O racismo afeta nosso direito de ir e vir, afirma André Couto

Provocador do Rio de Encontros em 2016 teve filho envolvido em episódio de preconceito no último fim de semana
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André fala no Rio de Encontros do último dia 27 de outubro (Roberta Voight/ESPM) 

André Couto é educador, participou do Rio de Encontros em 2016 e virou notícia nesta semana. Na tarde do último sábado, ele e o filho Everton estavam na fila do supermercado Princesa, em Laranjeiras, quando o garoto pediu para levar um Kinder Ovo. O pai concordou, mas lhe pediu que conferisse o preço do produto na gôndola. Quando Everton se dirigia ao local, foi abordado por um funcionário. “Sai, vai, vai”, disse o homem, enquanto dava tapinhas nas costas do menino. Ao ver a cena, André se indignou e, após ser chamado, o gerente da loja pediu desculpas. “Eu deveria poder me distrair e não acontecer nada com meu filho”, disse o educador sobre o episódio ao Estadão. Em entrevista ao blog, André falou sobre racismo, juventude e outros assuntos.

Confira a seguir os melhores momentos do bate-papo:

Ao longo da sua vida, que cuidados você tomou para evitar constrangimentos ligados ao fato de ser negro?
Isso não é algo que se faça por conta própria, mas que se aprende ao longo do tempo. Vejo hoje que comportamentos que minha mãe tinha em relação a mim durante a minha infância e adolescência claramente visavam me proteger de certas abordagens e outros tipos de constrangimento. É fato que essa posição defensiva não é a melhor, mas ela existe. E por que existe? Porque há também uma postura ofensiva da sociedade em relação a nós. Assim, nossos comportamentos terminam se tornando anteparos a esses ataques que sofremos, que vão desde coisas sutis até outras bastante violentas. Como adulto, você termina lidando melhor com isso. Mas a ideia de uma criança ter que lidar com a complexidade disso é algo muito doloroso. Não sei se a postura defensiva que temos com nossos filhos é a atitude mais certa em relação ao problema ou não, mas ela é mais forte que eu e a entendo como um movimento de proteção. Entretanto, chega um momento em que você percebe que, por mais esmero que tenha, em algum instante você vai piscar e as coisas vão acontecer. E o pior é que isso termina reforçando seu comportamento defensivo anterior. É como se algo dentro de você dissesse “está vendo, eu sabia”. Por outro lado, ter essa preocupação como um fato cotidiano na sua vida representa um estresse constante. Só entende isso quem vive. Porém, para ser solidário com quem passa por esse problema, ter empatia, não é preciso entendê-lo na carne. E isso é algo que não vale só para negros, mas também para gays, pessoas com deficiências e outros grupos. No momento em que a agenda de reivindicações deixa de ser só do grupo atingido, ela passa a ter chance de virar algo muito positivo. Enquanto a gente achar que apenas negros têm que se revoltar contra o racismo, isso vai ser péssimo. Essa é uma dor que tem que doer em todos. Aí sim, a coisa deixa de ser um discurso de nicho para se reverter em transformação social. Não se trata de privilégios, mas de acesso à cidadania para todos.
 
Em que medida você enxerga essa experiência do racismo como limitadora da sua cidadania?
No momento em que você começa a pensar duas, três vezes antes de fazer algo que é banal para outras pessoas por conta de você ser negro, isso vira uma questão. Vou lhe dar um exemplo. Outro dia, eu e meu filho estávamos brincando na rua a caminho de casa. Em um determinado momento, eu fui correndo na frente e ele veio atrás tentando me alcançar. Aí, vi adiante uma pessoa caminhando e pensei “eu não posso correr assim, porque aquela pessoa pode pensar que eu estou indo para cima dela e se assustar”. Claro que aquela pessoa poderia nem pensar isso, mas a nossa experiência como negro no Brasil leva a esse tipo de raciocínio. Em termos de cidadania, é o racismo afetando nosso direito de ir e vir livremente. Outro exemplo: se eu estiver andando em uma rua vazia à noite e vir uma pessoa vindo na direção oposta, tendo a mudar de calçada para não intimidá-la. Sei que isso é maluquice, mas é fruto de vários olhares e abraços à bolsa que já presenciei e associo à minha presença. Esse cuidado não é uma coisa que surge do nada, nem mania de perseguição. Ele é fruto de uma série de experiências que terminam moldando o nosso comportamento.
 
