Olhar para o passado para definir o futuro

Victor Vicente: 'Em essência, a tecnologia digital é diálogo'/ Foto: Roberta Voight

Victor Vicente: ‘Em essência, a tecnologia digital é diálogo’/ Foto: Roberta Voight

O gelo, o telefone, o carro, o sistema de esgotos, a água tratada, invenções que parecem  banais hoje, mas que serviram para moldar as cidades como as conhecemos. O coordenador de comunicação do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio), jornalista Victor Vicente, faz questão de fazer um retorno ao passado para explicar como enxerga a cidade contemporânea, que futuro nos aguarda, e constata: a tecnologia sempre permeou a vida urbana. A novidade agora é outra. O século 21 é baseado em soluções de software.

O interesse de Vicente está em tudo que se relaciona a tecnologia e inovação com impacto social. E é por esse viés que ele constrói sua narrativa para explicar o que permeia a tão presente expressão cidade inteligente:

“A cidade inteligente é aquela que usa o Big Data para pensar processos de gestão interna, como melhorar a vida da população, como otimizar processos”, ele define. Dado o conceito, um retorno no tempo: “O que acontece quando se olha para trás? A tecnologia sempre permeou o surgimento das cidades modernas e todos os processos de mutação pelos quais elas passaram nos últimos dois séculos.”

Duas invenções, prossegue Vicente, mudaram a forma como se vive nas cidades: a água tratada e o sistema de distribuição para redes e o saneamento urbano. Estão aí os fatores que possibilitaram às cidades florescerem como floresceram. “O processo de purificação da água é muito novo, somente desde 1908 ela é tratada através de processo químico. Um ano depois do tratamento da água com cloro, o índice de mortalidade nos EUA diminuiu 42%. Isso que é preciso pensar: que tecnologia promove impacto real na vida do cidadão?”

Na sequência das tecnologias que foram mudando as feições das cidades, tamanho o seu impacto, estão o gelo, o telefone e o carro.

“Todas essas tecnologias atuaram em processo de densidade urbana. O telefone impacta até a construção de edifícios. Já o carro muda radicalmente a cidade. Hoje, muitas cidades brasileiras são projetadas para o carro. Qual o seu aspecto diferencial? Permitiu mobilidade urbana mais  facilmente. Nos EUA, fez surgirem os subúrbios, no Brasil, a Barra da Tijuca”, avalia.

O que há de novo? O início do século 21 é baseado em soluções em software, e esse é o debate que se precisa ter, defende Victor Vicente. Big Data e soluções em software são os diferenciais  da atualidade, considerando que a maior parte da população é urbana.

“Pela primeira vez temos muito acesso a dados. O Big Data, que está ali para ser explorado. Cabe aos governos usarem essas informações a favor da população. Ou seja, fazer uso dos dados para tomar decisões mais inteligentes. E, além disso, encontrar soluções que favoreçam e recriem a interação do sujeito com a cidade. Em Chicago, na década de 1850, com problema de saneamento, um engenheiro criou macacos mecânicos e elevou a cidade para construir canos. Uma inovação em infraestrutura”, compara.

Rio em crise

Victor Vicente / Foto: Roberta Voight

Victor Vicente: ‘É preciso é pensar sobre qual tecnologia promove impacto real na vida do cidadão’ / Foto: Roberta Voight

Em 2010, o Rio era um grande case de cidade inteligente. A  partir de 2013, Copa e Olimpíada mudaram a narrativa. De centro importante no cenário global, passou a ser cidade em crise. No entanto, compreender os movimentos de ascensão e queda é importante para se definir o projeto de cidade que se quer. A turbulência, afinal, pode render bons frutos futuros.

Crises econômica e política também tornam a cidade um espaço de experimentação e recreação, ajudam a entender de onde sai a narrativa. Os motivos que mudaram a trajetória do Rio, segundo pesquisadores, como Vicente destaca, começam pela má aplicação de tecnologia, concentrada na Zona Sul; pela falta de soluções para o cidadão; e a falta de tratamento mais aprofundado, pela prefeitura, dos dados de que dispõe.

“Os problemas não ficam isolados e a dinâmica se mostrou ineficiente. Cidade tem de ser inteligente e inclusiva, daí é importante  implementar processos em toda camada urbana. A prefeitura não soube se conectar de verdade com o cidadão, o próprio Centro Integrado de Comunicação e Controle da polícia é exemplo, não tem sequer site. Inteligência carece de conexão com o cidadão, além da exploração de dados. E o terceiro ponto é como superar o gap entre tecnologia e a realidade física, como sair da tela para o espaço  físico, o que fazer  indo até o lugar”, enumera.

O caso do Rio é emblemático: a tecnologia pode criar soluções genéricas, mas cada lugar precisa de uma solução única. A partir daí se pode extrapolar para outros lugares, mas tem que fazer sentido. O que a cidade inteligente tem de novo é conseguir usar a tecnologia  que é comunicação para criar um espaço de diálogo real, que provoque transformação. Centralização de poder a gente já sabe que nunca dá certo, em nenhum lugar”, finaliza.

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