Conversa com a plateia

Victor Vicente (esquerda), Fabro Steibel, como mediador, e Marcos Ferreira / Foto: Roberta Voight

Victor Vicente (esquerda), Fabro Steibel, como mediador, e Marcos Ferreira / Foto: Roberta Voight

As cidades são inteligentes na medida em que aproveitam a inteligência do cidadão. Temos uma gestão pulverizada, mas precisamos de uma gestão pública em que o administrador de um bairro tem poder para tomar decisão. Por que eu não posso ter um jeito rápido de informar a prefeitura sobre o que acontece na minha rua? (Anabela Paiva)

Marcos Ferreira – O movimento maker é a apropriação do conhecimento da tecnologia além do hardware em si. O mundo é baseado no crescimento econômico, então precisamos ter black fridays, mas os recursos do planeta são finitos. Por isso, mais importante que poder informar ao  estado é alguém ajudar a abrir o equipamento, entender o que está ali. Muitas vezes são tecnologias abertas. O mais relevante é incorporar o como fazer da tecnologia.

Fabro Steibel – Em Amsterdã, cidade superinteligente, os humanos é que são chamados para resolver os problemas. Construíram vias de paddle,  uma ideia desenvolvida por humanos. Por outro lado, a inteligência artificial cria soluções nas quais os humanos nunca pensariam.

O que a tecnologia poderia fazer para melhorar a mobilidade urbana de portadores de necessidades especiais? (Denise Kosta)

Marcos Ferreira – O neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis usou a realidade virtual para estimular o movimento e exibiu, durante a abertura Copa do Mundo de 2014, o exoesqueleto, fruto desse trabalho. O corpo é controlado por funções cerebrais. Mais recentemente, ele lançou um novo estudo. Existem vários experimentos, tanto os científicos como os de outras frentes, e assim a coisa vai se construindo.

Victor Vicente – A tecnologia sempre será uma faca de dois gumes, sim. O Sonar, criado para localizar navios comerciais, foi  aplicado pela primeira vez na Segunda Guerra Mundial, mas alguém sabe o que ele gerou? É a mesma tecnologia do ultrassom que foi usado, na China, para identificar o sexo dos bebês e determinar o destino de fetos. O impacto da tecnologia só é sentido quando ela já está consolidada. Há outros exemplos, como o carro autônomo, já em teste nos EUA, e os próprios drones. A mobilidade urbana tende a ser mais inclusiva no futuro.

Precisamos de mais jovens na política, desses que devoram tecnologias, porque a política vai necessitar dessas tecnologias. Quem cuidou do Rio na saída do (governador ) Pezão foi o (Francisco) Dornelles, o que ele pode apresentar de novo em tecnologia? Não é hora de termos vozes mais jovens atuantes na política? (Leonardo Rangel)

Fabro Steibel –  Mais do que tecnologia, precisamos de espaços institucionalizados de participação.  As instituições são restritas à participação. O PT não faz mais eleições para a presidência do partido, eles perceberam que há outros mecanismos de votação, de escolha e de participação. Sistemas institucionalizados são complexos e demandam tempo. O problema não é a idade do governador, mas a disposição dele. A tecnologia mostra que participação é possível e tem demanda. A faca é uma tecnologia e uma tecnologia de dois gumes.

Marcos Ferreira – O projeto de crowdfunding “Serenata de Amor” arrecadou dinheiro para identificar padrões de corrupção em bancos de dados. O objetivo era dar respostas a perguntas diversas, já que ele conecta muitas informações. Essa é uma forma de atuação política.

É impossível não pensar nas demandas pela tecnologia. Elas afinal, vêm de dentro para fora ou de fora pra dentro? Quem está criando o quê? (Aline Copelli)

Victor Vicente – É importante ter uma perspectiva de zoom longo, porque nosso século é muito recente. Em Amsterdã, em 1950, a cidade era povoada por carros e isso foi transformado. O impacto das tecnologias ainda não se sabe quais serão no tempo e na produtividade. Em essência, a tecnologia digital é diálogo, vide o telefone na Segunda Guerra. O diálogo precisa existir e, hoje, parece que esquecemos isso.

Como ter um processo tecnológico inclusivo se a população ainda é carente de serviços básicos? Quem deve oferecer a tecnologia? É o estado ou a iniciativa privada? Em termos práticos, de quem é a responsabilidade? (Leonardo Oliveira)

Victor Vicente – O que a gente quer da tecnologia? A gente sabe debater mas não sabe dialogar com a família. Precisamos dos setores público, privado e do terceiro setor. A tecnologia importa para quem não tem água encanada e esgoto também. Bill Gates quer criar nova água potável a partir de esgotos. A tecnologia continua sendo uma solução, mesmo para quem não tem um ecossistema habitável, porque ela suporta as cidades desde sempre. O setor público tem de funcionar como ponto de referência e uma ponte com o terceiro setor e a sociedade civil. A cultura maker está fazendo muito.

