Turma pergunta sobre subúrbio, patrimônio e outros temas no 1º encontro do 2017

No evento, historiador e diretor do MAR debateram o tema “espaços da arte, espaços da cidade”

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O significado de um museu voltado para o subúrbio e o desafio de definir o patrimônio da cidade foram alguns dos temas abordados pelos participantes da turma do Rio de Encontros em suas perguntas no primeiro bate-papo da série em 2017. Realizado no último dia 11, o evento aconteceu na recém-inaugurada Sala de Encontro do Museu de Arte do Rio (MAR). A primeira rodada de questionamentos aconteceu após a fala de Evandro Salles, diretor do museu. Já a segunda série de perguntas aconteceu depois da apresentação de Antonio Edmilson, historiador e especialista em história do Rio.

Confira abaixo alguns dos melhores trechos do bate-papo:

Primeira rodada

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Sou uma pessoa entusiasmada com o museu e a cidade. Em 2017, o bairro de Santa Cruz completa 450 anos em dezembro. Já há alguma atividade em relação a isso em vista por parte de vocês? Trabalhar a subjetividade do indivíduo em relação ao seu lugar traz um valor grandioso para o território e seus moradores. (Veruska Delfino)

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Como estamos aqui nesta região, me veio à mente durante a sua fala a imagem dos transatlânticos e dos barquinhos. Acho que a gente precisa entender essa cidade portuária a partir da perspectiva das sensações e experiências. No fim do ano passado, tive oportunidade de me jogar no mar aqui na Praça Mauá e achei muito legal. Por que o MAR não começa a propor esse tipo de experiência, que faz com que a gente se sinta de fato neste lugar? (Renata Codagan)

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Você falou que o MAR foi criado para dar visibilidade à periferia e não à zona sul. Mas, considerando o mundo da arte, em que medida esse tipo de posicionamento não transforma as coisas em mercadoria? Será que isso não acontece hoje com a periferia? (Nelson Mugabe)

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O MAR não dá visibilidade ao subúrbio. Ele é um museu do subúrbio, com relações privilegiadas com essa área. Essa atitude pode ser tomada como oportunismo por conta da complexidade do tema. E, por isso, o museu busca maneiras de trabalhar essa questão. Em tempos de espetáculo, há museus com grandes exposições e patrocínio, mas pouca reflexão sobre a arte, a convivência e a vivência. Esse espaço busca exatamente inverter essa relação. Não é um lugar para simplesmente passar e não experimentar, é um espaço para ser tomado por pessoas, como está acontecendo hoje aqui. O espaço do museu não é do subúrbio nem da zona sul, mas das pessoas. Com isso, não estamos abdicando de um relação com a zona sul, mas abrindo uma nova perspectiva. Esse museu pretende incluir e trabalhar com as diversas dimensões da cultura, seja do subúrbio ou da zona sul. Queremos quebrar essas rigidíssimas paredes que limitam o trânsito das pessoas. Temos algumas iniciativas nesse sentido, como um programa com crianças de vários bairros – inclusive Santa Cruz. Infelizmente, Veruska, ainda não temos uma programação específica para comemorar o aniversário do bairro. Outro dia, uma moça dormiu em um desses sofás esperando uma palestra e eu fiquei feliz por ela se sentir em casa dentro do museu. O campo da arte é o campo do inconsciente. É absolutamente necessário dormir no museu. Trabalhamos dentro dessa persectiva de interação, de convergência, de mudar a relação das pessoas com a arte. Essa sala é de alguma maneira uma resposta à sua pergunta, Renata. (Evandro Salles)

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Evandro, seu ponto de vista é interessante. Afinal, tomar as pessoas pelo inconsciente é, de alguma forma, considerar que todos somos iguais (Ilana Strozenberg)

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Para mim, o museu, a galeria, todos esses espaços são sistemas de mediação. Eles são responsáveis por intermediar o contato entre a obra e o público. Dentro disso, como eu posso estabelecer uma leitura única para um determinado trabalho? Nem todas as pessoas reagem da mesma maneira a uma mesma obra de artes. Há obras que são universais, mas a experiência pessoal de cada um é sempre muito particular. Creio que o MAR tem que respeitar a experiência individual das pessoas, sem desconsiderar aquilo que é comum. O museu guarda tesouros e existe para dividi-lo com as pessoas e levá-las a mudar alguma coisa de sua perspectiva de mundo. E o papel do curador é descortinar o poético e pensar como as pessoas podem se apropriar dele. (Evandro Salles)

Segunda rodada

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De 2014 para cá, o vendedor de mate e outras ícones do Rio tem sido convertidos em patrimônio imaterial da cidade. Qual é sua opinião sobre isso? (Luciana Cruz)

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Trabalhei por 11 anos na Maré e sei que mobilidade não é só ter acesso a ônibus, metrô e outros meios. Com a longa exposição à violência, cria-se uma cultura de confinamento e as pessoas deixam de sair de onde moram. Como podemos pensar e trabalhar as diferentes camadas da cidade? (Renata Codagan)

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Os espaços da arte da cidade me causam um certo incômodo, porque eu acredito que eles deveriam ser campos de disputa e não os vejo assim hoje. Um exemplo disso é o Travessias, que acontece na Maré, mas sem artistas que sejam de lá. Quantos artistas pobres, pretos e favelados vocês conhecem? Acho importante pensar nisso. (Davi Marcos)

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Renata, resgatando sua pergunta da primeira rodada, penso que uma cidade não pode ser só um porto. O Rio é um porto e mais alguma coisa. O porto foi nossa ligação com Londres e outras cidades. Mas, ao mesmo tempo e por causa dele, a cidade ficou de costas para a Baía. Em relação a patrimônio, Luciana, entendo que a gente não evoluiu nada. Um exemplo de um caminho possível é o bairro de Marechal Hermes. Apesar das modificações, as pessoas dali sabiam como o local era e isso foi o suficiente para que pudéssemos fazer a patrimonialização daquele espaço. Patrimonializar é reconhecer que um determinado fato aconteceu em um determinador lugar. E essa relação não precisa ter sido estabelecida há muito tempo. Afinal, eu posso abrir um bar hoje e ele ser tradicional, mesmo que ele não tenha 100 anos. Em Buenos Aires, eles resolveram isso com a categoria do bar notável, que abrange bares novos que dialogam com o que há de tradicional na cidade. Aqui no Rio, ainda não chegamos nesse nível. No caso do Baile Charme do Viaduto de Madureira, havia quem se opusesse à transformação dele em patrimônio pelo fato de ser algo muito novo. Mas conseguimos enquadrá-lo com a justificativa de proteger para garantir a continuidade. Enquanto isso, a Ordem Terceira é tradicionalíssima no Rio, mas quer vender todos seus prédios na rua da Carioca, o que descaracterizaria aquele casario. Pessoalmente, Davi, acho que a cidade é mais importante que o museu. Porque os museus aprisionam as coisas. Antigamente, os museus do Rio eram dos caras ricos que punham as peças neles. No nosso caso aqui, os museus foram usados para “limpar” a Praça Mauá. Museu devia ser espaço para todo mundo andar, tipo boulevard. Aqueles hóteis com diária a R$ 9 que existiam por aqui, aqueles barbeiros, tudo está acabando. Os museus tornaram essa uma área moralizada. (Antonio Edmilson)

Fotos: Thiago Brito/ESPM

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