travada em todo o seu território. Nesse sentido, somos diferentes de qualquer outro lugar.

Simone Vassalo – Só quero enfatizar alguns pontos para engrossar esse caldo. Respondendo ao Adany, concordo: acho que tem uma perspectiva eleitoral que é central. Inclusive, a atitude do prefeito em relação a toda essa memória afrodescendente mudou antes e depois da eleição. Foi um divisor de águas. A gente tem que pensar mais sobre essa questão da etnia e da cor. Por exemplo, o que mais está sendo valorizado no Valongo? As práticas afro como o samba são, de certa maneira, valorizadas pela prefeitura, mas é somente o negro do passado que está sendo cultuado, não o do presente. Por exemplo, uma liderança negra do Morro da Providência se queixa do próprio movimento negro dizendo: “enquanto a gente está aqui sendo removido, com inúmeras casas marcadas para remoção, o movimento negro está lá embaixo lutando pelo Cais do Valongo”.

Nathália Leal, ESPM- Dudu, são iniciativas como a sua que fazem a gente ter orgulho de ser negro. Na Penha e no Complexo do Alemão, todos os terreiros e religiões afrodescendentes estão sendo excluídos por traficantes. O que você sente diante desse paradoxo: por um lado o orgulho de ser negro, por outro, o fato da gente não poder se expressar com as religiões afrodescendentes?

Dudu do Morro Agudo – Em algumas comunidades do Rio de Janeiro, os traficantes se converteram ao Evangelho, ficaram intolerantes e começaram a fechar os terreiros e a expulsar os pais e mãe de santo. Temos vivido um momento em que as religiões africanas são demonizadas pela sociedade. A prefeitura de Nova Iguaçu fez uma pesquisa para saber quantos jovens faziam parte das religiões de matrizes africanas e constatou que a grande maioria dos jovens que pertenciam a elas não revelavam esse fato, por medo de serem discriminados. Minha avó é evangélica, minha tia é candomblecista, minha é sogra kardecista, meu pai era ateu, mas, depois de uma doença braba, virou religioso e todo mundo se respeita. Isso é o que falta à sociedade. O marco zero é o respeito por tudo.

Amauri Mendes – Os terreiros são a lógica da vida, e os traficantes são a lógica da morte. É evidente que esses últimos vão bater de frente e expulsar os primeiros, e eles não terão mais espaço. Porque onde há consumismo e individualismo até mesmo os supernegros e supernegras da favela olharão de modo torto para eles.

Fernando Cock, Agência de Redes para Juventude – Complementando a pergunta do Adany, o que você acha dos brancos se apoderarem da musicalidade negra para enriquecer? Um exemplo é a cantora Anitta.

Dudu do Morro Agudo – Existem coisas que não têm jeito, se você prega a igualdade vai ensinar a música e querer que o máximo de pessoas participem. O mercado é outra coisa. O samba passou por isso, quem fazia samba era considerado bandido e, hoje em dia, quem não nasceu no morro também faz samba. Isso é o mercado e a Anitta é um produto dele, assim como vários outros artistas. Do meu ponto de vista isso faz parte de um processo e eu consigo separar: faço música e hip-hop, que é muito mais que música, é uma vivência diária. Mas tem muitos caras dentro do hip-hop tocando no rádio que não fazem ideia do que seja o hip-hop.

Gilmara Moreira, Rio de Encontros – Dudu e Amauri, eu sou a primeira pessoa da minha família a chegar à Universidade. Como vocês encaram a questão das cotas? Como compensação ou como algo que pode ser excludente?

Dudu do Morro Agudo – Vamos supor que no Brasil, metade do povo é preto e metade é branco. Quantos médicos pretos você conhece? Se demorar mais de três segundos para responder, tem que ter cota. (aplausos)

Amauri Mendes – Tudo tem cotas nesse país, sempre teve. Os imigrantes tiveram cotas de favorecimento. A filha do Ernesto Geisel, Amália Luci Geisel, escreveu um livro contando a história da família, no qual mostra que eles tiveram esse tipo de cota. Eles receberam dois troncos de árvores e outras vantagens, como sementes, ferramentas e um pedaço de terra quando se instalaram no Sul. Mas para que negros e seus descendentes ascendessem não teve cota. Aliás, teve cota ao contrário. Tudo foi impedido e enterrado.Todas as suas lutas e sua vida no início do século XX foram enterradas.

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Representantes da Agência Rede de Jovens para Juventude. Foto Paula Giolito

Igor Oliveira, JOCUM – Os movimentos negros estão abandonando sua essência?

Amauri Mendes – O movimento não tem mesmo uma essência, felizmente. O movimento negro deu certo porque tinha um centro gerador. O Instituto de Pesquisa das Culturas Negras (IPCN) foi uma instituição a que todos recorriam, foi a única instituição que conseguiu uma sede própria nos anos 1970. Ficava no Centro da Cidade e o pau comia  ali. Tudo o que foi feito pelo movimento negro ao longo de trinta e tantos anos foi feito coletivamente. Por isso era forte.

