Duas polícias e um encontro

Ilana Strozenberg, diretora acadêmica d'O Instituto, faz a abertura do Rio de Encontros / Foto: Marco Sobral

Ilana Strozenberg, diretora acadêmica d’O Instituto, faz a abertura do Rio de Encontros / Foto: Marco Sobral

A última edição de 2013 do Rio de Encontros foi emocionada. Além do debate marcado sobre  “Violência, polícia e direito à cidade”, houve espaço para exibição de vídeos e entrega de diplomas aos jovens convidados especialmente para integrar o projeto ao longo das cinco edições.

“Este ano, experimentamos uma interlocução incrível com os jovens convidados para compor a nossa plateia. O Rio de Encontros é um espaço para se formular perguntas porque são elas que estimulam novas reflexões. É esse o caminho que a gente vai seguir”, disse Ilana Strozenberg, diretora acadêmica d’O Instituto na abertura.

Para discorrer sobre o tema em pauta, dois nomes emblemáticos: o coronel da Polícia Militar do Rio de Janeiro, Ibis Silva Pereira, e o delegado de Polícia Civil Orlando Zaccone D’Elia Filho, secretário-geral da LEAP Brasil (Agentes da Lei Contra a Proibição) e autor do livro “Acionistas do nada: quem são os traficantes de drogas”.

Silvia Ramos: "50 mil pessoas morrem assassinadas por ano no Brasil" / Foto: Marco Sobral

Silvia Ramos apresenta os convidados especiais da edição sobre violência, polícia e direito à cidade / Foto: Marco Sobral

“Em casa cheia de polícia, é bom que se tome cuidado com o que é dito”, brincou a cientista social Silvia Ramos, agradecendo as presenças de antropólogos, sociólogos, representantes de organizações civis, jornalistas dos jornais O Globo e Folha de São Paulo e do programa Na Moral, professores e pesquisadores.

Direto ao ponto, a coordenadora do CESeC (Centro de Estudos de Segurança e Cidadania), da Universidade Candido Mendes, expôs dados que alarmam: “Pelo menos 50 mil pessoas morrem assassinadas por ano no Brasil. É o número mais alto do mundo em termos absolutos. Somos o quinto em taxas de homicídio. Como e por que o país convive com isso?”

Resultado da pobreza e das desigualdades já foram respostas e causas tidas como certas. O cenário, no entanto, nao é mais o mesmo. “Melhoramos a pobreza e a desigualdade e os índices não diminuíram”, ponderou Silvia. As vítimas, no entanto, permanecem com o mesmo perfil: são pobres, negros, moradores de favelas em sua maioria.

“A morte é apenas a ponta do iceberg que aparece. Nós somos uma sociedade violenta. A taxa de estupro ultrapassa a taxa de homicídios. Todos os dias, cinco pessoas são mortas pela polícia no Brasil”, ela enfatizou os números.

País violento e descontente diante de sua própria face, o Brasil viu eclodirem as manifestações desde o mês de junho e as ruas viraram cenário de guerra entre manifestantes e policiais. Na intersecção desses temas, o Rio de Encontros demarcou o território da fala, explicou Silvia Ramos: “Não somos um FLAXFLU. Quisemos sair do embate entre defesa e ataque, do campo tradicional, enxergar novos ângulos. A gente não faz debate para reiterar o que já se sabe, mas para deslocar as nossas certezas”, disse ela, justificando a presença dos dois policiais. “Ibis e Zaccone estão na ativa e são também pensadores. Eles têm, cada um a seu modo, conseguido criar e produzir interlocuções a partir dos seus espaços de atuação”, explicou ela, chamando os dois ao palco: “Venham para cá e respondam às nossas perguntas.”

