O espaço da loucura e o ritual da rua

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Público do Rio de Encontros 28/10/2014. Foto Paula Giolito

Um arquiteto, uma professora, um psiquiatra e ator e uma plateia engajada na busca por soluções que ajudem a melhorar a cidade produziram um dos debates mais impactantes do Rio de Encontros em 2014. Realizado no dia dia 28 de outubro, na Casa do Saber, com o tema “Ocupações do espaço público, cultura e política na cidade”, e penúltima edição do projeto revelou cidadãos interessados em pensar formas de transformar a cidade em um ambiente mais acolhedor e comprometido com a cultura e as necessidades da população. Há sensibilidade visível, além de disposição para execução efetiva de projetos que tornem o espaço público mais habitável e alegre.

Foram convidados, para iniciar a conversa, a doutora em Literatura Comparada e professora da Escola de Comunicação da UFRJ Beatriz Jaguaribe; o arquiteto e diretor do Studio-X Rio Pedro Rivera; e o médico, ator, psiquiatra cultural e pesquisador Vitor Pordeus, que é também fundador do Hotel Spa da Loucura no Hospital Psiquiátrico Nise da Silveira.

Responsável pelo desenvolvimento e gerenciamento de projetos d’O Instituto, Teresa Guilhon apresentou as perguntas previamente formuladas para orientar o assunto: existe uma crise no modelo de cidade moderna? É possível dizer que estamos retomando ruas, praças e outros espaços, como os manicômios, enquanto lugar da política? Essas ações apontam caminhos para uma cidade mais democrática? Qual o papel da cultura nesse processo? Os convidados trataram de responder, cada um em seu tempo, a cada uma das questões.

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O lugar do inconsciente coletivo

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Vitor Pordeus. Foto Paula Giolito

Primeiro na ordem de fala, Vitor Pordeus optou por contar sua experiência com o trabalho desenvolvido nos espaços públicos. Ele coordena o grupo de teatro composto por internos do Instituto Municipal Nise da Silveira, antigo Hospício do Engenho de Dentro, que se apresenta em vários pontos do Rio de Janeiro e do Brasil, e o bloco Loucura Suburbana, que faz parte da agenda do Carnaval carioca. O Hotel da Loucura existe há quase três anos, mas o trabalho de Pordeus, que se autodefine como ator de rua, um artista do espaço público, já dura oito anos nas ruas.

“Estar na rua tem sido uma experiência muito forte e profunda. Existem forças inconscientes que se manifestam e criam um ritual ali: moradores de rua, uma série de entidades e doentes mentais graves com quem lidamos todo tempo. Foi assim que fui chegando à ideia de que o espaço público é o inconsciente coletivo. Quando você entra nele e se depara com a energia de outras pessoas, aquele espaço se torna canal de diálogo onde o morador de rua que vai cantar, vai dançar e vai falar coisas que nos farão identificar as evoluções e manifestações”, relatou o médico.

Para Vitor Pordeus, é no espaço público que a comunidade se manifesta. E se essas manifestações têm sido cada vez mais violentas a razão está em forças sóbrias existentes no lugar. O exemplo do que ele fala está nas comunidades ocupadas por milícias, traficantes, polícia e exército, lugares onde a violência é banalizada e executada como forma de combate.

“Quando nós saímos às ruas para fazer arte pública, a chamada arte de todos os tempos, que os gregos, Shakespeare, Molière, Garcia Lorca e todos os grandes homens do teatro na história faziam, manifestamos as forças da comunidade, vemos o que está ali, quais são os fantasmas, quais são os demônios, quais são as histórias. Nós, no papel de executores desse trabalho de ritualidade cultural e humana, somos capazes de modular essas forças”, afirmou ele, considerando que essa é a boa notícia.

Para todo mal, a poesia

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Beatriz Jaguaribe, Pedro Rivera e Vitor Pordeus. Foto Paula Giolito

Nas ruas, a equipe do psiquiatra e ator Vitor Pordeus, assume a tarefa de promover a restauração do espaço público como espaço de cultura, de identidade e de memória da comunidade, o que ele descreve como forças que traduzem a nossa natureza mais profunda, a nossa ancestralidade.

