Um museu para celebrar o encontro

Gringo, Hermano e Regina Casé: trio de intelectuais públicos (Foto: Alex Forman)

Regina Casé não é só atriz, Hermano Vianna não é só antropólogo e Gringo Cardia não é só designer. Com essas negativas, que são mais do que positivas, Heloisa Buarque de Hollanda apresentou os participantes desta edição especial do Rio de Encontros. Para ela, os três são exemplos significativos de um novo tipo surgido nas últimas décadas: o intelectual público. São tão públicos que foram capazes de reunir uma plateia ampla, em tamanho e variedade, na manhã nublada de quarta-feira (27/10), para ouvi-los falar sobre um projeto do qual só se sabia o nome: Museu do Encontro.

“O carioca tem dom de produzir inovações que encantam o Brasil e o mundo. Mesmo o samba que era de periferia virou coisa nacional. Sempre botamos a mistura no meio. Queríamos fazer um museu que mostrasse isso”, explicou Gringo. Para endossar a ideia, eles mostraram um vídeo com um trecho de Minha Periferia, quadro que Regina apresentava no Fantástico. Nele, um menino de clube da Zona Sul e um boleiro de sua aula de tênis vão passear na favela onde o segundo mora. Conversando com os dois pelas vielas do Santa Marta, Regina vai descobrindo que eles têm muito mais semelhanças do que diferenças (o vídeo abaixo foi disponibilizado por Julia Michaels no post sobre a situação do Rio no seu blog RioRealBlog).

Continuar lendo

Anúncios

Dragaud: a favor do “social sensual”

Esta foi a primeira edição do Rio de Encontros que não contou com a presença agitadora de Regina Casé na plateia. Mas, por coincidência, ela estava bem representada por um pupilo que não tem nenhuma vergonha de se definir como tal. O roteirista e diretor Rafael Dragaud conta que foi o convívio com a apresentadora, nos anos em que trabalhou nos programas Brasil Legal e Muvuca, que o fizeram perceber a necessidade de prestar atenção no ser humano. “O trabalho da Regina tem algo de social, mas não é categorizado assim na cabeça dela. É interesse genuíno, curiosidade. Ela botaria os guardas de trânsito para dar o rebolation de qualquer maneira, e você é o felizardo de estar com a câmera para registrar isso”, exemplifica.

Transformando admiração em ação, Dragaud passou naturalmente a tentar unir pontas que sempre estiveram separadas. Volta e meia leva algum amigo à favela e lida, sem achar ridículo ou fazer troça, com perguntas como: “Posso ir de carro? Será que tiro o relógio?” Na vida profissional, foi tocando em paralelo duas carreiras: a “oficial”, que já tem 14 anos de TV Globo (além dos programas de Regina, trabalhou no Fantástico e no Som Brasil, entre outros), e a “social”, sendo um dos fundadores da Central Única das Favelas, um dos principais articuladores do Prêmio Hutúz, o diretor do programa Conexões Urbanas, do AfroReggae, e o roteirista de 5 x favela.

Dragaud tinha consciência de que seria um desafio enorme conciliar sua verve pop com o interesse social. Até que fez a produção executiva de Falcão, os meninos do tráfico, documentário de Celso Athayde e MV Bill sobre adolescentes envolvidos com o crime. O filme foi exibido integralmente no Fantástico. Foi a primeira produção independente a ganhar tanto espaço num programa da emissora. “Foi um marco. Tem esse mérito, mas como diz o Faustini, foi um mérito extraordinário. Acabou gerando tanto estresse que nunca mais houve nada parecido. Infelizmente, porque a Globo teria muito a ganhar em replicar outros pontos de vista, coisa que ela não consegue atualmente.” Continuar lendo

A lan house como creche e cartório

Regina Casé dá sua opinião do meio da plateia (Foto: Alex Forman)

