A mídia popular aos olhos da Unesco

Guilherme Canela, da Unesco, foi um dos iniciadores do debate. (Foto: Kita Pedroza)

Guilherme Canela falou da perspectiva de uma entidade internacional, a Unesco, e lembrou a importância de questões nacionais para a otimização da comunicação local: os impasses sobre sigilo de documentos governamentais, do marco civil da internet e da política de banda larga.

Ele lembrou de um aspecto que deveria ser óbvio, mas é difícil de se consolidar no Brasil: a comunicação é elemento central da democracia, e todos devem poder fazer uso dela, não só os proprietários de grandes empresas de mídia. Citou ainda uma pesquisa da ONU com indicadores que mostram que só teremos um país desenvolvido se tivermos complementariedade entre sistema privado, estatal e público na comunicação. “Temos necessidades concretas de remodelação do cenário atual para que as coisas avancem. A legislação de rádio comunitária é muito restrita”, exemplificou ele, fazendo com que Fiell, da rádio comunitária fechada recentemente no morro Santa Marta, acenasse com a cabeça da primeira fila da plateia.

Para além disso, há aspectos simbólicos que valorizam a mídia comunitária: só ela consegue ser janela e espelho do mundo. “A mídia tradicional só consegue ser janela”. Além disso, são os agentes da primeira que fazem diferença na hora da implantação de uma política pública.

Mas nem sempre é fácil. A Unesco tem informes que mostram a situação vulnerável de comunicadores comunitários do mundo inteiro – há um significativo número de mortos ou ameaçados na recente revolta no mundo árabe, por exemplo. A situação no Brasil não é menos arriscada, como mostraram os relatos de alguns participantes.

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Um mundo de gente

Foto de Kita Pedroza

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A edição de junho do Rio de Encontros foi, possivelmente, a mais cheia e animada da história do evento. O tema Mídia nas Favelas atraiu muita gente que participa de projetos comunitários de comunicação e pessoas de outras áreas que se interessam pelo tema. Assim, o esquema do debate – ter iniciadores do palco, mas enfatizar o diálogo entre todos na plateia – nunca fez tanto sentido.

Já no café da manhã, diversos jovens comunicadores se espalhavam pelo salão, conversando animadamente. Alguns também preparavam suas câmeras e gravadores para registrar o evento. O papo, mediado com desenvoltura pela jornalista d’O Globo Flavia Oliveira, contou com iniciadores tarimbados: Guilherme Canela, diretor de comunicação da Unesco; Marisa Vassimon, gerente de mobilização comunitária do Canal Futura, e Mayra Juca, coordenadora de comunicação do Viva Rio e do Portal Viva Favela.

Pelas cadeiras do auditório da Casa do Saber estavam alguns dos principais responsáveis pelo enorme crescimento da mídia popular em áreas diversas da cidade (seja favelas, subúrbio ou Baixada): Dudu de Morro Agudo, do grupo Enraizados; Eliana Souza, da Redes da Maré; Fiell, Zé Mário e Francisco, da Rádio Comunitária do morro Santa Marta; Maria do Socorro, do Portal da Cidade de Deus; Don, fotógrafo e blogueiro da Cidade de Deus; Lana, Thiago e Gisela, parceiros do RJTV; Marina e Luiza, do Núcleo Piratininga de Comunicação; Milton Quintino, do Correspondentes da Paz; Luiz Henrique Nascimento, do Observatório de Favelas; João Roberto Ripper, da Agência Fotográfica Imagens do Povo; Julia Michels, do Rio Real Blog; Jean Jacques Fontaine, do Projeto Jequitibá. Todos contaram um pouco de suas experiências e viram muitas semelhanças em suas trajetórias, tanto nas coisas boas quanto nas dificuldades.

E eles não foram os únicos a pedir a palavra. Leona Forman, da Brazil Foundation, contou que está trabalhando na abertura de um fundo carioca, para receber doações para projetos sociais da cidade. E Guilherme Amado, jornalista do Extra, fez um desabafo em relação à vilanização a que sua classe é submetida frequentemente, gerando o momento mais quente do debate.

Nos próximos posts, mais detalhes da conversa.