A cidade ideal

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Pedro Rivera. Foto Paula Giolito

Do inconsciente para o espaço concreto. Segundo a dialogar com a plateia, o arquiteto Pedro Rivera partiu do adensamento populacional das metrópoles nas últimas décadas para demonstrar a vultosa capacidade de agregação das cidades e apontar, por sua vez, a necessidade de transformar suas estruturas complexas, difíceis e incontroladas com seriedade. Segundo ele, há uma forte e inconteste crise gerada pelo desconforto, a violência e o descontrole.

“Tenho pensado intensamente na dimensão do espaço que a cidade global ocupa e no que se transformou nos últimos anos. O que chamam de cidade moderna está em crise, porque para que fosse escalada a uma rede de cidade global passou-se por cima de uma série de especificidades, produziram uma certa pasteurização, uma homogeneização de diversos códigos para que todo mundo pudesse conversar. E o resultado foi a crise”, disse.

A cidade ideal, pontuou Rivera, existe, ainda que no campo das ideias. É aquela capaz de produzir um sentimento de domesticidade, de acolhimento, de pertencimento ao território, de proteção.

“Para pensar o futuro da cidade é importante considerar aonde a gente quer chegar e que tipo de transformação queremos. Todos nós sabemos como o espaço vem sendo cerceado, mesmo os mais jovens (apontando para a plateia) aqui experimentaram ao longo da sua vida uma diminuição da possibilidade do uso do espaço público. A cidade se tornou mais violenta e mais fortificada. Muitas barreiras, sejam mentais, sejam físicas, foram construídas e ela está cada vez mais subdividida”, afirmou ele. O grande desafio, de acordo com o arquiteto, é ultrapassar as barreiras interpostas para produzir outros modelos de convívio.

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Um Rio mais gentil

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Beatriz Jaguaribe, Pedro Rivera, Vitor Pordeus. Foto Paula Giolito

O Rio de Janeiro não foge à regra, mas carrega sua particularidade. Por conta do seu território ímpar, há uma superposição do que é considerado centro e o que é periferia, assegura Pedro Rivera. Contextualizar e dar conceitos, portanto, é importante:

“Em termos estritamente urbanísticos, o centro da cidade é onde ela está fundada e se desenvolve, e a periferia é tudo aquilo que se produziu depois, orbitando em volta desse centro”, explicou.

Usando como referência o arquiteto e teórico Rem Koolhaas, mais especificamente o texto Cidade Genérica, Pedro Rivera esmiuçou as consequências da constante valorização dos centros em detrimento das periferias:

“No momento em que as cidades explodem de tamanho, as periferias não são mais conectadas aos centros. E a gente continua advogando a ideia de centralidade. É preciso repensar essa relação. Mas no Rio de Janeiro, em particular, existem esses dois territórios sobrepostos em um território único, e essa é a condição particular de onde surge a nossa cultura”, disse ele, acentuando que a potência urbana do Rio existe a partir dessa sobreposição entre centro e periferia.

Trata-se de uma sobreposição perversa, uma vez que produz a desigualdade social, mas construtiva, já que também produz uma proximidade rica no aspecto cultural.

“Estar no espaço público significa estar perante os demais, significa necessidade de negociar com as outras pessoas permanentemente. Temos uma legislação celebrada e muito moderna no Brasil chamada O Estatuto da Cidade, que basicamente defende a função social da propriedade urbana, o que significa que todo o território, não importando se pertence à dimensão pública ou privada, tem o dever de servir ao coletivo da cidade”, ressaltou.

Além da dimensão política, é preciso considerar um aspecto mais sutil, mas igualmente importante: o nosso corpo no espaço, o que o arquiteto fez questão de enfatizar como prioridade:

“Estou falando de uma dimensão sensorial da cidade, da textura, do cheiro, da temperatura. Como o nosso corpo se relaciona com esse espaço? A aspereza e a sensação tátil do espaço. Devíamos ter a ambição de produzir uma cidade onde fosse possível caminhar descalço, uma cidade gentil e generosa”, finalizou.