Urgência e emergência: a gestão do tempo nas cidades

A socióloga Thereza Lobo, coordenadora da ONG Rio Como Vamos, deu uma importante contribuição ao debate. Convidada especial, levantou a bandeira da gestão do tempo como essencial também para quem pensa e desenvolve projetos voltados para as cidades. Horas livres são uma commodity tão valiosa quanto a tecnologia. Tempo tem a ver com qualidade de vida e com desigualdade.

“A gestão do tempo urbano é de extrema relevância. Falamos em cidades inteligentes, mas como ser inteligente a cidade que não controla o tempo das pessoas, que não permite às pessoas terem o seu tempo? O tempo, como a tecnologia, é uma commodity e tem um preço no mercado. Dependendo de como se gerencia, pode ser muito alto”, pontua.

As desigualdades ocorrem no Brasil assim como no resto do mundo. E a desigualdade para a qual Thereza chama atenção é atemporal: “Eu tenho possibilidade de escolher e você não tem essa possibilidade de escolha e isso gera uma desigualdade que independe de renda, gênero ou raça”, expõe.

O Rio Como Vamos tomou para si o aprofundamento da questão e a busca por respostas e realizou o estudo “Gestão do tempo nas cidades, experiências internacionais e nacionais e pesquisa de percepção”. Em que momento o estado assumiu como sua essa responsabilidade? No levantamento de experiências internacionais, o direito ao tempo aparece como um direito humano do mesmo modo que  como educação e vida.

“Pasmem, a Itália criou uma lei que obriga cidades a terem uma secretaria do tempo, à semelhança das secretarias de educação, saúde, transportes etc. O Brasil não tem experiência de setor público fazendo gerenciamento do tempo. Aqui, o direito ao tempo não está na Constituição”, compara.

Indo adiante, Thereza levanta um segundo conceito igualmente importante, que é o bem-estar temporal:

“No contexto da sua vida, o direito ao tempo e bem estar temporal são práticas que estão nas experiências pesquisadas mundo afora. O que as pessoas realmente acham e sentem? Amsterdã, na Holanda, é hoje gerenciada por meia dúzia de pessoas que trabalham num ambiente completamente virtual. Estamos chegando perto da obsolescência. Qual efeito que isso vai ter sobre a cidade inteligente? Qual o efeito da tecnologia sobre esses seres humanos, se a tecnologia vai dar respostas e apontar caminhos? E a participação da população?”, segue.

Fazer gestão de tempo exige, obrigatoriamente, que se abram canais à população. Cidade inteligente não existe sem canal de diálogo, pois é preciso ouvir para saber o que dizem as pessoas, reforça Thereza:

“O grande conflito entre tempo profissional e tempo privado só se agrava, é geracional. A queixa é de que tudo é muito corrido, as pessoas dizem que não dão conta de viver, tamanha é a pressa, dizem ‘meu tempo interno não se coaduna com meu tempo externo.’ Há um consenso imenso sobre uso da tecnologia para gerenciar melhor o tempo”, explica a socióloga. Tão embaralhado está o tempo, que se perdeu a fronteira entre o que é urgente e o que é emergente, o que tornou-se uma questão pasteurizada.

Consultora de agências governamentais nacionais e internacionais e de organismos multilaterais em temas como planejamento, políticas sociais e relações entre estado e sociedade civil, Thereza lobo deixa uma última observação, ou melhor, uma pergunta, para provocar a plateia: se você tivesse mais tempo, o que você faria?

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