“Essa é a cura. O espaço público não é para ser ocupado pelos milicianos, nem pela polícia e nem pelo exército. É para ser ocupado pela cura, pela ideia de que estamos aqui nos trabalhando para melhorar nossa saúde, para melhorar nossa existência na Terra, para tornar nossa existência menos cansativa”, ressaltou ele.

A poesia, segundo ele, pode ser emblemática. Tanto que ele aproveitou a oportunidade e a fala para declamar – com emoção –, o poema de Carlos Drummond de Andrade, “Elegia 1938”. “Estamos numa fase histórica, num momento de transição e uma nova era está entrando, a era do presente, da vida”, disse ele, em seguida. Drummond, por sua vez, tem o que pode ser considerado o contraponto do primeiro poema. Está no terno “Mãos Dadas”.

“Essa poesia ajuda a mediar o diálogo. Nós somos capazes de transformar o mundo e transformar a nós mesmos, desde que sejamos capazes de nos apropriarmos das nossas tradições, do saber daqueles que viveram antes de nós. Nós somos uma multidão. Nós somos um espaço coletivo, nunca fomos indivíduos. Nascemos juntos, crescemos juntos, adoecemos e nos curamos juntos. Todos os fenômenos importantes são fenômenos do espaço público, do espaço comum, do diálogo e da cooperação”, finalizou.

A cultura e o espaço público na voz da plateia

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Público do Rio de Encontros. Foto Paula Giolito

Tradicionalmente, o formato do Rio de Encontros prioriza a fala dos convidados e também da plateia. Mais que perguntas e respostas, o que seguiu foi uma troca de ideias e experiências entre quem vive na cidade, pensa sobre o espaço e trabalha para que o território seja democrático e humano. Cotidianamente.

Rita Fernandes (Bloco Sebastiana e Coluna Pelas Ruas) – Escrevo “Pelas Ruas”, uma coluna publicada pelo jornal O Dia, porque eu me dei conta de que a cultura vai muito além do que a gente pensa e do que a mídia mostra. O nosso leitor quer o coletivo de Realengo, quer saber quem está fazendo cultura fora desse eixo da Zona Sul, porque falar dos teatros e artistas que a gente conhece é muito fácil, o difícil é abrir nossos horizontes para falar daquilo que está sendo feito além das fronteiras. Eu preciso pertencer a alguma coisa que vá além da minha fronteira, senão fico muito aprisionado por aquilo que me cerceia. Não há lugar melhor para a cultura de rua que o Rio de Janeiro, o Rio é rua.

Victor Rodrigues (Honório Gurgel Coletivo) – Pedro e Beatriz, qual é a responsabilidade da arquitetura para o modelo de sociedade que a gente tem hoje? Em Honório Gurgel, a gente utiliza botequim para fazer sarau e uma série de coisas. Essa cultura local também precisa ser reconhecida.

Pedro Rivera – Eu acredito que as cidades são a maior invenção do homem. São, inclusive, a nossa maior invenção cultural, porque dentro da cidade está tudo. Todas as nossas expressões cabem e são suportadas pela cidade e houve um momento em que a arquitetura soube, de certa forma, se dedicar de uma maneira muito potente a imaginar o homem e seu espaço. Mas ela caiu na armadilha de achar que poderia produzir um novo homem. Essa foi a grande crise da arquitetura da qual não saiu até hoje, não conseguiu se colocar direito em nenhum campo. É uma loucura achar que a arquitetura tem a capacidade de repensar de uma maneira tão profunda as instituições culturais, as tradições etc. Por outro lado, ela é inerte e completamente incapaz de se impor dentro de um cenário político. Um exemplo: nas políticas do Ministério da Cultura não existe uma linha dedicada à arquitetura, a não ser que seja patrimônio histórico, porque aí não se pensa nela como arquitetura e sim como patrimônio. A gente não considera a importância da dimensão cultural que a arquitetura pode produzir enquanto urbanismo, em espaço mais generoso e mais aberto. Isso é completamente condicionado pelas determinantes do mercado.

Teresa Guilhon – Estamos falando muito sobre a cidade moderna, o Hospital Psiquiátrico Nise da Silveira é um notável equipamento modernista. É um espaço imenso, imponente e faz parte desse paradigma.

Pedro Rivera – É engraçado, mas existe uma distância muito grande entre o que se produziu na arquitetura e no urbanismo moderno. A intenção dos conceituadores da arquitetura do mundo moderno era a intenção do homem generoso, em Brasília as quadras eram para todas as classes sociais viverem juntas, mas esse modelo era tão fora da realidade que não se conseguiu implantar.

