Dia 25/06: Subúrbios ontem e hoje

O tema do próximo debate do Rio de encontros é SUBÚRBIOS CARIOCAS ONTEM E HOJE. Neste encontro teremos como provocadores o jornalista, escritor e pesquisador Vagner Fernandes, atual gestor da Arena Fernando Torres – em Madureira; do historiador Antonio Edmilson Martins Rodrigues, professor da PUC – Rio e UERJ; e do cientista social e produtor cultural Binho Cultura, idealizador da Flizo – Festa Literária da Zona Oeste.

Essas feras vão nos mostrar muitas coisas sobre os subúrbios cariocas, juntos debaterão com a nossa plateia participativa: (1) se existe uma cultura suburbana no Rio de janeiro; (2) como ela dialoga e se articula com os diferentes espaços da cidade; (3) se podemos falar em decadência do subúrbio carioca; (4) em que medida a cultura pode ser um motor para o seu desenvolvimento.  Essas e muitas outras questões serão atendidas no próximo dia 25. Venha colaborar com o debate!

Não esqueça: dia 25 de Junho, quinta-feira, das 14:00h às 17h30, no Auditório da ESPM RIO (Rua do Rosário, 90 Centro).

CONVITE

A cor do carioca segundo a plateia

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Simone, Amauri, Dudu e Ilana. Foto Paula Giolito

Dez minutos para cada debatedor, tempo suficiente para que a plateia, já fervorosa, se manifestasse. Lugar de fala, essencialmente, o Rio de Encontros seguiu com duas rodadas de debate.

Adany Lima, Projeto Movimentos – Foi falado aqui, que o negro está na moda. O branco está usando o negro para se promover nesse processo, ou isso faz parte dessa nova sociedade, do novo antirracismo? Sobre o Cais do Valongo, acho que o prefeito se aproveitou daquela situação sobre a construção para promover sua imagem e atrair mais eleitores.

Amauri Mendes – Sobre o branco usar o negro para se promover é exatamente o que o prefeito está fazendo no Valongo. Quando se descobriu o cais, se tentou encontrar um modo de faturar em cima desse fato. Mas não dá para segurar a história da cultura, eles pensam que vão segurar, mas não conseguirão. Há um esforço de segregação, sim, mas nunca conseguirão nos deter. O Brasil foi o último país a eliminar o comércio da escravidão. Mais da metade da população negra mundial foi transportada para cá, esse é o país que recebeu o maior número de escravos e é o único em que a luta contra ela foi travada em todo o seu território. Nesse sentido, somos diferentes de qualquer outro lugar.

Simone Vassalo – Só quero enfatizar alguns pontos para engrossar esse caldo. Respondendo ao Adany, concordo: acho que tem uma perspectiva eleitoral que é central. Inclusive, a atitude do prefeito em relação a toda essa memória afrodescendente mudou antes e depois da eleição. Foi um divisor de águas. A gente tem que pensar mais sobre essa questão da etnia e da cor. Por exemplo, o que mais está sendo valorizado no Valongo? As práticas afro como o samba são, de certa maneira, valorizadas pela prefeitura, mas é somente o negro do passado que está sendo cultuado, não o do presente. Por exemplo, uma liderança negra do Morro da Providência se queixa do próprio movimento negro dizendo: “enquanto a gente está aqui sendo removido, com inúmeras casas marcadas para remoção, o movimento negro está lá embaixo lutando pelo Cais do Valongo”.

Nathália Leal, ESPM- Dudu, são iniciativas como a sua que fazem a gente ter orgulho de ser negro. Na Penha e no Complexo do Alemão, todos os terreiros e religiões afrodescendentes estão sendo excluídos por traficantes. O que você sente diante desse paradoxo: por um lado o orgulho de ser negro, por outro, o fato da gente não poder se expressar com as religiões afrodescendentes?

Dudu do Morro Agudo – Em algumas comunidades do Rio de Janeiro, os traficantes se converteram ao Evangelho, ficaram intolerantes e começaram a fechar os terreiros e a expulsar os pais e mãe de santo. Temos vivido um momento em que as religiões africanas são demonizadas pela sociedade. A prefeitura de Nova Iguaçu fez uma pesquisa para saber quantos jovens faziam parte das religiões de matrizes africanas e constatou que a grande maioria dos jovens que pertenciam a elas não revelavam esse fato, por medo de serem discriminados. Minha avó é evangélica, minha tia é candomblecista, minha é sogra kardecista, meu pai era ateu, mas, depois de uma doença braba, virou religioso e todo mundo se respeita. Isso é o que falta à sociedade. O marco zero é o respeito por tudo.