No mundo ideal de Regina Casé, o Estado entederia que, ao invés de boicotar o potencial aglutinador das lan houses, a melhor coisa a fazer seria deixar esses espaços seguirem suas vocações. Sim, para ela esses estabelecimentos têm vocação para creche, cartório e centro de reforço escolar, como já mostrou em sua série no Fantástico. Com a palavra, a comunicadora:

– Às vezes tem coisa legal que está funcionando e não é aproveitada com a chegada do Estado. A lan house segue o mesmo percurso do funk. Sempre tem uma lan house na subida do morro, que junta gente lá de cima e do asfalto. Aí acaba sendo empurrada para dentro da favela, aí começa a ter uso indevido… E volta para o asfalto como “coisa de bandido”. Mas é lugar de fazer currículo, fazer matrícula na escola. O dono da lan house é como um dono de creche! São dez funções boas para uma ruim, e a ruim criminaliza tudo. Devia haver processo rápido de formalização, se transformar quase num cartório, ter parceria com as escolas, ser utilizada como reforço escolar, com monitores para tirar dúvidas de português e inglês. Pequenas coisas que poderiam gerar uma boa repercussão em tempo mínimo! É crime criminalizar lan houses!

Um olho no curto prazo, outro no futuro

Ricardo Henriques apresentou suas propostas. (Foto: Alex Forman)

–  Ricardo, a UPP já existe há um ano. Esse foco no social não está chegando tarde?

A primeira pergunta da mediadora Silvia Ramos para o secretário de Assistência Social e Direitos Humanos, Ricardo Henriques, causou reações engraçadas da plateia. “Que fogo amigo!”, disse um.  Henriques também brincou, já que Silvia foi recentemente incorporada à sua equipe. “Isso porque ela é subsecretária, imagina se não fosse”.

Mais sério, ele garantiu que o foco nos programas sociais para as UPPs vai chegar na hora certa. “Primeiro era preciso levantar o manto das armas”, observou. Ele alertou que é muito mais difícil estabelecer políticas sociais integradas em uma área onde a violência era rotina.

Algumas questões-chave abordadas no encontro:

1) O risco de tentar criar um superestado nas comunidades. Ricardo explica:

– Supor que se pode sobrecarregar os policiais com várias demandas sociais é um equívoco. Cairíamos no mesmo erro da tentação de transformar o ambiente da escola em espaço de solução de todos os problemas da comunidade. Com sobrecarga, inviabiliza-se o básico. Podemos dar saltos sem cair na tentação do superestado.

2) Juventude. Para Ricardo, os jovens devem ser um dos principais focos das políticas sociais em favelas, já que eles eram o grupo mais influenciado pela cultura ligada ao narcotráfico.

3) Especulação imobiliária: a mudança de preços e dos aluguéis nas favelas com UPP já é uma realidade. O economista Sérgio Guimarães, que vai cuidar do monitoramento das metas na secretaria, vem acompanhando as transformações na Cidade de Deus. Uma das suas preocupações é apoiar os negócios nas comunidades para que enfrentem a concorrência:

– Do contrário, vai chegar gente de fora e comprar todos os espaços disponíveis. Continuar lendo

Cultura, a arte do encontro

Marcus Faustini, secretário de Cultura de Nova Iguaçu, deu a deixa para que o debate se voltasse para a arte e seu lugar numa metrópole desigual como Rio de Janeiro.

–  Nas discussões sobre os direitos da cidade, a Cultura não é convocada para discutir. Não é chamada para opinar sobre os investimentos. A cultura é sempre convocada como um instrumento que pode contribuir para a atuação do governo nos espaços populares: trabalhando com jovens, ampliando relações – criticou, insatisfeito.

Eliana concordou e citou a necessidade de incluir a Cultura entre os direitos fundamentais do cidadão. Como evoluir além do discurso utilitário em que dança, teatro, música são apresentados apenas como  um fator de atração para que os jovens sejam “salvos” dos “perigos” que os cercam?

– Na classe média a criança vai fazer balé para estudar teatro, para se desenvolver. Na favela, é para ter oportunidade de vida. Continuar lendo