Edmar Junior de Oliveira (Hotel Spa da Loucura) – Acho que os lugares têm que ser apropriados, não dá mais para ter essa padronização estética que gera preconceito, indiferença e discriminação. A cultura tem que ser um espaço de direito que gera autonomia, um espaço que gera entendimento do outro. Temos que assumir nosso lugar de direito, não só no Hotel da Loucura, mas em todos os lugares.

Beatriz Jaguaribe – A gente demoniza muito Brasília, a cidade que não tem esquina e possui toda aquela monumentalidade, mas, ao mesmo tempo, aquela foi uma grande utopia. A ideia do superbloco era exatamente uma ideia de igualitarismo. A ironia é que esse superbloco veio a se repetir em todas as cidades brasileiras, mas não de uma forma aberta, comunitária e igualitária. Ele veio a se repetir como condomínio fechado. A Barra da Tijuca é um lote de superbloco de condomínio fechado, uma arquitetura de medo. Então, não é o desenho que vai trazer o uso social adequado. Perdemos a capacidade projetiva de imaginar a cidade com um certo sentido, porque não temos mais uma boa capacidade de leitura.

Marcão Baixada (Rapper) – Hoje em dia acontece uma coisa interessante, que é o Estado se apropriar das iniciativas da rua. Existe um cineclube em Nova Iguaçu, o Buraco do Getúlio, que sempre buscou apoio da Secretaria de Cultura, mas encontrava barreiras. Agora a Casa de Cultura de Nova Iguaçu criou um espaço onde o Cineclube Buraco do Getúlio era realizado nas gestões de cultura anteriores à atual.

Beatriz Jaguaribe – A cultura está sendo inventada de uma forma vital em muitos lugares e claro que existe a força de apropriação do Estado. Eu gosto muito do livro Guia Afetivo da Periferia, do Marcus Vinicius Faustini, porque ele tem uma ideia de invenção cultural própria ao mesmo tempo em que vai caminhar pela cidade e vai se apropriar do que dá vontade. O teu lugar de pertencimento tem que ser sua força e sua base, mas você tem que falar de tudo, tem que ter direito à cidade e caminhar por tudo.

O mundo é um palco

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Plateia do Rio de Encontros. Foto Paula Giolito

Victor Rodrigues (Honório Gurgel Coletivo) – Vitor, como atores sociais o que a gente pode fazer para a população entrar nos nossos lugares de ação?

Vitor Pordeus – Quem responder a essa pergunta ganha 20 milhões de dólares (risos). Como fazer a pessoa ter orgulho do seu território e utilizá-lo? Eu acho dificílimo trabalhar dentro de um hospital psiquiátrico onde o estigma da loucura é uma barreira. Mas nesse caso, o fenômeno que temos que debater é o da alienação cultural. Por exemplo, no hospício nós fazemos cortejo, outro dia uma enfermeira passou por nós e reclamou, então baixamos o som e tentamos incomodar o mínimo possível. Então pensei: se fosse uma celebridade, será que ela também ficaria com raiva? Não. O nosso povo não tem espelho, não tem uma imagem de si próprio, 90% do cinema brasileiro é americanizado e nós queremos mostrar que temos identidade, temos um passado, temos ancestralidade. A doença mental está ligada à falta de raízes, de memória de si próprio. Conseguir reverter esse processo é dificílimo, mas nossa produção no Hotel da Loucura tem conseguido ser bem sucedida no teatro e no cinema, fazemos tudo na colaboração e o resultado são trabalhos memoráveis. Shakespeare fala que o mundo é um palco, todo ser humano é ator e nós somos feitos da matéria que os sonhos são feitos. Eu procuro fazer com que a gente se aproprie disso. Temos muitas famílias com histórico de doenças psiquiátricas, mas o pior disso é que os membros dessas famílias não dialogam, vão acumulando ódio e raiva e de repente alguém surta. Dialogar significa ativar neurônios que ajudam a se reconhecer no outro e entrar em contato com as suas verdades. Cada coletividade precisa fazer isso e o teatro e o cinema ajudam bastante. Acho que qualquer estratégia que queira ser bem sucedida no campo do empreendimento cultural comunitário tem que incluir teatro e cinema. Tudo é Dionísio, o deus da loucura do teatro e do vinho. Vamos dançar e cantar, a gente é bom nisso.