Amauri Mendes – Os terreiros são a lógica da vida, e os traficantes são a lógica da morte. É evidente que esses últimos vão bater de frente e expulsar os primeiros, e eles não terão mais espaço. Porque onde há consumismo e individualismo até mesmo os supernegros e supernegras da favela olharão de modo torto para eles.

Fernando Cock, Agência de Redes para Juventude – Complementando a pergunta do Adany, o que você acha dos brancos se apoderarem da musicalidade negra para enriquecer? Um exemplo é a cantora Anitta.

Dudu do Morro Agudo – Existem coisas que não têm jeito, se você prega a igualdade vai ensinar a música e querer que o máximo de pessoas participem. O mercado é outra coisa. O samba passou por isso, quem fazia samba era considerado bandido e, hoje em dia, quem não nasceu no morro também faz samba. Isso é o mercado e a Anitta é um produto dele, assim como vários outros artistas. Do meu ponto de vista isso faz parte de um processo e eu consigo separar: faço música e hip-hop, que é muito mais que música, é uma vivência diária. Mas tem muitos caras dentro do hip-hop tocando no rádio que não fazem ideia do que seja o hip-hop.

Gilmara Moreira, Rio de Encontros – Dudu e Amauri, eu sou a primeira pessoa da minha família a chegar à Universidade. Como vocês encaram a questão das cotas? Como compensação ou como algo que pode ser excludente?

Dudu do Morro Agudo – Vamos supor que no Brasil, metade do povo é preto e metade é branco. Quantos médicos pretos você conhece? Se demorar mais de três segundos para responder, tem que ter cota. (aplausos)

Amauri Mendes – Tudo tem cotas nesse país, sempre teve. Os imigrantes tiveram cotas de favorecimento. A filha do Ernesto Geisel, Amália Luci Geisel, escreveu um livro contando a história da família, no qual mostra que eles tiveram esse tipo de cota. Eles receberam dois troncos de árvores e outras vantagens, como sementes, ferramentas e um pedaço de terra quando se instalaram no Sul. Mas para que negros e seus descendentes ascendessem não teve cota. Aliás, teve cota ao contrário. Tudo foi impedido e enterrado.Todas as suas lutas e sua vida no início do século XX foram enterradas.

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Representantes da Agência Rede de Jovens para Juventude. Foto Paula Giolito

Igor Oliveira, JOCUM – Os movimentos negros estão abandonando sua essência?

Amauri Mendes – O movimento não tem mesmo uma essência, felizmente. O movimento negro deu certo porque tinha um centro gerador. O Instituto de Pesquisa das Culturas Negras (IPCN) foi uma instituição a que todos recorriam, foi a única instituição que conseguiu uma sede própria nos anos 1970. Ficava no Centro da Cidade e o pau comia  ali. Tudo o que foi feito pelo movimento negro ao longo de trinta e tantos anos foi feito coletivamente. Por isso era forte.

Simone Vassallo – Um colega italiano que faz uma pesquisa muito parecida com a minha na Região Portuária percebeu que a maioria dos terreiros que existiam ali eram de umbanda, não de candomblé. Como é que, agora, o que a gente tem no processo de valorização do circuito de herança africana são essas Ialorixás ligadas à religião africana no sentido mais tradicional, que incorporam mais profundamente a religião? É claro que a gente sabe como a questão da pureza do candomblé vai se construindo historicamente no Brasil, mas, na prática, eu não consegui responder detalhadamente o porquê da questão da umbanda ter se tornado invisível.

Cleissa Martins, Agência de Redes para Juventude – Dudu, qual a visão que o hip-hop tem dessa coisa de o negro estar na moda? Amauri, ainda não é fácil usar o black, como podemos levar a nossa cor mesmo que usemos cabelo alisado?

