Para quem não vê outras alternativas, o tráfico vira espelho, diz Betinho Casas Novas

Repórter fotográfico do jornal Voz das Comunidades falou sobre violência no Alemão

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Betinho Casas Novas: “Nosso papel é retratar o que acontece de verdade, seja bonito ou feio” (Thiago Brito/ESPM)

A falta de oportunidades nas favelas leva muitos jovens a enxergar o crime como a única saída possível. Quem dá o alerta é Betinho Casas Novas, repórter fotográfico do jornal Voz das Comunidades e morador do Complexo do Alemão. Durante sua participação no Rio de Encontros em 2017, o convidado falou sobre como é conviver com a violência todos os dias.

Betinho tem 27 anos e nasceu no Morro do Adeus, uma das 13 comunidade do Complexo. “Morei em um lugar chamado Beco da Morte, onde aconteciam as execuções. Perdi um ano de estudo por não poder ir à escola, porque eu saía e tinha pedaços de corpos na minha porta”, contou. Aos 12 anos, ele perdeu 19 amigos de infância em uma chacina da guerra entre Comando Vermelho e Amigos dos Amigos, duas facções criminosas criadas dentro do Alemão.

“Para quem não vê outras alternativas, o tráfico termina virando um espelho”, disse ele. Em vez de escolher o crime, o fotógrafo e o amigo René Silva decidiram criar o jornal Voz das Comunidades, que completa 12 anos em 2017, produz conteúdo sobre 10 favelas cariocas e pauta a grande mídia. “Nosso papel é retratar o que acontece de verdade, seja bonito ou feio”, informa o repórter.

Em 2010, Betinho acompanhou a ocupação do Complexo do Alemão pela forças do Estado. Segundo ele, fazia cinco anos que a polícia não entrava no conjunto de favelas. Nos primeiros meses após a operação, projetos sociais começaram a aparecer. Mas a ilusão durou pouco. O fotógrafo conta que, de 2013 para cá, 277 pessoas foram baleadas no Alemão e 67 delas faleceram. “Eu nunca vi tantas pessoas morrerem na minha comunidade”, afirmou ele. Só entre janeiro e julho de 2017, foram 10 operações, com 46 baleados,13 mortos e nenhuma prisão ou apreensão de drogas. Para Betinho, um resultado nada satisfatório, considerando o sofrimento provocado. “Essa situação é ruim para moradores, para policiais, para todos”, resumiu o fotógrafo.

Após o evento, Betinho escolheu a emoção dos convidados e da plateia como principal destaque do debate. “Cada vez que eles iam falando da suas experiências nas comunidades, as pessoas se emocionavam, se sensibilizavam e isso é muito importante”, pontuou ele, que agradeceu a oportunidade de contar a sua história. “Esse Rio de Encontros me proporcionou isso, além de me proporcionar falar um pouco da minha comunidade, dos meus trabalhos, da nossa sofrência e isso foi muito incrível”, acrescentou.

Confira a entrevista de Betinho ao blog do Rio de Encontros: 

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