Debate aborda universidade e outros temas no 2º encontro de 2017

Encontro reuniu o cineasta Emílio Domingos e a professora da Unirio Eliane Ribeiro

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Antropóloga americana Janice Perlman fala durante Rio de Encontros (Thiago Brito/ESPM)

O acesso à universidade por jovens de periferia e a discussão sobre as características da juventude foram os principais assuntos das perguntas feitas na 2ª edição do Rio de Encontros em 2017. Dessa vez, a dinâmica foi diferente. Em vez das tradicionais apresentações dos provocadores precedendo uma rodada de perguntas, o debate foi conduzido como uma entrevista pela jornalista Anabela Paiva. Ela preparou uma lista de perguntas, que foram respondidas por convidados e plateia. O resultado do novo formato foi uma maior participação do público e um debate mais rico sobre “o que é ser jovem no Rio de Janeiro”, tema do evento realizado no último dia 22 no MAR.

Veja abaixo um resumo das discussões:

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O que une e separa as juventudes? (Anabela Paiva)

Juventude é um padrão arbitrário, não existe uma só. É uma condição social e nela, fatores como gênero, cor e local de moradia são importantes. Há muitas diferenças nessa juventude. Outro dado interessante: a maioria dos jovens não se reconhece como tal, mas como adultos. A grande marca da juventude brasileira é começar a trabalhar muito cedo, com 15, 16 anos. Porém, a difusão cada vez maior da noção de identidade está ajudando a ideia de juventude a ganhar visibilidade. Falo isso pensando nos jovens do passinho, quilombolas, feministas. Agora, um traço comum aos jovens de diferentes segmentos sociais é o medo. Todos têm medo de sobrar na sociedade de alguma forma. Pode ser não terminando os estudos, que ainda são uma ferramenta importante de mobilidade e construção de redes. Ou o medo de não conseguir trabalho, que existe mesmo entre quem faz mestrado e doutorado. Há ainda um terceiro medo, o de sobrar afetivamente, representado pela falta de amigos e companheiros. (Eliane Ribeiro, provocadora)

Acho que o que une a todos é o desejo de viver da própria arte, do dom. Esse é o sonho de todos, que nem todos conseguem realizar. Para os barbeiros, é mais fácil. Trata-se de um trabalho formal, com retorno financeiro muito rápido. A partir de uma gilete, um banco e um espelho, eles fazem um mundo. Criam um espaço de sociabilidade. Muitos clientes vão ao barbeiro e nem cortam o cabelo. Em um dos salões que filmei, o do Ed Duú Corte, você chega, encontra 20 garotos, video-game e o barbeiro lá no meio, esculpindo os cortes com uma dedicação absurda. A promessa é que o corte dure 20 minutos. Mas, em alguns casos, chega a durar 1 hora. Já no passinho, o reconhecimento demorou mais a acontecer. Hoje, muitos já conseguem viver da dança. (Emílio Domingos, provocador)

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No caso da academia, será que o jovem será sempre objeto ou ele também chegará a ser 
protagonista? (Luiz Fernando Pinto)

A academia não é mais a mesma. Os cursos de humanas mudaram sua linguagem, sua hierarquia. Pela primeira vez na história do país, uma geração de jovens moradores de favela chegou ao doutorado. Isso traz novas questões para a universidade, como a assistência estudantil e outros pontos. É claro que essas coisas não são resolvidas antes desse jovem entrar para o mestrado e o doutorado, mas são questões que vão colocando essa nova realidade para a gente. Na Unirio, houve recentemente um encontro de jovens de mestrado e doutorado que são moradores da Maré. Eles batizaram o evento de ‘Pesquisadores Insurgentes’. Para minha geração, isso é muito significativo. A universidade está se deslocando e isso cria conflitos. Não sei como ela vai se transformar com essas mudanças. Quando me formei no IFCS em 1982, a minha turma era só de brancos e quem morava mais longe era de Vila Isabel. Meu filho se formou lá há 2 anos e o IFCS é outro. Para minha geração, isso é um sinal desse deslocamento. (Eliane Ribeiro)

Quando me formei no IFCS em 1997, os temas que me interessavam não chamavam a
atenção dos professores. Hoje, no mestrado, tenho aulas com três pesquisadores que se especializaram nesses mesmos assuntos que eu tinha interesse. (Emílio Domingos)