Dudu do Morro Agudo – A esposa de um amigo meu reclamou do preconceito que sofria por ter dreads no cabelo e ele respondeu: “alisa o seu cabelo e se enquadra, o seu problema será resolvido”. Se você escolheu ser do hip-hop, tem de enfrentar os olhares diferentes, é uma postura que se assume.

Amauri Mendes – Prejuízos simbólicos são possíveis de negociar, porque a nossa lógica é a do consumismo e do individualismo. Está tudo bem se eu posso usar esse cabelão, mas não resolve. Esse processo de construção de identidade é fundamental, mas é pouco, e tudo hoje é muito veloz. Tudo é muito pouco.

Simone Vassallo – São questões muito complexas que perpassam todo o debate sobre a Região Portuária. Outro grupo muito discriminado e invisibilizado naquela região são os nordestinos. Ali é um lugar de imigração nordestina muito forte nas últimas décadas, e essa herança não é valorizada no movimento de evidenciação das histórias do local. Ainda faltam projetos relacionados ao funk e hip-hop.

Atitude dread

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Jovens parceiros do Rio de Encontros. Foto Paula Giolito

A última rodada do debate sobre A Cor do Carioca adquiriu um tom mais reflexivo do que interrogador. Sob o efeito da fala dos provocadores Amauri Mendes, Simone Vassallo e Dudu do Morro Agudo, os ouvintes fizeram muitos comentários sobre a atitude e o comportamento do negro e sua autoconsciência.

Ana Lucia Costa, Rádio Katana– A questão do negro na televisão é aquela história do “bem bolado”, tem um negro bem e outro, bolado. Eu acho que negro é mais uma questão de atitude do que de simbolismo. Se o negro quer usar prancha não tem problema, desde que ele tome a atitude certa quando necessário.

Anabela Paiva, O Instituto – Todos estão refletindo muito sobre a questão do visual: roupa, cabelo e cor. O negro está mesmo na moda, você vai a restaurantes chiques e quem está ali para te receber são jovens negros bonitos com atitude bem black. Mas dentro do restaurante só tem branco. Acho que a estratégia de incorporar uma personagem, como as roupas características do malandro, é algo que beneficia quem tem uma maneira de se posicionar no mundo.

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Nathália Leal. Foto Paula Giolito

Luis Gustavo Soares, ESPM – Quero deixar claro que o racismo existe na nossa sociedade. Estava no táxi outro dia com meu pai e minha namorada, que são brancos – eu saí pardo porque minha mãe é negra – e um policial nos parou numa blitz. Ele logo perguntou ao meu pais “esse moço que está aí atrás é namorado da sua filha?”

Aline Marinho, ESPM – Eu me questiono muito sobre a vitimização do negro, acho que a escola, como espaço de formação do sujeito, tem que fazer sua parte. Na minha primeira aula na universidade, a professora perguntou qual é a minha cor. Respondi que depende de onde eu esteja: no asfalto sou negra, na favela sou parda. Por isso acho que a questão vai muito além da cor. Tudo depende de como você se comporta e interage no seu ambiente.

Dudu do Morro Agudo – Quando prego igualdade, prego para todo mundo. É o meu sonho de mundo ideal. Só que o mundo real é diferente. O negro tende a se vitimizar porque aceita a condição que a sociedade impõe a ele.

Amauri Mendes – Não há mordaça e bloqueios em todo lugar. Não há também uma malícia de criar o racismo a todo o momento. Mas o racismo tem uma margem de manobra muito ampla. As chaves do racismo, dos valores, do consumismo e do individualismo andam juntas para formatar o mundo em que vivemos e nos fazer achar que só pode ser assim. Mas pode ser diferente. Como ajudar a modificar? Começando por nós mesmos.

O debate bombou (parte 1)

Confira uma seleção dos melhores momentos das falas de Fiell, Maria do Socorro, Dudu de Morro Agudo, Marina do NPC e Eliane Silva, da Redes da Maré:

Fiell, da Rádio Comunitária do Morro Santa Marta: “Comunicação é um poder, como o legislativo e o judiciário. Ela informa ou desinforma. Nossa rádio surgiu para dar atenção para as informações daquele lugar. O desafio é formar essa rádio com todos os empecilhos da lei, como não poder vender propaganda. Ela sobrevive na solidariedade, todos os trabalhadores são voluntários. Quando abriu foi uma revolução, as pessoas podiam participar. Mas em 3 de maio de 2011, Dia da Liberdade de Imprensa, chegou lá a Anatel, com Polícia Federal, e fechou tudo. A rádio não tem nada a ver com a UPP, pelo contrário. Sem a rádio a população perde muito. No próximo mês voltamos ao ar, na 103,3 FM e na internet – mas internet quase ninguém ouve ainda.