Ana Claudia Souza – A primeira vez que visitei o Hotel da Loucura, eu achei uma loucura porque eu não sabia quem era louco e quem não era. Isso me fez imaginar o que eles também estavam pensando de mim. Na segunda vez, fui lá para assistir a um filme e foi muito bacana, porque todo mundo estava lá: internos, equipe médica e demais. E a terceira vez foi ainda mais interessante, porque fui apresentar um filme que fiz em Honório Gurgel, lugar que eu também morei e que tem uma invenção utópica de um espaço público coletivo bem interessante criado a partir de um muro que separou a rua da linha férrea e se tornou um espaço de criação. Outro dia, um amigo me levou para ver o teto verde que fez em sua casa no Arará e eu pude notar que o verde sumiu da favela, foi substituído pelo azul da caixa d’água e pelo cinza das antenas. Mas em Honório Gurgel, os moradores fizeram um mutirão para cuidar do lugar, que hoje tem uma área arborizada num espaço verde enorme, o que é o resultado de uma utopia. Quando ando por ali acho linda a forma que as pessoas cuidam das suas calçadas e acho que essa é uma dimensão da cidade do Rio de Janeiro. Cuidar da cidade implica em cuidar da calçada que a gente pisa (emociona-se).

Pedro Rivera – O exemplo da Ana Claudia sobre Honório Gurgel prova de que maneira a gente entende que a cidade é uma extensão do nosso corpo. Cada sociedade entende isso de uma maneira diferente e a nossa maneira é muito precária. Nós, brasileiros, somos extremamente egoístas. Não entendemos o que é preciso compartilhar. A gente precisa reformar a legislação urbana, essa é a questão crucial. A nossa legislação é caquética, elaborada no período da modernidade, com uma série de arremedos depois disso. O que está se fazendo na expansão da cidade para as Vargens é absolutamente criminoso, são apenas fragmentos, não se constrói mais o todo e são as próximas gerações que vão lidar com essa bomba, porque não existe prosperidade econômica que seja capaz de sustentar uma cidade produzida dessa maneira. Não dá para instalar serviço de transporte, não dá para elevar energia elétrica e água, não dá para levar escola e cultura numa cidade que é totalmente espalhada pelo território.

Vitor Pordeus – Como ator, eu penso em como agradar o público o tempo inteiro. O que faço todo dia é treinar o ator, porque a capacidade de se comunicar está ligada a capacidade de organizar o nosso discurso. Ele tem que ser edificante, contundente e precisa se espalhar como um discurso viral e infeccioso. Podemos refletir a questão do ritual nesse sentido. Quais são os rituais públicos e que ritual estamos fazendo? Uma coisa pouquíssimo estudada é a democracia enquanto ritual, o que já se fazia na Grécia Antiga. Imagino que uma maneira de alcançar as pessoas é a gente se dedicar a esses rituais, a gente tem evidências de que o ser humano canta e dança muito antes da linguagem, a poesia antecede a linguagem escrita a brincadeira está tanto em homens, quanto em animais. Precisamos nos debruçar nesses rituais, cantar nossa história, cantar nosso mundo e pesquisar rituais que nos aproximam da nossa ancestralidade e nos comunicam com os mortos. Acho que cada comunidade devia ter as suas manifestações culturais, um teatro, um espaço de cultura. A nossa Universidade Popular de Arte e Ciência iniciada em 2010, que culminou no Hotel da Loucura é democracia direta. Lá não votamos nada. A gente senta, discute, briga, surta e contém, debatendo assuntos coletivos até chegar ao consenso. Isso é um ritual.

Cerceamento versus ritual

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Julia Michaels. Foto Paula Giolito

A discussão tomou o enfoque das construções impensadas, que desconsideram o convívio social e a diversidade cultural. Adquiriu tons reflexivos sobre a violência urbana e suas causas ligadas ao flagelo da população nos transportes públicos

Julia Michaels (Rio Real Blog) – Eu ainda estou sob o impacto de ter visitado o lançamento do empreendimento imobiliário Ilha Pura, na Barra. Numa certa hora perguntei para as pessoas que estavam lá – que eram milhares de corretores e de jovens famílias procurando pela segurança, pelo verde, sustentabilidade e tudo mais –, e a diversidade cultural? O cara não entendeu a pergunta. Ele falou de shopping, falou de cinema, falou da universidade das artes e da grande variedade de ações culturais que têm ali. O choque que eu tive foi de perceber que quem mora numa bolha sou eu, porque eu não penso nas pessoas que gostam daquilo e essas são justamente as pessoas que estão vendo TV e assistem a todos os filmes americanos no cinema. Como podemos atingi-las, incluí-las, desestabilizá-las?

