Debate sobre segurança e violência aborda corrupção e legalização das drogas

Participantes do encontro fizeram mais de 20 perguntas aos convidados

2017_07_13_RIO_DE_ENCONTROS_1

Sala lotada na 3ª edição do Rio de Encontros em 2017 (Thiago Brito/ESPM)

A corrupção policial e a legalização das drogas foram alguns dos assuntos debatidos na 3ª edição do Rio de Encontros em 2017. O evento discutiu juventude, segurança e violência no MAR, no último dia 13. Ao todo, os participantes fizeram mais de 20 perguntas. Algumas delas abordaram facetas menos óbvias do tema – como o papel da mulher na luta contra a violência.

Confira a seguir um resumo das discussões:

Vocês pensam em adotar outras plataformas mais seguras do que o WhatsApp para a troca de mensagens no Defezap? (Taís Linhares)

A gente lida com diversos tipos de situações que envolvem essa questão da segurança de quem faz o registro. Há filmagens feitas pelas pessoas da janela de casa, por exemplo, o que as torna facilmente identificáveis e as coloca em uma situação de vulnerabilidade. E o Defezap é um canal criado justamente para preservar a segurança das pessoas. Já o debate sobre segurança da informação ainda não está muito avançado. Mas, antes de criarmos o serviço, estudamos essa questão por dois anos e optamos pelo WhatsApp no momento em que o app adotou a criptografia ponto a ponto, que representa segurança para quem envia e para quem recebe a mensagem. Há, inclusive, um levantamento da Anistia Internacional, que aponta o WhatsApp como um dos aplicativos mais seguros que existem para esse tipo de iniciativa. Também trabalhamos com o Signal, mas nunca recebemos nenhuma colaboração por ele. (Guilherme Pimentel)

2017_07_13_RIO_DE_ENCONTROS_11

Mediadora Sílvia Ramos fala, ao lado de Betinho Casas Novas (Thiago Brito/ESPM)

Betinho, já houve situações em que suas fotos interferiram no desfecho de uma situação? (Sílvia Ramos)

Sim. E, graças a Deus, minhas fotos geram mais efeitos positivos que negativos. Uma vez, uma mãe me pediu ajuda para tirar seu filho do tráfico. Ele se chamava Matheus, tinha 13 anos, morava na Nova Brasília e gostava das minhas fotos. Eu o conheci, fui cativando ele com a fotografia e, no fim, ele deixou o crime. Outro exemplo foi o caso da morte do Eduardo. Todas as imagens que circularam sobre o caso foram feitas por nós, moradores. Eu não vendo fotos violentas, mas disponibilizo gratuitamente para veículos interessados. No caso do Eduardo, recusamos um prêmio na Espanha, porque não queremos ganhar nada com a morte de um vizinho. (Betinho Casas Novas)

2017_07_13_RIO_DE_ENCONTROS_23

Shepard Forman: “Nossa conversa está muito masculina” (Thiago Brito/ESPM)

Nossa conversa está muito masculina e sei que as mulheres têm um papel muito importante nas comunidades. Mas, quando o assunto é violência, elas geralmente aparecem como vítimas. Há um lugar diferenciado para a mulher na mobilização contra a violência? (Shepard Forman)

Minha chefe é uma mulher e, no Alemão, minha principal colega de trabalho é a Alana. Nos casos recentes de casas ocupadas e em outras situações, quem foi para a rua protestar foram as mulheres. Elas têm um papel central na luta contra a violência. Eu já vi mãe desarmada dar puxão de orelha em moleque de boca. Se não reconhecermos a força delas, só perdemos. (Guilherme Pimentel)

2017_07_13_RIO_DE_ENCONTROS_15

Socióloga Sílvia Ramos fez a mediação do debate (Thiago Brito/ESPM)

O que podemos fazer para mudar o contexto atual? (Sílvia Ramos)

Acho que é preciso identificar os principais atores de cada território e investir em projetos de longa duração. Posso dizer que, nos Prazeres, a UPP não acabou, não vai acabar e que, em nenhum momento, eu acreditei que ela pudesse gerar uma invasão social na comunidade. Lá, nossa prioridade foi usar a UPP para acabar com o isolamento da favela e o medo que tínhamos de ser baleados. A UPP permitiu que investidores particulares pudessem negociar projetos dentro da comunidade com outros atores que não só o tráfico e a gente se valeu disso para criar o Jardim dos Prazeres, em parceria com a petrolífera Total. Iniciativas assim deram dignidade ao nosso espaço e criaram uma nova imagem para a favela. Ainda que episódios como a morte do turista italiano manchem essa reputação que tínhamos alcançado, não há hoje casos de corrupção policial nos Prazeres e os excessos, quando aconteceram, foram resolvidos. Isso representa um avanço fenomenal. (Charles Siqueira)

IMG-20170713-WA0003

Manoel Ribeiro: “Fora do antigo negócio, quem trabalhava usando armas foi roubar na pista” (Anabela Paiva/Rio de Encontros)

O tráfico é uma firma com dois departamentos. O de produtos cuida da droga. O de segurança lida com fuzis. As UPPs tiraram a segurança de cena, mas o pessoal de produtos seguiu ativo. Fora do antigo negócio, quem trabalhava usando armas foi roubar na pista. Foi algo semelhante com o que aconteceu com guerrilheiros de Serra Leoa depois do fim da guerra e é descrito no livro Muito longe de casa. Se legalizarmos as drogas sem os devidos cuidados, não corremos o risco de que isso volte a acontecer de alguma forma? (Manoel Ribeiro)

Vejo a legalização das drogas como um processo de melhoria importante, mas com impacto tático. Se legalizarmos hoje e não pensarmos em alguns efeitos colaterais, amanhã poderemos ter uma nova atividade vista como inimiga pública e a mesma dinâmica atual se mantendo. Sinto falta dessa preocupação em relação à economia nos projetos que abordam o assunto. (Guilherme Pimentel)

Defendo a legalização com alguma preocupação. Temos que olhar esse processo com muito cuidado, porque é um passo sem volta. Acompanhei como foi no Uruguai e sei que é uma mudança que precisa ser feita com muito conhecimento para evitar surpresas ruins depois. (Maciel de Freitas)

 

Ainda existe preconceito contra os PMs que fazem mediação por parte de seus colegas de farda? (André Balocco)

As pessoas dizem que eu não tenho cara de policial. Isso se dá por conta de um estereótipo que existe. Ser policial e ter profissionalismo não tem nada a ver com cara feia. O respeito deve existir independente do uso de armas e creio que existe sim um preconceito hoje contra quem é da área preventiva. Da mesma forma, enxergo também muito preconceito com gays (Maciel de Freitas)

 

Corrupção no Rio hoje é de político ou de polícia? Como você lida com isso? (Marcelo Ostachevski)

No mundo todo, a violência é diretamente ligada à corrupção. Onde uma cresce, a outra também aumenta. Muitas vezes, você tem situações onde um local é vigiado apenas por uma viatura e o PM termina virando uma espécie de xerife. Se ele não tiver bom caráter, isso vira uma brecha fácil para a corrupção. Não podemos esquecer também que nossos pms vêm da sociedade, que é muito corrupta. Posso lhe garantir que todos os dias temos pms expulsos por corrupção e ainda pontuo outro problema derivado disso. A maioria dos policiais não têm ensino superior e não sabe fazer outra coisa. O que essas pessoas terminam fazendo quando são dispensadas? Virar bandido é o caminho mais fácil. Dos 50 mil homens da PMERJ, só 40% têm ensino superior. Precisamos estudar tudo isso com calma para encontrar soluções (Maciel de Freitas)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s