Maria do Socorro, do Portal da CDD: “Sou moradora da Cidade de Deus há 30 anos. O portal é experiência que vem de um jovem, que chegou na comunidade para fazer uma pesquisa sobre as instituições da Cidade de Deus e descobriu que todas desejavam ter um site. Aí ele estimulou a discussão sobre um site coletivo, em 2008. Conseguimos construir o portal comunitário, onde cada instituição tem seu espaço, sua senha de acesso. Começamos a construir memória da comunidade a partir do portal. Tem também o espaço do “Fala comunidade”, pras pessoas se expressarem. O site está ficando mais popular na comunidade, semana passada tivemos mil acessos. Pena que a internet digital da Cidade de Deus não funciona até hoje”. [Risos na plateia: William da Rocinha comenta que lá também não; Fiell diz o mesmo do Santa Marta].

Dudu de Morro Agudo, do Portal Enraizados: “O portal foi criado inicialmente para botar em contato as pessoas de hip hop do Brasil inteiro. Começou em 1999, mesmo com a internet não tão difundida. Em 2006 o portal tinha 600 mil acessos por mês. Pouco tempo depois esse número caiu, porque as pessoas começaram a ter seus próprios blogs. Hoje o site é uma revista, com gente que escreve do Brasil todo. Tem também o site institucional. A partir de 2005 começamos a viajar e conhecer políticas públicas, então começamos a ver nosso bairro de jeito diferente. O padrão dos jovens era admirar bandido, começamos a mostrar outras coisas, e trazer pessoas de fora da comunidade com histórias motivadoras. Temos rádio web. Temos também TV no Youtube e jornal [Te cuida Globo, berrou alguém na plateia]. E mantemos um espaço alugado de 400 metros quadrados com biblioteca, estúdio e telecentro. Nosso grupo é bom, mas tem pouca gente qualificada. Então voltamos todos a ser estudantes. Hoje temos um dos nossos como Parceiro do RJ, tem um pessoal no Futura e também no jornal O Dia.”

Marina, do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC). “Curso de comunicação comunitária que está na ativa desde 2005. É ministrado no Sindicato dos Engenheiros, na Cinelândia. A primeira turma tinha só gente que já fazia comunicação comunitária. Aos poucos fomos abrindo mais e recebendo gente de várias favelas, de movimentos sociais. Teve até um engenheiro que fez o curso e hoje participa do Boletim do MST. Principal desafio é como tornar a comunicação algo que faz parte da vida da pessoa. Quem financia é a Fundação Rosa Luxemburgo, agora temos 50 pessoas por turma e fila de espera. Todos os professores são voluntários. Estamos na sétima edição do curso. É aos sábados, de 15 em 15 dias, por quatro meses. Tem aula de História do Brasil, de redação, de internet. O Fiell diz que gosta de ser repetente desse curso.” [Fiell pediu a palavra de novo e falou: “Este curso foi minha janela para conhecer a luta dos trabalhadores do Brasil. Lá aprendi a diagramar, fazer pauta, não é tão difícil quanto falam por aí…”]

Eliana Souza, da Redes da Maré. “O jornal Maré de Notícias surgiu do desejo de um projeto estruturante para conjunto de favelas da Maré. Pensamos hoje que o papel que podemos desempenhar para contribuir para melhorar a qualidade de vida. Jornal nasce da ideia de ser veículo de comunicação social. Reunimos gente também de fora da maré para colaborar. Fizemos pesquisa para saber como os moradores se sentiriam representados, inclusive o nome do jornal foi votação. Tentamos passar mensagem reflexiva sobre problemas do bairro, e tentar propor soluções para o bairro e para a cidade. Para isso estamos sempre nos reunindo com associações de moradores para pensar o nosso papel e qualificar pessoas que possam ser parceiras do jornal. Ele tem 35 mil exemplares entregues de porta em porta, é mensal, tem 1 ano e 7 meses.”