A mídia na berlinda

Gustavo, Rene, Anabela, Fernando e Marcelo:de olho no jornal 'A voz da comunidade' (Foto: Alex Forman)

O tema da quinta edição do Rio de Encontros foi escolhido de modo colaborativo, a partir de enquete com a plateia das discussões anteriores. A mídia foi o assunto mais solicitado. A julgar pelas últimas discussões sobre liberdade e limites da imprensa nessas eleições, trata-se de fato de um assunto polêmico.

Os iniciadores do papo não se inibiram em apresentar dúvidas, erros e autocríticas. Marcelo Moreira, editor da segunda edição do RJTV, da Rede Globo, por exemplo, reconheceu limites. “Às vezes estamos indo para um caminho errado e não sabemos. A internet ajuda, mas ainda não sabemos explorar o retorno”. Fernando Molica, titular da coluna Informe do Dia, deu outro exemplo: “A cobertura do mundo evangélico é 100% preconcetuosa, eles são sempre os fanáticos. O cara parou de beber, parou de espancar a mulher, e é como se isso não importasse”. Para ele, hoje a credibilidade do jornalista está ameaçada, o que pode ser bom. “Temos que provar nossa relevância”.

Gustavo de Almeida, que já cobriu muitos assassinatos e hoje lidera a assessoria de comunicação da PM, reconheceu que o jornalista muitas vezes ajuda a fortalecer os estereótipos: “Acontecia de eu ligar para o comandante e perguntar: o cara que morreu era bandido? Como se isso justificasse. Também está errado”. Rene Silva, que faz um jornal comunitário no Complexo do Alemão desde os 11 anos (hoje tem 16) sabe bem o que é ler matérias em que falta apuração. “A imprensa trata o Alemão da maneira ditada pelas notas enviadas pelo governo. Podem falar que um curso pré-vestibular está funcionando porque a assessoria afirmou isso, mas na prática não está”.

Cidade partida, um conceito que ainda dá o que falar

Plateia e iniciadores debateram o conceito "Cidade partida" (Foto: Alex Forman)

A orelha de Zuenir Ventura deve ter ardido na manhã do dia 25 de agosto. O conceito que batizou seu emblemático livro Cidade Partida, de 1993, apareceu diversas vezes na conversa.

Primeiro, foi citado por Faustini e Claudius de uma forma crítica.

Faustini: “Eu acho que esta cidade não é partida, nunca foi. Os pobres sempre estiveram na vida da Zona Sul, como guardador,como doméstica, atendendo a expectativa da classe média”.

Claudius: “Cidade partida é uma interpretação do Zuenir. Nestes quase 20 anos acho que isso não existe mais”.

Ao longo do papo, entretanto, vozes dissonantes começaram a aparecer. Alguém da plateia lembrou que são poucas as pessoas que fazem a ponte entre os diferentes universos da cidade. A jornalista Anabela Paiva defendeu o conceito: “Acho que a prova de que ele foi forte e oportuno é a sua capacidade de gerar mobilização contrária. Zuenir identificou um sintoma que incomodava e as pessoas até  hoje querem superá-lo. É uma marca de comunicação, um mote”.

Faustini resumiu a situação com exemplos: “Ao mesmo tempo que é uma cidade integrada, que tem conversa da empregada com dona de casa, é extremamente desigual nos direitos. Isso o conceito ajudou a pensar. A gente convive na rua, no bloco, no carnaval, na praia, mas na hora de dividir os direitos, os editais, o acesso, aí as oportunidades são totalmente diferentes”.