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Sou moradora da favela de Manguinhos e trabalho em dois projetos sociais por lá. Na época do PAC, ambos tinham sustentabilidade, graças à grande oferta de recursos. Com a crise, os incentivos desapareceram. Como é que fica agora? Seguimos com os projetos sem dinheiro nenhum, apenas mobilizando os jovens? (Graciara da Silva)

Nos nossos estudos, nos deparamos com muitos jovens envolvidos em trabalho social e todos eles vêm de projetos. Isso mostra que o dinheiro é algo secundário e que o essencial é estar nessa rede de oportunidades. Até para chegar no passinho, existe uma rede. Outro dia no posto, um garoto viu um adesivo no meu carro e me abordou. ‘Você é professora”, perguntou ele. Eu disse que sim. Ele respondeu: ‘eu fui jovem de projeto’. O fenômeno dos projetos acabou alavancando uma série de identidades. A do jovem do passinho, a da feminista, a do midiativista. Esses símbolos dão pertencimento e as pessoas vão se reconhecendo. Após 20 anos de políticas, a gente vê os impactos na sociedade. (Eliane Ribeiro)

Hoje em dia, ser jovem é como ser magro, inteligente. É uma condição vendida pela mídia. Mas será que o jovem tem mais poder por ocupar a condição almejada por todos? (Anabela Paiva)

Acho que o jovem hoje tem poder por ser mercadoria. Nós vendemos, votamos e realizamos outras atividades que geram o interesse das pessoas. Ao mesmo tempo, o jovem é poderoso por ser fonte de problemas. Penso que é tempo das pessoas pararem e começarem a aprender com os jovens. A experiência juvenil pode ensinar ao mais velhos. Acho ruim essa política de pensarem os jovens só a partir de seu potencial criativo. Qual é o passo seguinte? Qual é o projeto dos políticos e da sociedade para os jovens? Essa é a minha provocação: reconhecer a diferença não é provocar a desigualdade. (Nelson Mugabe)

Milito na juventude desde os 12 anos. Passei por governo, hoje estou na academia e a minha questão é: por que enquadrar? Participei de um debate recente sobre juventude e 3ª idade. Chegamos a conclusão de que os dois grupos vivem desconstruindo estereótipos. A realidade no Brasil hoje é que os jovens têm mais chance de serem mortos. São cerca de 40 mil por ano e a maioria é de negros, pobres, moradores de periferia. Os nem-nem eram invisíveis para o estado brasileiro até o começo dos anos 2000. A juventude era sempre vista como um lugar de transição. Nós não somos transição, mas sujeitos de direitos. O Estado brasileiro precisa pensar essa categoria com suas especificidades e desigualdades para que esses sujeitos possam viver com plenitude. O jovem não é risco nem problema para a sociedade como o Estado acreditava. Muito menos, uma categoria ideal. Somos sujeitos com necessidades. (Severine Macedo)

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Que preconceitos ainda se mantêm na universidade? Quantos jovens de favela você conhece na medicina? Não existem cursos em que ainda não estamos?
(Elizabeth Toledo)

Os jovens de periferia ainda se concentram nos cursos de um turno, mais fáceis de conciliar com outras atividades, de um turno. Medicina, direito e outros cursos são integrais e têm um histórico de resistência a iniciativas como as cotas. Para mim, a questão é como podemos potencializar as mudanças. No mestrado em que dou aula, temos uma turma formada apenas por jovens de periferia. Não porque a gente só selecione eles, mas porque estimulamos a participação desse grupo. As pessoas não acham que educação é um bem coletivo, mas individual. É muito bom para todos que todos estejam aprendendo, estudando. Em 100 anos de educação, ela só se tornou direito de todos de fato há cerca de 20 anos. E iniciativas como o Proune abriram uma nova porta para pessoas que, de outra maneira, não poderiam entrar no sistema. (Eliane Ribeiro)

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Como fica a questão da orientação sexual entre os jovens nas favelas? Conheço esses locais e sei que isso sempre foi uma barreira nesse contexto. Existe hoje algum debate nesse sentido? (Hugo Camarate)

Para mim, essa é uma transformação que vem acontecendo de fora para dentro. Há 20 anos, a postura adotada pelos garotos do passinho seria considerada afeminada. Hoje, isso não acontece e sinto que eles se relacionam melhor com a questão da homossexualidade em relação a como era no passado. Existem movimentos do passinho inspirados em poses da capa da Vogue, por exemplo. Conheci uma dupla que ia a festas gays para aprender passos. É uma relação muito antropofágica. Já os barbeiros têm uma cabeça muito machista ainda. (Emílio Domingos)

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