Silvia Ramos (esquerda), Ilana Strozenberg (centro) e Anabela Paiva / Foto: Roberta Voight

Silvia Ramos (esquerda), Ilana Strozenberg (centro) e Anabela Paiva / Foto: Roberta Voight

Como é que passou escondida a questão do tempo, que é absolutamente definitivo? (Teresa Lobo)

Victor Vicente – Sobre o tempo, ele surge, na real, por uma necessidade econômica. Na época das grandes navegações, os relógios eram solares, até que Galileu desenvolveu o relógio de pêndulo, o que facilitou a localização dos navegadores. Se olharmos para a teoria geral da relatividade, o espaço afeta o tempo. Não acho que se vai chegar a um raciocínio binário. A gente vai viver na constante luta entre o tempo de produzir e o tempo de contemplação de que se precisa. O cidadão é inteligente, e o grande diferencial do nosso tempo é o humano, é ouvir o cidadão e empoderá-lo.

Tecnologia é relacionada a propósito e a intenção. E o  robô? Qual o conceito da palavra? Tem a ver com escravidão, trabalho pesado, estado de mudança constante. Quão importante é analisar os termos e refletir sobre a palavra robô e os propósitos da tecnologia? (Fabiano Ramos)

Fabro Steibel – Quando pensamos em robô, você usa o mesmo  artigo definido que usa  para se referir a mim, o Fabro. Essa é uma ideia que não se aplica a plataformas e aplicativos de internet que acionamos no computador. O Google não é um computador, não é um objeto, é outra coisa. O robô é quase a materialização do que há no corpo e por dentro dele. A ideia do robô é interessante, mas é humanizada, é a ideia de que alguém faz alguma coisa. Quem viu o filme Her, ela está em qualquer lugar, ela acha chato ficar com o cara.

Victor Vicente – A tecnologia nunca é neutra, começamos a desmontar essa ideia. O robô? A inteligência artificial está se tornando presente e tem forma. O que gerou a consciência? Quando se jogar isso para a máquina – pode levar muitas décadas -, rapidamente nos fará chegar à super inteligência, saindo da inteligência geral.  Aí vai ser preciso repensar o robô. Afinal, esse tipo de inteligência pode ser mantido como escravo? Se atingir o estado de consciência, ele vai poder se articular.

Numa Ciro – Fico com o velho Freud, em 1899, na Interpretação dos sonhos, ele diz  que não mais vai buscar a anatomia desse aparelho psíquico, porque ele se dá num lugar que é efeito de discurso, no lugar onde se dá a imagem na fotografia. A consciência inteligente é perfeita, o problema é o inconsciente. No dia em que o robô tiver um lapso, digo que ficou humano.

Começamos a falar sobre tecnologia e cidades e acabamos falando sobre tempos diferentes. A meu ver, a tecnologia que está por trás de tudo o que fazemos hoje é a tecnologia de rede. Que diferença  fazem para a cidade e seu desenvolvimento a participação do cidadão e o monitoramento pelo estado? (Teresa Guilhon)

Victor Vicente – A tecnologia tem impactos que a gente não espera. Imagina o criador do gelo olhando para nosso mundo hoje? Isso se torna perigoso diante de tecnologias de fato poderosas, porque a gente não sabe como lidar com os desvios. Não se pode pensar numa cidade inteligente que não explore esses conhecimentos. Mas ainda não temos uma lei de proteção de dados pessoais. O Marco Civil da Internet é importante, mas precisamos de uma lei, que demarque o que é permitido fazer com nossos dados pessoais. Acho que a solução às vezes vem por meio da técnica, que pode ser a criptografia. O que o governo pode acessar? Existe muito poder na criptografia que ainda vai ser explorado.

Marco Ferreira – Talvez nós estejamos nos subestimando. Usar a tecnologia com cunho social e cultural é uma possibilidade que já existe. Para que serve a tecnologia? Fica a reflexão.

As comunicações não existem em si, têm intenções. A possibilidade de escuta existe, mas só se concretiza se houver desejo dessa escuta. Pode ser que um dia a tecnologia fique tão presente que essa escuta venha a se impor. Pode ser. Mas discutir tecnologia envolve discutir política. (Ilana Strozenberg)

Após a rodada de perguntas, respostas e provocações, foi exibido o vídeo produzido pela turma de jovens do Rio de Encontros com a supervisão e orientação dos professores do núcleo Híbrida, do laboratório de audiovisual da ESPM. Depois de longos exercícios de câmera e edição, o produto final foi recebido sob aplausos da plateia.

Anúncios