O homem e a cidade

Ibis Silva Pereira, coronel da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro / Foto: Marco Sobral

Ibis Silva Pereira, coronel da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro / Foto: Marco Sobral

O coronel da Polícia Militar do Rio de Janeiro Ibis Silva Pereira carrega o livro “Cidades rebeldes”, obra do geógrafo, urbanista e antropólogo David Harvey debaixo do braço. E tem, quase na ponta da língua, a frase do sociólogo americano Robert Park sobre o que é a cidade:

“A tentativa mais consistente do homem e a mais bem-sucedida como um todo para refazer o mundo em que vive o mais próximo de seu desejo íntimo. Mas, se a cidade é o mundo que o homem criou, é o mundo no qual ele está doravante condenado a viver. Assim, indiretamente, e sem qualquer clareza da natureza de sua tarefa, ao fazer a cidade o homem refez a si mesmo.”

A cidade, o homem e a forma como a habita e se relaciona estão na essência do trabalho que o coronel desenvolveu à frente da Academia de Polícia Militar.

“O número 50 mil (citado por Silvia Ramos) não sai da minha cabeça. Que tipo de humanidade produz essas cifras? São homicídios dolosos. Os de trânsito são mais 40 mil. Os estupros são outros 50 mil. Meu Deus, que tipo de humanidade produz isso?  E o que isso faz com a nossa humanidade?”, o coronel questionou e recorreu ao que viu no cinema, durante uma sessão do filme “Tropa de elite” para exemplificar o quão carente de sensibilidade estaria a sociedade:

“Ouvi aplausos em cenas de tortura. Nós banalizamos os dados, conseguimos dormir e 50 mil mortes não nos tiram o sono. Os dados são divulgados e 15 dias depois já estão em nosso passado. Ano que vem teremos os 50 mil mortos ou até mais”, vaticinou.

Afetos, paixões e sensibilidade

Em comum com o delegado Orlando Zaccone, Ibis aponta a escravidão como leitura indispensável para se entender o Brasil. Assim como a militarização da política de segurança pública e a hierarquização da sociedade tal ela se apresenta.

“Joaquim Nabuco dizia que tão importante quanto acabar com a escravidão é acabar com a obra da escravidão. A categoria matável tem muito que ver com isso”, afirmou ele, apontando ainda outro ponto em comum: a questão da segurança pública ultrapassa a polícia e não pode ser reduzida ao emprego das forças policiais.

Seria preciso superar a dificuldade de se pensar políticas da prevenção e não apenas do enfrentamento e do combate ao criminoso.

“O assunto ultrapassa, e muito, a polícia, mas chegou o momento de discutirmos também a polícia. Comandei durante 22 meses a academia que forma o policial militar. A desmilitarização é um tema que precisamos enfrentar. Penso que é interessante problematizar a pertinência em nosso sistema de segurança pública de uma polícia estruturada no modelo militar”, argumentou o comandante.

O currículo de formação do policial, explicou Ibis, lida com medo da morte. Estatisticamente, os policiais têm três vezes mais chance de serem vítimas de homicídio do que o cidadão comum.

“O medo está presente o tempo inteiro na formação do policial. Mas temos de prepara-lo para a possibilidade da morte, que é a paixão mais básica do ser humano, sem que ele perca sua racionalidade. A primeira ocorrência em que me deparei com a morte, o colega levou um tiro na testa e caiu aos meus pés. Precisamos estar preparados para manter a nossa racionalidade mesmo diante de uma cena como essas”, ponderou.

Segundo ele, do medo decorre o embrutecimento que acaba tomando conta das formações. Daí a necessidade de recorrer a atenuantes. “Nós temos muitos psicólogos militares em nossa corporação. Mas são militares. Um soldado precisa trabalhar com os afetos e questões internamente. A desmilitarização da polícia poderia contribuir para que pudéssemos trabalhar os afetos e as paixões tristes de forma mais eficaz.”

Ibis defende um caminhar na direção de um modelo de polícia diferente do que está posto e que, segundo ele, sobretudo fragmentado. “Uma é ostensiva e não apura, a outra não polícia, ajudaria se trabalhássemos com um ciclo completo”, sugeriu.