Que cidade queremos ser?

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Simone Vassallo, Amauri Mendes e Dudu do Morro Agudo. Foto Paula Giolito

Três nomes, três vivências profissionais e pessoais distintas e o mesmo tema. O Rio de Encontros do dia 30 de setembro reuniu o professor  de História da África e do Negro no Brasil no Instituto de Educação da UFRRJ Amauri Mendes Pereira, a antropóloga e professora do programa de pós-graduação em Sociologia do IUPERJ Simone Pondé Vassallo e o rapper e produtor Cultural do Movimento Enraizados Dudu de Morro Agudo para discutir “A cor do carioca”. Da cultura e identidade negras ao trajeto histórico da questão racial no Brasil, a pauta acomodou recortes como consciência, identidade, cosmopolitismo, colonização, preconceito, herança e afrodescendência, movimento negro e expressão política, cotas e diferenças. Em quase três horas de conversa, a tez do Rio de Janeiro foi esmiuçada sem platitudes por debatedores e plateia.

A reformulação atual da face urbana da cidade está na gênese da escolha do tema. Projetos de reforma se espalham da Zona Portuária à Zona Oeste, da Zona Sul à Zona Norte, enquanto as políticas públicas e ações da sociedade civil evidenciam uma transformação do ponto de vista social e cultural da cidade.

Para iniciar o debate, a diretora acadêmica d’O Instituto, Ilana Strozenberg, apresentou as perguntas previamente formuladas: existe uma consciência racial no Rio de Janeiro? A cultura hip hop seria a sua maior expressão? A busca por uma identidade racial contradiz o cosmopolitismo da cidade, ou não? Qual o papel das questões raciais nos conflitos relacionados às reformas urbanas na região portuária?

“A ideia de uma tradição cosmopolita do Rio de Janeiro onde todo mundo é carioca e as outras diferenças ficam apagadas por esse pertencimento, que é uma identidade para a cidade, ainda se coloca dessa forma? É possível lidar com a diferença sem apagar as diferenças? Como a gente pode discutir isso do ponto de vista étnico e racial?”, Ilana lançou os primeiros questionamentos e deu a vez aos convidados.

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O debate bombou (parte 1)

Confira uma seleção dos melhores momentos das falas de Fiell, Maria do Socorro, Dudu de Morro Agudo, Marina do NPC e Eliane Silva, da Redes da Maré:

Fiell, da Rádio Comunitária do Morro Santa Marta: “Comunicação é um poder, como o legislativo e o judiciário. Ela informa ou desinforma. Nossa rádio surgiu para dar atenção para as informações daquele lugar. O desafio é formar essa rádio com todos os empecilhos da lei, como não poder vender propaganda. Ela sobrevive na solidariedade, todos os trabalhadores são voluntários. Quando abriu foi uma revolução, as pessoas podiam participar. Mas em 3 de maio de 2011, Dia da Liberdade de Imprensa, chegou lá a Anatel, com Polícia Federal, e fechou tudo. A rádio não tem nada a ver com a UPP, pelo contrário. Sem a rádio a população perde muito. No próximo mês voltamos ao ar, na 103,3 FM e na internet – mas internet quase ninguém ouve ainda.

Maria do Socorro, do Portal da CDD: “Sou moradora da Cidade de Deus há 30 anos. O portal é experiência que vem de um jovem, que chegou na comunidade para fazer uma pesquisa sobre as instituições da Cidade de Deus e descobriu que todas desejavam ter um site. Aí ele estimulou a discussão sobre um site coletivo, em 2008. Conseguimos construir o portal comunitário, onde cada instituição tem seu espaço, sua senha de acesso. Começamos a construir memória da comunidade a partir do portal. Tem também o espaço do “Fala comunidade”, pras pessoas se expressarem. O site está ficando mais popular na comunidade, semana passada tivemos mil acessos. Pena que a internet digital da Cidade de Deus não funciona até hoje”. [Risos na plateia: William da Rocinha comenta que lá também não; Fiell diz o mesmo do Santa Marta].

Dudu de Morro Agudo, do Portal Enraizados: “O portal foi criado inicialmente para botar em contato as pessoas de hip hop do Brasil inteiro. Começou em 1999, mesmo com a internet não tão difundida. Em 2006 o portal tinha 600 mil acessos por mês. Pouco tempo depois esse número caiu, porque as pessoas começaram a ter seus próprios blogs. Hoje o site é uma revista, com gente que escreve do Brasil todo. Tem também o site institucional. A partir de 2005 começamos a viajar e conhecer políticas públicas, então começamos a ver nosso bairro de jeito diferente. O padrão dos jovens era admirar bandido, começamos a mostrar outras coisas, e trazer pessoas de fora da comunidade com histórias motivadoras. Temos rádio web. Temos também TV no Youtube e jornal [Te cuida Globo, berrou alguém na plateia]. E mantemos um espaço alugado de 400 metros quadrados com biblioteca, estúdio e telecentro. Nosso grupo é bom, mas tem pouca gente qualificada. Então voltamos todos a ser estudantes. Hoje temos um dos nossos como Parceiro do RJ, tem um pessoal no Futura e também no jornal O Dia.”

