Antonio Edmilson fala sobre Rio cosmopolita e processos de exclusão

Historiador foi convidado do primeiro bate-papo do Rio de Encontros em 2017

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“O Bob’s nos trouxe o hambúrguer. A gente criou o podrão”, afirmou Antonio Edmilson (Thiago Brito/ESPM)

Como o Rio pode se manter cosmopolita sem deixar de pertencer aos cariocas? Essa a pergunta guiou a fala do historiador Antonio Edmilson no primeiro bate-papo do Rio de Encontros em 2017, realizado no último dia 11 no Museu de Arte do Rio (MAR). Entre um apito e outro dos transatlânticos, o convidado defendeu que a cidade precisa reconhecer mais e melhor suas peculiaridades para vencer o impasse.

“Meu esforço hoje é o de mostrar às pessoas as singularidades da cidade”, explicou Antonio. Ele acredita que só assim o Rio poderá tomar a decisão certa no dilema entre ser uma cidade global ou atender às demandas e expectativas de seus moradores. “O Rio precisa se comparar com outras cidades não a partir de suas semelhanças, mas pelas diferenças”, argumentou o historiador. Nesse sentido, ele criticou a gourmetização da comida de botequim e a ideia de que o Rio, em algum momento, tenha imitado Paris. “Quem não imitou?”, rebateu o convidado. Segundo ele, deve se dar maior importância a projetos como o Maré de Sabores, que reúne mulheres cozinheiras da comunidade da Zona Norte. Para Antonio, iniciativas assim são uma forma da cidade se reinventar sem perder a sua essência.

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“Fizeram a Linha 4 do metrô para ligar a Barra ao Rio”, brincou o historiador (Thiago Brito/ESPM)

O professor do Departamento de História da PUC-Rio começou sua apresentação destacando a origem híbrida da cidade. “Fruto de uma guerra entre franceses e portugueses, o Rio é cosmopolita desde que nasceu”, afirmou Antonio. Ele comparou o surgimento da cidade à criação da Confeitaria Colombo. Tema de um dos livros do convidado, a tradicional loja também foi criada por portugueses, apesar da inspiração parisiense. Segundo o historiador, o encontro de povos no nascimento do Rio resultou em uma metrópole composta de fragmentos. Nela, a principal beleza é o encontro das diferentes maneiras de pensar e existir, que resulta em “culturas de fronteira”. “O Rio é muito inventivo. O Bob’s nos trouxe o hambúrguer. A gente criou o podrão”, sintetizou Antonio com bom humor.

Entretanto, o historiador entende que certos lugares do Rio são postas à parte nesse mosaico carioca. “Algumas favelas e outras áreas estão fora da cidade por conta de processos de exclusão”, disse Antonio. Para ele, esses processos não são novos. Na visão do convidado, a manuntenção das comunidades da atual zona portuária durante o processo de remoção dos morros do Centro no começo do século XX mostra que a questão já é “secular”. Quase sempre, é o Poder Público quem escolhe quais locais serão conectados à cidade e como isso vai acontecer. “Fizeram a Linha 4 do metrô para ligar a Barra ao Rio”, exemplificou historiador.

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“Eu queria saber em que dia a beleza do Rio virou sua natureza”, disse o convidado (Thiago Brito/ESPM)

Os efeitos desse fenômeno não afetam apenas partes da cidade, mas também seus moradores. Segundo Antonio, as obras para a criação da Linha 1 do metrô expulsaram os ciganos que tradicionalmente ocupavam o Largo do Machado, por exemplo. Além disso, investimentos em pontos afastados da infraestrutura urbana se repetiram ao longo de anos e geraram situações, no mínimo, engraçadas. “Depois das 20h, locais como o MAM e o Riocentro parecem mais perto da Austrália do que do Rio”, brincou o historiador. Combinados ao histórico do município como capital do país e o consequente descaso pelos problemos locais, esses processos fazem com que o carioca saiba menos do que devia sobre o lugar onde mora. “A gente não conhece a cidade, não sabe o que é isso e aquilo, não pergunta”, disse o convidado.

“A gente precisa transformar o Rio em um sítio simbólico de pertencimento”, afirmou Antonio. O historiador acredita que a cidade precisa preservar suas características sem se engessar por conta delas, abrindo assim espaço para o surgimento de novidades que sejam interessantes. Na sua opinião, o Rio não pode ser simplesmente uma cidade portuária, onde a circulação do que existe no mundo seja a principal característica. “Não quero circulação: quero cultura”, resumiu o convidado, antes de uma rodada de perguntas feitas pelos participantes do evento.

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