Pedro Rivera – O Residencial Ilha Pura é o exemplo de um espaço de cerceamento aonde eu não vou encontrar o outro, é uma ideia de construção de cidade onde eu não preciso negociar. O parque público que está nesse projeto é balela, porque existem barreiras simbólicas que te fazem sentir que você está invadindo outro espaço. Ele será criado por uma exigência da legislação, mas será codificado de maneira que não possa ser entendido como local público. O Ilha Pura é o primeiro empreendimento a receber o selo de construção sustentável. Isso é uma construção simbólica e uma mentira sendo vendida. Como se pode dizer que aquela é uma construção sustentável? Os critérios são apenas um verniz. Os selos de certificação sustentável no fundo são balelas e não produzem cidades.

Beatriz Jaguaribe – Esses locais são anti-cidades, construções feitas para não ter diversidade urbana e têm uma imaginação muito pobre embutida. Mas essa imaginação não está limitada a um condomínio fechado, acho, e ela se propaga no geral. Lembro do levantamento de urbanização de uma favela em São Paulo em que as pessoas queriam grades e portas fechadas, porque era bonito e dava uma sensação de status. E quem somos nós para ditar como as pessoas devem querer suas casas? Aí entra a questão da explosão de imaginários e algumas alternativas para que as pessoas tenham outra perspectiva.

Leila Abraão (Cia de Dança Livre Acesso) – Desenvolvo um trabalho de processo coreográfico com pessoas cegas e a gente está querendo sair dessa caixinha do teatro para ruas e praças, mas existem as barreiras arquitetônicas para pessoas com deficiências. Como isso poderia ser resolvido? Outra barreira é a do Poder Público. A Guarda Municipal tem feito algumas intervenções em pessoas que vão para praças e ruas colocar seu produto artístico, é o choque de ordem.

Marcia (antropóloga) – Eu trabalho com religiões na cidade, e o Pedro Rivera levantou uma questão muito interessante que é a relação do centro com a periferia. Os religiosos têm uma relação muito diferente com o centro da cidade, muitos vão até lá pela primeira vez quando tem um evento religioso e nesse momento eles estão preocupados não em encontrar locais de cultura, mas com a questão do olhar, do sentimento quando veem a praia pela primeira vez, entre outras coisas. Quero colocar aqui a questão da autenticidade, mais do que a do olhar: no carnaval de rua a gente reinventa o que foi inventado.

Numa Ciro ­– Nós temos tantas ideias, principalmente sobre delicadeza, e por que não fazemos uma campanha, uma associação, uma coisa cívica para pensarmos a cidade? Há um sofrimento do corpo. Pedro falou de uma cidade em que pudéssemos andar a pé e sentir beleza como na literatura e na poesia. Essa violência que acaba numa arma começa com os cigarros jogados no chão, com o descaso. Pela sujeira das ruas é que vejo que ninguém pensa em ninguém. Façamos uma campanha em torno da delicadeza de se tratar a cidade, de se plantar. Ninguém devia morar em barracos. Nossa faxineira disse que ontem foi para casa num pé só, viajar todos os dias num pé só é muito grave, isso sai na arma, fomenta um ódio surdo e mudo que vai aparecer nos demônios em algum lugar. Acho que a saída é ocupar a cidade e se manifestar de alguma forma sobre isso. Hoje em dia as casas estão uma em cima da outra, vi uma casa na favela que não tinha janela, as pessoas andam dependuradas em ônibus expondo seus corpos a esse sofrimento diário, não sei como elas aguentam. Vamos pensar nessas delicadezas.

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Numa Ciro. Foto Paula Giolito

Marcão Baixada (Rapper) – Você sai de casa e já se prepara para a porrada. No trem da Supervia tem um aviso que diz: se o trem parar no meio do nada, espere o técnico que ele vai te dizer o que fazer. Você já sai de casa derrotado.