Marina, do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC). “Curso de comunicação comunitária que está na ativa desde 2005. É ministrado no Sindicato dos Engenheiros, na Cinelândia. A primeira turma tinha só gente que já fazia comunicação comunitária. Aos poucos fomos abrindo mais e recebendo gente de várias favelas, de movimentos sociais. Teve até um engenheiro que fez o curso e hoje participa do Boletim do MST. Principal desafio é como tornar a comunicação algo que faz parte da vida da pessoa. Quem financia é a Fundação Rosa Luxemburgo, agora temos 50 pessoas por turma e fila de espera. Todos os professores são voluntários. Estamos na sétima edição do curso. É aos sábados, de 15 em 15 dias, por quatro meses. Tem aula de História do Brasil, de redação, de internet. O Fiell diz que gosta de ser repetente desse curso.” [Fiell pediu a palavra de novo e falou: “Este curso foi minha janela para conhecer a luta dos trabalhadores do Brasil. Lá aprendi a diagramar, fazer pauta, não é tão difícil quanto falam por aí…”]

Eliana Souza, da Redes da Maré. “O jornal Maré de Notícias surgiu do desejo de um projeto estruturante para conjunto de favelas da Maré. Pensamos hoje que o papel que podemos desempenhar para contribuir para melhorar a qualidade de vida. Jornal nasce da ideia de ser veículo de comunicação social. Reunimos gente também de fora da maré para colaborar. Fizemos pesquisa para saber como os moradores se sentiriam representados, inclusive o nome do jornal foi votação. Tentamos passar mensagem reflexiva sobre problemas do bairro, e tentar propor soluções para o bairro e para a cidade. Para isso estamos sempre nos reunindo com associações de moradores para pensar o nosso papel e qualificar pessoas que possam ser parceiras do jornal. Ele tem 35 mil exemplares entregues de porta em porta, é mensal, tem 1 ano e 7 meses.”

Um mundo de gente

Foto de Kita Pedroza

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A edição de junho do Rio de Encontros foi, possivelmente, a mais cheia e animada da história do evento. O tema Mídia nas Favelas atraiu muita gente que participa de projetos comunitários de comunicação e pessoas de outras áreas que se interessam pelo tema. Assim, o esquema do debate – ter iniciadores do palco, mas enfatizar o diálogo entre todos na plateia – nunca fez tanto sentido.

Já no café da manhã, diversos jovens comunicadores se espalhavam pelo salão, conversando animadamente. Alguns também preparavam suas câmeras e gravadores para registrar o evento. O papo, mediado com desenvoltura pela jornalista d’O Globo Flavia Oliveira, contou com iniciadores tarimbados: Guilherme Canela, diretor de comunicação da Unesco; Marisa Vassimon, gerente de mobilização comunitária do Canal Futura, e Mayra Juca, coordenadora de comunicação do Viva Rio e do Portal Viva Favela.

Pelas cadeiras do auditório da Casa do Saber estavam alguns dos principais responsáveis pelo enorme crescimento da mídia popular em áreas diversas da cidade (seja favelas, subúrbio ou Baixada): Dudu de Morro Agudo, do grupo Enraizados; Eliana Souza, da Redes da Maré; Fiell, Zé Mário e Francisco, da Rádio Comunitária do morro Santa Marta; Maria do Socorro, do Portal da Cidade de Deus; Don, fotógrafo e blogueiro da Cidade de Deus; Lana, Thiago e Gisela, parceiros do RJTV; Marina e Luiza, do Núcleo Piratininga de Comunicação; Milton Quintino, do Correspondentes da Paz; Luiz Henrique Nascimento, do Observatório de Favelas; João Roberto Ripper, da Agência Fotográfica Imagens do Povo; Julia Michels, do Rio Real Blog; Jean Jacques Fontaine, do Projeto Jequitibá. Todos contaram um pouco de suas experiências e viram muitas semelhanças em suas trajetórias, tanto nas coisas boas quanto nas dificuldades.

E eles não foram os únicos a pedir a palavra. Leona Forman, da Brazil Foundation, contou que está trabalhando na abertura de um fundo carioca, para receber doações para projetos sociais da cidade. E Guilherme Amado, jornalista do Extra, fez um desabafo em relação à vilanização a que sua classe é submetida frequentemente, gerando o momento mais quente do debate.

Nos próximos posts, mais detalhes da conversa.