Simone Vassallo – Um colega italiano que faz uma pesquisa muito parecida com a minha na Região Portuária percebeu que a maioria dos terreiros que existiam ali eram de umbanda, não de candomblé. Como é que, agora, o que a gente tem no processo de valorização do circuito de herança africana são essas Ialorixás ligadas à religião africana no sentido mais tradicional, que incorporam mais profundamente a religião? É claro que a gente sabe como a questão da pureza do candomblé vai se construindo historicamente no Brasil, mas, na prática, eu não consegui responder detalhadamente o porquê da questão da umbanda ter se tornado invisível.

Cleissa Martins, Agência de Redes para Juventude – Dudu, qual a visão que o hip-hop tem dessa coisa de o negro estar na moda? Amauri, ainda não é fácil usar o black, como podemos levar a nossa cor mesmo que usemos cabelo alisado?

Dudu do Morro Agudo – A esposa de um amigo meu reclamou do preconceito que sofria por ter dreads no cabelo e ele respondeu: “alisa o seu cabelo e se enquadra, o seu problema será resolvido”. Se você escolheu ser do hip-hop, tem de enfrentar os olhares diferentes, é uma postura que se assume.

Amauri Mendes – Prejuízos simbólicos são possíveis de negociar, porque a nossa lógica é a do consumismo e do individualismo. Está tudo bem se eu posso usar esse cabelão, mas não resolve. Esse processo de construção de identidade é fundamental, mas é pouco, e tudo hoje é muito veloz. Tudo é muito pouco.

Simone Vassallo – São questões muito complexas que perpassam todo o debate sobre a Região Portuária. Outro grupo muito discriminado e invisibilizado naquela região são os nordestinos. Ali é um lugar de imigração nordestina muito forte nas últimas décadas, e essa herança não é valorizada no movimento de evidenciação das histórias do local. Ainda faltam projetos relacionados ao funk e hip-hop.

Atitude dread

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Jovens parceiros do Rio de Encontros. Foto Paula Giolito

A última rodada do debate sobre A Cor do Carioca adquiriu um tom mais reflexivo do que interrogador. Sob o efeito da fala dos provocadores Amauri Mendes, Simone Vassallo e Dudu do Morro Agudo, os ouvintes fizeram muitos comentários sobre a atitude e o comportamento do negro e sua autoconsciência.

Ana Lucia Costa, Rádio Katana– A questão do negro na televisão é aquela história do “bem bolado”, tem um negro bem e outro, bolado. Eu acho que negro é mais uma questão de atitude do que de simbolismo. Se o negro quer usar prancha não tem problema, desde que ele tome a atitude certa quando necessário.

Anabela Paiva, O Instituto – Todos estão refletindo muito sobre a questão do visual: roupa, cabelo e cor. O negro está mesmo na moda, você vai a restaurantes chiques e quem está ali para te receber são jovens negros bonitos com atitude bem black. Mas dentro do restaurante só tem branco. Acho que a estratégia de incorporar uma personagem, como as roupas características do malandro, é algo que beneficia quem tem uma maneira de se posicionar no mundo.

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Nathália Leal. Foto Paula Giolito

Luis Gustavo Soares, ESPM – Quero deixar claro que o racismo existe na nossa sociedade. Estava no táxi outro dia com meu pai e minha namorada, que são brancos – eu saí pardo porque minha mãe é negra – e um policial nos parou numa blitz. Ele logo perguntou ao meu pais “esse moço que está aí atrás é namorado da sua filha?”

Aline Marinho, ESPM – Eu me questiono muito sobre a vitimização do negro, acho que a escola, como espaço de formação do sujeito, tem que fazer sua parte. Na minha primeira aula na universidade, a professora perguntou qual é a minha cor. Respondi que depende de onde eu esteja: no asfalto sou negra, na favela sou parda. Por isso acho que a questão vai muito além da cor. Tudo depende de como você se comporta e interage no seu ambiente.

Dudu do Morro Agudo – Quando prego igualdade, prego para todo mundo. É o meu sonho de mundo ideal. Só que o mundo real é diferente. O negro tende a se vitimizar porque aceita a condição que a sociedade impõe a ele.

Amauri Mendes – Não há mordaça e bloqueios em todo lugar. Não há também uma malícia de criar o racismo a todo o momento. Mas o racismo tem uma margem de manobra muito ampla. As chaves do racismo, dos valores, do consumismo e do individualismo andam juntas para formatar o mundo em que vivemos e nos fazer achar que só pode ser assim. Mas pode ser diferente. Como ajudar a modificar? Começando por nós mesmos.