No episódio envolvendo o Everton, o que mais lhe incomodou?
O que mais me incomodou nesse episódio foi a mácula, a memória que ele criou no meu filho. Acho que, até por isso, tive uma reação tão veemente quando tudo aconteceu. Eu intuí que precisava criar na cabeça do Everton uma contra-memória ainda mais forte, levantei a voz e nos defendi, para que ele não entendesse aquela situação como algo normal, comum.
 
Para você, como o racismo se relaciona com a juventude, assunto que é tema do Rio de Encontros em 2017?
Já por definição, a juventude é um momento desafiador. Você não é criança nem adulto e essa transição por si só já é um processo que mexe muito com afirmação de valores, sexualidade, visão de mundo e várias outras questões identitárias. Nessa época, elas estão ganhando a forma que devem manter pelo resto da vida. Somada a isso, a questão racial se torna um elemento dramático. Se, no período em que você está consolidando sua personalidade, começa a ouvir que seu cabelo é ruim, que sua religião é inculta ou que sua música é de mau gosto, isso entra na sua cabeça e fica. A juventude também é o momento em que as pessoas começam a se desligar um pouco dos pais e é justamente aí que os meninos e meninas negras começam a se dar conta de que são mais parados pela polícia e confundidos com ladrões do que os outros. Eles terminam construindo sua visão de mundo levando isso em conta. Ser jovem é difícil. Ser jovem negro é mais difícil. E ser jovem, negra e mulher é mais difícil ainda. Sofrer preconceito dói na hora, mas os efeitos disso são silenciosos e seguem com a pessoa pelo resto da vida, como qualquer trauma. É como quando você fratura um osso. Você pode até voltar a andar e correr igual depois. Mas, para o seu corpo, aquele osso nunca mais será como era antes do acidente. Isso fica patente quando você pega jovens de realidades diferentes e compara o que cada um sonha para si. Um menino de escola pública pode sonhar em se formar no tempo certo, enquanto outro da mesma idade pode já estar pensando em que faculdade vai cursar, que empresa vai abrir. Isso é grave, porque a nossa capacidade de aniquilar sonhos gera uma sociedade medíocre, com menos realizações do que poderia ter.
 
Que caminhos você enxerga para superarmos a questão do racismo?
Todo educador precisa ser otimista, por profissão e temperamento. E eu realmente acredito que a educação pode mudar a sociedade. Talvez, essa seja uma das coisas que eu mais acredite na vida. Vejo a escola como local de aprendizagem e espaço político, onde a cidadania pode ser discutida e aprimorada. É ali que as tensões devem aparecer e ser discutidas. Isso é o mais importante, esse espaço de discussão onde a gente possa até mesmo espiar os nossos próprios preconceitos. Porque eu sei que eu também os tenho, apesar de lutar contra eles. O meu espanto é com as pessoas que cuidam e cultivam seus preconceitos, já que entendo que estar frente à frente com o diferente é sempre uma oportunidade de cresicmento. Isso é o que eu admiro em iniciativas como o Rio de Encontros. O encontro entre diferentes é algo muito potente, porque escancara pré-concepções e exige escuta e fala. Essas características contribuem para a construção de coisas interessantes. Um exemplo claro disso é o tipo de conversa que surge em uma roda quando ela é composta só por homens. Em situações muito homogêneas, o outro vira alvo. Daí, a importância do encontro como espaço de heterogeneidade, discussão, empoderamento, informação. Creio que o preconceito não seja algo que se resolva da noite para o dia, mas que tem mudado ao longo do tempo, se olharmos retrospectivamente. É claro que a história não é uma linha ascendente, ela vai e volta, mas é importante que a gente procure sempre levar as coisas a um patamar mais interessante.
 
E qual o papel da juventude nesse processo?
Acho que, para a juventude, o mais importante é sair do lugar do ressentimento. É preciso ser positivo e propositivo e encarar as questões de frente, sem maniqueísmo. Eu tive muita raiva do cara que constrangeu meu filho no supermercado, mas não quero que nada de mau aconteça a ele. Só quero que ele entenda o que aconteceu. Porque se não houver o diálogo e a possibilidade de recomeço, cada um vai ficar no seu canto e nenhuma mudança virá. Pensar assim não é deixar de responsabilizar ninguém por seus atos, mas apenas considerar que as coisas não são tão simples, que o buraco é mais embaixo.

 
 
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