Anabela Paiva ­– Acho que o importante nessa discussão é pensar sobre o que faz o espaço público ser convidativo e atrair as pessoas. Uma grande violência que acontece na favela é a ocupação irregular dele, as pessoas ocupam a calçada e a transformam em espaço de loja.

Patricia (Advogada IEPS) – O abandono do espaço público também se deve a existência de espaços privados semicoletivos como shopping centers, condomínios etc. Eu queria escutar a opinião de vocês sobre as poucas iniciativas de ocupar esses espaços semicoletivos, por exemplo, os rolezinhos.

Pedro Rivera – O rolezinho é o enfrentamento de um capital simbólico. Ele basicamente vai ao espaço com regras e normas e diz “eu quero conquistar esse espaço, quero que ele passe a ser meu e passe a ser vivido dentro das minhas regras também”.

Teresa Guilhon – Eu estava pensando na questão do dualismo assistir versus participar, no quanto as cidades se afastaram do ritual e no quanto esse ritual precisa de participação. A renovação do carnaval de rua é um exemplo: se todos quisessem só assistir, não teria carnaval de rua. O quanto que essa concepção das cidades nos afastou da participação no ritual?

Pedro Rivera – As questões da participação, da interação, do ritual, estão ligadas ao espaço e de que maneira ele cerceia ou incentiva essas coisas.

Egeu Laus – A boa notícia que ofereço a vocês é que há um espaço para exercitar tudo isso: a Região Portuária. São cinco milhões de metros quadrados, três bairros, morros da Conceição, Providência, Livramento e Pinto. Muita ancestralidade. É um espaço para ocupar. A gente tem um projeto chamado Viajantes do Território, e o nosso método são os percursos que se criam para qualquer coisa que se queira fazer ali no intercurso. Todos estão convidados, juntem-se a nós nessa causa.

Vitor Pordeus – Sou da COHAB de Realengo e tudo o que foi conversado aqui eu sinto no meu corpo. A nossa luta é pela memória, é por reconhecer e disseminar o pertencimento. Eu saí do gueto e consegui me comunicar com todos. Sair do gueto é tirá-lo de dentro de você, é romper com ele e entrar na ideia de democracia, de coisa pública. O gueto é o armário e quando você faz cultura no gueto ela sai com a cara de gueto, a música sai com cara de gueto, tudo fica compartimentalizado e interessa ao sistema opressivo. Romper com esse gueto implica em fazer realmente uma cultura pública, em restaurar a memória coletiva por meio dos rituais e sair da mediocridade consentida do dia-a-dia. Somos uma multidão, somos a humanidade inteira e somos 95% bactéria cientificamente comprovado. Nós nunca fomos indivíduos, nós carregamos um ao outro.

Victor Rodrigues (Honório Gurgel Coletivo) – Pedro, a favela é a cidade do futuro?

Pedro Rivera – Numericamente é, e isso é um fato. As cidades que mais crescem são as do hemisfério sul e dentro dele são as favelas. A grande maioria do mundo vai cada vez mais viver em favela. O relatório da ONU traz esses números. Precisamos entender essas dimensões. A possibilidade da casa da favela expandir é a do filho ter um lugar onde morar, é a possibilidade de ser vendido ou de ter um espaço de convivência, dada a carência de espaço público na favela. Esse é um entendimento básico. Também não se entende a dimensão econômica da casa da favela, que muitas vezes abriga um pequeno espaço de trabalho, uma birosca, uma venda. Nessas eleições não existiu uma pauta urbana. Se falou um pouquinho de educação, de saúde, falou muito de corrupção, de habitação, mas são se falou de cidade, porque o Minha Casa Minha Vida não é produção de cidade, é produção de teto. Nele não há uma visão de constituição de espaço, de uma raiz pública, de infraestrutura, de espaço de encontro das pessoas, de estrutura de acesso a serviços públicos. O BNH, pelo menos, era melhor construído. Quando há um pauta urbana, não se tem a mais vaga noção do que é cidade, o pensamento é ultrapassado, retrógrado e sem visão para avançar. A arquitetura sempre trabalha com o poder, esteja ele nas mãos do faraó ou nas mãos do povo, construir uma cidade demanda uma energia hercúlea que só os poderosos podem determinar.